OPINIÃO

António Zambujo & Miguel Araújo à conversa

«Os coliseus vão transformar-se na nossa sala de estar»

Dois músicos, duas guitarras, algumas cervejas e um sofá. Os primeiros ensaios para a esgotadíssima maratona de 17 concertos nos coliseus de Lisboa e Porto – que começa na quarta-feira – aconteceram aqui mesmo, na sala de estar da casa de António Zambujo, no Bairro Alto. Pelo meio, fizeram um intervalo para uma conversa sobre a amizade de 16 anos e estes «serões» musicais, intimistas q.b., em que o improviso tem lugar marcado e as crianças e os avós também entram.

É a dupla do momento. Os Ujos (Ara e Zamb), nome pelo qual Nuno Markl costuma apresentá-los, sobem ao palco dos coliseus daqui a três dias para uma série de 17 concertos: de 17 a 21 de Fevereiro e de 16 a 19 de março em Lisboa; de 24 a 28 de fevereiro e a 24, 26 e 28 de março no Porto. Miguel Araújo e António Zambujo, ainda surpreendidos pelas sucessivas lotações esgotadas, prometem uma cumplicidade musical em «três atos» com participação do público. Mas vamos por partes. Para já, um esclarecimento obrigatório: qual dos dois, afinal, é o culpado disto estar a acontecer?

Miguel Araújo (MA): Na minha fantasia o culpado destes concertos eras tu, mas outro dia a Ana [mulher de Miguel Araújo] disse-me que foi ela.
António Zambujo (AZ): Foi a Ana, foi.
MA: A ideia surgiu depois de uma almoçarada farta e longa, logo no dia a seguir ao meu concerto no Coliseu do Porto, em 2014 [António Zambujo foi um dos convidados].
AZ: A Ana dizia que o concerto tinha sido muito giro, com arranjo de cordas, uma banda muito grande e montes de músicos convidados, mas gostava de vê-lo agora de um modo mais despido. Concordei e dei uma forcinha para acontecer.
MA: Temos feito isto esporadicamente. Há muito pouco tempo aconteceu numa discoteca no Algarve, em Monte Gordo, só que na altura não foi tão badalado como agora com os 17 concertos nos coliseus. Ninguém reparou. [risos]
AZ: Combinámos nesse dia. Enviámos mensagens a alguns amigos e foi assim, um concerto a dois só com as guitarras. Agora, em Lisboa e no Porto, vamos dividir o concerto em três atos, três momentos, mas não será uma estrutura rígida. Dois deles estão mais ou menos definidos, o ato do meio será completamente improvisado…
MA: Como se estivéssemos a jantar em tua casa, nós com as guitarras.
AZ: É. Lembramo-nos de músicas e vamos tocando e cantando. Inteiras ou excertos. Há um ano, a organização de um festival de story-tellers (Grant’s True Tales Festival) convidou-nos para isso. A sala [do Cinema São Jorge] estava esgotada e nós tocámos cinco ou seis músicas, não foi?
MA: Sim, mas não havia set list, não decidimos nada.
AZ: Vamos ensaiar esta semana [últimos dias de janeiro] aqui em minha casa, para a semana temos concertos [separados] e na semana seguinte vamos para o Porto.
MA: No Porto, os ensaios serão em minha casa. Depois haverá ensaios gerais no Teatro do Barreiro, que gentilmente nos emprestou a sala. São dois, três dias. Aí, sim, com microfones, com luzes, com tudo a postos, direitinho. Já esgotámos coliseus em nome individual, mas isto é diferente…
AZ: Um dia estávamos na Rádio Comercial, de manhã, a anunciar uma data nova e à tarde estava esgotada. Não tem explicação.
MA: Acho que isto chegou ao público que não acompanha música, 95 por cento das pessoas. Lembro-me do sucesso d’As Conversas da Treta [com António Feio e José Pedro Gomes]. Eu, que não ia ao teatro na altura, fui ver. Chegou a mim e chegou a muita gente. No nosso caso, é por alguma razão que não sei explicar, porque nós não somos famosos. Somos famosos no meio da música.
AZ: Não nos reconhecem na rua.
MA: Como a primeira data do coliseu esgotou rápido, as pessoas começaram a ver que isto ia ser…
AZ: Foi anunciado, desde o início, um concerto, duas vozes, duas guitarras e pronto.
MA: Claro que pode haver pessoas que acham que vai ser outra coisa, um espetáculo.
AZ: Não acredito que as pessoas pensem isso. Não vai haver mais nada. Vamos ser nós os dois, com duas guitarras. Há uma coisa que me tem impressionado muito e que nestes coliseus vai acontecer de certeza – porque noto isso nos meus concertos e nos do Miguel também –, que é…
MA: Público com várias idades.
AZ: Sim. Famílias inteiras, não é? Os avós, os pais, os filhos, os netos, os bisnetos. Muitas vezes, tenho miúdos a assistir ao concerto na primeira fila.
MA: E que cantam.
AZ: E que estão ali, sentados na cadeira, superentusiasmados. Tenho aqui um quadro que uns miúdos de Coimbra me foram oferecer ao palco por causa do Pica do 7. E cantaram comigo.

