Ana Zanatti

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«Não sou tão certinha quanto aparento»

Sexo Inútil, o novo livro de Ana Zanatti, chega às livrarias no início de março, 50 anos depois de a atriz e escritora ter percebido «aimer les femmes», como escrevia no seu diário, e decidido não abdicar da sua natureza; seis anos depois de ter dado a cara pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo; e três semanas depois de ter sido aprovada, no parlamento português, após um veto presidencial, a adoção por casais homossexuais. Um livro, que apesar de todos os avanços, quer ser, e será, uma pedrada no charco do preconceito e da discriminação. Foi disso que Ana Zanatti quis falar.

Foi uma menina bem comportada e depois uma adolescente rebelde. Filha única, criada num ambiente familiar em que a disciplina, o rigor e a exigência do pai eram contrabalançados pela doçura, e bom humor, da mãe, fez-se dura de roer, sem se calar perante o que considerava uma injustiça. O diário e a sala e o quarto só dela fizeram-na perceber que ela própria era a sua melhor companhia, apesar dos muitos amigos e primos e vida agitada lá fora. Aos 18 anos, desistiu do curso de românicas, saiu de casa, zangou-se, fez cortes, fez pontes, desbravou mundo. Foi ser atriz, locutora, apresentadora de televisão e de festivais da canção, escrever letras de músicas e depois romances e livros infantis e poemas, e viver. Viver muito. Não a deixaram ser canhota, mas não conseguiram impedi-la de ser tudo o que quis.

Escreve: «Dei um salto no escuro sem olhar para trás aos 18 anos. Talvez o mesmo salto que me sinto a dar com a escrita deste livro.» Porquê?
Escrevi um livro muito diferente dos anteriores que ou eram romances ou contos. Este não só não é ficção como tem uma estrutura que eu própria só fui desbravando à medida que avançava. Um livro com excertos de correspondência, testemunhos, excertos de um diário, reflexões diversas foi mesmo um salto no escuro.

O Sexo Inútil tem como fio condutor a sua correspondência com Joana, uma estudante de medicina de 21 anos, às voltas com o assumir, perante si própria, a sua orientação sexual. Como chegou a esta ideia?
Tinha há muito a ideia de escrever sobre a dignidade e o preconceito. Ao longo de 40 anos fui juntando cartas de pessoas que se debatiam com essa questão, e quando me estava a preparar para organizar e ler o material que tinha, surgiu esta hipótese. Estava, havia dez ou onze meses, a responder aos e-mails diários desta jovem que atravessava um período particularmente difícil e pensei que, se ela me autorizasse, este poderia ser um bom ponto de partida para o livro que queria escrever.

O Sexo Inútil porquê?
As sociedades ocidentais refletem, em muitos aspectos, a herança da moral judaico-cristã que condena o prazer e o erotismo. Como dizia Nietzsche, «o cristianismo deu veneno a beber a Eros». É uma frase que cito bastante porque resume a ideia que quero veicular. De acordo com esta moral, o sexo só é legítimo quando tem esse caráter «utilitário» de possibilitar a procriação. Quando essa hipótese não existe, é como se o ato sexual e todas as manifestações eróticas não fossem legítimas e se revestissem de alguma inutilidade. Isto inspirou-me o título.

Neste seu livro há muita gente, muitos testemunhos, mas as protagonistas são a Ana e a Joana. Mais do que ver-se nela, porque se percebe que são muito diferentes, assumiu o papel da mãe que teria sido, se tivesse tido filhos?
No meu entender, todas as vozes do livro têm a mesma importância embora o fio condutor incida mais sobre a correspondência que troquei com essa jovem. Ela, eu, todos os que ali figuramos, somos a representação de milhões de pessoas no mundo inteiro. Mas respondendo à sua questão: percebi, logo de início, a diferença de temperamentos, mas havia pontos em comum. A Joana era uma jovem que se interessava muito por teatro, por cinema, por livros, tudo pontos que nos aproximaram. Na idade dela eu também tinha já os mesmos interesses. As nossas conversas não se cingiam às suas dúvidas e inquietações sobre a orientação sexual, embora essa fosse a questão central. O facto de viver num ambiente familiar de disciplina, de rigor e de exigência, como aquele em que vivi, também nos aproximou. Curiosamente, embora tivesse idade para ser mãe dela, nunca me vi nesse papel, mas sempre no de irmã mais velha, que poderia ajudá-la, lançar-lhe uma corda para a trazer do fundo do poço, e levá-la a entender o que a estava a empurrar para uma grande depressão. Mas sim, desempenhei vários papéis: de irmã mais velha, de mãe, de psicóloga…

Ajudou imenso a Joana e outras pessoas com quem se cruzou ao longo da vida. Em Terapia, interpreta uma psicóloga. Se não tivesse sido atriz, a psicologia é uma área que gostaria de ter explorado?
Sim, aliás, antes de abandonar a faculdade de Letras e entrar no Conservatório Nacional para estudar teatro, ainda pus a hipótese de tirar psicologia. O meus pais até colocaram a hipótese de me mandar estudar para Paris porque o curso cá em Portugal não era ainda considerado um curso superior e na Sorbonne já era.

Nunca sentiu vontade de ser mãe?
Tive uma fase, por volta dos 30 anos, em que coloquei essa possibilidade mas pensei melhor e percebi que seria uma grande responsabilidade e que a minha era vida demasiado instável para arriscar.

A certa altura, diz que se espanta com a sensatez dos seus conselhos. Tem um ar tão sereno. Não é uma pessoa sensata?
É que não sou tão certinha quanto aparento. Muitas vezes dei comigo a rir para dentro por estar a dar conselhos que eram o oposto daquilo que fiz por vezes na vida. Mas é óbvio que tinha consciência da responsabilidade que implicava orientar uma jovem com menos 40 anos do que eu, sendo que o que lhe dizia podia ser importante e crucial para a sua vida. Tinha consciência de todo o cuidado a ter com as palavras para que não houvesse margem para más interpretações, nem hipóteses de a encaminhar num sentido que não me parecesse correto, embora o que me parece correto a mim, possa não parecer a outras pessoas, claro.

Nunca temeu que ela se apaixonasse por si?
Nunca me ocorreu, foi tão óbvia para mim a necessidade que ela tinha de ajuda, que confesso que isso não me passou pela cabeça, embora algumas pessoas me tenham alertado para essa possibilidade, quando lhes falei desta espécie de «missão» em que me tinha empenhado.

No seu livro, todas as histórias, e sobretudo a da Joana, têm não só a ver com a aceitação do próprio relativamente à sua sexualidade, mas também com a aceitação dos pais. O amor incondicional existe?
Existe, claro, e no livro temos alguns exemplos disso, não só de pais, também de maridos e mulheres.

A maioria acaba por aceitar?
O que eu gostaria era que a maioria integrasse os filhos e toda esta questão da orientação sexual. Não se tratar de tolerar ou aceitar, porque a tolerância e a aceitação acabam por ter ainda um carácter discriminatório. Mas sim, a maioria, disso apercebo-me, acaba por acolher os filhos. Se o preconceito interior se mantém ou não, não lhe posso garantir, nalguns desaparecerá, noutros será mitigado apenas porque são os filhos e não querem perdê-los.

É esse um dos objetivos do seu livro: questionar a ideia de tolerância e aceitação e levar a que as pessoas integrem as diversas orientações sexuais como naturais?
Este livro é um alerta para uma questão que a maioria das pessoas pensa que está resolvida só porque existem algumas leis e já é tratada e falada em revistas, jornais, filmes, telenovelas e em programas de televisão. Na realidade, se formos ao interior da questão, ela não está resolvida mesmo. E a dignidade de milhares de pessoas continua a ser afetada pelo preconceito existente. Este livro não é escrito para alguns, é escrito para todos porque a todos diz respeito. Se há uma minoria de pessoas cuja sexualidade não é a que supostamente a maioria tem, toda a gente, sem excepção, tem pai e mãe e família e amigos e colegas de escola e colegas de trabalho, que directa ou indirectamente podem estar envolvidos. É desejável que todos estejam atentos ao sofrimento que podem causar a outros, quando, por via do preconceito, agem de forma discriminatória.

Como é que foi com os seus pais?
Preferia não falar na minha história. No livro, exponho-a o suficiente. Não quero centrar as entrevistas no meu caso pessoal, porque o livro não é sobre mim e gostaria de evitar que as atenções se centrassem na minha história pessoal.

Sim, mas a sua experiência é fundamental. Não foi em 2010, como anunciaram os jornais, que assumiu a sua orientação sexual. Sempre a assumiu. Viveu a sua vida sem se esconder. Essa ideia do ter que assumir «publicamente» não é espúria? Ninguém tem que se assumir como heterossexual.
É mais um ato discriminatório. Enquanto existir discriminação, a orientação sexual será notícia. Deixará de o ser quando aquela deixar de existir. Mas reconheço que quando uma personalidade pública se dispõe a fazê-lo com dignidade, pode ajudar a que alguns medos se esbatam nas pessoas que se escondem por temerem vir a ser discriminadas. E também a que as restantes encarem esta questão com maior entendimento e naturalidade. Não é justo que alguns de nós tenhamos tido de abdicar de parte da nossa privacidade para que as mentalidades evoluam, mas quando se servem causas maiores, são atitudes bem-vindas.

O casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 2010, e a possibilidade de adoção, acabada de aprovar no parlamento português, são dois passos importantes nesse sentido.
Sem dúvida. Todos os cidadãos devem ter os mesmos direitos, embora isso, em muitos campos, como sabemos, esteja longe de ser respeitado.

Uma das entrevistadas do seu livro, Maria, diz: «somos nós que determinamos a forma como nos olham». Se as pessoas vivessem livremente a sua vida, a sua sexualidade e os seus amores, enfrentando o preconceito, se necessário, seria mais fácil derrotá-lo?
Muitas pessoas sentem-se atemorizadas, diminuídas, por poderem ser penalizadas quer nas relações familiares, quer de trabalho e sociais, ridicularizadas e olhadas como alguém diferente. Uma das coisas em que insisto na minha correspondência com a Joana é que não podemos de modo nenhum permitir que a nossa dignidade seja posta em causa por via do olhar do outro. Não nos podemos esconder só porque o outro nos olha com menos bons olhos. No momento em que alguém não se faz olhar por inteiro está a submeter-se. Portanto, sim, está também nas nossas mãos. O preconceito e a discriminação continuam a existir, uma pessoa pode ser penalizada no seu trabalho, na forma como a família e a sociedade em geral a acolhe, mas está nas suas mãos não se sentir diminuída, não trair a sua essência, não se esconder e envergonhar de quem é, como se de um criminoso se tratasse. Esses tiros à nossa dignidade devem fazer ricochete.

Foi isso que a Ana fez. Alguma vez se sentiu alvo de preconceito?
Sim. Várias vezes. Há sempre pessoas que se atrevem mais, que tentam utilizar o seu poder, quando acham que a diferença do outro é uma inferioridade. Há sempre quem tente. Não significa que consiga, ou seja, fui prejudicada em diversas situações, algumas muito complexas que não vou aqui relatar, mas nunca deixei que a minha dignidade estivesse nas mãos dos outros, nunca fingi ser quem não era por medo de ser atacada e prejudicada.

