Capicua, a rapper do Porto que canta o feminismo

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Ana Matos Fernandes diz o que pensa e defende aquilo em que acredita.

O rap deu-lhe o veículo para canalizar a vocação da escrita e o megafone ideal para espalhar preocupações políticas e sociais. O rap que Capicua faz sempre foi engajado, feminista e, ocasionalmente, competitivo, pelo prazer de uma boa punchline. Soa a beats dos anos 1990, década em que descobriu as ruas do Porto à boleia do hip hop da cidade e de uma lata de spray. Entretanto amadureceu, atravessou o Douro e levou a sua música a outras tribos. A mais recente é a das crianças, à qual chega com Mão Verde. Como acontece com os mais pequenos, é na diversão que está a razão para continuar a fazer o que faz. Uma entrevista feita em dois momentos, em duas cidades: Lisboa e o Porto.

Este novo livro-disco infantil Mão Verde avivou-lhe a memória do tempo em que fazia graffiti? Deu-lhe vontade de desenhar também?
Gosto muito de desenhar e de ilustração. Nos meus discos todos, o artwork, normalmente, é composto por ilustração, e nos meus concertos há um ilustrador que desenha ao vivo. Mas tenho noção de que os meus desenhos não têm qualidade suficiente para saírem do caderno. Gosto da colaboração com ilustradores porque é um continuar do imaginário que está nas músicas.


Saiba mais sobre o projeto Mão Verde em Delas.pt


Costuma acompanhar esse processo de perto?
Sim, sim. Sou um bocado control freak. Acompanho todos os processos de perto, às vezes até demasiado. Não digo que interfira de forma a condicionar demasiado o trabalho dos outros, até porque quando convido alguma pessoa é porque confio nela. Tenho alguma dificuldade em delegar, mas que tem mais que ver com o facto de este ser um trabalho autoral. Fazer e escrever música tem muito que ver com intimidade e identidade. As colaborações são boas, porque trazem coisas novas, mas é muito importante que não estejam distantes de nós e cumpram ou completem a nossa visão.

Esse disco-livro, sendo para crianças, levou-a a pensar na maternidade?
Penso nisso há muitos anos, e vou adiando. Aliás, acho que é uma das grandes questões da nossa geração, sobretudo entre as mulheres. Muitas de nós não querem ter filhos, mas a maior parte quer, só que vamos adiando porque temos os nossos projetos individuais, as nossas carreiras, também queremos fazer coisas, viajar, poupar dinheiro para fazer seja lá o que for e vamos adiando.

Sempre quis ser mãe, desde miúda. Não sabia muito bem o que queria ser, mas sabia que queria ter filhos. Por outro lado, gosto muito do que faço e acho que não ia poder ter esta dedicação ao trabalho se tivesse filhos, ia ter de abrandar de alguma forma. A vontade existe, mas ainda não surgiu a urgência.

E se tivesse filhos acha que conseguiria incutir-lhes os pressupostos ecológicos e alimentares que defende no livro Mão Verde?
Não é fácil, porque nunca é fácil educar uma criança, mas não há outra hipótese a não ser ir por um caminho mais verde, porque é uma questão de sobrevivência coletiva. A maior parte das pessoas não tem noção de que a indústria agroalimentar é a que tem a maior pegada ecológica na produção de gases com efeito de estufa, ainda mais do que a indústria automóvel. E muito se deve à produção de cereais para alimentar gado. Fala-se pouco do impacte ecológico. Não é só uma questão de gosto pessoal, é de consciência, e acho que isso vai estar cada vez mais presente na educação das próximas gerações.

Falando em gerações e idades, aos 15 anos fazia graffiti. O que é que costumava grafitar?
Ainda antes de ter o tag de Odd e ser mais ativa no graffiti, escrevia mensagens feministas. Foram as minhas primeiras experiências. Depois assumi esse nome e comecei a escrever Odd, a reproduzir as letras. Entretanto, comecei a fazer caras de bonecas, um bocadinho influenciada pela manga e pela banda desenhada e tudo isso tornou-se um pouco a minha imagem de marca. Quando comecei a interessar-me pelo rap, passei a pintar cada vez menos e a escrever cada vez mais.

Como se deu essa transição do graffiti para o rap?
Comecei a conhecer mais gente que fazia graffiti, que é uma das vertentes da cultura hip hop, e isso levou-me a frequentar festas de hip hop, onde havia concertos de rap, DJ, breakdance. Era onde toda a gente desta cultura se encontrava. E isso fez que começasse a ouvir mais e me interessasse pelo rap do Porto – na altura os Mind da Gap, os Dealema, etc. Continuei a ir aos concertos e comecei a ter vontade de escrever as minhas próprias letras, porque desde miúda que gosto de escrever. Quando encontro o rap, na adolescência, encontro o veículo perfeito para a minha vocação. E depois com trabalho e aperfeiçoamento técnico fui conseguindo domar a minha escrita e transportá-la para a música. Mas foi um percurso de vários anos. Mais a sério comecei em 2004, 2005. Só em 2008 é que fiz uma mixtape sozinha e só em 2012 – quando saiu o primeiro disco – é que saí do nicho do hip hop para um público mais geral.

O primeiro disco foi o grande momento de viragem?
Foi. Já há alguns anos que queria ter tempo para fazer um disco. Como tinha a faculdade, o doutoramento, não tinha tempo para me dedicar a ele. Quando acabei o doutoramento dediquei-me durante uns meses a acabar o disco e, quando estava prestes a terminá-lo, mandei-o para várias editoras com pouca esperança de que alguém quisesse editar, mas o Henrique Amaro, que é o coordenador da NOS Discos – na altura era Optimus Discos –, decidiu fazê-lo. Isso foi uma grande ajuda porque, não sendo uma editora normal, permitiu-me chegar aos meios de comunicação que promovem a música portuguesa em geral, não apenas nos meios dedicados ao hip hop.

Tenho muito orgulho no percurso que fiz, de nicho, mas esse disco de 2012 fez-me chegar a um público mais variado, e isso acabou por ser um marco porque aprendi muito.

O que é que aprendeu?
Aprendi toda a parte de bastidores da indústria da música, e depois muita coisa sobre mim própria porque amadureci imenso desde então. Trabalhei muito, ganhei muita responsabilidade, por ser trabalhadora por conta própria, o que implica gerir os horários, trabalho, dinheiro, investimentos, escolhas e decisões. Isso tornou-me uma pessoa mais madura. E conheço-me melhor também, sou mais decidida, sei o que quero e o que não quero fazer. Nunca pensei em viver da música, porque estava a trabalhar num projeto de doutoramento em Sociologia, e agora é o que faço. Aconteceu isso tudo nestes quatro anos e sou muito grata.

E nessa altura não teve medo de perder o controlo do processo?
Não, porque mesmo trabalhando com uma editora e uma agência, faço o meu próprio managment, tomo as decisões e represento-me a mim própria. E continua a ser um trabalho autoral, que me reflete absolutamente e mantém o espírito inicial, que é divertir-me a fazer isto. Quando sentir que já não me estou a divertir vou fazer outra coisa. Na génese, continua a ser igual. Há é mais trabalho, mas também há mais recompensa: posso trabalhar nisto a tempo inteiro e viver disso.

Ainda se lembra do primeiro rap que escreveu, sobre o que era?
Do primeiro não, mas lembro-me de alguns raps da fase inicial, de 2000-2001, quando fui com o M7 a casa do Mundo, um dos MC [iniciais do hip hop para «mestre-de-cerimónias»] de Dealema, que na altura fazia beats para quem quisesse começar a fazer rap no Porto, e lembro-me de falar desde violência doméstica até coisas mais existenciais e introspetivas, que quase todos os adolescentes escrevem e que caraterizavam muito o rap do Porto na altura.

Foi esse quadro de referências que a levou a interessar-se pela Sociologia?
Sempre fui mais Mafalda do que Susaninha. Interessa-me questionar o que está ao meu redor, falar sobre o mundo, pensá-lo, criticar o que acho que corre menos bem, chamar a atenção para aquilo que me preocupa. Sempre tive esse olhar. A escolha vem de ter querido ir para Ciência Política, mas o meu pai achou que esse curso era muito específico e que Sociologia era mais abrangente. E eu acabei por seguir o conselho dele e ir para Lisboa, estudar no ISCTE. E não me arrependo nada. É uma área em que ganhamos ferramentas e treinamos esse olhar crítico e a capacidade de questionar, de investigar. E desenvolvi também a escrita, porque se escreve muito.

