OPINIÃO

Um filme possível com final feliz

O filme por detrás do novo filme de António Pedro Vasconcelos é também uma trama de amor, mas pela sétima arte.

Amor Impossível apresenta-se no cinema com a história de uma paixão violenta que resulta num assassinato. Já o filme por detrás do novo filme de António Pedro Vasconcelos é também uma trama de amor, mas pela sétima arte, com picos de tensão, desafios orçamentais e riso comovido.

Se não fosse o corrupio de pessoas e meios técnicos perto da rebentação, o areal da praia de São João, em Almada, naquele final de dia de junho estaria entregue ao bater lento das asas das gaivotas e a alguns amantes do desporto ao ar livre. Curiosos, interrompendo o exercício ritmado à beira de água, tentam enxergar qualquer cara famosa no meio do ajuntamento. «Não há vedetas», ouve-se. O desânimo é compreensível, afinal os protagonistas daquele aparato costumam permanecer por detrás das câmaras e fora do enquadramento.

É o arranque das filmagens de Amor Impossível, novo filme de António Pedro Vasconcelos já nos cinemas, e o último dia de rodagem às portas de Lisboa. «Amanhã, levantamos o circo e vamos para Viseu», explica a diretora de produção, Cândida Vieira, abarcando com um gesto largo os inúmeros camiões estacionados junto ao bar da praia, mas também a figura curvada do realizador, sentado na cadeira que lhe pertence, e toda a equipa que prepara o próximo take na orla das ondas. O gesto, apesar de involuntário, é simbólico. Cândida é responsável pela equipa, pelos meios técnicos e comanda o orçamento da produção do filme. Respeitando a hierarquia do set, é para ela que se olha quando uma decisão de última hora tem de ser tomada e, na tradição americana, é da produção que parte o simbólico «final cut». «Vejo-me como uma espécie de governanta com algumas faculdades de psicologia, necessárias para perceber a força anímica da equipa», comenta entre duas baforadas de cigarro. O cabelo grisalho, muito liso e curto, o corpo pequeno e sólido e o andar lesto sublinham-lhe as capacidades. Enquanto confere «contas e papelada», parafraseia o produtor António da Cunha Telles sem esconder uma inflexão de saudosismo: «Como ele dizia, sou a mulher-a-dias mais cara da Europa».

Antes da primeira batida do claquete de Amor Impossível, um argumentista ficcionou um crime, um realizador comoveu-se com uma história, um produtor assumiu o risco financeiro que não foi coberto pelo apoio do Estado, trinta e dois profissionais foram escolhidos para a rodagem de cinco semanas e um plano de filmagens foi estabelecido com zelo. Seguiram-se 33 dias imersivos e 118 sessões com atores distribuídas por 14 décors a um ritmo frenético. Como cenários a cidade hospitaleira de Viseu, o hotel Montebelo do Grupo empresarial Visabeira, e o areal da Costa da Caparica. No elenco, nomes que mal conseguimos distinguir entre as letras pequenas dos cartazes que anunciam esta longa-metragem.

O claquete assinala uma nova repetição da cena e João Sales não passa despercebido no set. Filtrada por um megafone, a voz do assistente de realização pede silêncio e anuncia «vamos gravar!». Ele é no platô «o tipo pragmático, intérprete das ânsias e desejos» de António Pedro Vasconcelos.

De calções cortados abaixo dos joelhos e T-shirt escura (preto é, aliás, o seu mantra), mostra-se perentório – «o assistente de realização não é um aprendiz de realizador, quem tem de estar satisfeito com o resultado final é o António. Eu executo.» Chamem-lhe antes maestro pois cabe-lhe reger todos os elementos – técnicos e humanos –, fazendo que o filme aconteça. Para corroborar a natureza do seu papel, mostra os utensílios de trabalho que transporta nos diferentes bolsos de velcro. Um pequeno calhamaço – «esta é a minha bíblia» -, que compila um exemplar do argumento, o mapa de necessidades técnicas, distribuição de atores e figuração, a listagem de décors e o boletim meteorológico. De outro bolso, apressa-se a tirar um walkie talkie, a principal ferramenta de comunicação com toda a equipa e também com APV (como é tratado coloquialmente o realizador). Quando António Pedro Vasconcelos está de olhos no resultado final, transmitido no ecrã, cada cena é dirigida remotamente e João Sales é a voz do realizador no platô.

