OPINIÃO

Andrew Solomon

«Tratar a depressão tem custos elevados, não a tratar tem custos muito mais elevados»

O nova-iorquino Andrew Solomon, jornalista, conferencista e especialista em psicologia, anda há 15 anos a falar de depressão. A começar pela sua. O livro O Demónio da Depressão – Um atlas da doença foi editado pela primeira vez em 2001. Mais de 800 páginas que tanto são um ensaio rigoroso como um testemunho emocionado e emocionante e uma longa e exaustiva reportagem.

A obra acaba de ser editada em Portugal e nós falámos com o autor em Lisboa.

_Diz que este livro o transformou num deprimido profissional. Investigar sobre depressão, falar com médicos, investigadores, assistentes sociais e doentes que partilharam consigo as suas histórias e sentimentos ajudou-o a exorcizar o seu demónio?
Sim. Não quer dizer que aconselhe toda a gente a exorcizar o seu demónio desta forma, mas penso que um dos fardos da depressão é a tentativa de a manter em segredo. A depressão é muito extenuante, manter segredo é muito extenuante e a energia que se gasta a manter uma depressão em segredo seria mais bem gasta a tratá-la. Mas, sim, descobri que falar publicamente sobre a doença permitiu-me transformar uma experiência que encarava como um desperdício de vida e de tempo em alguma coisa com significado, que podia servir para ajudar outras pessoas. E isso foi muito libertador para mim.

_Por que é tão difícil explicar a depressão a quem nunca foi afetado por ela? Depois destes anos todos, já chegou a uma definição?
Costumo dizer sempre que o contrário de depressão não é felicidade, é vitalidade. As pessoas pensam que estar deprimido é apenas estar muito triste. De facto, estar muito triste faz parte da doença, mas fechar-se, ser incapaz de funcionar, ficar paralisado, perder a energia básica para sair do quarto e fazer a barba e vestir uma T-shirt e falar com pessoas também. Há uma série de metáforas no livro em que muita gente se reconheceu e que considerou úteis para explicar à família ou aos amigos o que sentia. Mas, sabe, um dos grandes problemas é que usamos a mesma palavra para descrever o que sente uma criança quando o jogo de futebol que queria muito ver foi cancelado e o que sentia uma mulher que acaba de se atirar de um prédio abaixo. Essa confusão linguística não ajuda.

_E é isso que leva muitas vezes à incompreensão face à doença, à quase desvalorização?
Há pessoas que dizem: «Eu às vezes fico deprimida, mas recomponho-me e ando para a frente.» Não, isso não é ficar deprimido; pode ser ficar zangado, triste, perturbado, mas não deprimido. A depressão clínica não é um estado em que se possa decidir andar ou não para a frente, é um estado em que simplesmente não se consegue andar para a frente. E isso é que é difícil comunicar: essa incapacidade, essa paralisia. Sei como é difícil porque eu próprio não conseguia fazê-lo até ter-me acontecido a mim. E, estando agora bem na maior parte do tempo, algumas vezes sinto que não consigo imaginar voltar lá. Penso no fardo que é a depressão, escrevi este livro, falei sobre isto em conferências e entrevistas, e quando volta a acontecer – passei por um leve episódio este verão – continuo a ficar chocado pelo grau de paralisia que implica e pelo inacreditavelmente doloroso que é.

_Essa incompreensão tem consequências não só sociais como pessoais, profissionais. Ficar bem não depende apenas da vontade deste ou da sua força, mas procurar tratamento, sim, não é?
É verdade. Por um lado, não depende só de si sair de uma depressão, por outro, melhorar passa por ter vontade e força para isso. Toma medicação, faz terapia, espera que o tempo passe, faz exercício, mas também tem de ter vontade de melhorar. O que causa confusão é que quando vemos alguém deprimido, dizemos: mas nem estás a tentar, sem percebermos que a dada altura não se trata do que se quer, mas do que se consegue… Há momentos em que não se consegue mesmo, mas outros em que é preciso ir buscar forças sabe-se lá onde para fazer o tratamento. Existe uma correlação entre a depressão e a personalidade e esta tem de ter força suficiente para lutar com a doença.

_Escreveu este livro há 15 anos. Desde então o que mudou?
O capítulo final do livro editado em Portugal foi escrito no ano passado, para o atualizar, e portanto, nesse sentido, não tem 15 anos. Penso que socialmente, hoje, aceitamos melhor a depressão e a ideia de que é uma doença que representa uma disfunção profunda está mais sedimentada. Os tratamentos evoluíram sobretudo no que respeita às depressões profundas. Assistiu-se a uma reação violenta contra os tratamentos existentes. Passou-se do oito ao oitenta, os antidepressivos antes tidos como milagrosos passaram a ser encarados como lixo tóxico. De facto, os medicamentos têm uma série de efeitos secundários e em muitos casos são maus, mas são muito melhores do que nada. Penso que deve haver um meio termo: os tratamentos não são os ideais, mas a depressão é tratável e se as pessoas não tivessem essa visão negativa do tratamento muita gente que está em sofrimento poderia estar em tratamento. E a melhorar.

