OPINIÃO

Concertos em sala vs. festivais de verão

A música é para ouvir ao ar livre ou numa sala de concertos? A discussão está lançada.
Opostos

Teresa Tavares a dar a cara pelos festivais de verão. Miguel Raposo na equipa dos concertos em sala. Duas maneiras de estar perante a música ao vivo. Numa altura em que ainda temos alguns festivais de verão pela frente, duas correntes de pensar e amar a música. Seja ao ar livre seja com o seu artista preferido, em exclusivo numa sala de espetáculos pensada para o efeito.

Dois artistas no lugar do espetador. É disso que aqui se trata – o que acontece quando quem atua num palco passa para o outro lugar. Um ator e músico e uma atriz a discutirem as suas preferências como consumidores musicais. Uma reflexão que agrada a ambos, por sinal amigos do peito. «Adoro estar do lado do público. Se pudesse, vivia profissionalmente como espetador», diz meio a sério, meio a brincar Miguel Raposo. Teresa Tavares vai mais longe: «Um artista tem que ver tudo, é mesmo necessário. Curiosamente, quando estou a ver um concerto esqueço-me de que sou atriz, embora tenha a curiosidade de estar num palco em frente a milhares de pessoas. Uma vez, durante o concerto de Skunk Anasie, no Sudoeste, subi ao palco em reportagem para a televisão. Foi incrível.»

A atriz lisboeta confessa que defende os festivais de verão um pouco por memórias da sua juventude. E prefere sempre quando são fora da sua cidade. Teresa é festivaleira, mas sempre criteriosa, e escolhe o que quer realmente ver: «Claro que é raro, mas é tão bom apanharmos aquelas noites perfeitas de verão em que o cartaz é todo ele supremo! Acontece uma espécie de comunhão. Mas também gosto de limites: estar num festival de grandes dimensões e, logo a seguir, receber a P.J. Harvey num concerto íntimo em minha casa. Gosto de ambientes especiais… Perfeito para mim é apanhar três grandes concertos, muito calor e estar com os amigos».

Outro dos bónus dos festivais de verão passa pelas hipóteses de romance – quem nunca namorou num festival? Teresa não foge à questão: «Todos os que gostam de música e vão a um concerto num festival de verão fazem-no por uma experiência de evasão. Com o ambiente certo, é também nos festivais de verão que podem acontecer encontros entre as pessoas.»

Miguel, que já foi a festivais, prefere falar do lugar sagrado do espetador: «Tem que ver com algo que eu gosto, passa por intimismo. Aquela coisa sagrada por exemplo que acontece às vezes na ZDB…» Se falamos de experiências transcendentes, a atriz lembra logo Paredes de Coura, o seu local de concertos preferido: «É um sítio maravilhoso para um festival. Aliás, uma coisa positiva dos festivais passa por descobrirmos lugares. Houve um ano em que apanhei os Morcheeba por lá. Lembro-me de que começou a chover de repente numa noite muito quente e a vocalista começou a cantar Singing’ in the Rain. O que acontece? Ninguém arreda pé! Foi mágico estarmos ali naquele momento.»

Miguel contra-ataca: «Ver um concerto numa sala de concertos fechada tem muitas vantagens, a começar pelo lado primordial do concerto em si. Estamos num lugar que foi concebido para aquele momento! Obviamente, a nível musical ganhamos logo outra qualidade, nomeadamente a partir da própria performance do músico que está a tocar para o seu público. Nos festivais, às vezes, isso não acontece. Lembro-me sempre dos Nickelback, creio que no Rock in Rio, que foram apedrejados por estarem com um público que não era o deles. Estavam descontextualizados… O problema dos festivais é que o público não vai lá para ver as bandas. Vão para acampar e ter umas miniférias. Ninguém aí abre o coração como aconteceu com Anohni, recentemente no Coliseu», argumenta com conhecimento de causa – Miguel está muito habituado a pequenos concertos em salas de culto com a sua banda, os Bom Marido. O que também o deixa muito agastado é a predominância de marcas nos espaços dos festivais.

Desejos de festivais internacionais muitos têm, de Glastonbury a Coachella, mas Teresa é mais excêntrica: amava ir ao Burning Man, mítico festival norte-americano de contracultura realizado no deserto do Nevada e em que não há dinheiro envolvido nas trocas comerciais. Se existisse uma versão europeia nas montanhas da Islândia, melhor.

Por fim, Miguel confessa que se calhar já não tem a mesma disponibilidade de outros tempos: «Tem que ver com a idade. Deve passar pelo facto de ter chegado aos 30.» «Não digas isso!», diz Teresa, num tom zangado de faz de conta, e insiste: «A Susan Sarandon estava no Burning Man.» «Mas a disponibilidade de que falo passa por tudo aquilo que está para lá dos concertos… Por exemplo, no Alive, estavam Radiohead e Tame Impala, que eu curtia ver mas depois pensei: e o resto? Para resto já não tenho tanta disponibilidade», conclui Miguel.

MIGUEL RAPOSO
Conhecido dos palcos de teatro e de muitas participações em novelas, Miguel Raposo é um dos atores da nova vaga. Filho de Maria João Abreu e José Raposo, vai estar em breve em destaque como um dos atores de Cartas da Guerra, filme de Ivo M. Ferreira, em estreia no começo de setembro. É vocalista dos Bom Marido, uma das grandes surpresas da música portuguesa neste ano.

TERESA TAVARES
Esta festivaleira começou a sua «carreira» de festivais no primeiro Sudoeste, ainda bem jovem. A atriz, que se tem notabilizado em cinema e em televisão, acabou de filmar, com João Canijo, Ámen (provavelmente título provisório), ao lado de Rita Blanco e Anabela Moreira. Está neste momento prestes a estrear-se, em Oeiras, Sylvia, uma encenação de Celso Cleto, sobre a vida da escritora Sylvia Plath.

Rui Pedro Tendinha
Fotografia Jorge Amaral/Global Imagens