Diz num texto, publicado no livro More Than Loud – Os Mundos Dentro de Cada Som – que foi com o hip hop que criou uma relação estreita com o Porto. Porquê?
Sim, porque comecei a fazer graffiti com 15 anos e foi mais ou menos na mesma altura que comecei a ter liberdade para sair à noite, de mover-me na cidade sozinha. E nesses anos – como acho que acontece com todas as pessoas que fazem graffiti – criei quase uma relação mística com espaços da cidade aos quais a maioria das pessoas nem sequer presta atenção. Porque estamos à procura de paredes para pintar, a ver quem as pintou, ou tentar perceber onde é que há uma torneira para se beber água às quatro da manhã, qual é a primeira padaria a abrir, como é que se vai para o beco que tem uma parede que dá mesmo para a linha do comboio. Essa descoberta fez que me movesse com grande liberdade e intimidade dentro da cidade e me fosse apropriando de alguns lugares como se estivesse em casa. Além disso, nos anos 1990, o hip hop, e o rap, concretamente, era quase o único estilo que fazia a reportagem do que acontecia nas nossas casas, escolas, bairros, cidades. Quase nada era cantado em português, a não ser no rap, e raramente se cantavam as micro-histórias.

Que o rap cantava…
Se ouvirmos o rap dessa altura, da zona de Lisboa, o racismo é um tema muito presente, assim como a vida dos bairros com grandes comunidades de imigrantes dos PALOP e as segundas gerações que viviam naquela dupla identidade. No Porto, também tínhamos o nosso património musical, que falava sobre a nossa cidade, o que nos inquietava, sobre a nossa geração.

E nós, a segunda geração de hip hop no Porto, que cresceu a ouvir todas as bandas fundadoras do hip hop portuense, foi absorvendo muito esse espírito que está muito associado ao da cidade. O hip hop e o graffiti, em particular, fizeram-me gostar ainda mais do Porto.

Essa relação íntima com a cidade foi importante para o projeto Oupa!, em que participou, no bairro do Cerco?
Isso foi um projeto que foi feito a convite da Câmara do Porto, o Cultura em Expansão, de levar arte e cultura aos bairros sociais da cidade. Eu faço parte da equipa de um dos subprojetos, que é o Oupa!, que é uma residência artística que aconteceu no bairro do Cerco, em 2015, e agora vai começar no bairro do Ramalde, e que pretende criar uma oficina de rap, gravação e produção de espetáculos, e eu acho que isso faz parte da missão. A forma como encaro o rap e esta coisa de ser MC é um pouco «incentivar os putos como mandam as leis». E as leis do hip hop mandam transmitir e partilhar as nossas ferramentas com as próximas gerações e acho que esse projeto cria as condições para o fazer de forma muito profissional, muito intensiva também. O projeto do Cerco correu super-bem. Foram ao Rivoli, ao festival Marés-Vivas duas vezes seguidas, tocaram para o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, deixámos um estúdio no bairro e que é gerido por eles. Estamos ansiosos para fazer o mesmo no bairro do Ramalde.

Passando da política local para a nacional. Antes das últimas eleições legislativas fez um post que deixou algumas pessoas surpreendidas com as suas posições políticas, e depois outro com a sua «surpresa» em relação a essas reações.
Claro que surpreende. Primeiro porque não percebo como é que há pessoas que acham que os músicos não têm direito a ter uma opinião política. E vai surpreender-me sempre. E depois surpreendeu-me que pessoas que ouvem a minha música, que me seguem no Facebook, não tivessem percebido que eu tenho uma queda para a esquerda.

Como é que em temas de hip hop, com letras como as suas, isso passa despercebido?
Não sei. Ou as pessoas só conhecem uma música que ouviram na rádio ou não prestaram atenção. Mas surpreendeu-me. Por outro lado, não me surpreendeu criar-se uma polémica, porque todas as semanas há uma polémica no Facebook e mais cedo ou mais tarde havia de ser comigo. De qualquer forma, o mais normal do mundo é os artistas terem opiniões políticas, porque são pessoas que estão atentas ao que se passa à sua volta, que têm espírito crítico e algo a acrescentar ao mundo, e, portanto, que têm cérebro, e as pessoas que têm cérebro, normalmente, têm opiniões.

