OPINIÃO

«A minha ajuda é uma gota no oceano»

Há gente que não se acomoda à vida confortável que tem nem se conforma com a injustiça das vidas difíceis com que se cruza mundo fora. Esta semana, damos-lhe a conhecer cinco pessoas que fazem a diferença. O cirurgião Carlos Ferreira é uma dessas pessoas.
Carlos Ferreira
Carlos Ferreira

Carlos faz cirurgias de guerra no Sudão. Marta está numa favela no Quénia a ajudar 76 rapazes e raparigas a estudar. Fernando passa temporadas na Birmânia a garantir que crianças com cancro tenham acesso ao hospital. Helena ajuda meninos das ruas de Moçambique. Teresa apoia órfãos da sida no mesmo país. Todos sentem que há muito por fazer.

Carlos Ferreira, 46 anos, é cirurgião no Hospital da Luz, em Lisboa. Mas isso não lhe chegava. Nos últimos anos tem ido para alguns dos locais mais perigosos do mundo fazer cirurgias aos feridos de guerra, muitos deles crianças. «Assiste‑se a situações dramáticas, mas no fim é gratificante», conta o médico, que se formou em 1998.

«Sempre quis fazer a diferença e poder contribuir com as minhas valências técnicas em locais que sabemos que têm carências médicas.» Há dois anos, esteve sete semanas no Sudão do Sul, um país em guerra civil e tribal, numa missão humanitária e no ano passado foi um mês para o Congo. É um dos médicos que integram as equipas cirúrgicas móveis que a Cruz Vermelha Internacional coloca em locais estratégicos para ajudar as vítimas da guerra. «Operei muita, muita gente ferida. Há famílias inteiras baleadas, desde o pai, a mãe, os filhos, os avós.»

Carlos Ferreira

Carlos esteve na zona do Wat e na fronteira com a Etiópia. Aí, dormia em cabanas de lama (jubas). Já quando estava na cidade, ficava numa casa da organização. Na viagem ao Sudão teve de passar lá o Natal, longe da sua família. Com a sua disponibilidade para os outros está a abdicar do tempo com a mulher e os filhos. Mas eles compreendem e Carlos sente‑se bem por poder ajudar quem precisa com aquilo que sabe fazer: operar. Diz que a sua ajuda «é uma gota no oceano» e exemplifica: «Há lá crianças que comem uma vez por semana.»

Operou mais de 140 pessoas e nunca lhe morreu nenhum dos doentes que lhe chegaram às mãos, mas não esquece a violência psicológica dos momentos por que passou. Talvez por isso alguns dos seus colegas de missão tenham desistido a meio. «Há muitas vítimas da Kalashnikov, uma das armas mais usadas.» Quando as operou para tirar as balas não esquece a gratidão que sentiu: «São pessoas estoicas e um sorriso delas explica tudo».

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