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_Continua, passados todos estes anos, a tomar «comprimidos de todas as cores» e a fazer psicanálise. Por que é que tanta gente recusa fazer medicação a vida toda (o que não acontece, por exemplo, nos tratamentos para o coração ou a diabetes ou o colesterol)?
Num evento público recente em que participei, em Londres, alguém me chamou à parte e disse: «Receitaram-me estes medicamentos e eu tenho medo de os tomar.» Eram antidepressivos. «Tem medo de quê?», perguntei eu. «Não sei, a ideia assusta-me», respondeu a minha interlocutora. O que eu lhe disse foi que tomar o medicamento não significava que iria transformar-se noutra pessoa e nunca mais poderia ser ela própria. Por alguma razão o medicamento foi-lhe receitado, dê-lhe o tempo de fazer efeito e ver se a ajuda e, se isso não acontecer, pode falar com o médico e deixar de tomar. Não é como perder a virgindade, que nunca mais se recupera [ri]. As pessoas têm um medo irracional de deixar de ser elas próprias.

_O que é que os seus comprimidos fazem por si?
Tomo medicação há muito tempo e tenho a sorte de estar muito feliz com a minha vida, que é muito diferente do que seria se nunca a tivesse tomado. Talvez tenha mudado a minha personalidade, talvez o meu eu real fosse diferente, talvez sem a medicação fosse uma pessoa fechada em si própria, no seu apartamento em Nova Iorque, a chorar. Talvez este meu eu que publica livros e casou com o homem que ama e que tem filhos lindos e que está a falar consigo em Lisboa neste dia maravilhoso seja artificial. Ou talvez seja apenas o meu eu verdadeiro, que recuperei graças à medicação e que estaria obscurecido pela doença se nunca a tivesse tomado. Em todo o caso, prefiro-o, artificial ou não. É uma grande escolha que fazemos. As pessoas podem dizer que não é natural, mas também não é natural lavar os dentes e ninguém faz campanhas contra os dentífricos, dizendo que são o fim do mundo.

_A terapia, parte fundamental do tratamento da depressão, e que deve complementar a medicação, é muito cara. Em Portugal não é fácil aceder-lhe através do Serviço Nacional de Saúde e os seguros de saúde raramente a abrangem. O acesso a este tipo de tratamento deveria ser facilitado?
Claro, é fundamental que todos tenham acesso a serviços de saúde mental de qualidade, incluindo os mais desfavorecidos, que muitas vezes são os mais afetados pela doença e os menos diagnosticados. Ter pessoas num estado disfuncional arrasta toda a sociedade para o fundo. Pelo contrário, se esta conseguir chegar até elas e envolvê-las em algum tipo de tratamento ou intervenção, muitas poderão organizar-se e juntar-se à parte funcional do mundo. Penso que a negligência dos pobres, em todos os domínios, é uma crueldade contínua. Nesta área, em particular, é dramática.

_Há pouco disse que a depressão interage com a personalidade. Por que é que pessoas com vidas terríveis e difíceis não a têm e outras que aparentemente têm «tudo para ser felizes» sofrem dela? O que pesa mais: hormonas e neurotransmissores ou personalidade e história de vida?
Antes de mais, penso que é preciso compreender que não se conhece realmente a biologia desta doença e que qualquer sugestão de que sabemos o que a causa é ilusória.
A certa altura, a corrente psicanalítica defendia que tinha tudo que ver com a mente e nada com o cérebro, enquanto a corrente farmacológica defendia que tinha tudo que ver com o cérebro e nada com a mente. A verdade é que são indissociáveis e temos de os pensar em conjunto. As distorções que se formam quando olhamos através de uma só lente são muito problemáticas. De certa forma, o meu objetivo com este livro foi precisamente o juntar as diferentes abordagens à depressão.

_A depressão já foi apelidada de o mal do século. A prevenção pouparia muito sofrimento e dinheiro, não só ao Estado como às famílias e às empresas. É possível prevenir esta doença?
Acho que há muitos passos a dar, tanto para preveni-la como para tratá-la precocemente. A depressão resulta de uma vulnerabilidade biológica que interage com  circunstâncias desencadeadoras. Em relação à vulnerabilidade biológica não há muito que se possa fazer. Mas sim, acho que as circunstâncias sociais têm muito peso e poderíamos minimizá-las através da educação, de campanhas de informação, da melhoria dos ambientes de trabalho e do incentivo a uma maior interação entre as pessoas que não através de máquinas, dando mais informação sobre nutrição e exercício, por exemplo. Há um milhão de formas…

_Quando fala em circunstâncias desencadeadoras fala de quê?
Desde a invenção da televisão, as pessoas dormem, em média, menos duas horas do que era habitual (eu tiraria mais uma desde a invenção da internet), ou seja, a maioria das pessoas dorme de menos; por outro lado, levam uma vida mais sedentária, quer em casa quer no trabalho. Ora, se pegar numa pessoa deprimida e a puser a fazer exercício – uma hora de exercício não muito puxado, todos os dias – as melhorias vão ser tão significativas como se a puser a fazer medicação. Isto está estudado. Portanto, se dormíssemos mais e fizéssemos mais exercício seria um bom começo para prevenir a depressão. Por outro lado, interagir com ecrãs, seja de computador, de tablet ou de smartphone, em vez de outros seres humanos, também não é o comportamento mais saudável do mundo. OK, eu uso as novas tecnologias  a toda a hora, mas não há nada que substitua a riqueza do contacto com outras pessoas e perdê-lo é um forte desencadeador da depressão. Podia continuar horas a enumerar, a lista é longa… A verdade é que vivemos numa época muito confusa, com muito mais escolhas, mais liberdade, mais possibilidades, e isso, paradoxalmente, pode ser opressor, assustador, um caos.

