OPINIÃO

As minhas musas brasileiras

O escritor Bruno Vieira Amaral revisita trinta anos de televisão em Portugal, através das atrizes brasileiras e das telenovelas que fizeram as delícias de um país inteiro.

O escritor Bruno Vieira Amaral revisita trinta anos de televisão em Portugal, através das atrizes brasileiras e das telenovelas que fizeram as delícias de um país inteiro. Um ensaio pessoal de memórias de infância e adolescência, com mulheres deslumbrantes e personagens inesquecíveis que se cruzam com clássicos da literatura e de Hollywood, na época dourada das décadas de 1980 e 1990 em que os sonhos atravessavam o Atlântico e entravam em nossas casas pela televisão.

REGINA DUARTE
Aos 10 anos, os encantos femininos da viúva Porcina – a mais célebre encarnação de Regina Duarte – escapavam‑me. Para se apreciarem as suas virtudes peculiares – a fogosidade, a extravagância, a ambição – era necessária uma maturidade que eu não tinha e, de entre os meus colegas de então, talvez apenas o Rogério tivesse. Ele tinha a nossa idade, mas a voz era grossa, já a primeira penugem lhe enfeitava o rosto e calçava o quarenta. Era o único que falava sobre a viúva com alguma malícia. Os gritos para chamar a empregada («Minaaaaaaa!»), a diplomacia dengosa de que se servia para acalmar Sinhozinho Malta, a incapacidade de dissimular a perturbação quando Roque Santeiro se aproximava dela, compunham um cardápio de manhas, astúcias e fraquezas que só muito mais tarde seríamos capazes de estimar devidamente. Enquanto esse tempo não chegou, Regina Duarte permaneceu na nossa imaginação como aquela presença explosiva e teatral, tão depressa ávida como logo de seguida lânguida, sensualmente deitada na rede a relembrar paixões antigas. Quando li Cem Anos de Solidão reencontrei-a na personagem cujo riso espantava as pombas, Pilar Ternera de seu nome, a mulher que garantia a fecundidade dos animais de Jose Arcadio. Porcina era esse género de mulher capaz de desassossegar os animais, de abalar o equilíbrio do mundo, de pôr o temível Malta a latir como um cachorrinho (seria Porcina na verdade uma dominatrix de turbante tropical?). Mentes infantis só podiam atribuir essa capacidade à voz estridente, às roupas de cores garridas à Cármen Miranda, aos modos esdrúxulos, por vezes grosseiros. A sexualidade cataclísmica, apenas sugerida, não estava ao nosso alcance. Depois de Roque Santeiro, Regina Duarte apareceu na televisão portuguesa como Joana, numa série do mesmo nome, em que desempenhava o papel de uma jornalista de causas. Era difícil acreditar que se tratava da mesma mulher, como se depois da abrangente Porcina não restasse qualquer espaço na nossa memória para registar uma nova encarnação. De certa forma foi isso que sucedeu. Regina ainda é a falsa viúva Porcina.

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MARIA ZILDA
Pode alguém ser só a voz? Pode. Alguém é Maria Zilda Bethlem (o Bethlem, que complica, só veio depois). Dizia-se o nome e já se ouvia a voz rouca, de cama desarrumada, que não deixava dúvidas. O cabelo e a maquilhagem muito anos 1980, risco ao meio (o de Margarida Marante era o mais solenemente lascivo) e brushing, sombras lilases nas pálpebras, dentes imperfeitos. Maria Zilda falava e dizia cama, respirava e dizia cama, movia-se e dizia cama, chão, sofá, banheira. Roberto Carlos tinha aquela canção, também muito anos 1980, permanente e sombras lilases, da Cama e Mesa, e a minha cabeça ilustrava cada estrofe com o corpo de Maria Zilda, era dela o corpo que a toalha ia cobrir, etc, etc. Naqueles anos, toda a cultura popular – das séries aos filmes, das canções à literatura, do teatro ao telejornal – era um tanto soft-porn, toda a sociedade parecia concebida para culminar no Orquídea Selvagem. Maria Zilda é, para mim, o apogeu dessa tendência que, temo informar-vos, apenas eu vislumbro. Em Vereda Tropical ela era a paixão do jogador de futebol, Luca (desempenhado por esse adorável canastrão que é o Mário Gomes). Nem me recordo do nome dessa personagem nem de qualquer outra que Maria Zilda tenha desempenhado. Ela é que era o verdadeiro ícone, a imagem que apagava qualquer possibilidade de representação. Eu pagaria para ver Maria Zilda ser Maria Zilda. Mesmo agora, mais velha e desambientada dos anos 1980 onde encaixava tão bem. Bastava que a voz ainda fosse a mesma. Aquela voz.

