OPINIÃO

Coaches: os estrategas da mente

Podem ser fundamentais na vida e carreira de uma pessoa. Quem são, e como trabalham, os coaches?

A culpa foi de Éder. Desde que o herói do jogo contra a França falou da sua coach, ficámos todos a perguntar quem são estas pessoas, o que fazem, quanto custam? E como podem ser determinantes na vida e carreira de alguém? Sabemos que ajudam líderes de grandes empresas, desportistas, artistas e podem ser os catalisadores de mudanças radicais na vida dos clientes. Mas como o fazem?

Parece narrativa de livro de autoajuda, discurso de motivador barato munido de frases feitas. As metáforas não ajudam. A palavra «felicidade» confunde. Mas depois um jogador de futebol entra para a história ao marcar o golo da vitória de Portugal e fazer da seleção campeã da Europa e agradece… à coach – ninguém sabia ao certo quem era, só que se chamava Susana Torres e não é treinadora de futebol. E a palavra coach entrou no léxico geral.

Muitos CEO e diretores de empresas reúnem regularmente com coaches para aperfeiçoar trabalho e delinear objetivos. E o que fazem não funciona só para os clientes. Os orientadores também saem beneficiados. Jorge Coutinho, o pai de Nonô (Leonor), por exemplo, a menina que lutou contra um cancro e perdeu, mas que pelo caminho conquistou Portugal e as redes sociais com a sua coragem, só conseguiu aceitar a morte da filha com as «ferramentas» que recebeu a partir da atividade – de coach. «A dor existe, o sofrimento é opcional», diz ele. E garante que é feliz.

Um estudo realizado em 2012 pela International Coach Federation – considerado, segundo o New York Times, que também cita o estudo, como «o mais acreditado e credenciado organismo para formação de coaches» – estima que existiam, nessa data, cerca de 48 mil coaches em todo o mundo, um terço deles nos EUA. Não há dados oficiais recentes, mas o número tem crescido e a atividade alargou-se a mais países. Em Portugal, o coaching já existe há vários anos – sobretudo a nível empresarial – mas era mais um segredo do negócio. Eles não são treinadores – aliás, a palavra coach, que em inglês se escreve e pronuncia como «treinador », não significa, neste contexto, aquele que treina, mas sim «carruagem». Um coach será aquele que «nos carrega ou transporta do ponto A para o ponto B». No caso de Éder, o golo já tinha sido marcado antes, numa sessão de 60 ou 90 minutos com Susana Torres. É confuso? Sim, mas isto talvez seja o nosso sistema de crenças que é preciso derrubar, diria um coach.

O custo de uma sessão com um coach varia entre 300 e 500 euros. Os principais clientes são profissionais de topo, em todas as áreas. Trabalham na área do desenvolvimento pessoal e usam técnicas do campo da psicologia comportamental, além da PNL (Programação Neurolinguística), mas não só. Podem ser life coaches – e ajudar particulares a ultrapassar um divórcio, por exemplo, ou a encontrarem um caminho numa encruzilhada da vida, pessoal ou profissional. Podem ser executive coaches – e são a pessoa que se senta em frente ao líder e que o desafia a superar-se quando mais ninguém o faz. Avaliam o perfil psicológico do cliente e estimulam-no a atingir o máximo das suas capacidades. Garantem que a maior parte de nós desconhece os recursos que tem disponíveis. E são perentórios ao afirmar que quem faz o trabalho todo são os clientes. Eles só fazem as perguntas certas – as que obrigam a refletir.

Rui Alves é um bom exemplo. O empresário começou a interessar-se pela área de desenvolvimento pessoal aos 19 anos e encontrou um dos livros de Anthony Robbins – ou Tony Robbins, um dos mais famosos coaches mundiais e responsável pela popularidade da PNL. As formações de Tony Robbins são consideradas das mais intensivas e no primeiro dia dos cursos que dá pede aos participantes para caminharem sobre brasas quentes. «É o poder da metáfora. Se eu consigo fazer isto que considerava impossível, o que mais considero impossível e que consigo fazer?», pergunta Rui Alves. Depois de ter participado em dois cursos de Tony Robbins, sentiu que estava apto a criar a sua empresa na área das tecnologias de informação. Tinha 26 anos. «O que alcançamos é 80 por cento de psicologia e 20 por cento de estratégia», diz. A frase será repetida por outros coaches e coachees (clientes).

Oito anos depois, Rui Alves frequentou outro curso de Tony Robbins. Desta vez, o famoso Mastery University, que consiste num ano de formação em vários pontos do mundo, como EUA, Indonésia, Austrália, Singapura ou Espanha. Custa dez mil euros, mas «não há dinheiro mal gasto na área do desenvolvimento pessoal», diz. Foi durante esse curso quando estava nas ilhas Fiji, que conheceu Jorge Coutinho. Estávamos em 2014, no ano seguinte começaram as sessões de coaching.