ELTON JOHN E ARMANDO GAMA

MA: Sempre fui um bocado ovelha tresmalhada no rebanho musical. Gostava das bandas que era suposto gostar-se, das bandas de culto e tal, mas também gostava de músicos que o pessoal não gostava, como o Elton John. Escandalizava os meios onde me inseria. Era muito fã desse género de música mais popular e mais abrangente…
AZ: Eu também, eu adoro.
MA: A minha música reflete, mais do que qualquer outra coisa, essa influência do Paul McCartney, do Elton John…
AZ: Do Armando Gama.
MA: Do Armando Gama [risos]. Não procuro particularmente nada com a minha música. Mas se procurasse era isso, essa vertente da melodia que fica.
AZ: É a história da mensagem transmitida. Quando escolho repertório gosto de pensar que aquilo pode acontecer a qualquer pessoa que esteja na sala. Eu, por exemplo, venho do meio do fado e nunca gostei muito dos fados com histórias antigas, com personagens antigas… Marinheiros, cauteleiros e caravelas. Não me identifico com isso, é uma mensagem que não consigo transmitir. Não posso falar das vielas de Alfama. A maior parte do público dos meus concertos nem sabe o que é uma viela. Sinto vontade de cantar histórias que poderiam acontecer a qualquer pessoa. Uma vez disseram ao João Monge – um autor que eu canto muito – que as letras dele davam a sensação de estar a escrever à janela, de estar a contar o que se passa na rua.
MA: Uma amiga minha disse-me: «Sei que fizeste a Balada Astral para o casamento da Maria e do Luizinho, mas parece mesmo a minha história.» Outra vez, estávamos à mesa, um grupo de 15 amigos, por aí, mas ninguém sabia quem era o António Zambujo, convidado do meu concerto. «Mas quem é esse Zambujo?» Ou seja, são pessoas que não ligam nenhuma à Blitz, ao Ípsilon ou aos programas de música, que não existem, mas que se existissem não ligavam. É ótimo.
AZ: É bom e é uma inevitabilidade destes tempos. Falámos disso a propósito da morte do David Bowie. Apesar de não sermos fãs incondicionais do Bowie, que era um alto músico e uma personagem incrível, o que me entristeceu foi pensar que os ícones da música estão a desaparecer e não há ninguém que os substitua.
MA: Já não há ícones de nada.
AZ: O público não se fideliza. Até o facto de fazermos 17 concertos nos coliseus…
MA: Eu nunca diria. Não encaixa nas minhas teorias.
AZ:… será esquecido em quatro meses.
MA: Vão continuar sem saber quem é o António Zambujo.
AZ: Sem saber quem eu sou e quem tu és. A vida hoje é assim, as pessoas vivem tudo muito rápido.
MA: E já não há mainstream. Nunca liguei à Fórmula 1, mas sabia quem era o Prost e o Senna. Agora faço lá ideia de quem são os protagonistas. É assim e ainda bem, porque hoje as pessoas podem ter acesso direto ao que gostam, não é como quando só existiam dois canais de televisão.
AZ: É mais fácil para a nossa privacidade. Podemos ir beber copos para o Cais do Sodré que ninguém nos chateia.
MA: Se me dissessem que isto dos coliseus ia acontecer eu diria que era mentira. Diria que hoje é impossível alguém conseguir isto – até parece que me estou a gabar. Torna tudo mais inexplicável. Dantes um músico vinha ao Estádio de Alvalade e o público ia porque era a Tina Turner, por exemplo. A minha irmã e as amigas foram ver o concerto, nem conheciam as músicas, mas era a Tina Turner.

