OPINIÃO

A morte silenciosa das abelhas

O parlamento aprovou hoje medidas de combate à vespa velutina, uma espécie predadora que ameaça há alguns anos as colmeias portuguesas. E não só… Na verdade, as abelhas estão cada vez mais ameaçadas de extinção.

Recuperamos uma extensa reportagem de 2013 sobre a espécie predadora que veio da Ásia, entrou em Portugal e está a espalhar-se rapidamente pelo território, dizimando colmeia atrás de colmeia. O perigo disto? Sem polinização, não há legumes nem frutos. O risco de uma crise alimentar é real.

As vespas estão em vigia, estacionadas sobre as colmeias. São quatro ou cinco, às vezes dez. Permanecem horas a fio, no ar, à espera. Revezam-se se estiverem cansadas. Assim que uma abelha arrisca a saída, uma velutina ataca-a, perseguindo-a até a prender nas patas. Tem mandíbulas fortes, com as quais não lhe custa muito decapitar a presa. Depois, suga a massa interior do tórax da abelha e leva-a para o ninho, para alimentar a criação. Umas horas depois, volta à vigia. As abelhas ficam com duas hipóteses desgraçadas: ou largam da colónia para um voo suicida ou ficam lá dentro, até morrerem todas.

O alarme tocou em setembro de 2011. Um apicultor detetou um ninho de vespas perto de Viana do Castelo e chamou as autoridades. Toda a gente fez figas para que aquele fosse um caso isolado, mas não era. «A vespa autóctone em Portugal chama-se crabro e também se alimenta de abelhas, mas apenas das que estão moribundas. Por isso até tem um papel útil: faz uma limpeza seletiva da colmeia, conservando os exemplares mais fortes», diz Paulo Russo, professor de zootecnia e investigador nos laboratórios apícolas da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). «Esta espécie asiática não só faz das abelhas a sua principal dieta como ainda inibe a saída dos insetos da colmeia, matando milhares de abelhas em poucos dias. O impacte é avassalador.»

A Vespa velutina nigritorax chegou à Europa por via marítima, em 2004. As autoridades francesas desconfiam que vieram num carregamento de bonsai, proveniente da China e descarregado em Bordéus. Nesse ano, eliminaram três ninhos. Em 2005, cinco – e a coisa parecia controlada. Mas em 2006 foram detetados 223 ninhos de vespa velutina em França e, um ano depois, os animais tinham-se espalhado por metade do país: 1613 ninhos. Não tardaram a chegar à Europa Central e ao Norte de Espanha. Há um ano e meio, entraram em Portugal.

Em dezembro de 2012 estavam confirmados nove ninhos no Alto Minho. No final de fevereiro, o número tinha subido para cinquenta. Do distrito de Viana do Castelo espalharam-se para Braga e Vila Real. O Ministério da Agricultura, a Direcção-Geral de Veterinária e a Proteção Civil decidiram intervir, em parceria com os produtores. «Fizemos a localização de todos os ninhos por GPS e destruímos os que estavam ativos, com maçaricos», conta Alberto Dias, presidente da Associação de Apicultores do Minho e Lima (APIMIL). «Como as vespas se dão em áreas urbanas, começámos a receber denúncias e o número continua a aumentar. O problema são os ninhos que ninguém vê, na floresta. É por aí que as velutinas vão continuar a progressão para sul. E vai ser impossível travá-las.»

No final de janeiro, foi localizada uma colónia de vespas num ilhéu do rio Minho e Alberto acompanhou os bombeiros para os trabalhos de eliminação do ninho: um barco, carregado com o maçarico e as botijas de gás, e uma escada para subir às árvores, que as vespas gostam da altitude. «Quando lá chegámos, a colónia já tinha sido abandonada. Por isso, tirei-a da árvore e trouxe-a comigo.» É um ninho impressionante, quatro ou cinco vezes maior que os das vespas autóctones. Mede um bom meio metro e é feito das substâncias orgânicas que as velutinas mascam para formar uma espécie de argamassa. No centro são criadas as novas colonizadoras, que depois largam e procuram um novo habitat. As velutinas avançam progressivamente, à procura de abelhas. E, assim que escolhem uma nova geografia, umas constroem o ninho, outras procuram os apiários. E esperam.

No Oriente, as abelhas asiáticas aprenderam a defender-se das velutinas. Quando uma vespa prospetora entra na colmeia, a colónia começa por fechar-lhe a saída. Depois as abelhas rodeiam o predador e formam uma bolha ao seu redor, começando a bater as asas para criar calor. As abelhas suportam temperaturas de 42 graus, as vespas apenas de 40. Então as obreiras aquecem a temperatura da colmeia até aos 41 graus, quase se matando a si próprias para eliminarem a vespa. Vão ser precisas décadas de evolução genética para a abelha portuguesa conseguir fazer o mesmo.

A Apis mellifera iberiensis , ou abelha ibérica, tem algum ADN africano e é uma abelha mais agressiva do que a sua congénere europeia. Mas, mesmo antes da chegada da velutina, já estava sob séria ameaça de extinção. Sobretudo por causa da varroa, um ácaro asiático que chegou à Europa nos anos noventa do século passado e que criou enorme mortalidade. Hoje, existem antibióticos que ajudam a menorizar os efeitos da praga, mas não a eliminam. O problema é que o uso excessivo de medicamentos também é nefasto e pode levar ao colapso das colmeias. O mesmo acontece com a loque americana, uma bactéria que, há uma década, quase extinguiu a abelha em Portugal. Depois há a síndrome de colapso das colmeias, um fenómeno crescente cuja origem os cientistas não conseguem estabelecer em definitivo.

Há uns anos acreditou-se que as antenas de telecomunicações destruíam os radares das abelhas, e por isso elas abandonavam a colónia. Hoje, a tese dominante tem que ver com os pesticidas. Ainda na semana passada a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar, EFSA, veio condenar o uso de substâncias neonicotinoides nas sementes, porque aquele tipo de inseticida tem um efeito devastador nas abelhas, intoxicando-as. Certo é apenas isto: cada vez mais, os animais estão a abandonar as colmeias sem razão evidente. Abandonam a criação e a polinização e partem para a morte, numa espécie de suicídio coletivo.

Amadeu Fortunas, 36 anos, é apicultor e o seu mel está farto de ganhar concursos. Na vertente transmontana da serra do Gerês instalou trezentas colmeias onde produz mel de urze. A Casa do Couto, assim se chama a sua marca, vence há dois anos o primeiro lugar na Feira Nacional de Agricultura, em Santarém. Mas agora o homem está assustado: «Comecei a ver as vespas a rondar os apiários e várias colmeias simplesmente extinguiram-se.» A produção deste ano é capaz de baixar, e o homem teme que a culpa seja da vespa. Daí a uns minutos há de receber um telefonema de uma vizinha de Paradela do Rio, concelho de Montalegre. No telhado de uma casa isolada, a mulher deu com um ninho, encaixado nas telhas. Então o homem lá vai, armado de lanterna na mão, e não tarda em dar com uma estrutura enorme, a tal argamassa que os insetos mascaram com as mandíbulas. Quarenta centímetros de ninho, já sem vespas. As velutinas acabaram de o abandonar. «Para onde terão elas ido?», pergunta Amadeu. Lá fora a floresta espraia-se por quilómetros de serra, densa e alta. É impossível responder à sua inquietação.


O fim da humanidade

«Quatro anos depois de se extinguirem as abelhas, extingue-se a humanidade.» A frase pertence a Albert Einstein e, quando foi proferida, no início do século XX, ninguém imaginava que a hipótese pudesse tornar-se real. Paulo Russo, o investigador zootécnico da UTAD, avisa que a introdução da vespa velutina é uma ameaça que não se pode subestimar. «A estratégia de eliminação deste predador não é eficaz e começou a ser aplicada muito tarde. Temos, de facto, um problema em mãos.»

Os sinais são tudo menos positivos. Miguel, «Maia como a abelha», é o técnico apícola que tem conduzido os trabalhos de deteção da vespa velutina em Portugal. Passou os dois últimos anos a estudar esta espécie e este aumento de ninhos nos meses de inverno só podem ser sinal de uma progressão rápida da espécie asiática. «A maior parte dos ataques aos apiários acontece do início do verão até ao início do outono», diz ele. «Entre junho e novembro a população do ninho de vespas começa a crescer e há maior procura de alimento. E por isso que a grande pressão sobre as colmeias acontece nesta altura.» Depois do acentuado crescimento da comunidade de vespas durante o inverno, o verão pode revelar uma calamidade.

