OPINIÃO

A cumplicidade é linda porque sim

Atriz estreante vs. atriz consagrada

Quisemos esmiuçar a oposição que existe entre uma atriz consagrada e uma atriz a debutar. Maria Rueff e Inês Patrício, as protagonistas do filme em estreia O Amor É Lindo… Porque Sim, foram o nosso case-study. Ficámos a perceber que se complementam.

Às vezes, os planos opostos atraem-se. Nisto da representação pode haver níveis e fases opostas. No caso de Inês Patrício e de Maria Rueff na comédia O Amor É Lindo… Porque Sim, de Vicente Alves do Ó, já em exibição em mais de meia centena de salas de cinema, aconteceu uma atração notória entre uma atriz debutante e uma atriz estabelecida. O espectador sente a química, as atrizes assumem-na.

Mas o que muda quando se é um nome consagrado? Rueff, atriz versátil que no ano passado foi vista em As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes, diz que é essencial sentir em cada trabalho aquilo que sentiu quando se estreou: «Tem que ver com aquele fôlego do começo da minha carreira. Comigo tem de ser sempre assim, ainda tenho o mesmo nervosismo em todas as estreias. Tem de ser assim… mas agora há uma agravante: há mais expectativas sobre mim e isso aumenta o sentimento de não querer defraudar os outros.»

Neste filme de Vicente Alves do Ó, Rueff interpreta a mãe da personagem de Inês, uma jovem abandonada pelo namorado que tenta uma reinvenção da sua vida através de uma aventura no meio do fado, ao mesmo tempo que não consegue tirar o ex da cabeça e do coração. As cenas mais ternas do filme são precisamente os diálogos entre mãe e filha. Para desfazer ideias feitas sobre esse fosso entre os consagrados e os estreantes, Rueff volta a falar de química: «Aconteceu essa química muito bonita que me fez lembrar o que me aconteceu quando comecei com o Herman e com a Ana Bola. E foi imediato! Seja como for, não sei trabalhar sem ser assim. Claro que existem aqueles atores “egoólicos”, cheios de ego, que não contracenam com o colega mas sim com o público ou com a câmara. Comparo isto a um jogo de ténis e a Inês, à primeira bola, não só jogou à maneira dela mas apanhou logo o meu jogo e vice-versa. Isso da química é saber gostar de passar a bola ao outro.»

Inês rói as unhas e parece emocionada, dizendo-nos que não há nada aquele fantasma mental das atrizes divas em oposição a atrizes sem provas dadas. «O que se passa nestes casos é que ficamos com mais responsabilidade. No fundo até me sinto mais amparada. Um ator experiente sempre pode dar dicas.» Rueff acrescenta: «Pois, a bola não cai», recusando aquele lugar comum dos atores veteranos não terem pachorra para lidar com os mais inexperientes. Inês volta a intervir para lembrar a ajuda da sua mãe no filme: «Só tenho a agradecer à Maria.»

Tentamos também perceber quais as prioridades para duas atrizes em fases de carreira diferentes. Rueff sente que consigo ainda tudo é possível. Aí não está tão longe de Inês, mas lembra algo fundamental: «O que continua a manter-nos é sabermos ser gratos aos mais velhos. Ainda hoje sou profundamente grata ao Armando Cortez e à contracena do António Feio. Sempre que posso relembro-os!» Inês concorda e fala de algo para si importante: «Saber equilibrar sonhos com humildade. Como na vida.» No começo, Rueff lembra-se de que tinha duas características fortes: «Fui sempre humilde e sonhadora!»

No final, queremos ouvir de Inês o que uma atriz sente no momento em que está prestes a deixar de ser uma jovem esperança anónima da interpretação: «É muito, muito estranho isso que está acontecer… sobretudo ver-me ali no poster. Quando estava a ver o filme, houve partes em que até parecia que aquela ali não era eu. Mas não vou ficar deslumbrada.»

INÊS PATRÍCIO
Aos 27 anos estreia-se como protagonista em O Amor É Lindo… Porque Sim!, de Vicente Alves do Ó, depois de ter feito o curso na Act, a escola de atores lisboeta que produziu esta comédia. A sua vida como atriz começou aos 12 anos numa companhia de teatro amadora. Aos 20, começou a fazer teatro itinerante de rua com a companhia Teatro ao Largo.

MARIA RUEFF
Para uns é a nossa maior atriz de comédia, para outros é uma grande atriz, ponto final. Com uma carreira sempre em ascensão em televisão e nos palcos, Maria Rueff diz sempre tudo o que lhe vai na alma sem paninhos quentes. Não suporta atores com ego grande e fez O Amor É Lindo… Porque Sim!, filme amador com atores estudantes da Act, precisamente para ajudar os mais novos.

Rui Pedro Tendinha
Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens