Duplas: Branko e Mayra Andrade

nm1278_duplas

Publicidade

A música eletrónica encontra-se com os sons do mundo.

Ela é voz doce, Cabo Verde num embalo. Ele é todo ritmo, a batida suburbana. Branko e Mayra Andrade são de mundos distintos e, no entanto, encontraram-se numa canção. Agora vão estar no Vodafone Mexefest, em Lisboa, no dia 26 de novembro.

Mayra Andrade está entusiasmada com o concerto de sábado, porque gosta do Mexefest, «é um festival que marca tendências e vou ter de alinhar o meu repertório para transmitir dinâmica, ritmo.» Branko, ou João Barbosa, ex-Buraka Som Sistema, alinha pelo mesmo entusiasmo: «Vai ser um espetáculo audiovisual e com muito ritmo, para levar as pessoas aos sítios por onde viajei.» Parecem dois mundos diferentes, estes que vão subir ao palco do festival. Ela é embaixadora dos sons tradicionais de Cabo Verde, ele um agregador dos impulsos sonoros que os subúrbios das cidades emitem. E, no entanto, conseguem ter muito mais em comum do que se podia imaginar à partida.

Mayra tem construído a carreira com base nos sons tradicionais do arquipélago. Na world music, se quisermos. Nesse segmento, aliás, tem somado prémios internacionais – sobretudo em 2009, quando os álbuns Navega e Storia, Storia a catapultaram para uma dimensão artística mais global.

«Esta categoria da música do mundo só existe porque era preciso encontrar um nome para colocar os discos de influência musical latina e africana nas prateleiras das lojas», ri-se a cantora. E depois explica que, sendo profundamente cabo-verdiana, não é só cabo-verdiana.

«Nasci em Cuba, vivi no Senegal, em Angola, na Alemanha, em França, em Portugal. Sou mestiça em tudo o que faço e as minhas canções acabam sempre por traduzir isso.» Às vezes canta em francês, outras em inglês, quase sempre em crioulo. «Entro aí na categoria da world music, sim, mas isso não quer dizer que me limite ao que é tradicional. Se eu sou um bocadinho mais cosmopolita, então a minha música também pode ser.»

Então aí entra Branko, e de que maneira. «Ele contactou-me há dois anos e eu fiquei logo a pensar que os opostos podiam muito bem atrair-se. Tinha um som completamente diferente do meu, mas isto era um desafio e, quando me convidou para criarmos uma canção, eu disse logo que sim. Claro que sim.»

Não se conheciam, ele mandou-lhe um instrumental e ela teria de criar melodia por cima. Num único dia, resolveriam as gravações. «Foi complicado, aquilo não me inspirava ao início e cheguei a Lisboa com dois parágrafos escritos. Então, no dia de irmos para estúdio, ele mostrou-me outros sons e, aí sim, senti-me envolvida emocionalmente com o som. Ia escrevendo e o Kalaf, que também colaborou, ajudava-me com a letra. Nasceu tudo assim, rápido. Foi uma colaboração a velocidade furiosa.»

O tema foi pensado para integrar o trabalho a solo que ex-Buraka lançou em 2015, Atlas. E o nome é tudo menos inocente. «É uma viagem pelas minhas viagens, aos ritmos dos lugares que conheci e que mexeram comigo.» Há o beat das favelas do Rio de Janeiro e dos subúrbios da Cidade do Cabo, o ritmo de Nova Iorque e dos bairros de Amesterdão.

«A noção de subúrbio é muito importante no Atlas. Porque é esse o território da fusão, da mistura toda entre a tradição e a novidade.» A canção que compôs com Mayra acabaria por não entrar nesse álbum, mas sim na versão extended de Atlas, lançada no início do verão de 2016. E, na opinião de ambos, é uma canção profundamente lisboeta, que tem que ver com o que acontece hoje na cidade.

«É a urbanidade tropical de um lugar que sempre olhou para o mundo e que vê agora o mundo a dirigir-lhe atenção», diz Mayra. «Lisboa está a ganhar uma personalidade cultural e tem o mundo a olhar para ela. E a Mayra é a celebração desse novo mundo que chega de fora», diz Branko. Então a música do mundo veio ouvir-se na música para o mundo. E isso é uma bela surpresa.


Leia também: «Buraka Som Sistema: E depois do fim?»


MAYRA & BRANKO
Em junho deste ano as rádios começaram a passar o surpreendente Reserva Pra Dois, colaboração entre os dois artistas que fundiu a voz melodiosa de Mayra com os ritmos de Branko. E, se a combinação parecia improvável, a verdade é que tem angariado sucesso. A tal ponto que vai ser incluída na banda sonora de uma novela da TVI, A Impostora.