FOI O FADO QUE OS JUNTOU

AZ: Conhecemo-nos há 16 anos.
MA: Foi em 2000, por aí. Na altura aqui o Zambas fazia parte do musical Amália. Julgo que não tinhas disco nenhum, eras ainda mais desconhecido do que és agora.
AZ: Conseguia ser mais sinistro. [risos]
MA: Foi no Berimbar [em Lisboa], que era da mãe do João Pedro, um amigo comum que já foi nosso manager. Um ponto de encontro do pessoal da música. Ficámos amigos desde aí.
AZ: Estava sempre a chatear-te a cabeça para aprenderes a tocar guitarra portuguesa só com uma mão.
MA: Ainda peguei na guitarra portuguesa, mas nunca fui grande mestre. Cada um seguiu um caminho musical diferente. Ele gravou um disco de fado convencionalíssimo chamado O Mesmo Fado e eu gravei o primeiro disco com Os Azeitonas, mas fomos sempre mantendo o interesse no trabalho um do outro. Entre os dois, o Zambujo é, sem dúvida, melhor cantor. Eu toco melhor, sou mais desembaraçado com os instrumentos. Eu dou-lhe dicas sobre instrumentos, ele faz o mesmo em relação à minha voz. Ainda há bocado estava a dizer-me «não puxes tanto pela voz, não prolongues tanto». Vamos aprendendo um com o outro. Vimos de meios musicais absolutamente diferentes. Eu venho de um background muito mais Beatles, Stones, rock.
AZ: Anglo-saxónico.
MA: Muito mais anglo-saxónico. Não ouvia música portuguesa, com uma exceção…
AZ: O Rui Veloso.
MA: O Rui Veloso, porque a música dele não é portuguesa. A música, não estou a falar da letra. A minha música também não é portuguesa, é só um bocadinho. Está-me nos genes a música anglo-saxónica. Essa coisa toda, rock, pop. A música portuguesa não está, mas fui ouvi-la muito, muito. Nessa altura, tinha 20 e tal anos, apaixonei-me por fado. Já não fui a tempo de aprender a linguagem por completo. Não é um coisa natural em mim. Cantar o fado então, nem pensar.
AZ: Quando era miúdo fazia parte de um grupo de música tradicional do Alentejo. Toda a gente gozava comigo na escola. O grupo era de cante alentejano, mas já instrumental, tinha outras coisas. Chamava-se Trigo Limpo. Acho que ainda existe.
MA: Por causa do meu amigo Diogo, grande fã de fado, é que comecei a ouvir fado obsessivamente. Viemos passar uma temporada a Lisboa para irmos às casas de fado e foi nessa altura que o conheci o Zambujo. Agora, vendo bem, foi o fado que nos juntou, mas foi principalmente a música brasileira. Éramos os dois grandes fãs de Jobim, Chico Buarque…
AZ: Lembro-me de estarmos lá no Pop [bar no Porto], de tu começares a tocar o Vai Passar do Chico e de eu pensar: «Fogo, este gajo sabe tocar esta merda…»
MA: Somos fãs de música brasileira.

UMA MÚSICA PARA MARANTE

AZ: Ultimamente, quando estamos juntos, o Miguel tem tendência a mostrar sempre uma letra que esteja por fazer. Agora, por exemplo, estávamos a tentar fazer uma música para uma letra que ele escreveu hoje de manhã.
MA: Há dez ou 15 anos sabia tocar biliões de músicas, de toda a gente. Mas comecei a ser mais autor. Já não sei metade.
AZ: É a idade… [risos]
MA: Comecei a ocupar o meu cérebro com músicas minhas e às tantas pedem-me «toca aquela dos Beatles» e não me lembro.
AZ: Eu tinha um bar em Porto Covo e gostava de, ao fim da tarde, chegar da praia, pegar numa guitarra e começar a tocar músicas de outros, do João Gilberto, do Caetano.
MA: Nós estamos com algumas músicas novas, aquela do carteiro, ainda vamos tentar acabar isso? Podemos dizer, ou não?
AZ: Podemos, claro.
MA: O Zambujo começou a cantar o Som de Cristal do Marante e até foi ao programa do Bruno Nogueira (SIC).
AZ: O Marante foi cantar comigo nos Aliados…
MA: Foi nesse concerto teu que conheci o Marante, que também canta O Pica do 7 nos concertos dele. Pediu-nos se fazíamos uma música original e eu hoje tive uma ideia para a letra e o Zambujo já começou aqui com a música…
AZ: Já está quase.
MA: Está um bocado comprida, temos só de cortar um pouco. Não vamos prometer que esteja a tempo dos coliseu, porque ainda não está acabada.
AZ: Não sei, se calhar é chato a tocar a música ao vivo antes do Marante…
MA: Mostramos-lhe antes para ver se gosta e se aceita que a cantemos nos coliseus.
ERA PARA SER SÓ UM CONCERTO

MA: Podemos já dizer qual é a surpresa para quem comprou bilhete para as primeiras datas anunciadas? Esses concertos serão filmados em Lisboa e no Porto. Quanto à edição, logo se verá.
AZ: Pelo menos fica para nós. Para um dia mostrarmos aos nossos netos. «Olha, o avô uma vez fez 17 coliseus.» O meu filho mais velho toca bem guitarra. Desafiámo-lo para ser nosso convidado em palco, só que ele depois acabou por não aceitar. Inventa sempre umas desculpas porque é muito envergonhado. O mais novo é o contrário. Está sempre a dizer «quando é que me chamas para eu ir cantar contigo?» Tem 5 anos. Os teus ainda não?
MA: O Joaquim não tem vergonha nenhuma, mas só tem 4 anos. Temos tido convites para ir a festivais depois dos coliseus, mas este concerto não se encaixa em recintos ao ar livre com muitas pessoas. Já tentaram contratar-nos, mas nós não queremos fazer isso. Em Portugal não faz sentido…
AZ: No Brasil vai acontecer de certeza. Há umas coisas a ser negociadas.
MA: França…
AZ: Também em França… A ideia disto era fazer um concerto. Um em Lisboa e um no Porto. Depois deu nisto. Descambou.

João Pombeiro
Fotografia Jorge Amaral/Global Imagens