OPINIÃO

Do Eleven para a Califórnia

David e Jessica querem pôr Portugal no mapa da gastronomia norte-americana. E já têm uma estrela Michelin.

David Costa e Jéssica Carreira deixaram Portugal e alguns dos melhores restaurantes para transformar um espaço histórico da comunidade portuguesa da Califórnia. Em San Jose montaram o Adega, restaurante que acaba de vencer a sua primeira estrela Michelin. A Notícia Magazine falou com os chefs em janeiro, e foi o primeiro órgão de comunicação a dar a conhecer este espaço de sabores lusitanos.

Na última primavera, ao fim de 33 anos, Leonel e Aira Sousa anunciaram que iam fechar as portas do Sousa’s. A notícia alastrou-se na comunidade portuguesa de San Jose, no Norte da Califórnia, como se tivesse rastilho. Carlos e Fernanda Carreira pensaram de imediato na filha, que trabalhava em Lisboa como chefe de pastelaria do restaurante Eleven. No início do ano, Jéssica tinha-lhes pedido que estivessem atentos a qualquer oportunidade. Ela e o namorado, David, queriam sair de Lisboa e dos espaços de luxo onde trabalhavam, e mudar-se para os Estados Unidos para abrir um restaurante.

nm1233_chefsCalifornia03

O Sousa’s ficava no centro da cidade, num bairro conhecido como Little Portugal, e junto à autoestrada 101, que em minutos conduz até Silicon Valley e a centenas de empresas tecnológicas. É uma zona de confluência de norte-americanos com dinheiro e portugueses com saudades. «São exatamente os clientes que sonhamos ter», diz Jéssica, de 21 anos. «A localização não podia ser melhor.» O negócio ficou fechado em semanas.

A vida da família Sousa e da família Carreira, que até então correra em linhas paralelas, cruzou-se naquele momento para dar continuidade a um restaurante fundamental na história da comunidade portuguesa da Califórnia. Em julho, o Sousa’s fechou as portas. Em dezembro, abriu o Adega.

Leonel e Aira conheceram-se na Base das Lajes, na ilha Terceira, onde Leonel trabalhava como cozinheiro. Foi neste local, ao olhar para os militares norte-americanos – para a forma como se vestiam, os carros que conduziam, os eletrodomésticos que lhes enchiam as cozinhas –, que começaram a imaginar como seria a vida do outro lado do Atlântico. Depois de se casarem, decidiram aceitar o convite de uma irmã de Aira, que vivia na Califórnia e se oferecera para lhes patrocinar o visto. Aterraram no país em 1977.

Depois de alguns anos a trabalhar em leitarias e como ajudantes de cozinha, surgiu a oportunidade de abrirem o seu próprio restaurante. Leonel ocupou o seu lugar na cozinha. Aira ficou encarregue do serviço. Dia a dia, durante mais de três décadas, construíram um espaço central na comunidade, onde milhares de imigrantes, sobretudo açorianos, celebraram aniversários, casamentos e batizados. O casal diz que o restaurante é o filho que nunca teve.

nm1233_chefsCalifornia02

Há alguns meses, Aira recebeu o diagnóstico de cancro da mama. A sua saúde deteriorou-se e teve de deixar de trabalhar. Leonel ainda aguentou o negócio, mas acabou por decidir fechar o espaço para tomar conta da mulher. Foi nessa altura, do outro lado do oceano, que Jéssica e David começaram a pensar mudar de vida.

Jéssica tinha crescido em San Jose, muito perto do Sousa’s, onde ia comemorar algumas datas especiais. A mãe é da ilha do Faial, o pai nasceu em Angola e ela passou a infância a visitar a igreja das Cinco Chagas, que foi construída por imigrantes das ilhas, a comer sopas do Espírito Santo, a ouvir as bandas filarmónicas. «Vivi sempre muito perto dos meus avós, a influência portuguesa foi muito forte na minha infância. E a comida fazia parte dessa vida. Via-os a cozinhar e queria sempre ajudar.»

Quando acabou o ensino secundário, decidiu estudar culinária e partiu para Los Angeles, onde frequentou o prestigiado Cordon Bleu College of Culinary Arts. «Foi lá que tive a certeza de que queria ser chef de cozinha. E isso foi sempre inseparável da culinária portuguesa. Foi a comida com que cresci, que adoro, e por isso é a que queria cozinhar.»

No final dos estudos, decidiu partir para Portugal. Enviou um e-mail ao chef Henrique Sá Pessoa, oferecendo-se para um estágio no restaurante Alma, e foi aceite. Semanas depois aterrou em Lisboa com o objetivo de ficar seis meses. Gostou tanto que, no final do estágio, decidiu ficar. Rumou depois a norte para aprender com o chef Rui Paula, no restaurante DOP, no Porto, e regressou a Lisboa para trabalhar no Assinatura, de Henrique Mouro. Foi lá que conheceu David Costa.

David, de 29 anos, já tinha anos de experiência na cozinha. Estudara na Escola Superior de Hotelaria e Turismo de Lisboa, passara três anos no Eleven de Joachim Koerper, e estava há três anos no Assinatura. Assim que viu a nova estagiária, a bonita luso-americana de que lhe tinham falado, propôs logo que ficasse a trabalhar na sua equipa. «Fui um bocado direto, mas queria tê-la por perto», admite. Jéssica também gostou de imediato do português, do seu jeito tímido, da forma como sorria para ela. «Mas as coisas ainda demoraram algum tempo a acontecer.»

