A vida não é uma cadeira de rodas

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Marta Guimarães Canário ficou paraplégica aos 15 anos, mas nunca deixou que essa condição fosse o centro da sua vida.

Marta Guimarães Canário ficou paraplégica aos 15 anos, mas nunca deixou que essa condição fosse o centro da sua vida. Persegue a normalidade enfrentando com força os desafios. E agora lançou um livro para ajudar os outros. Chama-se Ser Feliz É Uma Escolha. E, no caso dela, foi mesmo.

A vida da Marta Guimarães Canário dava um filme. Isto seria um cliché não fosse esse filme não ser como 99 por cento dos leitores estão a imaginar: a superação da menina da cadeira de rodas. Não. Se a Marta fosse protagonista do filme… precisamente, ela seria a protagonista e não a sua cadeira. Ela viveu sempre tentando que o acidente que teve aos 15 anos, que a tornou paraplégica, não determinasse mais na sua vida do que já determinava no seu quotidiano.

Agora escreveu um livro a contar isso tudo. Como se irrita, por exemplo, que Marta se irrita quando os guiões das novelas debicam no tema: «Percebo o caminho dos guionistas, põem uma miúda de cadeira de rodas mas que vai ser forte. Para eles é fantástico, para mim não serve. Eu não quero que a questão da cadeira de rodas seja um tema da novela. Há uma executiva que se embrulha com dois amantes, dá para estar numa cadeira de rodas? Ou uma mãe de família. É sempre a menina bonita que fica de cadeira de rodas e até é aceite pelo namorado. E são felizes para sempre.» Marta faz um esgar de desprezo.
Desta vez Marta não disse a palavra – e as suas declinações – que pontua o seu discurso. «Normal.» A busca da normalidade numa situação excecional é o mote da sua vida e o que dá o tom ao livro que agora editou: Ser Feliz É Uma Escolha. Mais um cliché, não fora o facto de, neste caso, ser uma grande verdade. Aos 15 anos, miúda divertida, boa estudante, ficou intoxicada com monóxido de carbono que se libertou de um esquentador enquanto tomava banho para ir para a escola. Estava sozinha e foi depois encontrada inanimada pela irmã. Esteve em coma e quando acordou, já no Hospital de Santa Maria, descobriu que não sentia as pernas.

Nos primeiros tempos ninguém sabia se aquilo era para sempre ou ia passar. «Por isso nunca houve aquele momento whoaaa, nunca houve um momento de chorar.» O que lhe permitiu continuar a encarar as coisas com esperança. «Uma médica disse à minha mãe: “Eu acho que o monóxido de carbono lhe afetou o cérebro, ela está tão bem psicologicamente que tem de ter havido uma descompensação.” Eu não me lembro de parar e dizer: “Marta, estás de cadeira de rodas, vais ter de reagir, vais ter de escolher ser feliz com isto.” Foi uma aceitação gradual.»

Marta andou em médicos e tratamentos. Mas acabou por tomar aquela que foi a melhor decisão da sua vida, que terá marcado «inconscientemente» a escolha da felicidade: «Continuei a estudar.» Estava no segundo período, o acidente deu-se no início de março. «Os meus pais perguntaram-me se eu queria parar um ano para me dedicar à recuperação, porque era uma questão de recuperação, fase temporária. Eu disse que queria também continuar a minha vida. Fui percebendo que sentada conseguia ter uma vida normal. Namorava há dois meses, namorei mais sete anos. Estava no 10º ano, os professores passaram-me para o 11º porque tinha notas razoáveis. Fui para a faculdade. E tudo foi normal.» E regressa a palavra. A normalidade era um bocado extraordinária: morava na Av. Da Igreja, em Lisboa, no segundo andar de um prédio sem elevador. Andava no Liceu Rainha Dona Leonor. Mas a rotina instalou-se, como acontece sempre. «Os meus amigos habituaram-se a ir buscar a Marta a casa. A cadeira não entrava, ficava no hall. Vivi ali dez anos, que foram os mais normais do mundo, porque levar e trazer a Marta às cavalitas era como trazer um saco de compras. Chegava, estacionava com quem estivesse, punha as pernas para fora, abria as pernas e a pessoa sentava-se, cavalitas, pega no blusão, pega na mochila sobe, sobe, sobe, sobe, maple, despe-se. Era isto. Agora tudo isto me faz imensa confusão, como é que conseguimos gerir isto tudo? A minha vida não foi passada em casa, portanto andava sempre de um lado para o outro. Ia às discotecas… Na altura não nos fazia confusão nenhuma.»

