OPINIÃO

Ainda há samurais

Na escola Jisei Dojo ensina-se a via do guerreiro, ao jeito dos antigos samurais.

Há uma escola em Lisboa que ensina a via do guerreiro, à maneira dos antigos samurais. Aqui, todo o conhecimento tem de ser validado uma e outra vez, para se ajustar às batalhas da vida atual.

No filme O Último Samurai (2003), o momento em que o capitão Nathan Algren (Tom Cruise) cai nas mãos dos homens de espadas e carrapitos que se propunha derrotar é tramado. Os americanos querem contratos lucrativos com o imperador do Japão, que pretende modernizar o exército imperial com armas de fogo. Mas ambos os lados têm de reprimir antes a rebelião dos samurais, guerreiros devotados à tradição do bushido, que acabam por desviar Algren para a sua causa. «Os samurais não são pessoas comuns. Desde que acordam dedicam-se à perfeição no que fazem, nunca vi tal disciplina», dizia o capitão, rendido ao significado de ser samurai: «É devotar-se a uma série de princípios morais. É buscar a tranquilidade da mente e ser mestre no domínio da espada.»

Por cá, ainda há samurais. Na escola Jisei Dojo, em Lisboa, continua a seguir-se a via do guerreiro. «Hoje não faria sentido andarmos por aí de sabre, mas o enriquecimento pessoal que eles cultivavam chega-nos através do método do jisei budo – ou jiseido – e mantém-se atual diante das adversidades que a vida levanta no presente», diz o mestre Inácio Dias. Aos 39 anos, 26 dos quais a desenvolver-se no jiseido, foi ele o fundador (em março de 2013) do único jisei dojo português, um dos 16 espalhados pelo mundo. «O budo é um conceito samurai. Traduz a ideia de se fazer sempre um bocadinho mais para um dia ser alguém nobre, sábio, capaz.» O método poderá ser considerado o mais completo e o que melhor se soube adaptar aos tempos, bebendo diretamente dos guerreiros antigos para se ajustar aos modernos.

«Uma das disciplinas fundamentais do jiseido é o kikô, a prática da consciencialização da nossa rede energética pessoal, da qual as artes marciais se têm vindo a desligar desde que chegaram ao Ocidente», explica o professor. Outra é o tai ji, matriz técnica que converte essa energia em movimento: a execução harmoniosa de sequências técnicas ativa em profundidade cada parte do corpo, gerando energia vital e eficácia em todas as idades. O jisen, dança da energia, é a expressão do movimento espontâneo. O combate faz uma síntese do método: somos eficazes tendo um equilíbrio dinâmico de técnica, energia, sensibilidade e presença de espírito. «E depois há a disciplina do kenjutsu, a esgrima japonesa, em que o sabre é uma extensão visível do trabalho interior do corpo de que falei, e nos remete para a ideia de vida e morte. A arte de enfrentar e de viver, não a arte de matar.»

Foi há cerca de 40 anos que o mestre japonês Kenji Tokitsu, doutor em Sociologia a viver em França desde 1971 e reconhecido mundialmente como investigador das artes marciais, criou o jiseido. «Ninguém sabe quando começou, mas a dada altura vai buscar o que lhe parece importante trazer para os nossos dias, testa esse conhecimento para validar a eficácia e cria o seu método segundo o princípio do budo, que significa “a via do guerreiro”.» Traduzindo jisei como «o autoaperfeiçoamento do ser humano», temos um formar-se a si mesmo pela prática das artes marciais, num caminho próprio, contínuo, que nos permite fazer frente à adversidade hoje – a guerra pode ser muita coisa – e assim se mantém intemporal.

Ricardo Salgado, engenheiro de 39 anos, é o praticante mais graduado da Jisei Dojo (recebeu em março o cinto negro). «Pratico jisei budo há dez anos. Mantemos vivo o espírito dos samurais ao trazer para o presente os métodos e as técnicas, em evolução desde então, e parte da sua filosofia: “Tudo o que fizeres faz de forma suprema.” Só não trazemos tudo porque a guerra era algo muito real para esses nossos antepassados e o contexto feudal que lhes ditava a existência desapareceu há muito. Hoje temos desafios que exigem novas abordagens.»

Acima de tudo, a ideia de haver constantemente forma de melhorar, sem patamar máximo, é central na prática. «Neste ponto, até o Cristiano Ronaldo podia ser considerado um samurai urbano.»

Ricardo acredita que os valores que guiavam os antigos samurais – justiça, coragem, benevolência, respeito, honestidade, honra, lealdade – continuam presentes. E continuam a ser importantíssimos para a nossa cultura.

«Sou menos conhecedor de outras correntes, mas um ponto fundamental distingue o jisei budo: apesar de assentar fortemente na base prática dos nossos antepassados, não é revivalista e integra o valor muito moderno de que todo o conhecimento tem de ser experimentado continuamente, e validado uma e outra vez para comprovar que o que fazemos é eficaz», diz o praticante. Se não for, deve ser de novo estudado. «Só assim se pode eliminar deturpações introduzidas pelo tempo (como a cristalização de técnicas), regras artificiais (como as de competição) ou conceitos obsoletos que surgem quando já não se sabe por que razão é assim em vez de assado.»

