As memórias de António Mateus em Angola

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António Mateus esteve em Angola mais de vinte vezes e lança essas memórias em livro.

Entre 1975, quando rebentou a Guerra Civil, e 2012, quando se realizaram as últimas eleições gerais, António Mateus esteve em Angola mais de vinte vezes. O jornalista cobriu o conflito, acompanhou as várias rondas de conversações de paz no Congo, na Zâmbia, na África do Sul ou no Egito, assistiu a avanços e recuos na procura de uma solução pacífica para um país que já sofrera demasiado. Nesta semana lança um livro – Angola, o Regresso do Fim do Mundo (Ed. Planeta) – com essas histórias de reportagem, resgatadas à memória e a mais de trinta blocos de notas de três décadas de trabalhos no terreno.
ESTES SÃO ALGUNS EXCERTOS, EM EXCLUSIVO

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Em maio de 1995, durante a guerra em Angola, o presidente zambiano Frederick Chiluba convence Eduardo dos Santos e Savimbi a reunirem-se em Lusaca para mais uma ronda negocial a caminho da paz. A imagem dos militares da ONU é de maio de 1996, mas a primeira missão das Nações Unidas no terreno (UNAVEM) começou em janeiro de 1989.

FALTA DE MEIOS, VOOS CANCELADOS, BUROCRACIA, AMEAÇAS FÍSICAS – FAZER REPORTAGEM EM ÁFRICA NUNCA FOI TAREFA FÁCIL.

BRAZAVILLE, REPÚBLICA DO CONGO
11 DE MAIO DE 1988

Oiço o meu nome ser entoado com pronúncia francesa através do sistema sonoro do hotel: «Monsieur Antoniô Máteôs au téléphone!» (…)

– Tudo bem, Mateus? Aqui é o David Borges, da TSF. Uma rádio nova… (…) Olha… podes fazer‑nos uma crónica sobre o ambiente aí das negociações, como vão decorrer, a agenda, enfim… o que interessa mesmo? – precisa ele, deixando‑me, pela surpresa, sem o que lhe responder.
– Não te preocupes, já está tudo tratado com a direção da agência. Depois acertamos contas com base nos trabalhos que fizeres para nós.
Pouco mais sei da TSF do que o que vou lendo em Maputo na linha da Lusa; uma rádio nascida em Portugal há uns três ou quatro meses. Com a internet ainda a dar os primeiros passos, a capital moçambicana sitiada pela guerra civil e os média locais restringidos a um jornal diário, rádio e televisão públicos, o fluxo informativo da agência é uma jóia de valor inestimável.
– David… não sei se vais gostar do que vou dizer‑te, mas, tirando meia dúzia de coisas periféricas coloridas, pouco ou nada transpareceu até ao momento sobre as conversações. Ainda não temos confirmação de onde vão decorrer ou sequer se vão… decorrer de todo – admito, embaraçado.
O silêncio que me responde do outro lado da linha faz‑me temer que a ligação se tenha ido mais uma vez.
– Ainda estás aí, David? – pergunto.
– Sim, António… estava só a pensar como havemos de fazer isto porque a coisa vai mesmo acontecer. Já está a acontecer. Sei‑o – assegura‑me o jornalista nascido em Angola, não só fisicamente, mas também para a profissão que agora partilhamos. – António… já te volto a ligar. Entretanto vê se espremes aí seja quem for ligado ao processo.
Pela vidraça da porta da cabina vejo passar o Pascal a falar com um negro cuja cara me parece familiar. Não tenho a certeza. Param uns instantes, sorriem, ambos, apertam as mãos e o jornalista afasta‑se em passos rápidos para o gabinete onde já sei que fica o telex.
Sigo‑o. Dou‑lhe uns metros de distância enquanto espero que tecle uma mensagem curta e rápida. O papel furado pela máquina é posto pelo próprio Pascal no módulo de emissão e ele convida‑me a ler o texto que acabara de enviar para Londres.
A Reuters acabara de saber, pelo «chefe da delegação angolana às conversações de Brazzaville», que estas vão começar formalmente «dentro de 24 horas…»

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Durante o congresso da UNITA, António Mateus escreve para a agência Lusa enquanto o repórter fotográfico Albérico Alves recupera forças.