As velutinas distinguem-se das vespas crabro por três caraterísticas essenciais. O tórax é negro, as patas são amarelas e o abdómen é mais escuro, com listas amarelas perfeitamente definidas. Aos produtores de mel, Miguel Maia sugere a construção de armadilhas. Não permitem a erradicação de vespas, mas podem ajudar a Proteção Civil a detetar a presença de um ninho e eliminá-lo. «Podem construir-se algumas estruturas verdadeiramente simples, como por exemplo uma garrafa de plástico de água, com a parte superior virada ao contrário e uma solução de vinho branco, groselha e cerveja. As vespas entram, atraídas por este conjunto de odores, e já não conseguem sair.» São medidas que podem ajudar, mas não podem resolver a invasão.

Sem abelhas, a cadeia alimentar teria obrigatoriamente de mudar, já que setenta por cento dos produtos frutícolas e hortícolas que a humanidade consome precisam das abelhas para o processo de polinização.

«Nos Estados Unidos, onde a praga se fez sentir, há apicultores que deixaram de produzir mel e passaram a prestar serviços exclusivos de polinização dos pomares», avisa Paulo Russo. Ou seja, as colmeias são levadas para as zonas de onde estão naturalmente a desaparecer e operam uma polinização intensiva. «Os serviços são pagos, encarecendo brutalmente o preço dos produtos alimentares.» Em Portugal, há quem o faça a troco da cedência de terrenos para as abelhas. No curto prazo, é possível que o cenário mude. E os preços, claro, aumentem.

As frutas seriam as primeiras a desaparecer. No caso das amêndoas, elas desapareceriam quase por completo, enquanto as maçãs e os pêssegos veriam um redução na casa dos oitenta por cento. Citrinos como a laranja, o limão e a tangerina teriam uma redução de produção para menos de metade. Os frutos exóticos desapareceriam, as peras passariam a ser um produto de luxo. Depois, nas hortícolas, a extinção seria quase total. Sobreviveriam os cereais, cuja maior parte da polinização é feita pelo vento. Os legumes, esses, estavam condenados.

«Um cenário de extinção alteraria toda a cadeia alimentar», vaticina o professor da UTAD. O desaparecimento das frutas, dos legumes e das flores silvestres daria cabo de aves e herbívoros. Consequentemente, os carnívoros não teriam o que caçar e o homem perderia a maior parte dos seus recursos alimentares. O cenário traçado por Einstein pode parecer catastrófico à primeira vista, mas tem a sua razão de ser. As abelhas não estão só a lutar pela sua sobrevivência. Estão também a lutar pela nossa.

Na última década, o Ministério da Agricultura português e a Comissão Europeia têm-se multiplicado em esforços para incentivar a instalação de colmeias. Nenhum outro setor agrícola recebe tantos incentivos. A velha produção, de pequena escala, está a dar lugar à instalação de grandes apiários. Somam-se projetos e candidaturas a programas e subsídios. O potencial económico das abelhas é tremendo. E, mesmo numa altura de grande ameaça, a procura é maior do que a oferta. A única coisa que pode explicar um tamanho incentivo a um setor que já por si é rendível é este: as autoridades estão assustadas. Um mundo sem abelhas não é mundo nenhum.


Apicultores precisam-se

Nos grandes eucaliptais de Vila Nova de Cerveira, Gualdino Dias faz contas de cabeça. As suas quatrocentas colmeias tornam-no num dos maiores produtores do Alto Minho, região onde se produz 25 por cento do mel nacional. As vespas já andam de volta das suas abelhas e o homem faz contas aos prejuízos. «Exporto noventa por cento do que produzo, mas para isso preciso de ter grandes quantidades de mel. Se reduzo, tenho de vender ao mercado português, que está dominado por grupos económicos que compram a menos de um euro o quilo. Para fora, vendo o mesmo a três euros.»

Existem quase 18 mil apicultores em Portugal e o número está a crescer. O Algarve é a zona de maior produção do país, seguida pelo Alto Minho, Trás-os-Montes e a Beira Alta. Mais de noventa por cento dos produtores nacionais não são profissionais, ou seja, têm menos de 150 colmeias. Gualdino Dias, que tem 74 anos, só depois da reforma decidiu dar atenção exclusiva às abelhas. Agora, num ano bom, faz oito ou nove toneladas. «Isto é trabalhoso, porque a apicultura é como a música, nunca tem fim.»

