Chorar faz bem

1269_bemestar02

Publicidade

Sempre que precisar, chore. Só lhe faz bem.

Não, não é sinal de fraqueza, essa ideia está há muito ultrapassada. Nem um modo refinado de despertar compaixão nos outros. Chorar acalma, alivia a dor, relaxa, dá saúde. Sempre que precisar, chore à vontade. Só lhe faz bem.

A chorar ganhamos fôlego para o mundo assim que nascemos. «Falamos» com os pais quando ainda não temos palavras. Pedimos alimento, colo, calor. Mas então chegam as primeiras noites mal dormidas à conta do choro e logo nos ensinam que as lágrimas são para bezerros desmamados e gente fraca, uma vergonha. Quem mais chora menos mama. Felizmente para os choramingas desta vida, a ciência já concluiu que chorar é libertador: aqueles que o fazem quando estão nervosos ou zangados tendem a ser mais saudáveis do que os que ficam a remoer. Tão poderoso como o riso a livrar-nos do mal e a traduzir emoções diversas – felicidade incluída – só mesmo o choro.

«Quer seja na alegria ou na tristeza, por estar zangado ou orgulhoso de alguém, o melhor a fazer é mergulhar o espírito nas nossas lágrimas», confirma a psicóloga clínica Cristiana Pereira, da Oficina de Psicologia. Chorar faz que nos sintamos mais leves. Ao chorarmos, explica, libertamos substâncias químicas que garantem uma sensação quase imediata de alívio, desencadeada por pequenos «toques» emocionais e não por estímulos físicos (como quando choramos a cortar uma cebola, por exemplo). «As lágrimas causadas pela emoção removem elementos acumulados em várias situações de stress. Ficamos quase anestesiados diante de dores fortes. Chorar pode deixar-nos um pouco entorpecidos, até relaxados.»

Um estudo de 2015 levado a cabo pela universidade holandesa de Tilburg estabeleceu, pela primeira vez, uma relação clara entre choro, sensação de alívio e subsequentes melhorias a longo prazo ao nível da disposição e da saúde (lembre-se disto da próxima vez que se desfizer em lágrimas a ver A Vida É Bela).

E sim, está provado que as mulheres adultas choram, em média, cinco vezes mais do que os homens – somos emotivas, nada a fazer. Algo que o biólogo evolucionista Oren Hasson, da Universidade de Telavive, Israel, está longe de considerar uma coisa má: «Demasiadas vezes, as mulheres que choram sentem-se envergonhadas, patetas ou fracas quando, na verdade, estão simplesmente ligadas aos seus sentimentos e querem abraços do companheiro.»

Cristiana Pereira concorda com a importância de se legitimar estas lágrimas emocionais, nelas e neles. «Contê-las quando elas pedem para se manifestar pode provocar alguma instabilidade psicológica, já que estamos a guardar sentimentos negativos e a ignorar as emoções. » E com isto podemos gerar um quadro depressivo, avisa.

Chorar só não faz bem se o fazemos para não ver algo que temos de encarar ou nos paralisa a ponto de ficarmos sem reação diante da adversidade.

De resto, se os olhos são mesmo o espelho da alma, «nada melhor do que passar-lhes um pouco de água de vez em quando. Permita-se sentir», aconselha Cristiana.

No Japão, homens de negócios particularmente (in)tensos instituíram a moda dos crying clubs (clubes de choro), onde lavam a alma na companhia de desconhecidos. O filósofo grego Aristóteles jurava a pés juntos aos seus alunos que chorar limpa a mente. O escritor português Júlio Dinis dizia que, quando não se chora, parece que as lágrimas nos caem todas cá dentro e queimam, e o padecimento é então de morte. Para Shakespeare, chorar é diminuir a profundidade da dor. E convenhamos: se até a Gwyneth Paltrow chora por tudo e por nada – ela que tem a figura perfeita, dois filhos lindos e uma carreira de topo como atriz –, para alguma coisa há de servir.

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.