OPINIÃO

Às escondidas de Alá

Eles arriscam tudo para aliviar o sufoco da lei islâmica.

Recentemente, quando Hassan Rouhani visitou Roma, as autoridades italianas cobriram o sexo das estátuas para não chocar o presidente iraniano. Em Paris, um almoço entre os chefes de estado foi cancelado por causa do vinho. Talvez nada disto fosse necessário. No Irão, nem tudo é pudor: Farid consome cocaína, Yashar participa em orgias gay, Justina canta sem véu. Correm o risco de ser presos ou chicoteados, mas arriscam tudo para aliviar o sufoco da lei islâmica.

O som de dois disparos sobressalta a plateia antes de a cortina descer. Tal como no texto original de Romeu e Julieta, a adaptação do Teatro Mehrab, em Teerão, acaba com a morte trágica do casal apaixonado. Contudo, é a interpretação do amor, e não da morte, que torna única esta versão persa da obra clássica de William Shakespeare. Aqui, Romeu não chega a sentir o sabor dos lábios de Julieta, nem sequer a acariciar-lhe a mão. «Devido à censura, os atores não podem tocar-se», diz o encenador Arash Azizi, 28 anos. «Temos de transmitir o desejo através da troca de olhares e da expressão corporal. Nascemos depois da revolução islâmica e sabemos bem quais são os limites. Aproveitamos as restrições para desenvolver a criatividade.»

Há 35 anos que os iranianos trabalham essa criatividade. Em 1979, uma revolução popular derrotou a ditadura do xá Mohammad Reza Pahlavi, apoiado pelo governo norte-americano e obcecado pelo Ocidente, implementando um regime islamita comandado pelo Líder Supremo (ayatollah) Ruhollah Khomeini e regulado por um grupo restrito de imãs (mullahs). Os jovens iranianos não podem ter sexo antes do casamento, não podem fazer tatuagens nem exprimir-se através da arte urbana. O Facebook e o YouTube estão bloqueados. Domesticar um cão é crime.

Várias milícias e forças de segurança passam o país a pente fino para aplicar as normas e castigar os infratores. «Foi-nos negada a diversão», diz Roozbeh Mehr, médico e ator, no papel de Príncipe Escalus.

Além disso, qualquer manifestação artística necessita da aprovação do Ministério da Cultura e da Orientação Islâmica, que inviabiliza todos os comportamentos desviantes da sua interpretação do Alcorão, e poucas são as iniciativas autorizadas financiadas pelo Estado. «A aniquilação da cultura é um dos pilares da sobrevivência das ditaduras», diz Afshin Zamaneh, 32 anos, o Romeu da peça, que não pisava um palco há dois anos e tem de pedir dinheiro aos país para se deslocar para o teatro. Num país onde o desemprego chega aos 11%, os atores são dos que mais dificuldade têm em arranjar trabalho: não há companhias de teatro e o número de peças é fortemente limitado pela censura. «No Irão de hoje, Romeu teria mais dificuldades do que há 500 anos em Verona. Não podia sair com Julieta, beijá-la, amá-la e, se fossem apanhados juntos num carro, iam parar à esquadra. Com tudo isto, perdemos o instinto de amar. Aprendemos a ignorar a paixão para evitar mais problemas.»

Disse Shakespeare que o mundo é um palco. E que todos os homens e mulheres são meros atores. A frase que talvez faça mais sentido em Teerão do que noutra parte do mundo, pois no Teatro Mehrab ou nas ruas da cidade impera uma falsa beatice. Sim, Afshin já beijou Eiahe, a atriz na pele de Julieta, mas às escondidas de Deus, nos ensaios marcados em casa do encenador. Aí, o elenco chegou a partilhar charros e a dormir no mesmo quarto. Na Pérsia moderna há um mundo que se movimenta no palco, à superfície, debaixo dos olhares dos bufos e das câmaras de vigilância, mas a verdadeira trama desenrola-se no fosso da orquestra. «Há duas sociedades no Irão: a que dorme na rua e a que vibra no subterrâneo», diz Roozbeh, 26 anos. «Nesse submundo, fazemos o mesmo que os jovens europeus: bebemos álcool, tocamos música e fazemos festas de arromba.»

