OPINIÃO

1929: A primeira aviadora

Há 87 anos, Maria de Lourdes Sá Teixeira rasgou os céus.
Flashback

A 25 de agosto, diante de uma multidão com os pés na terra e as cabeças no ar, Maria de Lourdes Sá Teixeira volteou como um pássaro aos comandos do seu próprio avião. Em minoria entre os pilotos homens, o céu foi dela.

Para Maria de Lourdes Sá Teixeira, aprender a voar sempre foi uma vocação, nunca um capricho. Queria dirigir um avião. Manter-se no ar sem nenhuma dificuldade, fazer piruetas com a mesma eficácia que as outras senhoras mostravam no governo das suas casas. Que lhe importava que os pilotos fossem todos homens, virtuosos como heróis de cinema, por quem as mulheres suspiravam?

Pintar as unhas não significava que tivesse as mãos menos firmes para agarrar nos comandos. Pelo contrário, era capaz de fazer as mesmas coisas que eles e de saltos altos. Tanto teimou que tirou o brevet em 1928, aos 21 anos. Num país que já tinha médicas, professoras e advogadas, Milu foi a primeira portuguesa a conseguir o diploma de aviadora civil. Era um pássaro, não um bibelot. Tornou-se referência onde quer que fosse – incluindo a festa de aeronáutica realizada pelo Aero Club de Portugal no Campo Grande, em Lisboa, a 25 de agosto de 1929.

«Durante toda a tarde, os nossos aviadores executaram nos seus aparelhos arriscadíssimos exercícios de acrobacia aérea que por vezes emocionaram a numerosa assistência», contava o DN do dia seguinte. Houve largada de balões e pombos-correio, batismo de aviões, um certo frisson em torno dos «distintos oficiais aviadores» e das «toilettes vistosíssimas» que davam ao recinto «um notável cunho de elegância e distinção». E depois havia ela, Milu, na fotografia apoiada a um Avro 548 do Grupo de Esquadrilhas de Aviação República (GEAR). «Gentilíssima aviadora mademoiselle Maria de Lourdes Sá Teixeira executou igualmente alguns arriscados números de acrobacia, fazendo uma série admirável de loopings.» Era de pôr a cabeça a andar à roda.