_Ao prevenir a depressão, o que prevenimos ao mesmo tempo?
Entre outras coisas, o suicídio e penso mesmo que, com bons programas de prevenção, poderíamos evitar muitos crimes. Na minha opinião, a maioria dos crimes são cometidos por  pessoas tão deprimidas que sentem que estão a desaparecer e não têm nada a perder. A violência é muitas vezes consequência de depressões não tratadas. Tratar a depressão tem custos elevados, não a tratar tem custos muito mais elevados.

_A depressão está a surgir em idades cada vez mais precoces (fala em dez anos mais cedo, em relação à geração anterior). O que é que isto significa?
De facto, está a ser diagnosticada em pessoas dez anos mais novas: será porque está a acontecer mais ou será porque estamos a prestar mais atenção? Penso que as duas coisas. Tomamos mais atenção, por um lado, porque houve uma evolução social em relação à doença que leva a que as pessoas estejam mais abertas a reconhecê-la, por outro, porque temos tratamentos mais eficazes. Se em 1960, me dissesse que estava muito deprimida, eu podia responder pouco mais do que «lamento muito», enquanto hoje há medicação, há psicoterapia, há terapias alternativas, há uma série de formas de fazer face à doença. Por isso, é mais útil identificar a doença e por isso mais pessoas, e mais novas, estão a identificá-la. Mas há outra questão relevante: na sociedade atual os miúdos crescem demasiado depressa, a infância é muito curta, a idade adulta é muito longa, além disso, mais uma vez, não dormem o suficiente, não têm uma dieta equilibrada, passam demasiado tempo à frente do ecrã e pouco em interação humana, e isso pode predispor os jovens à depressão. Penso também que na era da internet, a crueldade e o bullying dispararam online, para outras dimensões e temos de, enquanto sociedade, perceber como isso pode ser traumático e desestabilizador.

_Todos estes livros de autoajuda, autoconhecimento, mindfulness, etc., com receitas de felicidade rápida e fácil, estão a elevar demasiado a fasquia, acabando por ter um efeito contrário, devido às expectativas irrealistas que podem criar?
Sim, acho que tal como no passado se estabeleceu um modelo físico irrealista para as mulheres – que deviam ter todas corpo de barbies ou supermodelos – com o sofrimento que isso provocou, agora todos esperam que o nosso estado seja, por defeito, de felicidade. Lembro-me de a minha mãe me dizer: «É tão estranho tu e os teus amigos terem a expectativa de ser felizes. Na minha geração, tínhamos esperança, não expectativa.»

_A depressão escolhe género, idade, classe, religião ou orientação sexual?
Penso que a vulnerabilidade à doença estará distribuída transversalmente, a questão é a que nível de trauma as pessoas estão expostas. No que diz respeito ao género, as mulheres poderão estar mais expostas a depressões causadas por alterações hormonais, durante o ciclo mensal, a gravidez ou a menopausa, e por isso, entre outras razões, há uma taxa mais elevada de depressão nas mulheres. Em relação ao resto da população, tem muito que ver com as circunstâncias.

_Por exemplo?
Porque é que há uma incidência maior de depressão entre os homossexuais? Porque muitos são rejeitados pelas famílias e pelos amigos, são olhados de lado, levam vidas secretas ou paralelas, e isso pode ser traumático. Em relação ao estatuto socioeconómico, trata-se muitas vezes de as pessoas não reconhecerem a depressão. Se estou deprimido, mas racionalmente sei que tenho uma boa vida, conforto material, trabalho, amigos, questiono-me porque me sinto mal, penso que deve haver alguma coisa errada comigo, mas resisto a pensar em depressão. Quanto aos mais pobres esse reconhecimento é ainda mais difícil porque a sua vida é tão difícil, com tanta miséria e problemas, que estranho seria não se sentirem mal, pensarão eles e os que os rodeiam.

_Diz a certa altura no livro que eliminar a depressão é eliminar o que nos torna humanos. Como podemos então combatê-la e ganhar a luta?
Certamente perder-se-ia humanidade se se eliminasse a dor e o sofrimento e a tristeza. Sem estes não existiria alegria, amor e felicidade e este é o ponto do meu livro. Mas é claro que não precisamos da depressão, sobretudo quando chega ao ponto de as pessoas ficarem paralisadas e não conseguirem funcionar. Tudo o que pudermos fazer para proteger as pessoas desse extremo da disposição humana será um bem social.

Catarina Pires
Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens