Alemanha nazi

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O filho que tudo faria para que o pai nazi fosse de novo enforcado.

Niklas é filho de Hans Frank governador-geral da Polónia ocupada por Hitler. E Horst é filho de Otto von Wächter, governador da galiza ucraniana. como lidam estes dois homens, nascidos em 1939, ano em que começou a II guerra, com o facto de os seus pais terem sido dois dos principais criminosos de guerra nazis? A resposta é dada num documentário que passa no cinema São Jorge, no próximo sábado. E nesta entrevista a Niklas Frank.

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O documentário tem a chancela da BBC e será exibido no próximo sábado, no cinema São Jorge, no âmbito da Judaica – Mostra de Cinema e Cultura. Em A Minha Herança Nazi: O Que os Nossos Pais Fizeram, Niklas e Horst partilham a visão que têm dos pais com Philippe Sands – professor de Direito Internacional no University College, em Londres, e descendente de uma família judia da Europa Central exterminada durante o Holocausto.

Hans Frank nasceu em 1900. Licenciou-se em Direito e, ainda antes da Guerra, foi advogado de Hitler e do partido nazi e ministro da Justiça da Bavária. Em 1939, o Führer nomeou-o governador-geral da Polónia, território que a Alemanha tinha acabado de invadir, desencadeando assim o início da II Guerra Mundial. Hans partiu com a mulher, Brigitte, e os cinco filhos para o castelo real de Wawel, em Cracóvia. Foi aí que instalou o seu quartel-general e viveu como um rei, assistindo às deportações de judeus para os campos de concentração e aos crimes infligidos à população polaca. Niklas tinha 6 meses quando a família se mudou para a Polónia e 7 anos quando o pai foi enforcado a 19 de Outubro de 1946, depois de ter sido condenado no julgamento de Nuremberga. Hoje tem 76 e é o único dos filhos de Hans Frank ainda vivo. Foi jornalista e dedicou grande parte da vida a investigar sobre o pai, tendo publicado vários livros. Um deles, intitulado In the Shadow of the Reich (1987), está escrito como se fosse uma longa carta dirigida a um «monstro» a quem jamais seria capaz de perdoar.

Antecipando a vinda a Lisboa de Niklas Frank (ele e Philippe Sands estarão presentes no São Jorge para um debate a seguir à exibição do documentário), a NOTÍCIAS MAGAZINE foi entrevistá-lo à Alemanha, a Wilster, pequena povoação situada a cerca de setenta quilómetros a norte de Hamburgo. Niklas não acredita em Deus, mas, se por acaso encontrasse o pai depois da morte, passaria a vida eterna a tentar entregá-lo ao tribunal dos céus. Para que «fosse enforcado mais uma vez».

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O livro que publicou em 1987, In the Shadow of the Reich, escrito como se fosse uma longa carta dirigida ao seu pai, termina com a seguinte frase: «Durante toda a minha vida tentarei fugir de ti.» Continua a tentar?
Julgo que nunca conseguirei afastar-me dele. Pensar em todas as vítimas continua a deixar-me furioso. Por que razão não se afastou quando percebeu que o partido nazi era um movimento criminoso? Nunca conseguirei entender. Mas o meu pai não me arruinou a vida. Nunca gostei dele e isso salvou-me. A razão fundamental para nunca ter gostado do meu pai foi o facto de ele me ter rejeitado, por pensar que eu era filho do amante da minha mãe. Uma vez lembro-me de andar à volta de uma mesa redonda à espera de um carinho dele, mas a resposta foi: «O que estás aí a fazer? Tu és um estranho nesta casa.» Tinha três anos, mas ficou-me profundamente gravado na alma.

