Nos bastidores da Europa com Carlos Moedas

Carlos Moedas

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Três dias em Bruxelas com o comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação, o português Carlos Moedas.

De Beja para Bruxelas, com escala em Lisboa, Paris, Boston e Londres. Foi este o percurso de Carlos Moedas, engenheiro civil feito gestor e transformado em político, brilhante aluno que se tornou comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação. Tudo isso já se sabe. Na véspera do Dia da Europa, uma reportagem sobre o lado menos conhecido deste social democrata, liberal de costumes – e o que está a fazer para tornar a Europa um sítio melhor.

 

Junto ao número 57 da Rua do Salitre, em Lisboa, o piso irregular de paralelos de granito dá lugar ao alcatrão do Largo Jean Monnet. Foi ali, em frente ao edifício com o mesmo nome, que alberga a representação oficial da Comissão Europeia em Portugal, que o grande carro preto parou, no dia 16 de março do ano passado. Do banco de trás, antes de dar tempo ao motorista para sair e abrir a porta do passageiro VIP, Carlos Moedas precipitou-se para o exterior e dirigiu-se aos dois batedores da PSP que, nas motos de alta cilindrada, tinham escoltado a viatura. Queria cumprimentá-los. O primeiro não contava com isso e, quando viu o homem de fato escuro e mão estendida, tentou apear-se, tirar o capacete e puxar a luva que teimava em não sair. Tudo ao mesmo tempo. Resultado: a moto caiu no chão com estrondo. Com 1,70 metros de altura, Carlos Moedas não é propriamente entroncado. Pelo contrário. Mas isso não o impediu de tentar ajudar o agente a levantar a Honda Pan European de trezentos quilos, enquanto lhe perguntava se estava bem.

O gesto é habitual para quem o conhece. O comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação é genuinamente simpático. Seja onde for. Em Lisboa ou a dois mil quilómetros de distância. Deve ser também isso que pensa a funcionária portuguesa que trabalha na cantina do edifício Berlaymont, em Bruxelas, sempre que Carlos Moedas ali almoça e passa para a cumprimentar. Um ano depois do episódio da moto em Lisboa, de tabuleiro na mão e passo rápido, vai contornando pessoas e aponta sucessivamente, enquanto explica os cantos à casa. «Ali são as massas, ao fundo têm o peixe, se quiserem temperar a salada, é aqui.» Moedas é um frequentador assíduo do espaço – e do balcão de grelhados. Sempre que pode sai do edifício para comer pasta na Casa Italiana, o restaurante da Rue Archimède, perto da sede da Comissão Europeia na capital belga, mas nem sempre isso é possível.

Cumprimentar agentes policiais, dizer os bons-dias a seguranças, sorrir para rececionistas ou dar dois dedos de conversa a quem se lhe atravesse no caminho não é tique de político. É hábito de pessoa afável. «O problema é quando há programas oficiais, com eventos programados», diz Alfredo Sousa, assessor de comunicação de Moedas, habituado a acompanhar o comissário em grande parte das deslocações. «Mas faz parte da personalidade dele. E é muito pontual. Por isso tentamos fazer as adaptações necessárias, quando o programa o permite e não temos tudo ao minuto.» Seja no exterior, em visitas oficiais, ou dentro da própria Comissão, em reuniões com altas individualidades, apresentações públicas ou contactos agendados com jornalistas. No passado dia 19 de abril, Carlos Moedas teve uma dessas manhãs – com tudo tabelado numa pontualidade (quase) irrepreensível. Quinze minutos antes do meio-dia, sentou-se em frente ao espelho para ser maquilhado para a conferência de imprensa que iria conduzir daí a minutos, com os comissários Andrus Ansip, o estónio responsável pela pasta do Mercado Único Digital, e Günther H. Oettinger, o alemão com a pasta das Comunicações e da Agenda Digital dentro das fronteiras dos 28 Estados membros.