Teve uma relação complicada com o seu pai, que era muito exigente consigo. Não terá sido isso que lhe deu a fibra e a capacidade de enfrentar tudo e todos?
Abdicar do que sinto e penso apenas para agradar a A, B ou C, ou disso retirar dividendos, nunca foi o meu estilo. Talvez não tenha sido apenas o facto de o meu pai ser muito exigente comigo que fez de mim quem sou. Talvez o facto de estar sempre a provocar-me e a desvalorizar-me – o meu pai era um homem da sua época, muito machista – me tenha ensinado desde muito nova a ser firme na minha posição. Mas era o meu carácter que me levava a isso, porque se eu não fosse dura de roer ter-me-ia encolhido e não iria contra o que ele me dizia.

Depois de ter saído de casa, estiveram dois anos sem falar. Fez as pazes com ele?
Fiz, com o correr dos tempos. Não propriamente com grandes conversas sobre o nosso passado, mas dentro de mim, porque a zanga era dentro de mim, pacifiquei-me com ele, sim. Felizmente.

É filha única.
Sou, tive um irmão que morreu bebé.

Sentiu falta de irmãos?
Acho que nunca pensei nisso enquanto estava no papel de filha, em casa dos meus pais. Vivi sempre muito bem comigo mesma e com a minha solidão de filha única. Embora fosse também muito sociável, tinha bastantes amigos e primos e uma vida até bem recheada de convívio. Não, não tinha pena de não ter um irmão ou uma irmã em casa. Estava muito bem naquele espaço que era só meu, a minha sala e o meu quarto, onde estudava, ouvia música, escrevia, desenhava, enfim. Gosto muito de estar comigo, sou uma boa companhia para mim mesma.

Queria ser bailarina. Tem pena de não a terem deixado?
Foi um sonho mas talvez não um verdadeiro desejo senão teria batalhado mais por ele. Também sonhei ser artista de circo, ser ilusionista e tantas outras coisas, todas elas ligadas às artes.

Sei que gosta de pintar e fazer «trabalhos manuais». As artes plásticas foram uma paixão que não concretizou?
Essa paixão cresceu quando me livrei do complexo de falta de jeito. Um dia percebi que a falta de jeito tinha apenas a ver com o ter sido obrigada a abdicar da mão com que me ajeitava e claro, com a direita era um desastre. Aí percebi que afinal não era destituída de todo, e talvez, se tivesse percebido isso mais cedo, tivesse explorado as artes plásticas.

Quando é que começou a escrever o seu diário?
Não sei com exatidão, mas comecei cedo, talvez aos dez anos ou ainda antes. Tenho páginas escritas já nessa idade.

É engraçado ver que com 12, 13 anos tinha reflexões muito maduras.
Acho que tenho uma natureza introspetiva e o facto de não ter irmãos ajudou-me a olhar mais para dentro. E depois não havia as solicitações e dispersão que um jovem tem hoje. Não tínhamos internet, só tínhamos um canal de televisão, era muito diferente a vida. Eu tinha uma atitude reflexiva e gostava muito de ler e de ler coisas que nem sequer eram para a minha idade. E sempre li mais do que vi televisão. Adorava sim, ir ao cinema, ao teatro, ao bailado. Lia livros que não percebia ou percebia muito pouco. Mas isso ainda me despertava mais, tinha a sensação de desbravar muito lentamente um terreno desconhecido. Acho que falo disso num dos excertos do meu diário que reproduzo no livro.

Desabafava no seu diário coisas muito íntimas. Nunca teve medo que alguém lesse?
Não, de todo, nunca me passou pela cabeça que o meu pai ou a minha mãe fossem ler o que eu tinha escrito. Não eram pessoas para o fazer. Foi uma das muitas coisas boas que me passaram.

Se corresse esse risco, teria desabafado de uma forma tão desassombrada?
Teria escondido melhor o diário, só isso.

«A mão esquerda ainda me amarraram, mas como se amarra um sentimento?» questionava no diário. Foi um trauma terem-na impedido de ser canhota?
Foi, foi muito violento. É-me difícil abdicar de coisas que são naturais em mim e das quais sei que não vem mal ao mundo, por isso foi muito mau.