Não é fácil explicar o efeito da palavra ação no contexto de um set. É o guia de marcha e poucos ficarão sem suster a respiração quando a ouvem. Em grego, remete-nos para «drama» e surge associada à representação teatral na poética de Aristóteles. Como se pressionássemos um interruptor, ativássemos um botão mágico, a parafernália técnica, a equipa, o contexto, ou até o vento gelado, tornam-se um borrão sem formas exatas, uma inexistência, sendo o drama, como os gregos o entendem, a realidade completa. Nada extravasa as margens do enquadramento, nada externo interfere com a ação. Porém, como comenta o diretor de fotografia, Miguel Sales Lopes, «a verdade de um filme está na capacidade de o público acreditar que aquele universo é real e se prolonga para lá dos limites do ecrã». Talvez tenha sido nesta dualidade aparentemente antagónica – a capacidade de o cinema não se deixar macular pelo exterior, fazendo parte de um universo lato que abarca o exterior na perceção do público – que Sales Lopes se inspirou para fazer o desenho de luz umbroso de Amor Impossível. «Este filme é baseado na realidade, é um filme duro, e é preciso acompanhar isso, mas sem exagerar. Quando a imagem se exibe é mau», garante, «se alguém notar a fotografia num filme, para mim é um erro, é um problema».

Dentro do plano, uma mulher jovem de costas caminha em direção à água. Acompanham-na à distância técnicos de som, a segurar microfones tipo perche, uma anotadora atenta, o diretor de fotografia, que desliza nos carris do travelling com o rosto colado à câmara, e até um corpo de bombeiros e um nadador salvador por obrigações de segurança. Aqueles que molham os pés nas ondas e levam com a rebentação nas canelas, segurando focos de luz fria, estão protegidos por fatos de mergulho. A estrutura da equipa de Amor Impossível é muito semelhante à das rodagens francesas, que também emprestaram algumas das suas palavras ao universo do cinema luso.

António Pedro Vasconcelos está sentado a uns cem metros e aconchega os auscultadores aos ouvidos, debruçando-se sobre o ecrã. Apesar de afastado do set, será o primeiro a ver o resultado final das filmagens, a pedir melhorias, a exigir uma nova repetição. Evita dar indicações precisas aos atores e não faz ensaios. Como Clint Eastwood, um realizador que segue de perto, prefere o mote «façam lá» e no balanço deste convite o desenlace é mais autêntico e surpreendente. «Tenho duas qualidades inatas», garante, «não cometo faltas de gosto e sou um grande detetor de mentiras. Sei quando há um olhar ou um gesto falso. Isso dá tranquilidade a quem trabalha comigo, apesar de não fazer uma direção de atores muito rígida».

Cristina, a protagonista interpretada pela atriz Vitória Guerra, avança numa bolha de solidão dourada pelo sol de final de tarde, na sua figura não transparece o desconforto do frio, antes o vazio de uma relação amoroso sem futuro. Aproxima-se da ondulação, decidida a entrar no mar, mas o impulso é travado. Ouve-se ‘corta’, outro botão mágico do cinema. Hoje, a atriz não se atira à água. A decisão foi tomada pela diretora de produção: «acabaremos esta sequência mais para a frente ou talvez optemos por gravar numa piscina. Está demasiado frio».

Talvez fosse nestes tropeções no plano de filmagens que Jean-Luc Godard estivesse a pensar quando disse que o «cinema é verdade, mas vinte e quatro vezes por segundo», o número de frames máximo transmitido pela película.

«No papel é mais fácil, no papel não há frio», explica condescende Tiago R. Santos, o autor do argumento. Para sermos rigorosos, no papel, a cena filmada na praia da Costa de Caparica aconteceu num areal do norte do país e faz parte do segundo ato do guião. Mas este é também um dos truques de magia do cinema. «Pegamos numa história, esquartejamo-la e filmamos fora de ordem. Gravamos a primeira e última cena juntas e por ordem inversa se for preciso. E as coisas têm de bater certo», sintetiza João Sales.

O plano de filmagens nasce de um trabalho exaustivo liderado pela direção de produção e pelo assistente de realização com a máxima «fazer mais com menos» à cabeça. «Trabalhamos com orçamentos de há uma década, por isso é necessário racionalizar recursos, procurar apoios privados, agrupar cenas com os mesmos atores e reduzir ao máximo os décors e as deslocações», explica Cândida Vieira. Em 2014, realizaram-se 27 filmes nacionais, número que compara com 66 produções em 2010. O orçamento do Estado para esta área tem encolhido de ano para ano e as parcerias como a feita com o Hotel Montebelo, em Viseu, o quartel general da equipa durante a rodagem, mostram-se obrigatórias.

Na época do «cinema das possibilidades realistas», como nomeia Vasconcelos os dias atuais, a rodagem de Amor Impossível foi também uma escolha racional. «O filme encaixa nos orçamentos, é um filme pessoal, mas se pudesse teria optado por uma história de cariz mais político», explica com trejeitos afáveis que fazem lembrar o sonhador Jacques Tati. Ainda assim, este é um filme possível, em português, com o final feliz de chegar às salas de cinema.

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Amor Impossível em números

» 14 décors

» 33 dias de rodagem

» 600 mil euros de financiamento do ICA – Instituto do Cinema e Audiovisual

» 118 sessões com atores

» 30 elementos na equipa de rodagem

» 280 figurantes

 

Filipa Martins
Fotografia de Jorge Simão