Alérgico à corrida vs. Fã do exercício

Opostos Exercício

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Há quem corra por gosto e há quem descanse.

Dois cantores com estilos de vida diferente. Peter de Cuyper é fã da má vida e advoga o direito de não correr nem fazer exercício, enquanto Pierre Aderne leva a sério o prazer (e necessidade) de correr e pedalar. Pantufas ou ténis de corrida?

Portugal parece, cada vez mais, um país de viciados em exercício físico. Há mais ginásios, é raro um parque onde não se veja alguém a correr e o crossfit já entrou no «dicionário». Mas nem todos querem abdominais perfeitos. Há quem prefira o conforto do sofá ou da esplanada: o adepto da boa vida, que não assina a Men’s Health e não resiste a um bom naco de carne e queijos amanteigados.

O cantor Pierre Aderne é um indefetível do desporto, o cantor belga Peter de Cuyper prefere a dolce vita. «Assumo sem problemas que não gosto de correr e acho ridículo as pessoas pegarem no carro para irem ao fitness…», diz o vocalista dos Barry White Gone Wrong. «A sério, não estou a ver a razão pela qual as pessoas correm e sofrem… Esforço físico? Claro que no sexo é fantástico, mas a correr? Não… A corrida só serve para situações de stress, tipo estar a fugir de um urso. Não preciso de me treinar para essa eventualidade. Penso que estou em forma, desde que não tenha de correr.» Além de gastar a energia em palco com a sua banda portuguesa, este belga por cá radicado há décadas confessa que perde sempre uns dois quilos em cada noite que anima as sessões de DJ de Fernando Alvim por todo o país – nos seus tempos não muito livres é também o «road manager» das sessões de DJ do apresentador do 5 para a Meia-Noite.

O caso do brasileiro Pierre Aderne é diferente. Antes, noutra vida, já foi mesmo atleta. Nos anos 1980, chegou a ser campeão de natação em águas abertas. Agora, dedica-se afincadamente, nos intervalos profissionais, à prática do triatlo: corre, nada e pedala. Há uns anos chegou a competir também nas provas Iron Man, de longas distâncias, mas admite um certo masoquismo. «O meu psiquiatra diz que o desporto é muito mais para a cabeça do que para o corpo». Peter interrompe: «Estão a ver!? Ele precisa de psiquiatra e eu não!» «Os que não precisam de psiquiatra são os piores», responde o cantor de Da Janela de Inês, sem desarmar: «O desporto inspira-me na criação artística. Muitas melodias chegam enquanto pedalo. Compreende, Peter, o exercício físico é o meu escape deste mundo! E ajuda-me depois das noitadas, nomeadamente as que envolvem vinho do Douro… No dia seguinte, sinto necessidade de eliminar aquele álcool todo através do exercício. Mas correr ou pedalar não é um esforço para mim! Nunca foi, o desporto é, no meu caso, uma necessidade… Não sofro.»

Falemos então das vantagens de cada um dos estilos de vida. O belga é o primeiro a falar: «Nunca estou lesionado! Todos os meus amigos que jogam à bola sofrem de mazelas! Eu só tenho umas dores nas costas e vêm de quando era adolescente e fazia competição de motocross. Se não tivesse feito desporto, hoje estaria perfeito!» A vantagem para Pierre é outra: «Antes de um concerto gosto de pegar na bicicleta e ir de Lisboa até Cascais, junto à marginal. Só assim consigo desligar-me de todos os problemas, como se fosse uma faxina da minha sala mental. Quando fiz o meu primeiro triatlo Iron Man a minha vida estava de cabeça para baixo e aquilo foi mais ou menos a minha tábua de salvação.» Hoje, aos 50 anos, continua com mais ou menos barriga a pegar na bicicleta e nos ténis de corrida, embora nunca largando o prazer de beber bons vinhos.

Peter está a marimbar-se para os «bons» exemplos. Enquanto Pierre ri a bom rir, confessa que gosta de fumar. Entre o dilema do sofá ou do banco da esplanada, escolhe a esplanada. Porquê? «Porque as esplanadas vêm com bebidas, o que é sempre mais agradável. Além disso, prefiro ler, conhecer pessoas… tudo menos correr. O desporto não faz parte da minha vida.» Ao mesmo tempo, garante não ser preguiçoso, odeia estar sem nada para fazer. A palavra talvez seja… hedonista. Quando no verão se depara com uma piscina confessa que nadar não é a prioridade. «Prefiro ficar estendido.»

Quando se despedem, Peter olha fixamente em Pierre e confessa: «Claro que poderia ser mais saudável, mas era se bebesse ou fumasse menos…» Estes dois vão encontrar-se num palco, por certo, mas nunca num ginásio…

PETER DE CUYPER
Este músico belga trocou o seu país pelo nosso há 21 anos. Hoje, aos 47, é líder dos Barry White Gone Wrong, banda que colocou recentemente António Zambujo a cantar em dueto em inglês o tema The Day. É casado, pai de um filho e amante da sua Sesimbra. Mas é também o DJ residente do Roterdão, club da noite do Cais do Sodré.

PIERRE ADERNE
Desde 2011 trocou o seu Rio de Janeiro por Lisboa. Filho de pai português e mãe brasileira, é um cantautor com uma série de discos editados por todo o mundo. Neste momento, está a lançar mais um novo tema, Tu não Sabes o Que É o Amor, do disco Da Janela de Inês. Tem uma série televisiva de encontros musicais chamada Rua das Pretas, com emissão na SIC Notícias e, uma vez por semana, reúne músicos no sótão do Tivoli BBVA para um serão de petiscos, vinho e música intitulado precisamente Rua das Pretas.