Além de se apaixonar, foi também no Assinatura que Jéssica descobriu o gosto pela pastelaria. «Não fiz nenhuma formação formal, fui descobrindo», explica. Algum tempo depois, foi contratada para trabalhar na secção de sobremesas do primeiro restaurante em Lisboa a receber uma estrela Michelin, o Eleven. Em Maio do ano passado, quando o responsável pelas sobremesas saiu, ofereceram-lhe a posição de chefe de pastelaria. Ela tinha apenas 20 anos.

Mais ou menos na mesma altura, depois de um ano no Hotel Ritz, o namorado aceitou o desafio para liderar a cozinha do Kook Chiado, um restaurante que começou em Angola e se expandiu para Portugal. A ideia era misturar cozinha tradicional portuguesa reinventada com sushi. «Mas o projeto não correu bem.»

O casal sempre pensara abrir um restaurante, mas fazê-lo fora de Portugal era uma hipótese que começava agora a ganhar forma. David já pensara sair do país, antes de conhecer Jéssica, mas recusara todas as propostas, que tinham chegado sobretudo de Luanda. «Apesar de os valores serem mais altos, nunca foi suficiente. A Califórnia era diferente porque era um regresso a casa para a Jéssica.»

O ribatejano David nunca tinha estado na costa leste dos Estados Unidos, mas a namorada explicou-lhe as oportunidades. «Estava convencida, e continuo a estar, de que esta é a melhor altura para investir. A verdade é que quase não existem restaurantes portugueses na Califórnia. Já tinha alguma experiência, percebi que o David estava disposto a uma mudança tão grande, e começámos a pensar nisso a sério.» Foi nessa altura que telefonou aos pais e pediu que estivessem atentos.

Quando estes lhe falaram do Sousa’s, Jéssica conversou com David e tomaram a decisão rapidamente. «É onde cresci, ia lá em pequenina, conhecia o dono, tudo fazia sentido.» Os pais, Carlos e Fernanda Carreira, asseguraram parte do investimento. Além disso, ajudam com a carta de vinhos, usando os conhecimentos que têm de muitos anos a trabalhar na importação de vinhos portugueses. David lidera a cozinha. A ideia para a ementa «é que seja o mais portuguesa possível».

«Queremos servir pratos autenticamente portugueses, mas com uma apresentação moderna. Queremos oferecer a experiência do que é comer hoje num restaurante de qualidade em Lisboa, com o mesmo tipo de serviço, os mesmos ingredientes», explica.

Para remodelar o espaço, contrataram um português que vive em São Francisco, António Martins. O decorador é conhecido por trabalhar com as suas origens, incorporando azulejos, temas náuticos e mobiliário português. O nome, Adega, nasceu da necessidade de ter um nome português que os americanos conseguissem dizer. «Queremos chegar aos americanos», explica Jéssica. «Portugal está na moda. Quando estive em Lisboa assisti ao boom do turismo. Muitas dessas pessoas, quando regressam, procuram restaurantes onde possam ter experiências parecidas.»

Ao contrário do que acontece nas comunidades importantes de New Jersey, Massachusetts e Rhode Island, onde existem dezenas de restaurantes portugueses com sucesso, quase não existem outros restaurantes portugueses nesta região. Na costa leste, muitos espaços abriram ao longo dos anos, mas acabaram sempre por fechar. Esse é o principal motivo por que o Sousa’s era tão importante na comunidade. «Temos recebido muitos contactos», garante David. «As pessoas estão impacientes. Telefonam, perguntam como vai ser, quando abre.»

nm1233_chefsCalifornia04

David e Jéssica esperam replicar no Adega o exemplo do La Salette, que fica na zona vinícola de Sonoma, e do Lupulo, de Nova Iorque. Os chefs destes restaurantes, Manuel Azevedo e George Mendes, que publicam livros e participam em programas de televisão, são muitas vezes citados como responsáveis pela divulgação da culinária portuguesa no país. «Estamos numa fase muito inicial de promoção da nossa culinária e por isso quanto mais pessoas estiverem a fazer comida portuguesa de qualidade, melhor para todos», diz Jéssica.

Nos últimos anos, muitos imigrantes venderam os seus espaços em San Jose a investidores que os transformaram em condomínios. É difícil resistir. Estes apartamentos foram ocupados por programadores e engenheiros informáticos de Silicon Valley, região que continua a avançar em direção à cidade, afastando os últimos portugueses e destruindo o pouco que sobrevive do bairro de Little Portugal. Durante algum tempo, acreditou-se que esse seria o futuro do restaurante dos Sousas. Mas agora, depois de servir os últimos jantares, lavar os últimos pratos, fechar as luzes pela última vez, o casal está tranquilo sabendo que Jéssica, a menina do fundo da rua, está à frente do filho que nunca tiveram.

[Publicado originalmente a 10 de janeiro de 2016]

Alexandre Soares, na Califórnia
Fotografia de Adega