Na sala verde, a grande antecâmara para o auditório onde todos os dias são feitas as comunicações à imprensa, com capacidade para centenas de jornalistas e um pequeno exército de intérpretes que traduzem tudo o que ali é dito para as 24 línguas oficiais e de trabalho da União Europeia, os porta-vozes da Comissão e os assessores de cada comissário trocam papéis, ultimam frases-chave, acertam um nó de gravata meio torto dos protagonistas ou relembram o que pode ou não ser dito a partir do momento em que passarem a porta de madeira e subirem ao palco. Além dos jornalistas na sala, estas conferências de imprensa são transmitidas em streaming em direto. Moedas trouxe cinco pessoas da sua equipa, Ansip veio com sete, Oettinger tem quatro. E antes da hora H ainda chega o letão Valdis Dombrovskis (e respetivo séquito), vice-presidente para o Euro e Diálogo Social, para trocar algumas palavras com Carlos Moedas sobre as notícias que nessa manhã saíram na imprensa portuguesa acerca da terceira avaliação pós-programa de resgate e a intervenção do Estado na solução para o Banif.

A conferência de imprensa, em si, corre sem sobressaltos. Carlos Moedas não ensaia estas coisas de cor, mas prepara-se bem tecnicamente para poder responder aos jornalistas e leva sempre na cabeça algumas bengalas –números, expressões idiomáticas, exemplos de realidade local – para poder falar dos temas numa linguagem que toda a gente entenda. E que impressione, já agora. Num inglês perfeito, enquanto gesticula, o português lá explica que há vários meses que a sua equipa vem preparando o lançamento de uma «nuvem» de ciência aberta para que 1,7 milhões de investigadores na Europa possam armazenar, partilhar e difundir conhecimento que seja útil em várias áreas. Deverá estar concluída em cinco anos, acessível a toda a gente, e foram disponibilizados cinquenta milhões de euros para a desenvolver e financiar.

Abrir o conhecimento. Essa é uma das bandeiras do Horizonte 2020, o gigantesco programa-quadro de investigação, desenvolvimento e inovação, com um orçamento de oitenta mil milhões de euros, que nos próximos quatro anos continuará a apoiar milhares de projetos ligados à ciência, à tecnologia e à indústria dentro da Europa. Desde que Carlos Moedas tomou posse, em novembro de 2014, mais de mil bolsas de investigação no continente foram financiadas. Só para Portugal vieram 160 milhões de euros. Tudo ao abrigo dos fundos geridos pelo comissário.

É esta a base de trabalho de Moedas, apenas ultrapassada pelos orçamentos da Política Agrícola Comum, do irlandês Phil Hogan, e da política regional, da romena Corina Cretu. É o maior orçamento alguma vez gerido por um comissário português, desde a adesão do país à então CEE. António Cardoso e Cunha, João de Deus Pinheiro e António Vitorino trabalharam com montantes bem inferiores. E os números grandes não se ficam por aqui: com 1700 funcionários, a Direção-Geral de Inovação e Tecnologia, tutelada pelo português, é a quarta maior da Comissão Europeia.

Impulsionar a investigação científica europeia – ou seja, milhares de investigadores e centros de tecnologia, empresas do setor público e privado. Na prática, é isso que Carlos Moedas está a fazer desde 1 de novembro de 2014, quando tomou posse. Desde o lançamento de um novo aspirador que revolucione a forma como milhões de pessoas podem limpar as casas até ao desenvolvimento de uma patente que permita poupar metade do consumo energético num frigorífico ou secador, passando por descobertas de novos fármacos ou telemóveis que duram dez anos (lembram-se quando as baterias aguentavam um dia inteiro?), tudo isso passa, mais ou menos diretamente, pelo gabinete deste alentejano nascido em Beja há 45 anos.

