A vez delas: Assunção Cristas

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«Será que Hillary seria candidata se não tivesse sido primeira-dama?»

O ano de 2016 pode ficar para a história como aquele em que as mulheres passaram a ocupar os lugares de topo na política global. Hillary Clinton tornou-se a primeira mulher a ser nomeada como candidata à Presidência dos Estados Unidos da América. Theresa May juntou-se a Angela Merkel na liderança de dois dos principais países da Europa. Este foi também o ano de afirmação de Catarina Martins e de Assunção Cristas, as duas líderes partidárias numa arena política em que as mulheres estão ainda claramente sub-representadas.

A nomeação de Hillary é o momento para ouvir, na primeira pessoa, Assunção e Catarina sobre o caminho já trilhado e sobre as desigualdades que sobram. E para compreender que portas se abrem quando há uma mulher a lutar pelo lugar mais poderoso do planeta.


Leia também o testemunho de Catarina Martins.


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Assunção Cristas diz ser uma mulher e mãe primeiro, líder do CDS depois. Antes de chegar à política, ignorava a diferença entre homens e mulheres. Agora reconhece-a, mas diz que é uma vantagem. Não a incomoda que as atenções se virem para as mudanças de visual ou para o facto de ter sido a primeira ministra grávida em funções. Apenas lamenta que não deem a mesma atenção aos políticos que são pais. Insiste neste ponto: as mulheres não podem ter tudo, mas os homens também não.

Se fosse americana provavelmente votaria na Hillary Clinton, apesar de o CDS ter uma ligação ideológica mais forte com o Partido Republicano. Este ano, pela primeira vez, o CDS não se fez representar na convenção republicana por achar que não fazia sentido apoiar um candidato como Donald Trump. Mas votaria na Hillary também por ser mulher. Acho que o facto de ela ser candidata dá um sinal às meninas que estão na escola, diz-lhes que este é um caminho, que não há qualquer impossibilidade de elas um dia serem presidentes. Ainda que nos possamos perguntar: «Será que ela seria candidata se não tivesse sido primeiro a mulher do presidente?» É certo que o percurso profissional dela é intenso, mas a primeira mulher americana candidata é também uma antiga primeira-dama.

Hillary apresenta-se como mãe e avó e eu compreendo-a. Antes de estar na política escrevia sempre nos meus currículos que era casada e mãe de três filhos. É assim que me vejo. Não tenho nenhuma dúvida sobre o facto de a família ser a minha prioridade. Mas sei que isto causa estranheza. No último congresso do CDS levei a minha família e houve quem comentasse que o fazia por propaganda. Sempre o fiz. Levava as crianças para as feiras agrícolas porque era uma forma de passar tempo com eles aos fins de semana. As viagens demoravam três ou quatro horas e aproveitava esses momentos para pormos a conversa em dia. Quando me perguntam como consigo conciliar a vida familiar e a política respondo sempre que tenho um bom marido. Gostava de saber se fariam essa pergunta ao Bill Clinton. Se eu fosse homem teria as mesmas preocupações. Mas para um homem é mais negativo levar a família atrás.

Há uns tempos uma antiga assessora da Hillary, Anne-Marie Slaughter, escreveu um livro em que defendia que as mulheres não podiam ter tudo. Achei isso muito injusto porque acho que os homens também não podem ter tudo. Para um homem é mais fácil dizer que chegou atrasado porque levou o carro à revisão do que justificar-se com a necessidade de levar um filho ao médico. Um homem que tem esse tipo de preocupações é visto como fraco. Existe muito preconceito para o lado do pai também. O meu objetivo é trabalhar para que todos possam ter tudo, para que a vida pública e a vida privada não sejam incompatíveis.

Lembro-me de aos 14 anos discutir acaloradamente com o meu pai – que durante um período acabou por estar mais tempo em casa com os cinco filhos do que a minha mãe – porque ele aconselhava as quatro filhas a serem independentes. «É tudo muito bonito com os homens, mas se as coisas correrem mal quem fica com os bebés no colo são as mulheres», dizia ele. Eu irritava-me, não me conformava com isso. «Os filhos são dos dois», respondia-lhe. E ele encerrava a questão com uma resposta simples: «Enquanto forem as mulheres a dar à luz vai ser assim.»

Antes de vir para a política não tinha reparado que ser mulher era relevante. Na academia nunca senti isso. Mesmo em Direito, onde havia um grande predomínio dos homens. Fiz o doutoramento sem sentir qualquer diferença. Quando cheguei à política percebi que ser mulher era diferenciador porque há poucas. Mas acho que essa diferença foi sempre valorizada de forma positiva. Sobre a ideia de que as mulheres têm de trabalhar o dobro dos homens para provarem o valor não sei pronunciar–me. Trabalho sempre o máximo que posso e não perco tempo a ver se os outros trabalham mais ou menos. E também não me incomoda nada que se foquem nas questões da mudança de visual ou na gravidez. Esses comentários são os expetáveis na nossa sociedade que é muito mais exigente em relação às mulheres – as meninas querem-se bonitas, vaidosas e arranjadas. Mas talvez isso um dia mude – ou passamos a olhar assim para os homens ou deixamos de olhar assim para as mulheres. Quanto à gravidez, digo apenas que depois de eu estar grávida, o secretário de Estado da Agricultura José Diogo Santiago Albuquerque foi pai e andava desconsolado. «De mim ninguém quer saber», dizia ele.

Não sei se sou feminista, mas não tenho dúvidas de que as mulheres são as mais afetadas quando há desigualdades, nas remunerações, no facto de o trabalho doméstico recair mais sobre elas. Acho que a igualdade de género é muito importante para promover a própria família. Para recuperarmos os índices de fecundidade temos de ter uma maior partilha de papéis entre pai e mãe. Se tivermos uma sociedade mais equilibrada a esse nível, o resto acontece como consequência.

Na política estamos num momento em que é preciso ainda dar oportunidades às mulheres para que possam ser notadas. A forma como se recruta penaliza-nos. Numa reunião com dezenas de pessoas, normalmente são os homens que mais facilmente vão ao palco e pegam no microfone. As mulheres ficam para segundo plano. Mas acho normal que os homens puxem os homens – não vejo isso como algo pensado, mas sim como algo que acontece naturalmente.

Como tenho dois filhos e duas filhas, sou favorável a quotas e leis da paridade por causa delas. Mas quem sabe se no futuro não terei de defender quotas semelhantes por causa deles. A dada altura temos de ter cuidado com o inverso. Mas estamos muito longe disso neste momento.