Reconhece em si alguma coisa do seu pai?
Também consigo ser um mentiroso brilhante. Mas precisamente por saber que o meu pai mentia compulsivamente tentei sempre ser honesto. A minha obsessão com a honestidade é consequência de tudo o que aprendi sobre o meu pai nas pesquisas que fiz. E além de mentiroso ele era cobarde. Também por isso procurei sempre instigar em mim aquilo a que chamo coragem cívica.

Que sentimento tinha o seu pai em relação a Hitler?
Amava-o profundamente e acho que não me engano se disser que havia ali quase um desejo sexual. Mas ele teve uma educação católica e estudou Direito durante a República de Weimar. Por isso sabia perfeitamente a diferença entre o bem e o mal. Era ministro da Justiça da Bavária quando o campo de concentração de Dachau foi construído. Nesse momento deveria ter-se demitido. Bastar-lhe-ia inventar uma desculpa pessoal qualquer. Mas não. Mesmo perante todas as evidências do mal ele escolheu seguir em frente.

O que acha que levou Hitler a nomeá-lo governador-geral (GG) da Polónia?
Hitler conhecia perfeitamente o caráter submisso dele. Tinha a certeza de que o meu pai jamais ofereceria qualquer resistência. No fundo quem mandava na Polónia era o Himmler.

Tinha 6 meses quando os seus pais se mudaram para a Polónia. Qual a sua memória mais antiga?
Aquela, à volta da mesa, à espera de um abraço do meu pai. Também me lembro de uma vez em que entrei no gueto de Cracóvia com a minha mãe, dentro do Mercedes dela. Deitei a língua de fora a uma criança mais velha do que eu que estava do outro lado do vidro. Ela fugiu e eu senti-me vitorioso.

Sabia o que era um gueto?
Não. Essas coisas só descobri depois da guerra, quando vi fotografias publicadas nos jornais, com referência à Polónia. Para mim, os habitantes do gueto eram apenas pessoas tristes e pobres. Também me recordo de que tinha um carro a pedais. Andava ele pelos enormes corredores do Wawel – o castelo de Cracóvia que era a nossa residência – a tentar chocar contra os criados e contra os adultos para os magoar. Sabia que não podiam fazer nada contra mim porque eu era o filho do GG.

Lembra-se de sentir culpa?
Sim, mas hoje não sinto. A raiva e a fúria são reações muito mais saudáveis do que a culpa. Quando dou palestras em escolas digo sempre: «Todos nós somos inocentes, mas também somos alemães. Peço-vos, por isso, que reconheçam os crimes que foram cometidos pelo povo alemão.» Isto é algo que ainda hoje os alemães não aceitam. As pessoas não querem discutir o que se passou, mas seria muito melhor se todos reconhecêssemos os crimes que cometemos. Temos sido cobardes nesse aspeto. No final das sessões de leitura dos meus livros aponto para o auditório e digo: «Amo a Alemanha, mas não confio nos alemães.» E a prova de que tenho razão está aí, nas manifestações de violência contra os refugiados.

Que opinião tem sobre Angela Merkel?
Houve um momento em que senti vergonha por ela ser a chanceler alemã. Quando a economia colapsou na Grécia, nós comportámo-nos como nos velhos tempos do III Reich, como se fôssemos melhores do que os outros. Uma das principais figuras da CDU chegou a dizer esta frase inacreditável: «Agora a Europa fala alemão.» Não consigo entender o que este indivíduo tem dentro do cérebro.

Mas suponho que lhe tenha agradado a posição de Merkel na questão dos refugiados.
Com certeza que sim. Mas agora vamos ter três eleições regionais. Se o AFD – partido de direita – tiver perto de vinte por cento dos votos estou convencido de que a Alemanha irá acabar por fechar as fronteiras. E aqueles que querem fechar as fronteiras são pessoas da classe média e com formação. São os mesmos que fizeram que Hitler fosse possível.