A batida eletrónica faz o chão estremecer como um martelo pneumático e o aragh, uma aguardente artesanal com 65 graus, é distribuído pela pista em pequenas garrafas de água, por vezes puro, outras vezes misturado com sumos. Há também outras garrafinhas, estas enxertadas com gotas de MDMA (ecstasy). As raparigas dançam com o cabelo livre e calções curtos, exibindo nas coxas as tatuagens da moda. No carro, Farid e um amigo inalam uma linha de cocaína sobre um CD. «Estamos a festejar o primeiro dia de Ramadão», atira, com uma gargalhada psicadélica.

É Teerão, mas podia ser Ibiza. Não fossem, claro, as diferenças de contexto – a festa desenrola-se na clandestinidade, num armazém de vidros, com paletes e caixas de papelão empilhadas em prateleiras compridas. «É a fábrica do meu pai e ele sabe que eu organizo festas aqui», diz Raf, o anfitrião. «O barulho dos carros na autoestrada, ali em cima, abafa a música, e não temos vizinhos.» Contudo, o risco de denúncia aos temíveis Guardas da Revolução ou às milícias Basij é constante. E as consequências, temíveis – o consumo de álcool, caso não haja antecedentes, é punível com 74 chicotadas, e o uso e tráfico de drogas pode levar à prisão e, inclusive, à pena de morte. «É por isso que quando festejamos fazemo-lo à séria», diz Farid, cujo depósito para álcool, drogas e energia parece interminável. «Tudo aqui é exagerado: 18 litros de aguardente, cocaína sul-americana, decotes e saias curtas, o número de batidas por segundo. Como podemos ser apanhados a qualquer momento, pomos tudo no máximo. E sendo Ramadão, pior, porque há mais vigilância e os castigos são mais pesados.»

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Atores da peça Romeu e Julieta convivem perto do Teatro Mehrab.

Farid L., 39 anos, tem a vida pintada no braço direito: está lá a neve, a primeira imagem que guarda do Irão quando os pais regressaram de Itália ao país natal, tinha ele 6 anos, o mapa persa, os demónios da heroína, os deuses hindus que o inspiraram na recuperação e o extraterrestre que julga ser. Faz malabarismo com bolas de cristal, dança com tochas e é instrutor de parkour e snowboard. «Conheci a minha mulher a dar aulas de snowboard. Ela ajudou-me a sair da má vida.» Quando Fanash chega a casa, no sopé das montanhas do Norte de Teerão, Farid tem um charro de erva à sua espera. É treinadora num ginásio feminino, entra já sem hijab, os cabelos tingidos de louro e uma abordagem confiante e atraente.

«Não somos o casal iraniano típico», diz, enquanto se senta ao lado do marido, num requintado sofá de pele, e expele a primeira nuvem de fumo. «Não somos religiosos, acreditamos na igualdade de género e frequentamos festas psicadélicas.» Farid critica: «As mulheres iranianas parecem-se com a Beyoncé – são lindas e dizem-se livres –, mas, no fundo, têm a mentalidade conservadora da profeta Fatma.» Depois de oferecer LSD, mostra o vídeo de casamento: Fanash persegue-o entre acrobacias de parkour e movimentos matrix, até que o apanha e começam a dançar uma música latina. «Isto é a história do nosso namoro. Ele apavorado com o compromisso e eu atrás dele», explica a iraniana, sorridente.

