OPINIÃO

O primeiro Natal dos Hospitais

A mais respeitada ação de solidariedade natalícia começou em dezembro de 1944.

Setenta e dois anos separam Vasco Santana e Mirita Casimiro de José Carlos Malato, Catarina Furtado, Jorge Gabriel e Sónia Araújo, que no dia 15 de dezembro levarão o Natal dos Hospitais de Lisboa e Porto a todo o país.

Ao palco, um estrado de madeira ao natural no já demolido Hospital de Arroios, na Praça do Chile, à pose de Vasco Santana, mãos nos quadris, e de Mirita Casimiro, ar tímido e encasacado, pode faltar algum do glamour que a produção televisiva, muito mais tarde, viria a dar-lhe, mas foi assim que começou aquela que é hoje a mais respeitada ação de solidariedade natalícia de Portugal. O Natal dos Hospitais iniciou-se a 23 de dezembro de 1944, nas várias enfermarias de Lisboa, numa organização do DN, que levava cor e sorrisos aos doentes e acamados dos hospitais lisboetas.

«Estranho público, pálidas crianças, mulheres sem forças, velhinhos alquebrados, salas repletas de homens novos e soldados e marinheiros. Doentes que passam as longas noites das enfermarias misturando nas meditações dos prolongados silêncios o desespero das suas dores com a nostalgia duma grande saudade do sol das ruas e do jogo acolhedor dos lares.» Assim começava a reportagem do DN, profusamente ilustrada, cuja prosa continuava quatro folhas adiante. «Uma linda hora de felicidade e de alegria», de «sorrisos e de emoções discretas, de gargalhadas francas», provocadas pelas «grandes damas dos palcos portugueses, os artistas mais queridos das plateias lisboetas, vedetas do cinema, do music-hall e da rádio, gente hilariante do circo e as mais formosas vozes da canção».

A RTP associou-se ao evento em 1958, dando-lhe a projeção que hoje tem. Henrique Mendes foi o primeiro anfitrião do espetáculo televisionado e Beatriz Costa a primeira estrela a atuar em direto para todo o país ver.


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Nuno Azinheira
Fotografia Arquivo Global Imagens