Marta contou com a ajuda da irmã, que nem chega a ser dois anos mais velha, Patrícia, e da mãe, que ainda vive com ela. Uma família unida, de «mulheres guerreironas», como ela diz. Que deve ter pesado tanto nos genes como na forma como encarou tudo. Claro que apesar da normalidade, «ser independente sempre foi melhor». A família mudou-se para a Costa de Caparica, onde havia o mar e a praia – em que Marta era viciada – e também uma casa adaptada. «Mas foi tudo muito normal», repete ela.

E isto podia resumir tudo, até hoje. Marta entretanto tinha feito a Faculdade – Ciências da Comunicação, na Nova de Lisboa –, arranjado emprego na Novabase, nas relações com a imprensa, uma empresa que sempre a tratou com a normalidade que ela queria e a atenção de que precisava mudando, por exemplo, alguns pormenores dos edifícios onde se encontrava.

Mas algo aconteceu para pôr mais um obstáculo na vida desta mulher forte. Horas e horas passadas sentada acabaram por fazer pagar o seu preço: uma escara que se transformou em infeção, uma infeção que deu em septicemia, uma septicemia que a pôs em risco de vida. Aí sim, a estrutura de Marta vacilou. «Foi brutal. Conheci o meu limite. A septicemia fez-me conhecer-me a mim própria. Eu melhorava e piorava, quando melhorava ia para casa, quando piorava voltava. À quarta ou à quinta vez disse se é para eu ir, levem-me rápido. Não quero. Disse à minha mãe: estou farta disto, é o meu limite. Resposta da minha mãe: “Vai-te vestir e vamos para o hospital.” O primeiro internamento foram logo dois meses. A minha sobrinha Carlota tinha 1 ano e eu tinha uma ligação, como tenho hoje, muito grande com ela. Mesmo aquilo que te irrita, aquelas discussões de família, tudo isso me fazia falta. Estar esparramada no maple a ver televisão, a dormir para um lado e a minha mãe para o outro… E tudo isso me fazia imensa falta. Trabalhei no hospital no início, sempre agarrada ao computador e ao telemóvel. Mas queria a minha vida normal.»

No rescaldo dessa situação, e do ultrapassar dela, há mais ou menos dez anos, chegou o livro que Marta decidiu agora publicar. Um livro a meio caminho entre a biografia e a autoajuda. Porque não é apenas a história dos factos que interessa, mas a forma como ela lidou com eles, os superou. Um livro que vem na senda do Blogue da Canária que ela foi escrevendo e que começou a perceber que tinha impacto. «As pessoas achavam que era uma escrita muito simples, muito crua. Reviam-se em algumas situações. Até nas minhas histórias de infância. Senti que ajudava as pessoas. Incrível, não é? Eu, com todo o meu mau feitio, até ajudava algumas pessoas, até o meu mau feitio ajudava algumas pessoas. Comecei a tentar pôr tudo de uma forma mais estruturada. Eu sempre adorei escrever. Sempre escrevi em caderninhos. Sempre quis ser jornalista.»