JAMBA, ANGOLA
5 DE MARÇO DE 1991
Temos liberdade relativa de movimentos na base, desde que não saiamos do triângulo quartos‑latrina‑cantina. Fora disso só escoltados por um graduado da UNITA. Ficamos a saber que vai ser impossível enviar telefotos, porque não há linha fixa e não somos autorizados a utilizar o telefone de satélite, por poder servir de referencial a bombardeamentos.
Todo o equipamento que leváramos, incluindo o primeiro computador portátil atribuído pela Lusa a jornalistas destacados, revela‑se inútil. Resta‑me escrever os textos à mão e entregá‑los, duas vezes por dia, a um «portador» da UNITA, que os leva depois para envio por fax, em local nunca revelado.
«Estamos a enviar o serviço por um método que depende não só de haver “transporte” dos despachos até ao local do fax (secreto), como de estes serem reenviados de outro país africano para Lisboa. Por isso não há telefotos», escrevo à mão numa nota prévia ao meu primeiro despacho da Base de Kwame Nkrumah.
Jaka Jamba, Norberto de Castro e Jorge Valentim foram os homens escolhidos por Jonas Savimbi para fazer a ligação da UNITA aos jornalistas destacados para um congresso do movimento do Galo Negro, anunciado como «o último realizado no mato» e onde se antecipa a maior participação de sempre a nível interno e externo.
– Este é um congresso extraordinariamente importante, porque vai constituir uma viragem histórica na vida do nosso movimento! – afirma Valentim, aludindo à importância de transformação da UNITA com o aproximar do fim da guerra.

PRETÓRIA, ÁFRICA DO SUL
10 DE MAIO DE 1994
Eu tinha pensado aproveitar as duas horas de voo para a Cidade do Cabo para o entrevistar sobre Angola e o papel que a África do Sul, agora liderada por Nelson Mandela, poderá assumir na busca de uma paz sonhada há décadas por milhões de angolanos. Soares revela‑me que aproveitou as oportunidades de conversas com responsáveis das Nações Unidas e uma série de outras partes influentes e interessadas na estabilização da África Austral, presentes na cerimónia de Pretória, para mobilizar vontades nesse sentido. E que a urgência do calar das armas em Angola foi tema dominante das trocas de ideias com o secretário‑geral da ONU, Butros Ghali, o representante deste em Moçambique, Aldo Adjello («um velho amigo de há muitos anos») e os presidentes Joaquim Chissano e José Eduardo dos Santos.
Garante‑me, neste contexto, que irá interceder junto do líder da UNITA para que aceite a proposta de cessar‑fogo avançada pelo presidente angolano.
Em termos gerais, a tónica partilhada por Soares com os seus interlocutores foi a de que o exemplo da África do Sul – de um governo de transição, com base numa fórmula de unidade nacional – terá de ser seguido em Maputo e Luanda.
– O presidente Eduardo dos Santos disse‑me que tudo isso está certo, mas o que é preciso é o cessar‑fogo! – adianta o presidente português, antes de me confidenciar que o seu homólogo angolano lhe garantiu estar pronto a, do seu lado, dar tal passo, mas precisar de garantias, no mesmo sentido, do líder da UNITA.
– Argumentei ser também necessário o Dr. Savimbi ter alguma garantia quanto ao futuro e ele [José Eduardo dos Santos] respondeu: «Ele que diga o que quer!» E perguntou‑me logo a seguir: «É capaz de me dizer o que é que ele quer? O que é que ele deseja realmente para chegarmos a um acordo? Porque é isso que eu quero.»
Soares sabe que, estando eu há mais de oito anos baseado, primeiro em Moçambique e, de há quatro a esta parte, na África do Sul, sigo de perto as sucessivas rondas de paz para Angola e os interesses de quem ali fomenta a guerra e faz‑me perguntas sobre isso. Assume uma curiosidade genuína sobre o que tem sido acompanhar Mandela, dia a dia, desde a sua libertação, após 27 anos de cárcere e, em particular, a forma como procura e promove consensos, num país que esteve à beira de uma guerra civil. Não procura saber factos da história, mas sim episódios humanos marcantes por mim testemunhados. Revela‑se aqui um bom ouvinte. Que medita uns instantes sobre o que acabou de escutar antes de fazer nova pergunta. Uma faceta que lhe desconhecia, assumo, e lhe faço saber antes de rebocar de novo a conversa para Angola.
Soares sorri. Adianta que irá defender junto do líder da UNITA uma postura de co-responsabilização positiva, no calar das armas em Angola, defendida pelo secretário-geral da ONU e já escorada na palavra de Eduardo dos Santos.»