Não a deixaram ser canhota, mas não a impediriam de amar quem sentia vontade de amar.
Na altura, perguntava-me como é que se amarrava um sentimento, como citou. Na altura e na minha geração, como aliás conto no livro, não se falava em homossexualidade, era um não assunto, algo que não se queria ver nem nomear e portanto nós sabíamos muito pouco, era como se não existíssemos, éramos transparentes.

Isso não a impediu. Na entrada do diário «dia especial», tinha 18 anos, partilha a primeira vez que beijou uma mulher. Queria experimentar, não confirmar. É uma pessoa reservada. Hesitou muito em partilhar esta história?
Partilhei-a porque a minha jovem amiga Joana estava a viver um momento muito importante para ela, estava a conhecer alguém pela primeira vez, a sua primeira namorada, e estava atrapalhada com essa situação, culpabilizava-se muito, e pensei que isso poderia ajudá-la a não se sentir tão mal consigo própria. Mantive-a no livro porque já me distanciei muito dos factos concretos, é como se em certa medida contasse uma história que podia ser minha ou de alguém, só me sinto ligada à essência.

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Muitas das pessoas que entrevista no seu livro questionam o etiquetar das pessoas em função da orientação sexual. As etiquetas fazem sentido? Se se apaixonasse por um homem isso seria perturbador para si ou seria tão natural como quando sentiu que era por mulheres que se sentia atraída?
O amor é o amor e creio que o ideal para todos nós será olhar como natural tudo o que sentimos, ainda que seja apenas uma relação erótica, quer seja por uma pessoa do sexo oposto, quer seja por uma do mesmo sexo. Esse é o olhar ideal: a pessoa não se recriminar ou não se assustar porque é homem e se apaixonou por um homem ou é um homem que toda a vida se olhou como gay e de repente encontra uma mulher por quem se apaixona. Além disso, o amor é sempre bem-vindo, o erotismo também, e não têm de nos perturbar no sentido negativo.

Disse numa entrevista que gostava de namorar e de se apaixonar. É uma mulher de paixões, mais do que de amores?
Sou mais de amores, embora tenha tido paixões. Umas transformaram-se em amor, outras não. Gosto das coisas estruturadas, cimentadas e construídas e as paixões são ondas avassaladoras que nem sempre persistem. São momentos extraordinários, e oxalá todos os vivam pelo menos uma vez na vida, mas eu aposto na continuidade e sei que dificilmente conseguimos manter-nos muito tempo naquele nível tão intenso a que nos leva uma paixão.

No seu diário, os rapazes eram os Idéfix.
Eu lia muito o Astérix e herdei da minha mãe algum sentido de humor, ela tinha um sentido de humor muito aguçado. Sempre gostei de brincar e de pôr nomes às pessoas.

Qual era a ideia fixa?
O que me confundia, e por isso lhes chamava Idéfix, era que os rapazes se aproximassem de nós, raparigas, invariavelmente com a ideia fixa de namorar. Sempre gostei de ter amigos e sentia que para eles a amizade parecia ser secundária. Sentia que não éramos avaliadas pela pessoa que éramos e que não éramos gostáveis senão para nos apaixonarmos ou namorarmos. Talvez eu procurasse nos rapazes o irmão que perdi.

A certa altura, no livro, diz à Joana que também tem medo e fala-lhe no medo das estreias que a tem afastada dos palcos. Como é que uma mulher tão corajosa tem medo?
Olhe, vá-se lá saber. Tenho imensos medos. Não sou uma pessoa afoita no que toca riscos físicos, e também tenho medo das alturas, tenho vertigens…

Tem medo de andar de avião?
Se pensar muito, sim. Mas, sabe, consegui dar uma volta para não pensar porque senão, não podia viajar, que é uma coisa de que gosto muito e de que preciso. Quanto às estreias não lhe sei explicar, é muito irracional. Quando comecei a fazer teatro, com 18, 19 anos, não tinha, de forma nenhuma, esse pânico. Mas ele foi crescendo, até chegar a um ponto em que senti que me retirava todo o prazer que tinha no processo que antecedia a estreia. Os ensaios e o desbravar do texto e da personagem sempre me deram imenso prazer. Mas o sofrimento, um mês antes da estreia, era de tal ordem, que pensei que não podia continuar, tirava-me anos de vida. Tenho isso em repouso, talvez um dia volte a pensar no assunto.