Todos os meses, Carlos Moedas percorre milhares de quilómetros em deslocações pelo continente europeu. Faz pelo menos duas viagens por semana, tentando apenas evitar, quando é possível, os dias em que a mulher, professora associada de Economia e Gestão, voa para Lisboa para dar aulas na Universidade Católica. Há sempre feiras de ciência, visitas a centros de investigação, contactos com bolseiros, académicos e empreendedores, roteiros da ciência como o que o trouxe à Madeira no final de abril. Dos 28 Estados membros, Moedas só ainda não foi a sete. E já foi à Suíça, à China, à África do Sul, à Jordânia, a Israel e ao Irão. Na próxima semana irá ao Japão e em junho vai novamente aos EUA – numa altura em que já tudo estará decidido na corrida às nomeações dos partidos democrata e republicano para as eleições à Casa Branca. E o que é que ele pensa disso? Para que lado pende o liberal que foi secretário de Estado de um governo PSD? «A vitória de Trump nas primárias não é assim tão má», responde. «Por uma razão simples: é o candidato de que menos se gosta. E assim entre ele e Hillary Clinton os americanos escolhem-na a ela.»

Para o ajudar a organizar e a gerir o Horizonte 2020 e a tocar em todos os instrumentos de uma orquestra de ciência e investigação que tem de estar muito bem afinada, Carlos Moedas tem 18 pessoas que trabalham diretamente com ele: sete portugueses, três italianos, dois britânicos, um holandês, um francês, uma checa, uma belga, uma alemã e uma suíça. Mais de metade da equipa é staff da Comissão Europeia (assim ditam os regulamentos internos da instituição), os restantes são nomeados ou requisitados pelo comissário, por confiança profissional e/ou política. Carlos Moedas trata por tu o chefe de gabinete, António Vicente, que desempenhava as mesmas funções quando o comissário era secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, a italiana Giulia del Brena, chefe de gabinete adjunta, que trabalha na Comissão há vinte anos e fala um português com sotaque italiano e um arranhar gaúcho, por ter vivido 12 anos no Brasil, e o assessor de comunicação, Alfredo Sousa, que transitou do Parlamento Europeu.

Quando está em Bruxelas, Moedas e o seu estado-maior passam os dias numa área de 450 metros quadrados, com 15 gabinetes e uma sala de reuniões. Num dos corredores, o comissário mandou pendurar os retratos dos 12 homens e duas mulheres que já tiveram a pasta da investigação e desenvolvimento (embora com outros nomes) até hoje. É o único dos 28 comissários que tem isso. O cabinet Moedas funciona no nono piso do Berlaymont, um dos 55 edifícios das instituições europeias na capital belga. Neste, em particular, com 14 andares, em forma de estrela de pontas desiguais, trabalham 2700 pessoas e fica o centro nevrálgico da Comissão Europeia. É aqui que são tomadas muitas decisões que afetam a vida de 510 milhões de pessoas em 28 países que ocupam 4,5 milhões de metros quadrados. Está localizado junto à estação de metro de Schuman, a escassos 400 metros da estação de Maelbeek, onde 13 pessoas foram mortas nos atentados de 22 de março. Os trágicos acontecimentos desse dia, no metro e no aeroporto, não deixaram ninguém indiferente, mas a tentativa de retomar a normalidade possível tem falado mais alto. Nomeadamente em casa da família Moedas.

Ainda assim, o comissário não usa habitualmente este meio de transporte. No dia-a-dia, vem para o Berlaymont no carro oficial, conduzido por um dos motoristas, ou a pé, 15 minutos de caminhada, depois de deixar os três filhos na paragem do autocarro que os levará para as aulas na secção portuguesa da Escola Europeia, onde estudam trezentos alunos e onde, pela primeira vez, têm o francês como segunda língua.

A família chegou a Bruxelas no verão passado, depois do fim das aulas. Entre novembro de 2014, quando tomou posse, e junho passado – quando a mulher Céline Abecassis-Moedas e os filhos Vera (14 anos), Arthur (11) e Rebecca (7) se lhe juntaram – Moedas esteve sozinho na capital belga. Aos fins de semana viajava para Lisboa, durante a semana tentava falar com a mulher e os filhos. Uma rotina diária em que incluía também o jantar em restaurantes, já que não se ajeita nos tachos – ainda por cima sofre de «fígado gordo» (NASH, doença hepática gordurosa não alcoólica), o que o obriga a comer com cuidado e a evitar batatas fritas de que tem tantas saudades.