O livro é pontuado por várias máximas como «Não tenhas medo nem sofras por antecipação» ou «Sente os cheiros e as texturas». Frases que indiciam uma dose de reflexão. «A ideia não foi minha», explica Marta. Foi uma sugestão da ghost writer que com ela escreveu o livro. «Mas foi muito fácil chegar às dicas. Habituei-me a pensar nestas coisas. O que é que me faz seguir em frente…» Desde sempre? «Toda a minha vida, a partir dos 15 anos. Habituei-me a pensar um bocadinho mais do que uma miúda normal.»
O livro apareceu por insistência de Inês Queiroz, da Editoria Matéria Prima, que foi colega de faculdade. Marta não queria, mas depois acedeu. «Passei por situações duras e aprendi imenso, cresci imenso, evolui. Hoje sou muito melhor do que há dez anos, como pessoa. E não temos o direito de adquirir tanto conhecimento e de não o partilhar. Não me serve de nada se for só para mim.»

E a exposição? «A exposição já não me irrita tanto como dantes. As pessoas olham para mim porque lidam mal com a diferença. » É apenas mais um obstáculo que tem de ultrapassar, como tantos, de que foi tomando consciência ao longo da vida. «Eu comecei a perceber que tinha de ter uma postura mais distante quando comecei a trabalhar. Não ia chegar à beira de um jornalista e dizer faz aí um cavalinho. Comecei a ganhar uma maturidade e com ela alguns filtros.»

A planear qualquer saída, até ao cinema. «Agora já não vou com o logo se vê, vamos levar a Marta ao colo a uma casa de banho. Não, não levam. Há coisas que com a idade vamos perdendo a vontade de fazer. Eu sempre planeei, sempre tive consciência de que a minha cadeira não entrava em qualquer lado. Quando é que eu não me preocupo? Se vou jantar com as minhas amigas, elas quando escolhem o restaurante já sabem que tem de ter acesso e casa de banho.» E isso é uma luta? «Há coisas em que não me meto, não faço manifestações não me vão apanhar a fazer uma manifestação. Respeito muito quem faça e quem se dedica à causa, mas eu prefiro fazer de outra maneira. Não deixo de sentir as coisas e chamar a atenção doutras formas. Os meus amigos dizem que o facto de eu ir mesmo quando há degraus, ir bem arranjada e bem-disposta já é um exemplo.»

A verdade é que os obstáculos são muitos. Das pedras da calçada à mentalidade de quem a olha. «Acho que as pessoas ainda têm um grande caminho a percorrer, há muito egoísmo, há pouca empatia com os outros», diz Marta, sem dramatizar. «A mobilidade reduzida é como eu digo no meu livro para sete biliões. Porque toda a gente passa por um episódio, nós não estamos nem aqui nem em nenhum pais do mundo que esteja preparado para isso. Há uns países mais evoluídos… mas era preciso deitar o mundo todo abaixo e construí-lo todo de raiz.» Mesmo que não seja esse o caso, Marta espera que o seu livro ajude, pelo menos, a mudar umas pedras de sítio.

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AS LIÇÕES DO VOLUNTARIADO
Foi na rua, com os sem-abrigo com quem faz voluntariado, que Marta Guimarães Canário aprendeu mais uma lição de vida. «Eu era um bocadinho arrogante, não tinha empatia com as pessoas, não calçava os sapatos delas. Hoje tento pôr-me nos sapatinhos deles, estou mais disponível.» A primeira experiência foi há 15 anos, pontual. Há cerca de dois anos, através de um amigo, conheceu a associação Casa. «Um dia disse-lhe: levas-me, não sei como é que vou reagir, mas levas-me. E o que senti quando cheguei a casa depois daquele dia foi uma loucura.» Todas as semanas distribuem comida à noite, na Gare do Oriente. «Depois é normal acabarmos por ficar amigos deles, por sabermos os problemas deles, às vezes encaminhamo-los. Estou sempre a tentar brincar com eles. A minha presença acho que os acalma um pouco. E é giro porque eles respeitam.»