Edy Tavares

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O gigante de Cabo Verde da NBA.

Como muitos meninos cabo-verdianos que correm atrás de uma bola, Walter «Edy» Tavares queria ser jogador de futebol e chegar ao Benfica. Mas, por um acaso do destino e dos 2,21 metros de altura, acabou a jogar basquetebol em Espanha. Daí até à NBA foram só alguns passes. Em dia de All Star Game, uma das datas mais importantes do calendário da modalidade nos EUA, a história do rapaz mais alto da ilha do Maio, que hoje é o mais alto da principal liga de basquetebol do mundo – apesar de só ter aprendido a jogar aos 17 anos.

Como qualquer criança em Cabo Verde, Walter queria ser jogador de futebol. Mas o destino trocou-lhe o caminho e o improvável tornou-se possível. Quando corria atrás da bola nos campos pelados da ilha do Maio sonhava com o Benfica. Tinha as canelas esfoladas de tantas fintas treinadas, imitadas, quase, quase como as dos jogadores encarnados que via aos domingos no televisor lá do bairro. No Maio só se falava de futebol, um dia queria ser como Rui Costa ou Óscar Cardozo.

«Sou benfiquista de coração, tenho sangue benfiquista. E queria ser defesa central. Só víamos futebol, nunca ouvi ninguém falar de basquetebol na ilha», diz o jogador dos Atlanta Hawks, o primeiro cabo-verdiano a chegar à National Basketball Association americana, o mais alto da NBA, juntamente com o sérvio Boban Marjanovic, dos San Antonio Spurs. Walter distinguia-se entre os amigos, era notado na rua, dava nas vistas. Mas os encarnados não o viram jogar e Lisboa ficou longe. Quem o viu foi um turista. E reparou na altura, claro. Com dois metros e 21 centímetros, o rapaz devia ser bom no basquetebol.

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A viver nos EUA desde julho, Walter todos os dias fala ao telefone com a mãe.

Era um dia igual a tantos outros. Estávamos em 2009 e Edy (a alcunha de infância que o avô lhe deu) trabalhava na loja da mãe, para ajudar a família. Tinha acabado de completar 17 anos. «Apareceu um alemão de férias, perguntou se eu queria jogar basquetebol e eu disse que sim.» Impressionado por conhecer o cabo-verdiano mais alto da ilha, o homem pediu-lhe uma fotografia. «Queria levá-la para Espanha e mostrar a um amigo. Foi assim que tudo começou.» O rapaz não ficou surpreendido. Na família, tirando a avó, «que é bem baixinha », são todos altos. E ele estava habituado a que reparassem nisso. «Toda a gente sempre me disse que eu devia jogar basquetebol. E como ele só queria uma foto, eu disse que sim e não levei muito a sério.»

MAS O AMIGO DO TURISTA ALEMÃO NÃO ERA UMA PESSOA QUALQUER. Era um dos responsáveis do Gran Canaria, clube da liga principal de basquetebol espanhola. E a uns milhares de quilómetros de distância, noutra ilha atlântica, a fotografia de Walter fez furor. Estaria na ilha do Maio a próxima estrela do basquetebol mundial? Mesmo que… não soubesse jogar? Os homens do Gran Canaria sentiram o potencial do rapaz e, depois de algumas viagens a Cabo Verde e muita insistência junto da mãe (o pai morreu quando Edy era criança), ela lá o deixou seguir o seu rumo.

Edy partiu sozinho para Espanha, sob supervisão do então responsável pelas camadas jovens do Gran Canaria, Raul Rodríguez. Aos 17 anos, começava uma vida nova. Não só teve de entrar diretamente para um clube profissional de uma modalidade cujas regras desconhecia (nunca tinha tocado numa bola de basquetebol) como teve de se habituar a uma língua diferente, outro estilo de vida, a viver longe da família e a usar calçado à sua medida. Em Cabo Verde nunca conseguiu nada que lhe servisse – ou caminhava descalço ou com uns chinelos que lhe deixavam de fora metade do pé tamanho 50. Assim que os responsáveis do Gran Canaria chegaram à ilha do Maio e o viram, antes de lhe colocarem uma bola de basquetebol nas mãos, estiveram ao telefone a encomendar calçado feito à medida para o futuro jogador. «Há desvantagens em ter começado a jogar tarde», diz, hoje com 23 anos. «Nestes seis anos aprendi bastante, mas foi tudo rápido. Tive a sorte de ter bons treinadores, bom suporte técnico, amigos, colegas de equipa que me ajudaram. Se cheguei onde cheguei foi por causa deles. É muita informação e eu fui assimilando pouco a pouco.» Edy fala um português abraçado ao espanhol. «A família e amigos brincam com o meu sotaque», diz enquanto procura as palavras certas para a entrevista. «Há muito tempo que não falo português e quando falo meto lá umas palavras estranhas.»