Coutinho, hoje com 36 anos, garante que é o primeiro – e único – coach em língua portuguesa formado pela organização de Tony Robbins. Já atravessou o teste das brasas e, antes disso, já tinha abandonado uma bem-sucedida carreira de 13 anos como gestor. Em 2007 fundou a BeCoach – atualmente conta com dois coaches em Portugal, outros dois no Brasil e um parceiro no México. Em 2013, teve o maior teste da vida. «Fui confrontado com o maior desafio que um ser humano pode enfrentar: um cancro em estadio 5 na minha filha, quando ela tinha 4 anos e meio.» A filha era a Nonô, «a princesa côderosa», como o coach lhe chama no livro que escreveu após a morte da criança, 15 meses depois do diagnóstico. «Nesses seis anos adquiri ferramentas que pude aplicar em mim próprio.»

Coutinho adota facilmente o discurso de coach. Mesmo quando fala deste tema – ou sobretudo nesta altura. «Quantos carros já teve ao longo da sua vida? O nosso corpo é como um carro, a nossa alma pode ocupar vários corpos.» E lá vem nova metáfora, técnica que, segundo a psicologia, leva a mensagem ao nosso inconsciente. Porque acredita que vai encontrar novamente a filha, Jorge consegue aceitar a sua partida. E quem não acredita em vida após a morte? E quem não é espiritual? O que é que um coach diz a um pai que está a lidar com a doença grave de um filho? Jorge está habituado a colocar questões, não a dar respostas. Chamam-lhes «perguntas poderosas» e dão início ao processo de coaching ou de descoberta das «nossas motivações». «Um pai que passa por isso sente-se impotente e frustrado. O que eu diria como coach era para usar o poder dessa frustração para amar mais ainda o filho, transformar a impotência em amor.»

«Não há impossíveis.» «Não usamos todos os nossos recursos.» «Temos medo do sucesso.» As frases sucedem-se. Logo a seguir, vêm os factos: «Antes de 1963 era declarado fisicamente impossível correr a milha abaixo dos quatro minutos.» Até que alguém o fez. «Diziam que era impossível. Mas nada mudou em termos físicos, houve foi quem se recusasse a alimentar essa crença», continua Jorge Coutinho.

Fernanda Zimmermann chegou a Portugal há nove anos. «Vim por amor, casei com um português.» Trabalhara em marketing e publicidade, mas tinha feito vários cursos nas áreas de PNL e psicologia comportamental. No Brasil, recorrer a um coach é tão comum como consultar um terapeuta. Adriane Garcia chegou ao nosso país pela mesma altura, para apresentar um programa na TV Record. Conheceram-se, ficaram amigas. Foi Fernanda a única a acreditar em Adriane quando esta dizia que era possível apresentar um programa na televisão portuguesa. «Mas eu fazia castings atrás de castings e nunca era escolhida. Diziam que eu nunca conseguiria chegar ao público português por causa do meu sotaque.»

Havia também o preconceito. Fernanda, a coach, ajudou Adriane, a cliente, a perceber como chegar ao objetivo. Juntas, entenderam que mudar a forma de falar de Adriane era o caminho. «Continuo a ter sotaque mas já não conjugo os verbos no gerúndio e deixei termos brasileiros.» E o que lhe diziam ser impossível – a palavra proibida em coaching – aconteceu: em 2010, foi convidada para apresentar o programa Só Visto, na RTP. «O que eu fiz foi lembrar a Adriane a sua motivação», diz a coach. Agora, a apresentadora acha que é altura de dar um novo impulso à carreira e conta com a ajuda de Fernanda Zimmermann para o fazer.

Não temos todos as mesmas capacidades, mas temos todos capacidades. Este é um dos princípios que os coaches defendem com mais força. Mas se há capacidade que todos estes profissionais parecem ter em comum é o sonho antigo de ajudar os outros e o autodesafio que parecem ter implementado ao longo da vida. A ideia que fica é que o coaching era o objetivo natural no seu percurso de vida. «O coaching virou moda e tornou-se uma atividade que financeiramente pode ser rentável. Não há regulação ou fiscalização», avisa o fundador da BeCoach. Há resultados e isso tem chegado para que cada vez mais executivos de topo, desportistas ou até chefs de cozinha com estrelas Michelin usem os seus serviços.

António Cordeiro, que começou a vida profissional na área da Gestão Desportiva, tem 55 anos e chegou ao coaching através de negócios que desenvolveu paralelamente na área da restauração. Foi capa da primeira edição da revista Ideias e Negócios como um dos primeiros empreendedores no setor privado, graças à cadeia de pizarias Pizza na Brasa que tinha lançado. Foi nessa altura que percebeu que não era um líder mas «um palhaço irritado» que não sabia lidar com o stress. Decidiu procurar respostas na área do desenvolvimento pessoal. E em vez de gritar com a equipa, passou a falar-lhes de felicidade: «Olhavam para mim como se fosse louco.»