Rui Coelho, juiz de direito, 44 anos, também reconhece no jiseido uma prática saudável, de bem-estar e eficácia – tudo o que define a essência da arte marcial, no seu entender. «Ensina-me a ser paciente, trabalhador, crítico, criativo e a enfrentar o treino como uma descoberta.» Ensina-o a não esperar a recompensa do resultado imediato, mas a saborear o percurso, consciente de que esse é já o prémio por contribuir para uma vida melhor. «O mestre Tokitsu, fundador do método, repete amiúde que não nos ensina nenhuma fórmula mágica.» Não dá soluções, mas abre as portas a muitos e diferentes caminhos.

Existem outros métodos de budo, como o aikido, o jujutsu tradicional (de que derivaram o jiu-jitsu ou o judo), o kendo, o kyudo (tiro com arco), o naguinata-do (artes marciais que utilizam a arma naguinata). «O jiseido é o mais completo, mais equilibrado e mais próximo de nós. Não ficou preso a formalismos que teriam razão de ser noutra época. Mas não perdeu nada da essência antiga.»

Com João Gonzaga a descoberta foi uma pedrada no charco. Lia tudo o que lhe vinha às mãos – budismo, taoismo, meditação, yoga, tai chi, A Arte da Guerra, de Sun Tzu, O Livro dos Cinco Anéis, de Miyamoto Musashi, vários sobre bushido. Era o início de uma busca pessoal, experimentou tudo. Aos 16 lançou-se nas artes marciais: taekwondo, karate shotokai com passagem pelo shotokan, workshops de tudo e mais alguma coisa. Nunca era bem o que queria. «Encontrar esse rumo com o jiseido. Fez a ponte entre o espiritual em mim, o corpo e a mente», diz o engenheiro informático de 47 anos, praticante desde 2014. «Ao início só fazia kenjutsu, mas após umas semanas conciliei com o budo e tenho pena de não ter começado há muitos anos e não ter tempo para me dedicar mais a cada área do método.» A espada, como expressão externa de um trabalho interno completo, dá-lhe um bom equilíbrio que se reflete na sua vida.

Como dá a Rui Coelho, de resto: «O uso do sabre exige um refinamento do movimento. A espada não se move porque a mão ou o braço a agitam, move-se como extensão, num trabalho de músculos que, na nossa vida corrente, deixámos de mobilizar e esquecemos que existem.» Para a espada cortar, explica, o corpo tem de cortar primeiro.

O método agarrou Rui há oito anos, ao ver um cartaz que aludia à prática de sabre japonês. Pensou que a expressão «samurai urbano» fosse coisa para miúdos, mas fez uma aula e rendeu-se. «Tinha muitas dores devido a uma hérnia discal. Chegava ao fim do dia em baixo, sem postura, mas após os primeiros meses de prática o abatimento diário deixou de aparecer.» Ao longo dos anos, aumentou consideravelmente os níveis de saúde, bem-estar e eficácia. «Quero continuar este caminho do autoaperfeiçoamento, ciente de que poderei sempre ser melhor até depois de velho.» Fazê-lo com uma katana na mão é, sem dúvida, elevar a exigência da viagem.

OR TAGEM, O CÓDIGO DE HONRA DOS SAMURAIS

GI – JUSTIÇA, HONESTIDADE E RETIDÃO
Para um samurai não existem tons de cinzento relativamente à honestidade e à justiça – a sua própria justiça, não a que lhe é ditada por outros ou sujeita aos deleites de terceiros. Há o certo e o errado.

YUU – CORAGEM
Fazer o que está certo é o principal propósito do samurai, por isso ele avança com firmeza de espírito, sem vacilar diante dos perigos nem subestimá-los. A bravura heroica não é cega, antes inteligente e forte.

JIN – COMPAIXÃO
A nobreza de sentimentos é dos maiores atributos da alma e o samurai tem-na de sobra. Dá mais importância à dor dos outros do que à sua e por isso mantém-se vigilante para atuar a favor deles quando mais precisam.

REI – RESPEITO, EDUCAÇÃO
O samurai rege-se pelo respeito e a cortesia diante de todos os seres, incluindo o inimigo. Não é cruel ou arrogante, não exibe a sua força e não lesa a dignidade de ninguém, qualquer que seja o seu estatuto.

MAKOTO – SINCERIDADE ABSOLUTA
Quando um samurai diz que fará algo, é como se já estivesse feito. Os outros podem confiar cegamente naquilo que veem, mas mais importante é que ele próprio possa fazê-lo. A sua palavra é sagrada.

MEIYO – HONRA
O samurai não se esconde de si mesmo, não diz nem faz o que os outros esperam que diga ou faça se for contra os seus princípios, não se desonra. É feito do melhor tecido e não deixa que ali caia a mais pequena nódoa.

CHUU – DEVER, LEALDADE
Acima de tudo, um samurai é leal àqueles por quem se tornou responsável. Por eles vive e morre com dignidade. Sabe haver vida em cada respiração, em cada copo de chá, e isso faz parte do caminho do
guerreiro.