EM ESPANHA, VOLTOU A DAR NAS VISTAS. E não foi só por ser alto. Jogou uns tempos no La Palma, do segundo escalão, e depois passou para o Gran Canaria, da Liga Endesa, a divisão principal. Mas o rapaz que nunca tinha jogado basquetebol até aos 17 anos queria mais. E em junho de 2014, com 22 anos, foi selecionado para os Atlanta Hawks no draft, o evento anual em que são escolhidos os sessenta melhores jovens jogadores que se candidatam à NBA. «Quando me telefonaram dos Hawks, liguei para a minha mãe. Ela nem dormiu nessa noite.» O cabo-verdiano estava a viver um sonho. Em julho do ano passado juntou-se à equipa do estado da Georgia. Depois de seis temporadas em Espanha, deixava o Gran Canaria a caminho dos EUA e do campeonato mais competitivo do mundo.

«Nunca pensei chegar à NBA. O meu objetivo sempre foi trabalhar e procurar ser o melhor na minha equipa, o Gran Canaria. A NBA era um sonho que eu não achava possível. Alegra-me muito elevar o nome do meu país. Deixa-me muito feliz e muito orgulhoso por ser o primeiro cabo-verdiano a jogar na NBA.» Entretanto, juntou-se também aos convocados para a seleção nacional de basquetebol cabo-verdiana.

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Walter agarrou a camisola número 22 dos Atlanta Hawks. A estreia foi no Madison Square Garden, em Nova Iorque, contra os Knicks, a 29 de outubro passado. Não teve tempo para ver a cidade mas conseguiu fazer que toda a cidade o visse jogar. Os Hawks venceram por 112–101 e o minuto e nove segundos que Edy jogou foram bem aproveitados: marcou um ponto e fez uma recuperação. A adaptação aos EUA está a fazer-se pouco a pouco. Estranha a comida: muita fast food. Sente ainda mais saudades da cachupa de Cabo Verde e da comida da avó, de ver o mar e da família. Todos os dias fala ao telefone com a mãe. Antes dos jogos ouve kizomba e Nélson Freitas. «Aqui, nos EUA, tens tudo o que precisas e praticamente tudo o que procuras vais encontrar. É outro mundo. Estou mais rápido, mais organizado, muito melhor do que antes. Para chegar mais longe tenho de ser um jogador mais sólido no ataque e na defesa, ler melhor o jogo, ser mais forte e agressivo fisicamente. Trabalhar todo o dia e dar o meu máximo. Dar um passo a cada dia.»

Família, vizinhos e amigos – ou só família, no Maio todos são família –, quando chega a casa depois de meses de ausência todos lhe fazem uma festa. «Receberam-me como se eu fosse um herói», diz meio envergonhado. Na ilha, toda a gente quer saber como são as pessoas nos EUA. «Se são simpáticas, felizes, se a vida é melhor, se o meu treino é puxado.» E ele lá vai descrevendo da melhor forma que consegue. «Não tem comparação possível. Há muita pobreza no meu país. Um cabo-verdiano ir aos EUA é como visitar o céu.» Talvez por isso tenha levado o irmão, mais novo, para estudar em Los Angeles. É longe de Atlanta, cinco horas de avião, 3500 quilómetros de distância, mas a educação compensa.

«TEMOS SEMPRE SAUDADES DO LUGAR ONDE NASCEMOS e das pessoas que deixamos lá. Família, mãe, avó, toda a gente. Sinto falta da tranquilidade, da paz, de Cabo Verde. Amo muito a minha terra e sempre quero estar lá, mas não é possível agora. Não quero parar. Jogar ou não depende da escolha do treinador e eu estou a trabalhar muito todos os dias.» Walter jogou na liga de Verão em Las Vegas no ano passado e esteve emprestado aos Austin Spurs e aos Canton Charge, da Development League da NBA (a segunda divisão). O objetivo é chegar à equipa principal dos Atlanta Hawks. «Trabalhar todos os dias e esperar um dia poder jogar. É só o que posso fazer. Vou tentar a sorte nos EUA, se não conseguir manter-me na NBA tenho de seguir a minha vida. Eu já sabia que ia ser muito difícil, aqui estão os melhores do mundo. Vim para dar o meu melhor, mostrar do que sou capaz. Tudo o que tenho de fazer é trabalhar e trabalhar.»

A família Tavares é da ilha do Maio, em Cabo Verde, com praias, dunas e floresta densa, que ficou conhecida por ser o lugar de uma das últimas batalhas dos ingleses contra Napoleão em 1814. Hoje, para quem segue basquetebol e os Atlanta Hawks, a ilha do Maio é conhecida por ser a ilha onde nasceu o Walter «Edy» Tavares, o primeiro cabo-verdiano a ser escolhido pela NBA. Nos anos 1960, Dana Barros destacou-se como jogador e descendente de cabo-verdianos, apesar de ter nascido em Boston. Edy é o primeiro nascido e criado em Cabo Verde a chegar à liga de basquetebol mais competitiva do mundo.

No Natal não foi a casa. Mas colocou a bandeira de Cabo Verde em fundo, vestiu a camisola do SLB e deixou as boas-festas a fãs, família e amigos num vídeo que partilhou no Instagram. «Tenho muita família em Portugal. Quem sabe, um dia ainda jogo basquetebol pelo Benfica. Se isso acontecesse seria como estar em casa.»