LUSACA, ZÂMBIA
4 DE MAIO DE 1995
Cleary não aceita a oferta de uma cerveja, mas dá troco à conversa, depois de lhe ter dito que acabara de ver Savimbi chegar a Lusaca, o que ele já sabia. Claro. Ainda não entendi, em rigor, o estatuto dele junto da UNITA, depois da queda do último governo branco na África do Sul. Mas é óbvio que se mantém uma voz escutada ao mais alto nível e muito bem informada.
Confirma‑me que a cimeira vai acontecer amanhã à tarde, aqui em Lusaca, na presidência zambiana. E argumenta que bem mais importante do que as questões técnicas será a sintonia pessoal que se consiga obter entre Jonas Savimbi e José Eduardo dos Santos. Para Cleary, esta cimeira será apenas o primeiro de uma série de encontros entre os dois responsáveis angolanos, residindo o seu valor específico no simbolismo da reunião em si, dois anos e quase oito meses após Savimbi e Eduardo dos Santos se terem avistado pela última vez, em Luanda, a 26 de Setembro de 1992.
A agenda centrou‑se na extinção dos dois exércitos (FAA e FAPLA), fundindo‑os num único, e na tentativa de um acordo pré-eleitoral entre as duas principais forças políticas angolanas – MPLA e UNITA.
Cleary confidencia‑me que a UNITA gostaria de conseguir uma reforma constitucional que abrisse a entrada de Savimbi na estrutura do Estado, mas este tema, como outros, só será aflorado dependendo da empatia que se venha ou não a conseguir entre os dois principais actores.

LUENA, ANGOLA
27 DE AGOSTO DE 2012
Duas horas mais tarde já estamos de novo a caminho do aeroporto. Para trás mais um comício, mais um exercício de magia do Nuno a editar a peça de reportagem para o Jornal da Tarde, debaixo do palco, com energia eléctrica subtraída aos fios descarnados, que alimentam a mesa de mistura de som.
Namibe, primeiro, e o Huambo depois, onde chegamos por estrada, após horas de longa viagem através de aldeias, estaleiros de obras em evolução e campos retalhados por quadrículas espaçadas, de hortas de escala familiar. Passaram doze anos desde que ali voltei com o senhor Serra, ainda a guerra sufocava a cidade. Reconheço cada rua que agora percorremos em marcha lenta, bem mais lenta do que na altura, apesar de muitos dos pavimentos terem sido desde então remendados. Só que agora há… engarrafamentos.

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ENTRE A GUERRA E OS PRÉMIOS NOBEL DA PAZ
Jornalista há 33 anos, António Mateus foi correspondente da Agência Lusa e da RTP na África Austral entre 1986 e 2004. Durante estes anos, cobriu diariamente os desenvolvimentos das guerras civis em Angola e Moçambique e respetivos processos de paz, negociações para a retirada cubana de Angola, independência da Namíbia e o fim do apartheid na África do Sul. Entrevistou, entre muitas outras personalidades, Nelson Mandela, Desmond Tutu, Frederik de Klerk, Graça Machel, Joaquim Chissano, Jonas Savimbi ou José Eduardo dos Santos. Foi diretor da revista Focus e coordenador de informação e programas da RTP-África. É coordenador e apresentador do programa Olhar o Mundo, na RTP.