Nesse post disse também: «Há muita gente que ainda acha que o PS é um partido de Esquerda!?! (Gostava muito que isso se verificasse, mas não é o que tem parecido nos últimos muitos anos).» Como vê agora esta solução de governo PS com o PCP e o Bloco de Esquerda?
Penso que é uma solução que, não sendo perfeita, pelo menos tem contribuído para devolver algumas das coisas que foram retiradas, para não dizer roubadas, a muitas famílias portuguesas que viveram com muita dificuldade nos últimos anos. Já viviam antes e ficaram ainda pior. Se esta geringonça serviu para devolver alguma dignidade a estas famílias, acho que já foi muito positivo. Obviamente, ainda há muita coisa para fazer, mas isso também passa por repensar o projeto europeu. Há muito para fazer e discutir, não só no plano nacional mas em relação ao que se passa na Europa.

Continuo a querer conservar a missão de que ainda podemos ir mais longe naquilo que é a dignidade das famílias em Portugal. Num país em que temos o salário mínimo que temos, as pessoas trabalham tantas horas e enfrentam tantas dificuldades, há muito trabalho a fazer.

Costuma discutir essas questões com o ministro do Ambiente, que é seu primo?
Não costumo discutir isso com ele, até porque não temos estado muito juntos ultimamente.

Mas eram questões sobre as quais costumavam falar em reuniões de família?
Normalmente, quando estamos juntos, falamos de outras coisas, de livros, contamos histórias de família e, sobretudo, matamos saudades. Às vezes, como acontece também entre amigos, fala-se disso. Mas nos últimos anos falar de política em Portugal tornou-se, infelizmente, mais difícil porque há mais crispação, há mais problemas também. Há uma irritação latente. Por isso, quando estamos com pessoas com quem não estamos habitualmente é melhor falar de outras coisas [risos].

Ser de esquerda não a impediu de reconhecer publicamente o trabalho do vereador Paulo Cunha e Silva, entretanto falecido, no impulso cultural que deu ao Porto. O investimento do atual executivo, nessa área, pode contribuir para uma sociedade mais inclusiva?
Acho que sim. O projeto Cultura em Expansão é exemplo disso e durante a governação Rui Rio não foi feito o suficiente nessa matéria. Espero que continue a manter-se a visão que o Paulo Cunha e Silva deixou para a cidade do Porto, a nível cultural, especificamente em termos de cultura ligada à inclusão social. Não é à toa que aquele projeto era a menina dos olhos dele. Há um antes de Paulo Cunha e Silva e um depois de Paulo Cunha Silva.

O Porto, tal como Lisboa, está com um grande movimento turístico. Paralelamente, há espaços emblemáticos a serem intervencionados, como o Mercado do Bolhão, no Porto. Acha que vai manter as suas caraterísticas ou transformar-se num produto turístico?
Estamos num momento crucial para definir os limites e a forma como queremos orientar o crescimento do turismo nas cidades de Porto e Lisboa, e acho que isso passa muito por defendermos aquilo que é património humano da cidade. Deixar que as pessoas continuem a habitar a cidade será sempre melhor do que ter uma cidade que é um cenário para turistas. Isso passa por manter o Bolhão e outros espaços como esse, evitando que se descaraterizem e tornem iguais aos mercados de Barcelona e Madrid.


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Recusa a ideia de o hip hop ser misógino ou hostil para as mulheres, apesar de eminentemente masculino, e diz que isso é um preconceito dos media. A que se deve esse preconceito?
O que eu digo é que não é especialmente misógino nem especialmente masculino, se comparado com o rock, o punk, o reggae, a eletrónica… Nem digo que não haja muito trabalho a fazer, que não haja machismo e misoginia no hip hop, não o acho é mais do que outras tribos urbanas e outros estilos musicais. Essa ideia vem do rap americano, que se disseminou no mundo dessa forma a partir da moda do gangsta rap, no princípio dos anos 2000, com artistas como o 50 Cent e videoclipes com mulheres seminuas, carros e bling-bling [jóias e brincos usados pelos rappers]. Mas o rap é muito diverso e tem muitos subgéneros. Enquanto o gangsta rap estava em alta, havia muito rap interessante a acontecer também nos EUA, com o Mos Def ou o Common. De certa forma, esse rap mais mainstream também acabou por descredibilizar o hip hop como movimento e ferramenta de expressão da comunidade afro-americana.

As suas letras abordam muito a questão da igualdade de género. Isso tem mais que ver consigo ou com o sentir que fazia falta esse lado no hip hop?
As duas coisas. Faz falta no hip hop e em geral. Enquanto mulher isso sempre foi uma preocupação, desde que me lembro de tomar consciência política, na pré-adolescência. E sempre foi um tema que me preocupou para lá da música. Faria sentido que fosse espelhado na música, sobretudo num contexto em que sou uma minoria e uma minoria visível. Quase que há uma obrigação associada. Seria estranho que não focasse esses assuntos e fizesse música a partir daí.

Diz que há uma multiplicidade de subestilos e temáticas no hip hop nacional. Como é que num país tão pequeno existem tantos fenómenos distintos?
Não é só no nacional, o hip hop é em si muito diverso. Mas disseminou-se no mundo inteiro com uma apropriação local, que faz que seja diferente em cada cidade e as próprias linguagens estéticas que o rap inclui permitem essa diferenciação.

Dependendo das gerações, das modas, das cidades e das influências e referências de cada sítio, vai-se fazendo rap de maneira diferente. Por isso, temos em Portugal um conjunto muito diverso de subgéneros. E o rap cresceu muito a esse nível e em termos de público. Hoje, há pessoas de outras tribos que também o ouvem.

E a Capicua encaixa-se em algum estilo de rap em particular?
Não. Se tivesse de escolher, podia dizer que gosto dos beats mais clássicos dos anos 1990, e que faço o chamado rap consciente, que é mais engajado com os problemas sociais, mais político, mas às vezes também me apetece entrar pelo rap competitivo e trabalhar a punchline.

Para esse rap consciente contribui a música de intervenção com que cresceu – Fausto, José Mário Branco, Sérgio Godinho, José Afonso?
O facto de ter ouvido esses músicos fez que, primeiro inconscientemente, e hoje conscientemente, a palavra e a música estivessem sempre associadas. Para mim não é estranho que a música contenha a palavra não só como objeto estético, mas como veículo de discurso. Desde a primeira infância que oiço música que é veículo de mensagem e que se posiciona. E nesse sentido, sim, acho que me marcou.

Da mesma forma que o rap hoje chega a outras tribos, estilos africanos como a kizomba ou o kuduro estão fora dos bairros, mais disseminados pelos diversos estratos sociais e geografias do país. Isso pode vir a refletir-se numa maior inclusão social?
Acho que não acontece assim. Apesar de mais pessoas ouvirem kizomba ou kuduro, e não ser só a comunidade africana como há uns anos, as distâncias continuam a existir. Vivemos num país onde ainda há muito racismo e barreiras que vão travando a mobilidade social das pessoas.

Falta a palavra?
Falta fazer que as pessoas consigam ter acesso à palavra. Falta corrigir as assimetrias, porque esta ideia neoliberal de que a meritocracia funciona magicamente seria muito bonita se toda a gente partisse das mesmas condições sociais, o que não é verdade. E história prova-nos isso. Passaram 40 anos, mas há muita descolonização para fazer. Basta ir aos subúrbios de Lisboa para perceber isso: quem é que mora cada vez mais longe, quem é que mora cada vez pior e tem os trabalhos mais precários, mais mal-pagos e inseguros.

Ainda há muitas «mulheres do cacilheiro » [A Mulher do Cacilheiro faz parte do segundo LP, Sereia Louca]?
Sim, muitas. E nos últimos anos, com a austeridade, com toda esta asfixia social, esta chantagem do euro, muitos problemas agravaram-se. As pessoas passaram a viver pior, e isso sente-se, sobretudo, nas camadas mais desprotegidas.

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