OPINIÃO

Ela foi mãe de gémeos…duas vezes

Teve um par de gémeos. Dezasseis meses depois chegaram mais duas crianças.

Sete meses depois do nascimento dos filhos gémeos, Mariana Seara Cardoso soube que estava grávida. E seriam novamente gémeos. Depois da surpresa da novidade, veio o choque: e agora, como seria? Como se enfrenta a ideia de ter dois pares de crianças com 16 meses de diferença?

Depois do nascimento dos primeiros filhos, pensava em ter mais?
Pensava em mais um quando os gémeos [Tomás e Matilde, 2 anos] tivessem uns 3 anos, por aí… Aliás, não se viu logo que eram dois quando soube que estava grávida. Só às onze semanas se descobriu que havia outro bebé [as gémeas Maria do Carmo e Maria Francisca, 10 meses]. Nunca imaginei que fosse possível, não queria acreditar no que me estava a acontecer, não aceitava que pudesse ser verdade. Gémeos depois de gémeos? Demorámos um mês para conseguir contar às pessoas.

O que era mais assustador?
Tudo. Tinha acabado de sair de um pós-parto, dois bebés com menos de sete meses que precisavam tanto de mim… Pensava em tudo, até nas coisas mais e menos fúteis. Sobretudo, não queria passar por tudo de novo, a minha vida parar toda outra vez. Mas não havia alternativa. Não nos passava sequer pela cabeça outra solução, somos católicos… Foi acreditar e tentar superar da melhor forma.

Foi quando começou a escrever o blogue [aospares.pt]?
O blogue foi, de certa forma, um escape para não endoidecer enquanto estive em casa com uma gravidez de alto risco a cuidar de duas crianças tão pequeninas.

Conheceu entretanto alguém na mesma situação?
Através do blogue, já conheci outro caso, mas nada parecido com o meu. Têm dois pares de gémeos com um intervalo de oito anos pelo meio, nada a ver. O caos aqui é serem quatro bebés ao mesmo tempo! São 24 horas non-stop, todos com necessidades básicas por satisfazer, a requerer o máximo de atenção, e, pior, os dois pares em fases diferentes…

A parte da amamentação, esse bicho de sete cabeças, como correu?
Contei muito com a naturalidade das enfermeiras que estiveram comigo na clínica, e, mais uma vez, o meu sentido prático. Se conseguisse amamentar os dois ao mesmo tempo, tinha mais tempo para dormir, mas é óbvio que passados três meses, estava exausta! Foi esgotante, claro. As gémeas já não tiveram essa sorte, tive pena, mas não me martirizo! É tudo uma novidade e uma aprendizagem sempre.

O que mudou de um par para o outro?
Fiquei sem medos, sou mais pragmática. Aprendi uma coisa importante: não há visitas na maternidade, foi a grande lição. Ter sempre gente em cima deles, não foi nada bom. E quando os bebés estão a dormir, não se deve acordá-los nem para a família. E depois há truques, preparar a roupa do dia seguinte, deixar os biberons no quarto, quando vamos para fora, levo a comida preparada em caixinhas. Já cheguei a ter 60 sopas congeladas. A sensação de não ter nada para fazer já não existe há muito tempo.

Há dias de extremo cansaço?
Como é óbvio! Mas não vale a pena queixarmo-nos, não faz sentido, cansada vou estar sempre. Mas estar sempre a dizer mal de tudo, não vai ajudar, vou ter na mesma de mudar quatro fraldas, dar quatro sopas, quatro banhos, tudo vai acontecer de novo mais uma vez, esta é a minha realidade. E mesmo que pudesse estar sem trabalhar, que não é o caso, não faria sentido para mim, assumir só a tarefa de cuidar deles.

Acha que o livro que escreveu [A Minha Grande Família de Gémeos… a Dobrar], vai ajudar as mães mais inseguras?
O que quero é transmitir que a maternidade tem muitas dificuldades, a vida muda, mas não temos de baixar os braços, vamos lá tentar, pelo menos. Temos de continuar, se servir para ajudar alguém e dar força, óptimo. O que me escrevem muito é: «Se a Mariana consegue, eu também vou conseguir». E o que escrevo não significa que esteja certo, mas é importante continuar a ser mulher, olhar para o espelho e gostarmos de nós, se estiver ao lado deles deprimida e triste, eles vão perceber. Temos de gostar de nós próprias, somos mães, mulheres, amigas, a vida tem de continuar e mesmo que a maior parte do tempo seja sempre para eles, é tudo uma questão de espírito, e se não dá para ir ao ginásio, fazemos sozinhas, nem que seja pegar no carrinho dos bebés e ir para a rua, isso já é fazermos algo por nós. Há caminhos alternativos, sempre!


Leia a continuação da entrevista a Mariana Seara Cardoso: «Dos zero aos quatro filhos em menos de dois anos»


 

Ana Carreira
Fotografia Paulo Spranger/Global Imagens