Os mais antigos estão habituados a extrair o mel das colmeias, mas há muito mais potencialidades na produção das abelhas. A criação de rainhas e de enxames é um mercado lucrativo, porque há cada vez mais gente a querer investir no setor. Depois há a extração de mel, cera, pólen e própolis, que é usada sobretudo nos fármacos.

A geleia real, uma secreção com que as obreiras alimentam as larvas, tem várias aplicações no campo da saúde e estudos recentes apontam que o próprio veneno, a apitoxina, é eficaz na terapêutica do HIV. Estas potencialidades, no entanto, são sobretudo exploradas pelos grandes apicultores.

É precisamente isso que Dinis Neves, 37 anos, e Frederico Pereira, 31, querem fazer. Em outubro de 2011, os dois amigos lisboetas decidiram apresentar uma candidatura a um programa europeu para a instalação de mil colmeias e uma unidade de extração. Aproveitaram terrenos de família em Mafra e Ourém e, desde maio do ano passado, andam preocupados em fazer o desdobramento de colmeias, para atingirem a produção máxima. «A nossa ideia é produzirmos o máximo que a colmeia tenha para oferecer, sem nunca abdicar dos critérios de sanidade e qualidade», diz Frederico.

A empresa chama-se Bom Mel e o objetivo dos rapazes é, a curto prazo, fazerem das abelhas a sua vida. Frederico já tinha as colmeias na cabeça há muito tempo. É engenheiro florestal e trabalhou vários anos numa empresa farmacêutica que vende medicação de combate à varroa. «Sempre quis uma vida ao ar livre, em vez de ficar fechado num escritório. Este projeto é muito trabalhoso, mas acredito que vamos ter sucesso.» Dinis veio de uma área completamente diferente. Estudou psicologia organizacional e, antes da Bom Mel, era diretor de recursos humanos numa empresa de telecomunicações em Luanda. «Quis envolver-me em algo que fosse o meu próprio negócio e que fosse um bom projeto em termos ambientais.»

Hoje, Dinis e Frederico vão instalar um novo apiário no caminho para a Ericeira. Um apicultor nunca gosta de revelar a localização exata das suas colmeias, visto que os roubos têm aumentado muito com a subida de preços dos enxames (custam em média cinquenta euros, o dobro de há dez anos). Numa carrinha seguem três caixas de madeira, mais os tijolos onde assentarão as estruturas. Uma colmeia nunca pode ser instalada diretamente no solo, senão será alvo fácil para insetos e animais rastejantes. Têm de trepar um monte com uma colmeia cheia de abelhas lá dentro. Estão fechadas, mas, ainda assim, é uma operação que requer cuidados.

Cada colmeia tem entre dez e oitenta mil abelhas. Nos braços dos dois jovens apicultores segue um ecossistema precioso. «É um animal fascinante, por toda a organização e eficiência», e Frederico é todo sorrisos. Conta como as abelhas trabalham ininterruptamente, até morrerem de exaustão. Tudo em prol da comunidade. «A delas e, em última instância, a nossa.» Dinis tem outra visão: «É um animal selvagem. Mesmo que te aproximes com fato de proteção, há sempre uma certa ansiedade e nervosismo quando manipulas os favos e elas te atacam.»

Amanhã seguem viagem para Ourém, vão tratar dos outros apiários. É preciso manter as colmeias limpas, fazer desdobramentos, analisar a percentagem de varroa e enviar o mel para análise, para atestar a sua qualidade. A unidade de extração está prestes a arrancar. Um armazém armado com cinco máquinas: um desoperculador, dois extratores, uma máquina de envasamento e uma bomba de aspersão. Ainda há os equipamentos de filtragem e decantonamento. O mel precisa de ser separado da cera e filtrado até ao estado de pureza. Naquelas instalações fecha-se o ciclo, até o produto ficar armazenado em contentores, para venda a retalho, ou frascos, para venda ao público.

Os donos da Bom Mel estão na fase inicial do negócio e o esforço que estão a investir neste primeiro ano é bastante grande. A vespa velutina ainda não chegou aos seus terrenos, mas têm plena consciência de que isso é uma questão de tempo. «Assusta-nos muito esta espécie invasora, até porque é impossível calcular quantas colmeias vão morrer», diz Dinis. «Não há nada a fazer, por isso não temos grande remédio senão continuar a trabalhar e, enfim, esperar pelo melhor.»

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Esta reportagem foi originalmente publicada na Notícias Magazine a 17 de março de 2013.