Regressemos à sua infância. Vivia num castelo como um pequeno príncipe.
Sim. Nada nos faltava. E cada pessoa que visitava o meu pai levava-nos brinquedos. Mas há uma coisa curiosa. Muito rapidamente destruíamos os brinquedos. Julgo que, de forma instintiva, sentíamos que algo estava mal e a nossa fuga era estragar os brinquedos que nos davam.

Uma das divisões marcantes para si é a casa de banho do seu pai, não é?
Sim, porque tinha degraus para entrar na banheira. E principalmente por causa de um momento em que o meu pai me pôs um bocadinho de espuma de barbear no nariz. Foi talvez o único momento de carinho pai-filho que tive com ele. Lembro-me perfeitamente desse instante. Isso mostra bem quanto eu ansiava pelo amor de um pai.

A sua mãe ia muitas vezes «fazer compras» aos guetos. Isso permite-lhe concluir o quê?
Que pura e simplesmente não se importava com o sofrimento daquelas pessoas. Mas não era apenas ela. Fazer compras nos guetos era uma prática relativamente comum entre os alemães. Conseguiam as coisas de que precisavam em troca de vãs promessas de ajuda. A irmã do meu pai também foi ao campo de concentração de Plaszow e disse: «Sou a irmã do GG. Se me entregarem jóias talvez eu possa ajudá-los.» Como alguém é capaz de fazer isto?

Não culpa a sua mãe da mesma forma que culpa o seu pai?
Não, por causa de uma carta que encontrei. Já depois da guerra – ela morreu em 1959 – escreveu a uma amiga: «Quando olho para trás tenho de admitir que atuámos sem qualquer tipo de misericórdia.» Esta frase, escrita de forma completamente sincera, foi algo que nunca encontrei no meu pai. Ele nunca admitiu que era um criminoso, nem sequer no livro e nas cartas que escreveu já na prisão de Nuremberga. E nessa altura já não tinha qualquer desculpa. Já tinha visto as filmagens da libertação de Auschwitz.

Sobre a única vez em que o foi visitar à prisão escreve: «Mesmo naquele momento, tinhas de continuar a mentir. Disseste que dentro de pouco tempo estaríamos todos juntos a celebrar o Natal. E eu lembro-me de pensar: “Por que razão está a mentir desta forma? Ele sabe que vai ser enforcado, não sabe?”.»
Sim. Tinha apenas 7 anos e estava ao colo da minha mãe. Lembro-me perfeitamente da desilusão que senti por ele estar a mentir naquele momento.

Como se sentia por saber que o seu pai iria ser enforcado?
Eu não gostava dele e para mim era uma consequência normal do que ele tinha feito. Nessa altura eu já tinha visto fotografias publicadas nos jornais. Eram fotografias de pessoas mortas na Polónia e o meu pai era sempre mencionado. Para a minha vida foi muito melhor ele ter sido enforcado.

Como foi ser adolescente e filho de Hans Frank?
Nada de especial, porque Frank é um nome muito comum na Alemanha e quando me perguntavam a profissão do meu pai respondia apenas advogado. Mas às vezes, quando andava à boleia, contava para ver a reação das pessoas. Ficavam intrigadas. Algumas diziam que era injusto que o meu pai tivesse sido enforcado. Tinham pena de mim, davam-me comida e perguntavam se havia alguma coisa de que eu precisasse. Tenho uma história engraçada, quando trabalhei na edição alemã da Playboy. Tive um supervisor norte-americano que era judeu. No meu segundo dia de trabalho chamou-me e disse: «Senhor Frank, nós sabemos quem foi o seu pai. Se prometer que não escreve coisas como ele fez é muito bem-vindo aqui.»

Acredita em Deus?
Não.

Se houvesse vida depois da morte gostaria de reencontrar o seu pai?
Claro que sim. E gostava que houvesse um tribunal lá em cima. Depois de ter passado uma vida a falar com ele dentro da minha cabeça, passaria a vida seguinte a tentar entregá-lo ao tribunal dos céus. Para que fosse de novo enforcado.