OPINIÃO

As más companhias

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Consta que Diógenes de Sinope, o mais excêntrico dos filósofos da Grécia Antiga, vivia dentro de um barril e andava com uma lamparina acesa em pleno dia – para tentar encontrar um homem verdadeiro. A tarefa, porém, assumiu dificuldades inesperadas. O homem verdadeiro teria de ser simultaneamente virtuoso, honesto e autossuficiente, animal pelo menos tão esquivo como o unicórnio ou o presidente ideal para a Caixa Geral de Depósitos. Já os gregos da época, quando precisavam de apontar um louco, tinham sempre Diógenes à mão de semear. Não sendo fácil encontrar homens verdadeiros agora ou na Grécia Antiga – um indivíduo presumivelmente honesto custa hoje uma fortuna à instituição que pretenda contratá-lo –, fico já bastante satisfeito quando sou capaz de achar um doido inofensivo, um D. Quixote ou um Bartleby. Mas a tarefa não é tão simples como parece e presta-se igualmente a alguns equívocos.

Horácio Oliveira, personagem do romance Rayuela, de Julio Cortázar, trabalha durante algum tempo num manicómio de Buenos Aires. Na primeira visita que faz ao hospital, fica sozinho no jardim e não chega a andar cinco metros: um homem jovem em mangas de camisa aproxima-se dele com um sorriso e leva-o pela mão, «balançando o braço como as crianças». Horácio considera bastante agradável a ideia de conhecer o hospício seguindo um louco e dispõe-se, por isso, a acompanhá-lo. Mas «o rapaz compreendeu pouco depois que Oliveira não era um louco, e Oliveira percebeu por sua vez que o rapaz era um enfermeiro».

A anormalidade, como a beleza, reside frequentemente nos olhos de quem a vê. No dia 19 de novembro, por exemplo, um cretino norte-americano, Richard B. Spencer de seu nome, saudou os participantes da conferência anual do National Policy Institute com a frase «Hail Trump, hail our people, hail victory!». Talvez tenha também levantado o bracinho torpe e ande agora entregue ao devaneio de eliminar ou maltratar aqueles que, nos EUA e no resto do mundo, não descendam de europeus (a única «raça» que o National Policy Institute se propõe defender).

Li a frase de Richard B. Spencer e pareceu-me coisa de (mais um) louco perigoso. O biltre há de ter, porém, uma opinião diferente da minha. Ver-me-á como uma anomalia, talvez insuficientemente branco e pouco europeu. Antes assim. Evito, sempre que posso, frequentar as más companhias.

[Publicado originalmente na edição de 25 de dezembro de 2016]