Quando não está no Berlaymont ou em viagem, Carlos Moedas está em casa com a família – garante que sai pouco em Bruxelas porque não conhece muita coisa. Já viu a quarta temporada de House of Cards com a mulher e diz que a política em Bruxelas não é tão sanguinária como em Washington – «apesar de aquilo ser tudo um grande exagero». E ficou agarrado a Borgen, a série política dinamarquesa inspirada na ex-ministra Margrethe Vestager, sua colega na Comissão, responsável pela pasta da Concorrência. Aos sábados gosta de correr cinco quilómetros no Parc du Cinquantenaire, sozinho, enquanto ouve música brasileira no iPhone. Em miúdo não era muito dado ao desporto, mas ganhou o hábito da corrida em Lisboa, quando estava no governo e andava mais stressado e as passadas à beira-Tejo ajudavam a descomprimir.

O ex-secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro não tem saudades dos tempos no governo. Apesar de agora viajar bastante durante a semana, gosta da possibilidade de aproveitar os fins de semana em família. «Quero ver os meus filhos crescer», diz. «Dou por mim a pensar no que levamos da vida e julgo que a família é o mais importante. Tento fazer o mais que posso por encontrar um equilíbrio.» E isso, tem a certeza, não é possível com uma posição política de destaque em Portugal. Não o veremos, portanto, a tentar chegar à liderança do PSD e à chefia do governo? «Nem pensar.» Mesmo com o apoio das bases e dos barões do partido? «Não.» E não é tanto pelo estofo que isso implica, mas pela sobrecarga que tem para a família. Ainda se lembra das duas vezes que foi insultado na rua, com o filho ao lado, tinha o rapaz uns 9 anos. Na primeira, aflito, quis ir embora do local onde estava. Na segunda, perguntou-lhe: «Não tens ninguém que goste de ti, pois não, pai?» «Houve momentos em que me custou, claro. Como é que é possível as pessoas pensarem que se está a fazer o mal? Estamos a tentar fazer o melhor que podemos e isso não é o ideal nem o perfeito, é o que é possível. E é claro que custava sentir que estávamos a tomar medidas que iam doer nos bolsos das famílias.»

Céline, a mulher, também não deve ter saudades desses tempos. «Foi um período difícil da nossa vida», diz o marido. «Naquelas alturas de fazer o programa eleitoral com o [Eduardo] Catroga, estive umas três semanas em que quase não fui a casa. Chegava às cinco da manhã e saía às sete. Um dia, a minha mulher disse-me que tínhamos de ir jantar e conversar. E disse-me que eu tinha de decidir o que queria, porque era impossível continuar com aquela situação.» Sentiu as coisas a tremer? «Foi sinal forte de que as coisas não estavam bem. Disse-me que era mau para mim, para os filhos e obviamente para ela. Perguntou-me se estava a pensar continuar muitos mais anos a não ir a casa durante três semanas. Andou a dizer-me isso durante três anos. Mas continua a gostar de mim!»

Quem também não gostaria de o ver a voltar a esses tempos é Helena, a irmã seis anos mais velha. Quando o irmão estava no governo, sentiu falta do confidente a quem telefona com regularidade e com quem praticamente só podia falar por mensagens. «Ele chegava a casa à meia-noite, comia uma peça de fruta e ia para a cama.» A consideração é suspeita, Helena Moedas é parte interessada, mas acredita que, depois do pai, terá sido a primeira pessoa a sentir que Carlos estava fadado a grandes voos. E tudo por conta dele.