Diz que ser atriz foi como emigrar para um território social diferente. Como foi esse processo?
Para mim, fez parte do desbravar do mundo. Sentia necessidade de conhecer pessoas que tivessem uma vida diferente da minha, da dos meus amigos e colegas habituais talvez por nos movermos num meio mais conservador com que não me identificava em muitos aspectos. Sempre tendi para conhecer gente que, de alguma forma, me revelasse experiências diferentes, me trouxesse mundos novos, novas formas de pensar, sempre fui curiosa nesse sentido. Foi um processo de descoberta.

Ir viver sozinha e depender só dia si própria, contar só consigo, comer pescada congelada durante dois anos, foi determinante no seu percurso?
Foi uma grande aprendizagem, foi muito bom, foi uma das épocas extraordinárias da minha vida. E tenho continuado a ter outras, felizmente. Mas esses momentos em que aprendemos mais, são os mais duros, e quando os estamos a atravessar, dificilmente percebemos a verdadeira dimensão do que eles nos propõem.

Percebe-se que a dificuldade em tornar-se independente e libertar-se do julgamento dos outros era o que mais a impacientava na Joana. Como lidou com isso?
Não foi fácil. Foi um teste não só à minha paciência, e eu sou bastante impaciente, como à minha capacidade de entender o que é diferente, muito diferente, de mim. Estamos a falar de um livro sobre a importância de sabermos acolher as diferenças e eu própria me deparei com uma dificuldade semelhante. Aprendi imenso, nomeadamente pôr-me no lugar de alguém que tem uma natureza muito diferente da minha. Esforcei-me por entendê-la sem deixar de insistir no que considerava necessário para que ela pudesse viver os seus 20 e poucos anos com outra alegria e esperança. Mas não pressionando demasiado, deixando-a agir dentro do tempo dela. O meu tempo é muito mais acelerado, em certos aspetos.

Os subtítulos do seu livro são todos títulos de filmes. O cinema é uma paixão não correspondida na sua carreira?
De certa maneira, mas o que posso dizer sobre isso? Os incentivos ao cinema em Portugal, têm sido poucos. Felizmente, agora há muitos realizadores novos e trabalhos muito interessantes. Se não fui mais vezes convidada para filmes que me suscitassem algum interesse, isso foi alheio à minha vontade. Mas trocava impressões sobre filmes com a Joana e ocorreu-me, para a divisão de capítulos, escolher títulos de filmes que sugerissem o assunto do capítulo.

Nunca pensou emigrar, não para um território social diferente, mas para um país diferente?
Não. Fui convidada algumas vezes para trabalhar fora daqui, nomeadamente em Espanha e no Brasil, mas nunca aceitei.

Porquê?
Porque gosto de estar aqui. [Pausa] E por outro lado porque senti que tanto num país como noutro iria cair em meios muitíssimo competitivos nos quais não me sinto bem. Mesmo aqui, quando sinto que estou num ambiente demasiado competitivo não é uma coisa que me caia bem, não gosto. A minha competição é comigo. E já me dá muito trabalho.

É uma perfecionista?
Pois [sorri]. Às vezes não dá jeito nenhum.

A atriz canadiana Ellen Page queixou-se recentemente de que, desde que assumiu publicamente a sua homossexualidade, só a convidam para papéis «gay». Isso nunca lhe aconteceu.
Não, curiosamente, nunca me calhou uma personagem homossexual.