O grosso dos namoros no Irão é muito diferente: os parceiros são frequentemente sugeridos, quando não impostos, pelas famílias e a vida sexual só se inicia na noite de núpcias. Para fintar essa tradição, no Norte de Teerão, mais rico e liberal, centenas de rapazes e raparigas inventaram um discreto jogo de engate: o dor dor. «Os homens levam os carros desportivos para os engarrafamentos e metem-se com as raparigas do carro do lado», diz Roozbeh. «O objetivo é ficarem com o número de telemóvel e encontrarem-se mais tarde, em privado.»

Ao cair da noite de uma quinta feira, os sedutores entram em ação no meio do trânsito infernal da zona de Tajrish. Um Mercedes CLK com dois tipos bem vestidos ombreia com um BMW de onde esvoaçam dois véus. Passam primeiro um cigarro de uma janela à outra, depois a troca de números, até que os carros desaparecem um atrás do outro num cruzamento. O cenário é uma neblina de monóxido de carbono e uma avenida que transpira betão. Pouco romântico, mas eficaz. «Estas coisas só acontecem num país fechado como o nosso porque a convivência entre sexos é considerada pecaminosa pelo governo e pela sociedade», diz Roozbeh. Mas no seu grupo de amigos, o dor dor é coisa do passado. Estudantes de vários pontos do país reúnem-se em apartamentos partilhados, abrindo as portas dos quartos a casais ávidos de intimidade. Em casa de Roozbeh e do amigo Saeed há sempre mais alguém a dormir: estudam, tocam instrumentos musicais persas, comem space cakes (bolos de marijuana) e recebem as namoradas. «Em casa, tudo é permitido.»

Este é também o lema de Ayshar, de 25 anos, bissexual e libertino. Estudante de Literatura Hispânica, fluente em sete línguas, incluindo português, admite participar frequentemente em orgias homossexuais. «Agora tenho de parar umas semanas. Não, não é por causa do Ramadão. É que fui ao médico e ele disse-me que andava a exagerar.» Esconde a sua orientação sexual, naturalmente, na universidade e nos meios públicos, mas não em casa. Os pais, sexuagenários, dormem tranquilamente enquanto ele organiza uma festa, com conhaque, raparigas de minissaia, amigos gay e a coreografia de Macarena. «Os meus pais viveram no tempo do xá e, com a minha idade, iam a discotecas. Hoje são obrigados a jurar fidelidade ao ayatollah Khamenei, mas as regras em casa são as de antigamente.»

A desobediência de costumes está reservada à classe alta: são maioritariamente filhos de grandes empresários, de altas patentes do exército e das forças de segurança, residentes em bairros exclusivos do Norte da capital –, aos quais se juntam elementos da classe média com educação liberal. No último ano, o Rich Kids of Tehran (Meninos Ricos de Teerão) – um grupo da rede social Instagram – atingiu projeção global, com imagens reproduzidas em órgãos de comunicação de todo o mundo mostrando adolescentes ao volante de Ferraris, raparigas em biquíni junto a piscinas e festas em mansões.

No terceiro dia de Ramadão, Farid salta de um imponente jipe com uma garrafa de cerveja na mão. Está a cometer um grave pecado, em plena luz do dia, vulnerável a delatores. «Com medo? Não, porque havia de estar com medo?», reage, apontando para o condutor do jipe, que usa um pólo Ralph Lauren e um Rolex. «Ele trabalha com os Guardas da Revolução.»

Justina chega ofegante ao estúdio secreto de Milad, depois de uma corrida dificultada pelo sol abrasador de Teerão. O espaço, numa cave, é acolhedor: carpetes persas, iconografia hippie e paredes com decoração onírica, uma mesa de mistura profissional e um monitor gigante. Ao microfone, a cantora, de 25 anos, despeja versos sobre os direitos das mulheres.  «Escolhi o rap por ser uma música de protesto, adequada à minha luta feminista. Ainda não fui abordada pelas forças de segurança mas sou muito criticada pelos homens, que me acham incómoda, e mesmo por colegas cantores que defendem que no underground não há lugar para mulheres.»