Em 2009 lançou-se como coach e desde então tem apostado também na sua própria formação. É life coach e executive coach e nem sempre lida com coachees fáceis. Como o chef Cordeiro, com quem só conseguiu fazer a primeira sessão de coaching à terceira tentativa. «Marcámos mas ele não estava a conseguir ter tempo na agenda. Convenci-o a ouvir uma história.» Sim, uma metáfora, Outra metáfora. Sobre um cortador de carpaccio que, ao diminuir a quantidade de fatias que conseguia cortar iria abandonar o restaurante onde trabalhava «porque lhe dava azar», até que descobriu que se tinha esquecido de afiar a faca. O coach quer que nos lembremos de que temos a faca – a capacidade – e que a temos de trabalhar.

Paulo Amado, 44 anos, é diretor-geral de uma editora e de várias publicações na área da gastronomia e cozinha. O empresário fez coaching com António Cordeiro durante dois anos. «Quando comprei as revistas onde era jornalista tinha trinta anos, entretanto passei por três crises económicas e sentia que estávamos envoltos numa nuvem negra, como se nada de positivo estivesse a acontecer. E eu quis encontrar ferramentas que me ajudassem a superar o momento em que estava.» Foi encontrá-las no coaching. «O António Cordeiro ajudou-me a perceber quais eram os meus objetivos e a perceber aquilo que eu queria realmente fazer.» Que era também escrever livros, que escreveu, ou aprender a tocar trompete, o que está agora a fazer. Não foi fácil. «Quando decidimos avançar na área do desenvolvimento pessoal há um momento de revolução em que tudo se agudiza. Quando mudas de casa existe uma altura em que estão as duas casas um caos – a que deixas e aquela para onde te estás a mudar. Isso acontece na nossa vida também.» Nova metáfora.

Ana Oliveira Pinto tem 50 anos e sempre trabalhou na área de formação. É executive coach e o seu discurso é mais incisivo, habituada a lidar com CEO nacionais e internacionais de peso. Admite que o serviço que presta é caro – uma sessão custa 500 euros – e por isso está direcionado a empresas, mas já recebeu propostas para fazer coaching individual e aceitou. Foi o que aconteceu com a advogada Teresa Apolónia, de 37 anos. «Estava a passar por um período de transição na minha vida profissional e tinha muitas dúvidas. Tinha saído da sociedade onde tinha estado nos últimos oito anos, alugado uma cave para me lançar sozinha e entretanto descobri que estava grávida.» E perdida. Ana Oliveira Pinto apresentou-lhe um programa de nove sessões de coaching. Teresa Apolónia acabou por fazer apenas quatro mas garante que essa decisão lhe mudou a vida. «Tinha recebido a proposta de um grande cliente e já tinha decidido que não podia aceitar porque achava que não era capaz.» Mas a coach tinha-a confrontando com as tais «perguntas poderosas». «Percebi que ia ter uma filha e que não podia deixar fugir esse cliente. Liguei a um colega e nesse mesmo dia ele fez-me duas propostas: ajudar-me com o cliente e ainda me convidou para ser sua sócia.» Juntos, criaram uma sociedade, onde ainda está. «Estou no sítio onde sempre quis estar, a exercer advocacia da forma que realmente me satisfaz. O nosso lema – que pedimos a uma artista para reproduzir num quadro que temos na sala de reuniões é: “Life is a Work in progress. Enjoy it [ A vida é um trabalho em construção. Desfruta]”.»

A COACH QUE AJUDOU ÉDER A MARCAR GOLOS
Susana Torres começou a trabalhar com Éder no ano passado. «Ele estava a olhar para as coisas erradas», explicou ao site MaisFutebol. «Quando começou a olhar o que o ajudava a potenciar resultados, percebeu que o coaching podia transportá-lo para um nível diferente.» Quando começou a trabalhar com Éder, o futebolista atravessava «uma crise de confiança». Traçaram objetivos: chegar à Premier League em seis meses. E marcar o golo decisivo no Euro.

À DISTÂNCIA – E QUANTO CUSTA?
Cerca de 75 por cento dos clientes são internacionais, dizem os coaches com quem falámos. É essa percentagem que lhes permite fazer do coaching a sua atividade profissional principal. As sessões, que duram em média 90 minutos, são realizadas através de Skype, normalmente uma vez por semana. A maioria dos coachees vive nos EUA, Brasil e Europa e são CEO e diretores de multinacionais. Pagam entre 300 e 500 euros por sessão. «É verdade que quando o Éder fala da sua coach talvez a maior parte dos portugueses não soubesse o que faz um. Mas todos os high performers sabem o que é um coach e usam os seus serviços», diz Rui Alves, empresário português e coachee de Jorge Coutinho.