Vi e li imensas entrevistas para preparar esta. Há duas perguntas que nunca falham: a cena escaldante, em O Lugar do Morto, e as cenas de nudez que protagonizou pouco depois do 25 de abril de 1974, em duas peças de teatro, o Equus e outra, no Quarteto, com a Zita Duarte. Acha que a curiosidade está ligada à sua conhecida orientação sexual?
Não, de todo, mas, sabe, eu tenho alguma dificuldade em perceber os meandros de certas perguntas que por vezes saem de mentes um tanto labirínticas.

Teve dúvidas quanto a despir-se em palco?
Nunca tive dificuldade em lidar com o meu corpo, mas sim, já o disse em entrevistas, fui pressionada para não o fazer, por todos à minha volta, não só pressões profissionais como de amigos, até. Ainda não se tinha feito nu, no teatro, em Portugal. Tratava-se de bons textos e o nu não era gratuito. Por isso, mais uma vez, alguém tinha de dar o primeiro passo. Quando me toca a mim, e se me faz sentido, não viro costas.

A Maria Teresa Horta costuma dizer uma frase maravilhosa: proíbem-me e eu incandesço.
Acontece-me exatamente o mesmo [ri].

Estudou num colégio católico e depois rebelou-se contra deus, mas no seu diário revela o conforto que é tê-lo como último reduto. A religião, nomeadamente a católica, no ocidente, tem sido um forte agente da discriminação em função da orientação sexual. Os sinais de abertura dados pelo Papa Francisco são suficientes?
Não é de um dia para o outro que o pensamento e a atitude da Igreja vão mudar, mas a mensagem do Papa Francisco tem sido muito importante em muitos campos. Oxalá encontre seguidores. Uma coisa é certa no que toca a questão da orientação sexual: para muitos católicos que são homossexuais, o discurso do Papa Francisco tem sido um bálsamo e uma fonte de esperança.

Dança com a vida é um dos conselhos que dá à Joana. Foi isso que fez?
Tenho tentado. Aconselhei a Joana a fazer o que sempre fiz e continuo a fazer: aceitar os desafios que a vida me vai propondo. Vivê-los como se fossem uma dança, um pas de deux com a própria vida e procurar retirar daí algum prazer. E, mesmo quando a vida me pisa e magoa, encontrar forma de acertar de novo o passo e dançar melhor, cada vez melhor. Às vezes dizia-lhe: monta-te na onda, tenta surfar em cima dela, e tira partido dessa viagem, do que ela tem para te oferecer. Se te mantiveres rígida, inflexível, se contrarias a onda, ela atira-te ao chão.

Como é que lida com as mudanças de ritmo de vida?
Todas as que nos levaram a esta aceleração em que vivemos, lido muito mal. Não gosto de urgências, de coisas feitas sobre o joelho, de prazos para ontem, de não ter tempo para pensar e refletir. Sou bastante despachada a executar tarefas, muitas vezes várias ao mesmo tempo, trabalho em média 12 horas por dia, mas tenho de ter uma base mínima de organização e de tempo para as fazer com alguma consciência de que estou a dar o melhor ou perto disso. Rebelo-me todos os dias contra este ritmo em que me vejo metida e com a qualidade que retira a tudo o que fazemos. Mas ainda não encontrei forma de gerir isso, só indo para uma ilha deserta. Aqui, a trabalhar, a saber que o resultado do que faço, do que preciso de fazer, mesmo na vida do dia a dia, está dependente muitas vezes do que outros fazem atabalhoadamente, passo muito mal. Convivo mal com amadorismos, pouco profissionalismo, e nesta aceleração, é difícil até os bons profissionais não falharem. Agora imagine os maus…

E como tem lidado com o envelhecimento?
[Olha em volta] Está a falar com quem? Eu não estou a envelhecer. Posso ter rugas, mas não envelheci.