Justina tem oito anos de música, 57 mil  fãs no Facebook e 39 mil no Instagram. Mas nunca deu um concerto. No Irão, as mulheres estão proibidas de cantar. «As autoridades alegam que a nossa voz provoca desejo sexual aos homens. Então, todas as minhas gravações e videoclips são canalizadas para o YouTube, sites de música e redes sociais. Não dá para ganhar dinheiro.» Num dos vídeos, surge num jardim, com os braços descobertos, maquilhada e sem hijab – três crimes na moral islâmica dos mullahs. «Mas a minha música não fala apenas da indumentária. Fala dos maridos e dos namorados, que nos oprimem mais do que o próprio regime.»

Em maio do ano passado, o presidente reformista Hassan Rouhani defendeu que a polícia não deveria ser tão rígida com as regras de vestuário, como o uso do véu. «Não se pode mandar as pessoas para o paraíso através do chicote», disse. No dia seguinte, o Líder Supremo Ali Khamenei respondeu, mostrando que não estava disponível para secularismos: «Todos os trabalhos podem ser feitos em nome de Deus, mas o da polícia é o que mais facilmente mostra como esse trabalho pode ser feito.»

Esta luta de argumentos entre as duas maiores figuras do país reflete o conflituoso momento sociopolítico que o Irão atravessa. Se, por um lado, o acordo nuclear celebrado com os EUA pôs fim às pesadas sanções económicas, augurando uma transformação social mais célere, por outro, repetem-se as restrições às liberdades individuais: nos últimos seis meses, 73 administradores de condomínio em Teerão foram «alertados» para a necessidade de impedir festas com elementos de ambos os sexos e não casados. A castidade iraniana até já extravasou fronteiras: em Roma, o governo italiano decidiu cobrir a nudez das estátuas renascentistas quando da visita oficial de Rouhani, no final de janeiro. O presidente iraniano afirmou, porém, que não fez essa exigência. Dois dias depois, em Paris, um almoço entre os presidentes iraniano e francês foi cancelado, por Hollande não concordar com a imposição protocolar de não servir vinho – o que, segundo ele, atentava contra os valores da república.

O rap, tal como o rock, o indie ou o heavy metal, estilos oriundos do Ocidente, são veiculados como «satânicos» na propaganda oficial da República Islâmica do Irão. No entanto, num país com um elevado nível educacional, a internet expôs a juventude às influências anglo-saxónicas e a cena musical explodiu nos estúdios clandestinos de Teerão. «Há mais de duas mil bandas underground na cidade», ouve-se em No One Knows About Persian Cats, o filme que o polémico realizador Bahman Ghobadi dedicou ao tema. Yara, rapper de 26 anos, faz parte dessa lista. Assim como Justina, que apesar de nunca ter cantado ao vivo prepara-se para lançar na net o quarto álbum de originais. «Não ter sítio para tocar é o maior desgosto», admite, de guitarra no regaço e copo de vinho na mão, uva de Shiraz, parte dos 500 litros produzidos na banheira de casa com a ajuda do pai.

«Tudo é underground no Irão. A sociedade assimilou que tem de mostrar uma face, mas em casa faz a sua vida. Bebe vinho, fuma erva, tudo. Lá fora temos de mostrar que não gostamos nada disso», diz. Yara, que sustenta que os persas têm «um dom poético», mistura nas suas letras o ativismo social com a literatura clássica. «O Irão é um país de paradoxos. Por exemplo: as mulheres não podem vestir o que querem, mas o nosso hip hop, ao contrário do americano, não é sexista. Aqui não lhes chamamos cabras nem cantamos que podemos comprá-las com carros e joias.» Sobre política, fala com a precaução compreensível de quem conhece a extensão dos tentáculos do regime. «É a arte e a cultura, e não a força, que podem conduzir à transformação.»