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TÁSSIA CAMARGO
Os poucos que se recordavam de Tássia Camargo diziam-me que tinha envelhecido mal. Para tirar as minhas conclusões fui ver uma entrevista recente. Tássia não envelheceu mal. Envelheceu. Aos 55 anos tem rugas, papada e é baixinha. Baixinha sempre foi, mas agora nota-se mais. Já não é a menina que mereceu três capas da Playboy e que, nessas múltiplas encarnações, terá ajudado uma geração de jovens pouco imaginativos a suavizar os rigores dos prazeres solitários. Hoje já não parece estrela da televisão, antes a vizinha com quem nos cruzamos nas escadas do prédio. Tássia, trinta anos depois do auge, tem qualquer coisa de 2º esquerdo. Porém, é curioso constatar que essa beleza acessível, familiar, era o encanto da sua personagem mais famosa, a Elisa da telenovela Tieta. Com os seus vestidinhos de cambraia, o chinelar despreocupado e nordestino, os olhos meigos e famintos, Elisa pedia-nos que a resgatássemos da sua vidinha medíocre, de mulher condenada a um marido que esgotara a pujança viril na juventude. Como uma Ema Bovary de Santana do Agreste, Elisa desejava galãs inalcançáveis, sonhava com vidas impossíveis e todos os dias acordava com a enfadonha realidade de um triste Timóteo. E essa discreta chama de desejo a que o marido era insensível convocava-nos para a adoração daquela mulher. Olhando para o rosto de 55 anos de Tássia ainda se vislumbra alguma da vitalidade que animava Elisa. O que significa que para nós, eternos admiradores, o melhor de Tássia Camargo não envelheceu.

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ADRIANA ESTEVES
No seu primeiro papel de relevo em televisão, a Marina Batista da telenovela Pedra sobre Pedra, Adriana Esteves reservou bilhete para uma temporada inteira como namoradinha do Brasil. Mais bonitinha do que sensual, mais afetuosa do que lúbrica, vivia uma paixão estilo Romeu e Julieta com Maurício Mattar, os filhos de duas famílias rivais. Além dos impecáveis e decentes atributos físicos que se desejam para uma nora, a personagem também envergava muito apreciadas vestes morais porque, ao contrário do que o ambiente de ódio familiar poderia sugerir, tinha moderadas ambições políticas, sentido ético e vergonha na cara. Adriana estava a um passo de se tornar enjoativamente certinha, inspiradora como Madre Teresa de Calcutá, desejável como a irmã Lúcia. Felizmente, houve Renascer. Na telenovela escrita por Benedito Ruy Barbosa, Adriana foi Mariana, uma Lolita vingativa, menina-mulher baiana que acabava por se apaixonar por um homem mais velho, António Fagundes, a quem chamava, para horror das massas moralistas, de «painho». De Marina a Mariana, a mudança foi maior do que uma solitária letra. A personagem-limite que se passeava impudicamente junto dos abismos do incesto e da pedofilia, víbora de sensualidade perversa, teve os seus custos para a atriz. Mais tarde, Adriana reconheceu que lhe faltava maturidade para lidar com a exigência e a complexidade da personagem. Não faz mal. Nós agradecemos o sacrifício em nome das imagens inesquecíveis da sua falsa ingénua.

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MAITÊ PROENÇA
Em conversa sobre divas fundamentais com o meu sobrinho, falei de Maitê Proença. A memória do rapaz só conseguiu recuar meia dúzia de anos para mencionar aquele desimportante vídeo dos supostos insultos de Maitê à nossa pátria e monumentos. Bocejei. É preciso ter piedade de quem só conhece a Maitê turística e ignora a outra, quase medieval, dos tempos de Dona Beija em trajes de Lady Godiva montando um cavalo no terreiro em frente da casa grande. Os mais novos que corram para o YouTube e finalmente percebam a razão da existência desse reservatório infinito de vídeos olvidáveis: manter a Maitê de 20 anos à distância de um clique. Dona Beija era uma produção da Rede Manchete e ainda hoje isso se nota. Mas nem os pobres valores de produção atenuavam a beleza de Maitê. Para os meus padrões, não tanto quanto Bruna Lombardi, cuja beleza era para mim o que o conceito de monoteísmo seria para um canibal polinésio: a perfeição impensável, abstrata. Então havia Maitê, um pouco mais terrena, mais semideusa e mesmo quando excessivamente magra, como na telenovela Felicidade, sempre com aqueles olhos azuis que hipnotizavam, ora ternos ora perturbados. Porque, e tentei explicar isso ao meu sobrinho, ao contrário de certas belezas pacíficas, unânimes, a de Maitê feria, como se nos pedisse para não nos aproximarmos demasiado. O sobrinho achou esta digressão um tanto esotérica e para limpar o ar que ficara pesado incorreu num louvor ditirâmbico a uma Taylor Swift, que desconheço.

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GIONANNA ANTONELLI
Os meus momentos de desilusão e desgosto com as minhas musas brasileiras não eram quando se sabia de uma relação com um colega das novelas ou quando se anunciava uma lista de namorados mais extensa do que a dos convidados para a coroação do rei Felipe VI. Eu sofria quando, ao folhear uma TV Guia, ficava a saber que fulana de tal se preparava para viver com um latifundiário gaúcho ou que aquela diva tão apetecível se casara responsavelmente com um magnata dos cimentos ou com um neurologista de apelido alemão. A endogamia artística acabava por ser natural e, de certa forma, vantajosa para o espetador. É que ao marido ator não ocorreria trancar a mulher numa mansão em Angra dos Reis ou condená-la a uma reclusão financiada pelo capitalismo numa penthouse carioca com vista para a baía de Guanabara. Já os maridos provenientes de outras áreas de negócio, sobretudo os ricaços ciumentos, podiam ter a tentação de furtar as mulheres à contemplação alheia, impondo-lhes uma dieta televisiva ou aconselhando-as a atuar de burqa. Daí que a ligação da belíssima Giovanna Antonelli com o ator Murilo Benício, apesar de ter depositado no meu coração uma semente teimosa de rancor contra o rapaz, tenha sido muito menos ameaçadora do que os sucessivos relacionamentos da eterna Capitu (não a de Machado de Assis, mas a de Manoel Carlos) com «empresários », esses arqui-inimigos do espetador mortal e babado. Felizmente, nenhum deles foi capaz de nos roubar Giovanna. Ela continua por aí, bela e longinquamente nossa, como sempre.

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ALESSANDRA NEGRINI
Em 1995, a Globo produziu a adaptação televisiva do romance de Nelson Rodrigues, Asfalto Selvagem, mais conhecido pelo subtítulo, Engraçadinha: Seus Amores e Seus Pecados. Cláudia Raia, a Ninon de Roque Santeiro, a bailarina da coxa grossa de A Rainha da Sucata, foi Engraçadinha na segunda parte da história, adulta, evangélica reprimida em luta contra a sua natureza. Mas quem roubou a série foi a jovem Engraçadinha, fatal, incontrolável, trágica, sabida. Essa menina voraz era Alessandra Negrini. Negrini foi uma Engraçadinha tão completa que é difícil pensar na personagem e não ver a atriz e ver a atriz e não pensar na personagem. A carreira prosseguiu com sucesso mas nunca tão inesquecível quanto naquele momento definitivo. Por muito que um ator trabalhe, sabe que ao chegar ao fim da carreira esta resumir-se-á, na memória dos admiradores, a quatro ou cinco grandes papéis. Sorte ou maldição, Negrini viveu um desses desempenhos logo no início da carreira. A combinação da música do genérico – triste e violenta – (Adiós, Nonino, de Astor Piazzolla; em jeito de curiosidade diga-se que a música, uma elegia em memória do pai, foi composta em Nova Iorque, em Outubro de 1959. Nesse mesmo ano, em Agosto, foi publicado no jornal Última Hora o primeiro dos 112 capítulos de Engraçadinha) com o enredo – sórdido e romântico – e uma Engraçadinha vulnerável e inquietante foi um daqueles raros momentos alquímicos da televisão. Todos os elementos no lugar certo e, a reinar sobre eles, musa improvável, Alessandra Negrini.

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MARÍLIA PÊRA
Na primeira vez que a vi, Marília era Rafaela Alvaray, na telenovela Brega & Chique (aquela do genérico «Pelado, pelado, nu com a mão no bolso») e desempenhava tão bem o papel de socialite caída em desgraça que eu pensava que ela não pertencia ali. Ali não era o bairro para onde a personagem se tinha mudado. Ali era a telenovela, a televisão. Marília não era dali. Parecia maior do que tudo à sua volta: diferente, arrojada, extravagante e com o ennui dos privilegiados todo na voz. Os penteados assimétricos de Rafaela tornaram-se moda e quando penso no rosto de Marília Pêra é assim que o vejo, enquadrado pelos cabelos mais longos de um lado, mais curtos do outro, dignificando o seu nariz imperial, de Cleópatra, uma marca tão pessoal como uma assinatura. Só agora, depois da sua morte, em dezembro, descobri que, na adaptação d’O Primo Basílio que a Globo fez em 1988, Marília foi a detestável Juliana Couceiro Tavira. Estava convencido de que essa Juliana tinha sido representada por Joana Fomm (talvez influenciado pela sua Perpétua, da telenovela Tieta) e sou incapaz de pôr a cara de Marília Pêra no corpo da personagem de Eça de Queirós. A não ser na paixão lúbrica pelas botinas. Marília não podia ser a Isca Seca, a virgem amargurada, a criada biliosa, mas podia ser a mulher que deseja com ardor um par de botinas elegantes e luxuosas para o seu pé pequeno, perfeito. Juliana? Não. Rafaela. Sim, Marília.

A GRANDE ARTE ELETRODOMESTICADA
Yvonne de Carlo, Joan Fontaine, Hedy Lamarr, Eleanor Parker, Lana Turner, Jane Russell, Ava Gardner, Marilyn Monroe: quando ouvimos estes nomes ergue-se na nossa memória um império de sonho e melancolia. Ainda que não nos lembremos dos rostos sabemos que aqueles nomes são património imaterial da humanidade, tesouros partilhados. Sorte a daqueles que as viram nas antigas e majestosas salas de cinema, templos onde a sua divindade era inequívoca. Quando eu era pequeno, esses tempos já tinham passado. Foi num resistente televisor a preto e branco que conheci a Dalila de Hedy Lamarr, a dupla diamantina Monroe & Russell e a múltipla Eleanor Parker, por cujo nome, e apenas pelo nome, me apaixonei numa tarde de domingo em que a vi ao lado de Charlton Heston a fugir de formigas devoradoras. A grande arte tinha sido eletrodomesticada. (Na verdade, os filmes e as divas continuavam grandes, os ecrãs é que tinham encolhido.) Em compensação, o democrático pequeno ecrã promovia as beldades das telenovelas brasileiras às alturas das divas do cinema: Tônia Carrero (que citava Casablanca no final de Sassaricando, em que falava do princípio de uma bela amizade. Casablanca que também era citado no final de Roque Santeiro); Yoná Magalhães (guru da boa forma e que, aos 50 anos, posava para a Playboy), Cássia Kiss (que, para escândalo das revistas, beijava uma mulher numa peça de teatro), Susana Vieira (que, para escândalo das revistas, tinha casado com um homem mais novo do que o filho dela), e Betty Faria, Giulia Gam, Malu Mader, Glória Pires, Mayara Magri, Luiza Tomé, Christiane Torloni, Cláudia Raia, Lídia Brondi, Cristiana Oliveira, e tantos, tantos nomes cujo som cristalino das sílabas musicais inspirava paixões eternas que duravam os seis meses de uma telenovela. Nessa época, as músicas do genérico silenciavam as plateias familiares, religiosamente sentadas à hora sagrada da ficção. Desses tempos restam as recordações de beleza.

Bruno Vieira Amaral
Fotografias cedidas pela Globo