Então reformulo: a não correspondência entre a idade cronológica e a idade interior aflige-a?
O que me preocupa mais é a possibilidade de o envelhecimento físico poder tolher-me os movimentos, quer intelectuais, quer físicos. Isso é uma preocupação para qualquer pessoa que sabe que terá cada vez menos tempo para estar por aqui, com qualidade, mas não é uma coisa com que conviva diariamente. A adaptação é gradual.

Em que sentido?
Os meus hábitos foram mudando ao longo do tempo, foram-se adaptando não só em função das limitações físicas da idade, mas também da minha evolução interior, espiritual. Eu gostaria de estar acordada 24 horas por dia, mas preciso de dormir sete, portanto na verdade gostaria que o dia tivesse mais horas. Como não é possível, tento adaptar-me. Aos quarenta já não aguentava as três ou quatro noites seguidas sem me deitar que aguentava aos vinte, e aos 45 menos e aos 50 menos e aos 60 menos, mas são coisas graduais e eu vou encontrando compensações. Custa-me um bocadinho perder coisas, portanto se perco de um lado, conquisto do outro.

Não gosta de perder coisas?
Tenho uma relação muito viva com o prazer. Tenho prazer em viver, em comer, em conversar, em rir, em passear, andar na praia, tudo isto pede-me horas de presença. Já tenho dificuldade em deitar-me à três da manhã e levantar-me às oito (porque acordo naturalmente cedo) e tenho a sensação de que estou a perder aquelas horas da noite em que gostava de estar com os meus amigos a beber copos e à conversa. Mas não me resigno. Tento encontrar outros caminhos para compensar.

Sempre escreveu, desde miúda, mas só em 2003 começou a publicar, com o romance Sinais do Medo. Como foi esse processo?
Foi lento. Começou a trabalhar dentro de mim a ideia de explorar mais a escrita, de me abalançar a escrever qualquer coisa com outro fôlego, de me retirar um pouco de uma atividade mais constante como atriz. Um desejo de me recolher, de estar menos visível, é muito forte. Tudo isto é algo que há muitos anos começou a tomar conta de mim e foi ganhando intensidade e forma.

Quando começou, temeu a crítica?
Temer? Temer não. Tinha como é natural, alguma expetativa, sobre como me iriam ler, as pessoas em geral, não a crítica, mas nada disso me tirou o sono. Não por achar que tinha escrito alguma obra-prima, mas não encontrava motivos para temer.

Romance, poesia, letras de músicas, agora este livro, que é quase documental. O que é mais fácil para si escrever? Por que nunca publicou a poesia?
Hei-de publicar, espero. Quando ela amadurecer. Ainda está muito verde.

Como espera que O Sexo Inútil seja recebido?
Deixe-me sonhar alto: o meu desejo é que seja lido pelo maior número de pessoas possível, que atravesse o público leitor transversalmente. Que ninguém lhe fique indiferente e que possa despertar um novo olhar sobre as questões que envolvem o preconceito, a discriminação, a dignidade de qualquer grupo de pessoas alvo de perseguições, quer sejam homossexuais, negros, mulheres, judeus, muçulmanos, transexuais, etc. Ou seja, que possa trazer alguma luz, esclarecimento ou até mesmo levantar questões, mas que não deixe ninguém indiferente ao sofrimento causado aos grupos de pessoas que foram ou continuam a ser vítimas de actos discriminatórios. Muitos poderão passar a encarar este tema de uma forma mais esclarecida. Outros, como professores ou psicólogos, poderão ver nele uma boa ferramenta para partilhar experiências de algumas pessoas, que podem ajudar tantas outras. Alunos, pacientes, familiares, amigos, colegas. E que os próprios, os que se sentem vítimas, encontrem força e inspiração para tomarem conta da sua vida nas suas mãos, e recuperem a dignidade ferida. Esse é o meu desejo. Falar com todos e para todos. E deixar no ar um sentimento de esperança. Expetativas? Não gosto de as criar.