Nos primeiros tempos depois de o irmão chegar ao governo, o telefone em casa de Helena, em Beja, não parou. E a caixa de correio electrónico da jurista encheu-se com mais regularidade. «Pessoas com quem eu tinha apenas relações cordiais começaram a convidar-me para jantar. E a enviar-me e-mails com pedidos de “dá lá uma palavra ao teu irmão”. O Carlos nunca soube disto. Vai ler pela primeira vez. Nunca lhe reencaminhei e-mail nenhum. Foram todos para o lixo. Até deixámos de atender o telefone de números desconhecidos. Não foi assim que fomos ensinados.»

Mérito do pai, nesse capítulo da educação dos irmãos Moedas. E da mãe, claro. Mas José Moedas, reputado jornalista de Beja, ex-diretor do Diário do Alentejo, era uma figura ímpar e uma voz respeitadíssima na região (morreu em 1993). Comunista, perfecionista, com uma cultura geral acima da média, teve o cuidado de não passar a cartilha ideológica aos filhos. «O meu pai era um homem muito mais culto do que eu alguma vez serei», diz Carlos Moedas. «Era muito ponderado, nada extremado», diz Paulo Barriga, atual diretor do jornal regional. «Não era um ortodoxo do PCP. Um homem intelectualmente evoluído.» Talvez isso justifique a rua a que deram o seu nome, em Beja. «O meu pai ensinou-nos que seríamos o que queríamos ser», diz Helena. «Não nos batizou porque achou que essa decisão devia ser nossa, e não nos incutiu os valores comunistas para lá do limite que ele achava razoável, para dar margem para fazermos as nossas escolhas.»

Os Moedas eram gente remediada. Não havia dinheiro para luxos. Todos os anos, entre 1971 e 1985, até Carlos fazer 15 anos, passavam um mês de férias na Zambujeira do Mar. Alugavam a casa a um pescador, que no verão saía da sua habitação para ganhar mais algum para ajudar a aguentar o ano. Não havia luz. Nem água canalizada. Mas os Moedas tinham um mês inteirinho de mar numa das praias mais bonitas da costa alentejana. Mais tarde, Carlos começou a ir para Altura, no Algarve, com a família de João Carvalhal, o vizinho do bairro junto ao liceu, amigo até hoje (são padrinhos de casamento um do outro). Era dele que Carlos gravava as cassetes de John Lennon. E, mais tarde, dos The Cure. «O Carlos nunca deixou de fazer nada connosco. Saíamos, jogávamos às cartas na rua até tarde, brincávamos, divertíamo-nos. Só que ele tirava umas notas estupendas. Era muito organizado.»

Tão organizado que nunca Zé Moedas teve de dizer ao filho para fazer os trabalhos de casa antes da brincadeira. O rapaz tinha essa escala de prioridades. Não jogava muito à bola, não era dado a desporto. Pequeno, franzino, de amores também não era muito rodado. Os amigos tiverem todos namoradas antes dele e durante alguns tempos isso fazia a cabeça do jovem Moedas trabalhar. «Eu era um infeliz, nunca mais arranjava uma namorada. No liceu só me lembro de uma, devia ter 16 ou 17 anos. Era um grande complexo que eu tinha. Depois no Técnico é que já tive mais.»

Entrou no curso de Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Coisa fácil para quem passou pelo liceu sempre com notas altas. Hoje, aos 45 anos, o comissário português passa grande parte da vida a voar, mas foi preciso chegar aos 21 para andar de avião pela primeira vez. Foi visitar o Centro Espacial de Toulouse, na segunda ocasião que saiu do país. Em bom rigor, as viagens a Rosal de La Frontera, a sessenta quilómetros de Beja, onde ia com frequência com os pais quando era miúdo, eram passeios com pouco sabor internacional – tirando o dos caramelos.

Em 1993 candidatou-se ao programa Erasmus e foi para Paris. Recebeu um cheque de 16 mil francos franceses (cerca de 2500 euros) e foi com isso que se governou durante seis meses, enquanto fazia o último semestre do curso na École Nationale des Ponts et Chaussées. Depois de pagar o quarto na Casa de Portugal da Cité Internationale Universitaire, vivia com aproximadamente duzentos euros por mês. Não foi fácil. Mas safou-se. Respondeu a um anúncio para a Suez Lyonnaise des Eaux, veio a Portugal fazer os quatro meses do serviço militar obrigatório. «Todos os meus amigos se safaram à tropa, ninguém lá foi. Eu tive azar, fui chamado.» Mas até nisso deu a volta. Fez a recruta em Tancos, ficou entre os dez melhores no curso e acabou por ir para o quartel da Pontinha. «Depois habituei-me. A tropa não faz mal a ninguém. Conhecemos outras pessoas e vemos outras realidades.»

