OPINIÃO

Brinquedos muito à frente

A tecnologia portuguesa ao serviço das brincadeiras das crianças.

Natal que se preze tem crianças felizes e presentes giros, mas o futuro está a substituir a tradição. Há blocos de madeira que interagem com ecrãs. Há robôs e macacos inteligentes. Há impressoras 3D cujo limite é a imaginação. E o melhor: tudo com tecnologia portuguesa. O Pai Natal só tinha a ganhar se trocasse as renas por drones.

Todos os anos, por esta altura, a incerteza abala o sistema nervoso de Rafael Lopes. Os pais recomendam‑lhe muita calma, a vida não está para grandes gastos. Mas se há coisa que deprime um miúdo de 11 anos é antever cuecas no sapatinho, quando o que ele queria mesmo era um robô. «Pedi três brinquedos tecnológicos aos meus pais, numa carta de Natal que lhes escrevi em novembro, para ver se consigo receber pelo menos um», diz o garoto, eufórico com a quadra. Os pedidos incluem um drone e uma impressora 3D, além do robô. «Pode ser que tenha sorte neste ano. Nem me portei muito mal.» Quem lhe dera que os pais também se alvoroçassem com estes brinquedos tão à frente.

«Poderem experimentá‑los, brincar com eles, faz toda a diferença no desenvolvimento do raciocínio e da produtividade. Hoje, sabe‑se que a aprendizagem se processa mais rapidamente assim do que pelo método clássico de ensino», diz André Almeida, engenheiro informático e cofundador da Artica, uma empresa do Monte de Caparica especializada em tecnologias emergentes e interativas. «Brincar é essencial para o desenvolvimento infantil, vejo isso no meu filho de 6 anos. Embora depois seja difícil encontrar brinquedos que o estimulem por mais do que uns minutos», confirma Guilherme Martins, designer e o outro fundador da firma de creative computing. De repente, fazia‑lhes sentido aproveitar o jeito das crianças para mexer em smartphones. E iniciá‑las logo em princípios de programação. Porque não? Então, criaram Gyro, o robô.

«Tem uma série de sensores: giroscópio, acelerómetro, deteção de linha e cor, muito usada na robótica industrial. Uma antena para comunicação sem fios e microfone. Luzinhas para expressar emoções e potencial para muito mais», explica Guilherme, rendido ao benjamim da Artica. Estão agora a desenvolver uma aplicação que permite ao robô desenhar com caneta, sobre um papel no chão, qualquer traçado que o utilizador ordene no telefone. E fazê‑lo reagir a gestos, sons, cores, luzes. «Andamos de volta do Gyro há dois anos e imaginamos sempre mais detalhes para otimizá‑lo. A nossa ideia é torná‑lo um brinquedo educativo quase interminável, que potencie o pensamento estruturado nesta base da eletrónica, da robótica e da programação, competências fundamentais no século XXI.»

Até aos 8 anos, os mais pequenos podem usar o smartphone ou tablet para brincar com o robô: acionam os comandos no visor e o Gyro responde. Dos 8 aos 15 anos serão capazes de fazer e partilhar os seus próprios conteúdos online na Gyro Creator, uma ferramenta visual de programação para a plataforma Arduino, concebida para trazer a eletrónica a público fora das áreas das engenharias. «Seguem‑se as universidades, com paradigmas de robótica profissional.» Para já, a Artica ainda só comercializa o protótipo do Gyro desde o início do ano. Em artica.cc, um robô sem carapaça custa 200 euros; 250 euros o de carapaça termomoldada, mais simples; 350 um com a carapaça feita em molde de silicone. Em meados de 2017 gostavam de vendê‑lo em grande escala como produto acabado, user‑friendly, abaixo dos 200 euros, com todos os conteúdos afinados e nenhuma das imperfeições de algo feito à mão (que ninguém nota, de resto, exceto eles). E terão outros brinquedos do género a seu tempo, avisam.


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«Para os adultos, a tecnologia parece sempre mais difícil do que é na realidade», desdramatiza Duarte Vasconcelos, da Blocks Technology. Logo que se atrevem a testá‑la, divertem‑se tanto como as crianças. Sobretudo se se trata de criar coisas tridimensionais na Blocks Zero, uma impressora 3D tão pequena como uma máquina de café, à venda desde 24 de novembro em www.blockstec.com. «O único problema é responder para que serve a Zero, porque dá para fazer tudo – de porta‑chaves e objetos decorativos a peças de engenharia ou arquitetura.» E brinquedos? «Isso nem se fala!» A própria Zero é aquilo a que Duarte chama um «Lego técnico» de 350 euros (será mais barata durante a campanha de crowdfunding no Indiegogo até ao fim do mês). Vem, inclusive, num kit à prova de asneira para cada um montar a sua em duas horas.

«No ano passado lançámos a Blocks One, de nível intermédio. Acima dessa temos a Custom, superprofissional, à medida do cliente. E esta é a porta de entrada que vem democratizar a impressão 3D, mini no tamanho e no preço», diz. Até a história de como tudo começou parece brincadeira: Duarte é piloto, não gostava de certos instrumentos de voo, queria soluções para desenvolver os seus. Então descobriu a impressão 3D, comprou uma impressora e um workshop – dado por Alexandre Guerreiro, que hoje desenha as Blocks – e juntos fundaram a sua empresa em janeiro de 2015. Tiago Rocha é o terceiro elemento em full‑time, responsável pelo software das máquinas produzidas de raiz nas instalações da Blocks Technology, em Benfica.

Educar o consumidor e o mercado é a parte complicada. Fazer, pelo contrário, é canja, garante Alexandre. «A tecnologia já não é tão recente, mas parece‑nos que as pessoas ainda têm medo disto.» Duarte concorda: «Escolhe‑se o filamento na cor e material que se quer. Uma bobina simples de um quilo custa cerca vinte euros e há‑as aos montes na internet e numa loja em Lisboa, a LEDs&Chips». Depois chega a um software de modelação 3D, desenha a peça ou vai buscá‑la a uma das inúmeras bases de dados mundiais (no Thingiverse e no Tinkercad há milhares de brinquedos que se pode imprimir por inteiro ou às peças consoante o tamanho). «Faço o download, passo para um software de slicer que me corta a imagem em fatias e a transforma num código especial que configura a impressora numa série de parâmetros. Aí ela imprime camada a camada até criar o objeto.» Tão simples e «espicaçante» que já viu miúdos de 10 anos a saberem usar software de modelação profissional como gente grande.

Por norma, quando estimulamos a apetência das crianças para o digital sem perder de vista o mundo físico, os resultados são surpreendentes, sublinha Hugo Ribeiro, da Magikbee, uma start‑up nascida em Braga em 2015. Via as filhas de 3 e 9 anos coladas ao tablet e questionava‑se: por onde andariam os cubos de antigamente? Como pai, o que podia fazer? «Acabei por conhecer o Pedro Branco, investigador na Universidade do Minho em tecnologia interativa para educação, e fizemos o Magik Play, um kit de brinquedos de madeira que comunicam com o iPad em três jogos.»

Há o Hidden Shape (a partir dos 2 anos) para identificar formas; o Dino Blocks (maiores de 3) com uma lógica de criar construções; e o Runaway (mais de 4 anos), apelando à destreza física. Tudo à venda na Amazon do Reino Unido desde novembro por cerca de 50 euros. «A nossa tecnologia joga com ímanes no interior das peças, detetados pelo magnetómetro do iPad. São as distorções no campo magnético que acionam os conteúdos.»

Por esta altura, Rafael Lopes esfrega as mãos de contente com tantas novidades espetaculares. «Então e drones?», pergunta, esperançado. Existem na chamada linha tech da Science4you (a empresa de Miguel Pina Martins), a par de tablets, câmaras, headphones e outros brinquedos tecnológicos. O único português entre eles, porém, é o Smart Monkey, um macaco de peluche inteligente desenvolvido em 2015 para crianças a partir dos 3 anos.

«O conceito, o design e a app do boneco são nossos, e basicamente funciona através de uma ligação Bluetooth aos smartphones (iOs ou Android), emitindo som através das colunas internas», revela Maria Marreiros, da comunicação da marca. A aplicação gratuita ajuda a aprender os números, as letras, as cores, ouvir músicas infantis, histórias tradicionais, gravar sons. E sim, os pais também podem brincar com ele. Custa 39,99 euros nas lojas físicas e online (brinquedos.science4you.pt). Já para não dizer que mete quaisquer ursinhos de peluche a um canto.

CATÁLOGOS EM PAPEL? ISSO JÁ ERA

Natal que é Natal envolve prendas, e as prendas fazem mais sentido com crianças por perto. Mas nunca na hora de comprar brinquedos, garantem os pais que já se atreveram a levar os miúdos ao hipermercado para escolher os seus. Com tanta tecnologia a simplificar as nossas vidas, nem se justifica o pesadelo. Isso mesmo pensou Rui Gouveia, engenheiro informático e CEO da Build Up Labs (builduplabs.com), em Lisboa. Achava que a indústria dos brinquedos tem sido lenta no processo de digitalização do negócio na vertente mobile e então idealizou a ToyToy, uma aplicação que vem modernizar os catálogos típicos da quadra (este conta cinco mil brinquedos e está atento aos lançamentos semanais).

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«Uma dificuldade para quem tem filhos é escolher prendas, recomendá‑las a familiares, partilhar sugestões e até ver a lista de brinquedos selecionados pelos nossos amigos do Facebook», explica. A ToyToy – disponível gratuitamente para iPhone e Android nas respetivas lojas de apps – faz tudo isto e muito mais, incluindo aprender os interesses de cada utilizador para sugerir produtos relevantes. «Inspiramo‑nos na experiência de interação do Tinder [uma app de encontros]: é mostrado um produto de cada vez e o utilizador desliza para a esquerda se não lhe interessa ou para a direita se gosta, integrando a lista de desejos.» Além de Portugal, a ToyToy entrou em força nos EUA, cujo mercado de brinquedos gerou 24 mil milhões de euros só em 2015.

Ana Pago