OPINIÃO

Bom dia

[…]

Que estas palavras, desta vez, não sejam apenas uma repetição, sílabas monótonas, gastas pelo tempo passado à espera de serem utilizadas, às voltas no bolso, entre chaves e moedas. Que estas palavras, desta vez, não sejam apenas boa educação e protocolo, burocracia, V. Exª em papel timbrado, envelope comercial, selos fiscais. Que estas palavras sejam um brilho quase impercetível, uma nitidez a contornar os objetos, que sejam esperança a facilitar todos os gestos, a aligeirar todas as ideias. Sim, que este seja um dia leve, as decisões a deslocarem-se como aragens, silêncio que prescinde de ser nomeado mas que está lá, por baixo ou por detrás de tudo, necessário, imprescindível.

cronicazlp_img_8252_Desejo que o tempo deste dia flutue, que seja respirado como ar limpo, ar que sacia até as sedes mais áridas. Desejo que este dia seja como a memória que tens dos melhores dias, aqueles que agradecerás sempre. Ainda bem que viveste esses dias, datas tatuadas, ainda bem que tens este dia para viver. Olha em volta, anima-te de simetria, reconhece neste mundo a sua própria presença, a tua própria presença. Hoje, agora, o mundo e tu existem ao mesmo tempo, são inseparáveis. Cada um dos teus propósitos transporta o mundo. Contigo, seguirá numa ou noutra direção e, repara, esse é o único mundo, não conhecerás outro.

Por isso, desejo que estas palavras sejam como um feitiço, que se realizem pela força da minha vontade, até naquilo que não sou capaz de definir e que não é mais do que uma nuvem, uma multidão baça, um sentimento. No fundo, é apenas esse indefinível que importa, a boa vontade, o bem-querer. É essa força que faz bulir todas as peças do mecanismo que, depois, dá ânimo ao mundo, a ti, a mim. Mesmo quando é invisível, quando se sente menos do que um sopro, há uma lógica mecânica no movimento e, não há como negá-lo, tudo está em movimento permanente. Até estas palavras, estas mesmo ou as palavras simples com que te desejo bem, estão em movimento. Deslocam-se no tempo, como numa estrada, como através do vento.

Também este dia será um caminho. Atravessarás este dia e, da mesma maneira, este dia irá atravessar-te. Não há maneira de evitar esse compromisso. A vida é uma responsabilidade que nos consome. Há sempre uma certa medida de erosão em cada dia. Os instantes, todos eles, são gotas de chuva sobre basalto. Esta certeza não tem de ser triste. Aquilo que te desejo não é o contrário disso. Inevitavelmente, este dia levará um pedaço de ti que nunca mais devolverá. Aquilo que te desejo é que essa troca valha a pena. Também tu levarás um pedaço deste dia contigo, memória ou cicatriz.

Mas agora ainda estás aqui, ainda tens este dia pela frente, ainda está agarrado à pele. Para lá dos vestígios e das expetativas, há este ponto preciso onde estás e onde nos cruzamos.

Bom dia.

Que estas palavras, desta vez, não sejam apenas sons que aprendemos. Que estas palavras, desta vez, não sejam apenas a coincidência de estarmos aqui ao mesmo tempo. Que estas palavras sejam o oposto do medo, fenda por onde entra a luz do Sol, contorno resplandecente de qualquer coisa imperiosa, que sejam uma catedral, uma sinfonia, que estas palavras sejam amor, que sejam apenas amor, e que eu não sucumba ao embaraço de dizê-las, e que tu as aceites em todo o seu tamanho.

(Fotografia de José Luís Peixoto)

[Publicado originalmente na edição de 23 de outubro de 2016]