Foi em Paris que conheceu a mulher, Céline. O tímido que não conseguia arranjar namorada no liceu meteu conversa com a loura gira numa prova de aptidão linguística, por causa do apelido dela, Abecassis, que poderia ter ligação a Portugal (não tem).

Céline é judia, mas nunca passou pela cabeça de Carlos converter-se – tal como nunca quis batizar-se. O agnóstico convicto ainda agradece ao pai por isso. Foi a namorada que o convenceu a ir para Harvard, onde concluiu em 2000 um MBA, com cem mil euros que não tinha mas pagou com juros ao banco. Quando estava nos EUA, recusou a oportunidade de ir a uma entrevista na Google, «porque na altura nem se percebia bem o que era aquilo» e ele já estava de olho fisgado na Goldman Sachs. Carlos Moedas foi engenheiro apenas durante cinco anos. De Massachusetts foi para Londres, onde depois passou para o Deutsche Bank. Voltou a Portugal em 2004, dirigiu uma consultora imobiliária e fundou uma empresa de gestão de investimentos.

Como raio foi então este homem parar à política? E logo à direita, tão longe da ideologia do pai. Por dinheiro não foi. Hoje, como comissário europeu, tem um ordenado que ronda os vinte mil euros brutos, mas quando entrou para o governo, em 2011, foi receber 3200 euros limpos. Bem menos do que levava para casa na banca. «A verdade é que nunca me senti completamente preenchido no privado, mesmo quando ganhava bom dinheiro. Achei sempre que a causa pública tinha um impacto muito maior nas pessoas e tive sempre essa ideia de contribuir.»

Por isso, quando Sofia Galvão, à época vice-presidente do PSD, e António Borges, que tinha conhecido na Goldman Sachs, o desafiaram para o gabinete de estudos do partido, em 2008, aceitou. Se fosse para o PS, teria aceitado? «É uma pergunta que nunca me fizeram. Depende do economista. No PS também há pessoas que pensam de uma forma muito semelhante à minha, há muitos economistas que eu respeito. Dependeria da pessoa e não do partido.»

Carlos Moedas tinha interesse por política, mas nunca se envolveu numa juventude partidária. Para a esquerda não pendia. «Ideologicamente nunca me encaixei no pensamento do meu pai. Achava sempre que havia ali qualquer coisa que não funcionava. Tinha dúvidas a mais para poder aceitar. Quando cheguei ao liceu de Beja comecei a dar-me com pessoas da JSD e da JC. Mas nunca me envolvi porque não tinha as mesmas ideias que o meu pai, mas também não o queria ferir naquela altura. Embora tivéssemos grandes discussões em casa, na rua eu não mostrava, porque poderia magoá-lo.»

Há um tema, porém, em que Carlos Moedas se revê no pensamento de José Moedas. Não no liberalismo económico, mas num ponto particular do liberalismo de costumes: o comissário europeu é totalmente a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. «Sempre pensei dessa maneira. Aí era muito alinhado com o meu pai.» E o mesmo em relação à adoção ou à coadoção por casais homossexuais. «Penso sempre o que os mais liberais nesse sentido pensam. O mundo vai avançando, por muito que as forças conservadores tentem pôr mais taxas ou dificuldades. É como pôr um dedo num rio e esperar que este pare.»

Carlos Moedas filiou-se no PSD quando Manuela Ferreira Leite perdeu as eleições legislativas de setembro de 2009. Como os adeptos que se fazem sócios quando o clube perde o campeonato – seria uma boa analogia se Moedas percebesse alguma coisa de futebol, mas a simpatia pelo Sporting não o leva aos estádios. Nem a saber o nome do presidente: «Sei que é Bruno qualquer coisa. Não é Nogueira, pois não?»

Passos Coelho reconheceu-lhe os conhecimentos técnicos, a capacidade de trabalho e a fidelidade a uma causa – e ao líder. Por isso, em março de 2011, quando José Sócrates apresentou a demissão, o presidente do PSD convidou Moedas a apresentar-se como cabeça de lista do partido por Beja. O filho do Zé Moedas ia voltar ao Alentejo.

Durante duas semanas percorreu os concelhos todos do distrito. Visitou centros de dia, lares, hospitais, mercados, adegas cooperativas. Reuniu com empresários, dirigentes sindicais, população local, distribuiu apertos de mão e beijinhos a novos e velhos. Foram cinco mil quilómetros na carrinha BMW pessoal, conduzida por um voluntário do PSD de Lisboa. «Não sei onde ele conseguia ir buscar energia naqueles dias», diz a jurista Sofia Vala Rocha, que o assessorou na campanha eleitoral. «Chegávamos aos hotéis pelas duas da manhã, ele acordava às sete e conseguia ter o raciocínio rápido para discursos, entrevistas e ouvir as pessoas todas no dia seguinte. Como se tivesse dormido dez horas.»

«Não preciso disto, tenho a minha vida no setor privado, mas quero fazer coisas pela minha terra.» Foi com esta toada que se apresentou a votos. E conquistou-os – mais cinco mil do que o PSD tinha conseguido nas eleições de 2009, o suficiente para Moedas ser eleito para a Assembleia da República. Dezasseis anos depois de Teresa Patrício Gouveia, em 1995, o PSD voltava a ter um deputado eleito por Beja. Não era feito pequeno. Só que… o deputado não foi ele. Passos Coelho tinha outras ideias. «Gostava que viesse comigo para o governo», ter-lhe-á dito o futuro chefe do executivo quando o chamou à sede do partido, na Rua de São Caetano. E assim foi: Moedas assumiu funções como secretário de estado adjunto do primeiro-ministro, responsável pelo cumprimento do memorando de entendimento com a troika E, com isso, terá deixado muitos eleitores de Beja descontentes. «Senti que fiquei a dever alguma coisa à minha terra, mas algum dia hei de contribuir de outra forma», diz, em Bruxelas. Aquilo bateu-lhe mesmo lá dentro.

Vieram os três anos no governo, o desgaste da função, a sensação de trabalho a ser cumprido mas com um preço alto a ser pago, o aviso da mulher… Até que, às nove da noite de 31 de julho de 2014, recebeu um telefonema de Pedro Passos Coelho. Comissário em Bruxelas? «Sim.»

Ser um «produto da Europa sem fronteiras» acabou por se revelar importante nas audições que o futuro comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação teve de fazer em setembro de 2014 perante o Parlamento Europeu. A experiência europeia foi direta à emoção. Para a razão, falou a preparação que fez. Carlos Moedas preparou-se para responder a trezentas perguntas. O bom aluno voltou a passar. Agora na oral. E com distinção. Durante três horas, o engenheiro de formação entrou com alguma facilidade em temas técnicos, para se sentir à vontade, quer falasse de células estaminais, fusão nuclear, antibióticos ou materiais. Na Direção-Geral da Ciência sabem que têm um comissário que percebe a linguagem deles.

Todas as quartas-feiras, de manhã, no 13.º piso do edifício Berlaymont, o colégio de comissários reúne-se com o presidente, Jean-Claude Juncker. No dia 20 de abril, como habitualmente, Carlos Moedas foi o primeiro a chegar. Depois chegaram os outros comissários, uns tiram uma peça de fruta dos tabuleiros nos extremos das mesas, alguns são mais faladores, outros metidos para dentro. Até que chega Juncker. Que não é propriamente discreto. Cumprimenta Moedas com um aperto de mão, depois um abraço. E por fim afaga-lhe o cabelo. O presidente da Comissão é conhecido por alguns cumprimentos mais efusivos e há mesmo um vídeo no YouTube em que se vê o luxemburguês particularmente divertido com alguns gracejos – uns menos protocolares do que outros. «Às vezes até beija, se o tivesse apanhado a jeito a si também o beijava», diz Moedas, resposta pronta, quando é confrontado com isso. Foi Juncker que disse ao português que devia deixar crescer a barba, porque tem um ar muito novo (com 45 anos, é o terceiro mais novo do colégio de 28). Paulo Portas disse-lhe o mesmo num jantar em Estrasburgo há tempos. Moedas terá dado ouvido a ambos, pelos vistos.

Carlos Moedas garante que não tem grande vontade de ser novamente político em Portugal. Se não voltar para o setor privado, «posso ajudar o meu país de outras formas, noutros palcos», responde. Quais, não se compromete. Mas evita dizer «nunca». Diz que de vez em quando fala com Pedro Passos Coelho, umas vezes ao telefone, outras de viva voz, mas não de política partidária, garante. Preferem abordar questões internacionais como o apoio aos refugiados ou o fantasma do brexit.

Com as atenções viradas para o referendo de 23 de junho no Reino Unido, que determinará se o país continua ou não na União Europeia, o comissário português não tem grandes dúvidas. «A Europa está melhor se estiver unida», disse recentemente, numa entrevista ao Channel 4 britânico. «Precisamos uns dos outros. A Europa é um projeto irreversível, mesmo que tenha os seus altos e baixos.»

 

O PAI, JOSÉ MOEDAS
O pai de Carlos Moedas foi um reputado jornalista alentejano, com ligação ao Partido Comunista Português. Nunca impôs aos filhos o seu modo de pensar e respeitou opiniões contrárias, garantem Helena e Carlos Moedas. «Faz aquilo em que acreditas», dizia-lhes. Enquanto o pai foi vivo, Carlos nunca manifestou publicamente quaisquer opções políticas, para não o ferir. Durante anos, José Moedas publicou no Diário do Alentejo a coluna «Vento Suão». Esta foi dedicada ao filho:

DEPOIS DE AMANHÃ NÃO É OUTRO DIA
«Olha, Carlos: depois de amanhã não é outro dia, é muito mais do que domingo, é um outro ano que começa e, por isso mesmo, estou hoje a falar contigo. Depois de amanhã, Carlos, as coisas não deveriam estar como estão hoje, como decerto vão estar amanhã. Depois de amanhã, que é domingo, quando tu acordasses, quando acordassem todos os meninos, as coisas deveriam nascer diferentes. Não falo, está claro, das árvores, dos montes, dos rios, dos mares, das estrelas, da lua, do verde das searas, do cheiro dos aloendros e das estevas, muito menos da passarada chilreando de galho em galho. Não falo das coisas da natureza nem das outras coisas igualmente belas e puras que são os animais. Depois de amanhã, as coisas que deveriam amanhecer diferentes eram os homens. Depois de amanhã, Carlos, quando tu acordasses, nenhuma criança, tua vizinha, ou de muito longe, deveria ter fome ou frio nem os pais sem ganho suficiente de lhes dar pão. Mais: quando tu acordasses, nenhum homem deveria estar em guerra, nenhuma arma deveria ter gatilho para disparar. Depois de amanhã, Carlos, deveria nascer um mundo novo, em que não houvesse meninos ricos e meninos pobres, porque os pais de todos os meninos tinham decidido unir-se numa só palavra, abraçar-se num só gesto. Depois de amanhã, que é domingo, deveria ser o ano primeiro da criação de um mundo diferente, aquele com que os poetas (ainda) sonham mesmo os que nunca foram meninos. Mas se não puder ser depois de amanhã, Carlos, que seja no outro dia, quando tu fores homem, quando forem homens todos os meninos de agora. Luta por isso, pá!»

 

*Os jornalistas viajaram a convite da Comissão Europeia.

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