OPINIÃO

Aloha

[…]

Querido Júlio,
Eis a última carta que te escrevo:

Ontem, ao subir a Rua Garrett, encontrei o senhor Abílio, que me disse que tinha encontrado uma velha amiga num velório e estava feliz. Conta-me que durante o velório uma senhora se dirigiu ao falecido, a carpir ruidosamente e a pedir-lhe desculpa por o ter traído. A senhora tinha-se enganado na sala e estava a falar com o morto errado, deixando todos petrificados. Todos, menos o senhor Abílio e a Amélia, que desataram a rir, e que por isso tiveram de sair rapidamente da sala. Eis que o acaso os uniu. O luto demorado que fez pela mulher terminou naquele dia com uma gargalhada acompanhada.

A Teresa quase esbarrou comigo, de tão apressada que ia. Abraçou-me e disse radiante: «Tens de conhecer o Artur, é inteligente e espirituoso e sabe o que quer. Resolvi deixar-me de “merdas” e das minhas teorias. Não quero ser “a tal” mulher moderna que não precisa de um homem para nada.» E terminou, dizendo: «Vou com ele para Madrid e já aluguei a minha casa. Arranjei um projeto em que vou trabalhar no Matadero de Madrid. Beijos, vai visitar-me, please

Que dia, pensei. Sentei-me para beber um café e escrevinhar. Nisto vejo passar a Carmo com a mãe. Conversavam calmamente como nunca as tinha visto conversar. Sempre aguerridas, nunca tinham um tema de conversa consensual. Estão melhores, pensei. O Rui vinha apressado, mas viu-me e sentou-se ao pé de mim para contar o seu último engate. Ramon é espanhol e estava de passagem, em Lisboa, por causa da ArcoLisboa. Alugou a minha casa através da airbnb, e a química foi tal quando se cruzaram no primeiro dia que adiou a viagem de regresso. «Achas que chegou a minha vez?», perguntou-me.

A Rute liga-me no meio da minha conversa com o Rui para dizer que o Paulo deixou a mulher. Disse-lhe que não queria mais um casamento de fachada e que preferia que os filhos o vissem feliz ao lado de uma mulher que adorava do que ao lado da mãe numa relação vazia. A Rute ainda aguentou bastante tempo no papel de amante, mas depois disse-lhe que merecia um homem inteiro e fez-se à vida. Agora, três meses depois, recebe um telefonema do Paulo, a quem não deixou de amar, e dizia-me, «só fui capaz de lhe dizer que tinha um novo Macbook Air». O amor deixa-nos tolas, disse-lhe. Liga-lhe!

Entretanto o Rui avistou a Sara e chamou-a para a nossa mesa. Vinha esbaforida. Esclareceu que só tinha dois minutos. «Sabem, vou vender a minha casa e dar a volta ao mundo, estou farta de ser certinha e de fazer tudo direitinho. Quero arriscar, enviem-me as vossas moradas para vos enviar cartas, vou desligar-me da net», disse. Saíram os dois e fiquei a pensar nos encontros daquela manhã. De uma forma ou de outra, todos estavam a arriscar, a procurar, a querer e a acreditar que vale a pena investir em si ou numa relação, por mais complicado que tenha sido o passado ou que seja o presente. É isso! Quem não arrisca não petisca!

Esta é a ultima crónica que escrevo aqui, na NOTÍCIAS MAGAZINE. Resta-me dizer que foi um prazer e que foi bom enquanto durou. Aloha!

[Publicado originalmente na edição de 29 de maio de 2016]