Em 2009, no rescaldo das penúltimas eleições presidenciais que conduziram o polémico Mahmoud Ahmadinejad a mais quatro anos de poder, a juventude de Teerão saiu à rua para protestar contra o governo e apoiar o candidato reformista Mir-Hossein Mousavi, atualmente detido. A repressão foi sangrenta. Por isso, o reputado encenador Amir Konjani, que se divide entre os estúdios da Walt Disney e as galerias underground de Teerão, sustenta a opinião de Yara: «Uma mudança radical conduziria ao caos. O progresso tem de ser lento e aos artistas cabe a tarefa de colocar espelhos diante da sociedade, para que ela possa refletir sobre a sua hipocrisia.»

O processo pode ser moroso. Fora das esferas liberais dos centros urbanos, o Irão é um país crente e tradicional. Apesar de não haver dados oficiais, estima-se que só vinte por cento dos iranianos não sejam religiosos.

O Irão real mostra-se numa tarde tórrida, na Praça do Parlamento, quando uma multidão emocionada assiste à transladação dos corpos de 175 mergulhadores iranianos, encontrados numa vala comum no Iraque, vítimas da guerra entre os dois países nos anos 1980. Grita-se a admiração por Alá, pelo profeta e por Khamenei e a morte à América.

«Nos últimos três anos tenho visto uma grande abertura de mentalidades», diz Muhammad Reza Khan, tatuador de 33 anos, que criou, num anexo da sua casa o estúdio ilegal Tehran Ink. «Mais de metade dos meus clientes são mulheres que me pedem que as tatue em várias partes do corpo. Os tabus estão a desaparecer. No underground, percebeu-se que a resistência tem de ser silenciosa, mas desobediente. Até que eles percebam que as regras são descabidas.» Sentada à sua frente, Sahar, de 26 anos, aguarda pela sua segunda tatuagem, com o nome do irmão, Ali. «Os meus pais sabem e só me pedem para ter cuidado quando visitamos a aldeia.» O namorado, Reza, não se pode despir diante do pai para não mostrar o desenho que tem nas costas.

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Muhammad é filho de um guarda do Xá e foi, desde cedo, alvo do controlo policial. «Acho que a minha clandestinidade começou aos 8 anos, quando fui obrigado a mentir. Os guardas entraram em minha casa para apreender um leitor de VHS, que estava escondido. Perguntaram-me se conhecia o Tom&Jerry, e eu, ensinado pelos meus pais, respondi-lhes que não.» Hoje, faz cerca de dois mil euros por mês com um negócio proibido. «Eu queria pagar impostos mas nunca me deixariam abrir uma loja.» Já pintou de tudo, desde símbolos malditos no Irão – como a estrela de David e a bandeira do Xá – até cruzes suásticas e orações islâmicas. «Há gente que não tem noção do que faz.»

Mais tarde, após a transmissão televisiva de uma partida de voleibol entre os EUA e o Irão, que os asiáticos venceram por 3-0, Muhammad despedia-se com um telefonema apressado. Os mullahs não tinham gostado de ver os atletas nacionais com tatuagens e decretaram pela rádio uma perseguição a todos os tatuadores do país. «Vou fechar a loja e esconder-me na minha casa de férias.»

Nessa mesma noite, Mad irrompe no breu da cidade para colorir um viaduto com um stencil (a técnica de arte urbana imortalizada pelo inglês Banksy). «Não é que vá ficar aqui muito tempo. Os meus trabalhos sobrevivem apenas uns dias até serem destruídos pela polícia. Houve um que durou duas horas.» Faz-se acompanhar de um amigo, que controla o perímetro para evitar flagrantes. Em cinco minutos, ilustra a parede de cimento com uma imagem enigmática: um artista, como ele, espreita por detrás de um cortinado e vislumbra uma explosão de cor pela janela. «Quando vou à janela de minha casa, vejo o mundo a preto e branco. Por isso, penso deixar o Irão. Mas espero poder um dia voltar e ver cor neste país.»

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QUANDO TEERÃO PARECIA PARIS
Nos anos 1950 e 1960, quando em Portugal as viúvas envelheciam de negro e as mulheres não podiam sair do país sem autorização conjugal, em Teerão havia minissaias, discotecas e fartura de aguardente. O regime liderado pelo xá Mohammad Reza Pahlavi, regressado do exílio em 1953, após um golpe de Estado orquestrado pela CIA, governou o país durante 26 anos de acordo com os preceitos ocidentais, incentivando os iranianos ao uso da gravata e da saia, em detrimento de túnicas e véus. Mas o regime do xá não era tão brando quanto à oposição política – os detratores eram perseguidos e assassinados e a família imperial ficava com uma boa porção dos dividendos do país.

Em 1979, uma revolução popular liderada pelo imã Ruhollah Khomeini e pelos movimentos comunistas depôs o regime. Os islamitas apressaram-se a tomar as rédeas do poder e a eliminar os antigos aliados esquerdistas. De um dia para o outro, o manto islâmico cobriu a capital iraniana. Fecharam-se bares, discotecas e foi decretada a proibição das bebidas alcoólicas. As mulheres foram impedidas de cantar e assistir a eventos desportivos e obrigadas a cobrir o cabelo com um véu (hijab). Baniram-se as companhias de bailado e a música foi considerada um ritual satânico. Os mullahs controlam o país há 37 anos.

OS ROSTOS DO SUBTERRÂNEO
JUSTINA. Rapper, 25 anos, escolheu o nome artístico em homenagem a Justin Timberlake. As suas letras criticam a opressão sobre as mulheres: violência doméstica, casamento juvenil e rigoroso código de vestuário. Nos videoclips na internet surge sem véu e com roupas ocidentais, proibidas pelo regime. Apesar dos cem mil fãs nas redes sociais, nunca pôde atuar ao vivo. Tem passado despercebida nos radares das forças de segurança, mas já foi ameaçada na rua por homens comuns.

MAD. Assinatura do artista de stencil nascido no Azerbaijão iraniano, que tem propagado desenhos e mensagens nas ruas de Teerão. Tem 27 anos, já foi preso três vezes. Cria mensagens subliminares, como um jovem a partir um sinal de proibido. Desenvolve os trabalhos no isolamento do terraço do prédio da namorada e cola-os durante a madrugada. Quando lhe pedem para expor no estrangeiro, envia os trabalhos escondidos atrás de telas de quadros convencionais.

MUHAMMAD REZA. Tatuador, 33 anos, foi criado numa família fiel ao xá, o que lhe causou problemas nos primeiros anos da República Islâmica. Faz dois mil euros por mês numa atividade proibida. O estúdio funciona numa cave num anexo de sua casa e todos os clientes têm de ser referenciados por um amigo, para evitar ser desmascarado pela polícia. No decorrer desta reportagem, Muhammad teve de esconder-se na casa de férias quando um mullah apelou pela rádio à purga das pinturas corporais.

FARID L. É instrutor de parkour e de snowboard, organiza festas trance no deserto iraniano. Acredita em extraterrestres e sente-se um deles no seu próprio país: é ateu, bebe álcool, consome drogas e desobedece a todas as regras instituídas. «E todo o meu círculo social também se está a borrifar para os mullahs

AMIR KONJANI. Divide o tempo entre Londres, Los Angeles e Teerão. Tem 33 anos, estudou na Royal Academy of Arts e trabalha nos estúdios da Walt Disney, mas é nas galerias privadas da capital iraniana que se sente realizado, encenando peças de arte performativa. Acredita que o regime não pode ser alterado bruscamente, mas aos poucos, através da cultura. Diz já ter sido censurado em Inglaterra, quando incluiu um preservativo numa peça para a BBC.

Tiago Carrasco em Teerão
Fotografia: Daniel Rodrigues em Teerão