OPINIÃO

Tanta limpeza está a fazer-nos mal?

As alergias, pelo menos, estão a aumentar...

Nas últimas duas décadas, as doenças alérgicas têm aumentado de forma inquietante. Há países cujas taxas totais de alergias estão a caminho dos 50 por cento. Duas das muitas teorias que tentam explicar esta subida são tão controversas como incontornáveis, e apontam o dedo ao excesso de limpeza.

Esfregamos a casa com lixívia e compramos tudo o que se apresenta como tendo um «máximo poder desinfetante». Trazemos na mala um gel antissético para passar nas mãos, não vá dar-se o caso de tocarmos em alguma coisa de higiene duvidosa. Esterilizamos as chuchas e os biberões dos bebés até começarem a andar. Comemos comida pasteurizada e compramos soluções desinfetantes para lavar fruta e vegetais. E, claro, tomamos banho todos os dias. A verdade é esta: nunca na história estivemos tão limpos.

Esta é a parte da higiene. A parte da teoria é a seguinte: o nosso sistema imunitário não aprecia toda esta limpeza tanto como nós. E estamos a ficar cada vez mais alérgicos por conta desta rápida passagem da sujidade moderada à assepsia. Nascida no final dos anos 1980 – pela mão do imunologista americano David Strachan –, a teoria da higiene defende que a exposição das crianças a alguns microrganismos e infeções ajuda o sistema imunitário a desenvolver-se e, sobretudo, a saber distinguir as substâncias prejudiciais das inofensivas.

Porque, repare-se, o problema da alergia é «apenas» esse. «A alergia é uma reação de hipersensibilidade – mediada por um anticorpo IgE e por células – que ocorre no indivíduo alérgico quando este contacta com substâncias do meio ambiente que normalmente não provocam sintomas ou doenças», esclarece Elisa Pedro, chefe de Serviço de Imunoalergologia do Hospital de Santa Maria e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica. «Embora não esteja ainda bem esclarecido, parece que o ambiente e o estilo de vida podem ser os fatores responsáveis. » A médica, cautelosa quando à teoria de Strachan, não a confirma, mas também não a desmente: «A teoria da higiene levanta ainda alguma controvérsia na comunidade científica, mas a diminuição das infeções na primeira infância – devido a um melhor controlo através da vacinação e do uso de antibióticos – e as melhores condições sanitárias poderão, de facto, “desviar” a resposta do sistema imunológico, menos ocupado com micróbios e parasitas, para os alergénios ambientais.»

Duarte Barral, investigador na área de Biologia Celular no Centro de Estudos de Doenças Crónicas da Universidade Nova de Lisboa, alinha na mesma opinião. E à quota-parte de responsabilidade que acredita que toda esta assepsia pode eventualmente ter nas alergias acrescenta-lhe ainda as doenças autoimunes, que têm também vindo a aumentar nas últimas décadas. «O nosso sistema imunitário evoluiu ao longo de milhões de anos para combater precisamente os microrganismos patogénicos que entram em contacto com o nosso organismo. A teoria da higiene postula que o nosso sistema imunitário é “educado” através da exposição aos microrganismos do meio que nos rodeia durante as primeiras fases da vida. Sem esta exposição, o sistema imunitário pode virar-se contra antigénios inofensivos presentes no pólen, ácaros ou no pelo dos animais e também contra o próprio organismo, dando origem a doenças autoimunes», acredita o investigador.

De nariz torcido e ar enojado, proferimos muitas vezes a expressão «isso deve ser cheio de micróbios». Cheios de micróbios, na verdade, estamos todos nós, da cabeça aos pés, por dentro e por fora. E, por muita impressão que possa fazer pensar nisso, ainda bem. A maior parte destes micróbios são inócuos e muitos deles não só não nos fazem mal como são nossos amigos. «A nossa pele está coberta de bactérias que são importantes para que funcione como uma barreira eficaz, assim como o nosso intestino está cheio daquelas que são essenciais à digestão e absorção de nutrientes», explica Duarte Barral. «Por isso, é importante ter a noção de que só uma pequeníssima parte dos microrganismos com que contactamos são prejudiciais. Nos últimos anos, têm surgido vários estudos que apontam para que este microbioma tenha um papel fundamental na referida educação do nosso sistema imunitário. A exposição a microrganismos essenciais ao desenvolvimento equilibrado do nosso sistema imunitário parece começar ainda antes de nascermos, durante a vida uterina.»

Talvez por isso hoje se discuta tanto a importância do microbioma (ou microbiota). Não foi por acaso que a teoria que serviu de base para a sua defesa tenha partido da investigação original de David Strachan. Chama-se teoria dos velhos amigos e foi desenvolvida, já em 2003, por Graham Rook, microbiologista do Kings College de Londres. O autor apresenta-a como a reformulação da teoria da higiene numa perspetiva de medicina darwinista, a ciência médica que estuda a doença no contexto da evolução biológica.

Rock vai bem mais longe do que Strachan. Para ele, também o stress, as doenças autoimunes,  inflamatórias e, por consequência, oncológicas surgem quando os mecanismos de imunorregulação falham. E falham, defende, porque o nosso sistema imunitário, que foi construído ao longo de milhares de anos em amena convivência com microrganismos e outros parasitas, está a ser demasiado «desinfetado».

O estilo de vida assético que temos hoje pode pôr em risco esta nossa barreira protetora? Duarte Barral acha que sim. «A mudança do nosso estilo de vida tem sido muito rápida no último século. E o nosso sistema imunitário demorou milhões de anos a evoluir. Poderemos estar a observar um fenómeno semelhante ao que acontece com outras doenças, cuja incidência aumentou devido a alterações na alimentação e no ambiente.»

É preciso que se note que isto não serve de argumento para se viver no meio da sujidade, e menos ainda para adotar comportamentos antivacinação. Higiene e vacinas foram e são decisivas no aumento da nossa esperança e qualidade de vida: passámos a morrer e a adoecer menos com infeções. Graham Rook, por exemplo, aconselha simplesmente que as pessoas saiam dos seus apartamentos e se exponham mais a espaços verdes. Defende que, além de nos fazerem bem à mente, o fazem também ao corpo: o nosso sistema imunitário precisa destes inputs da biodiversidade que se encontra no ambiente natural. «É importante manter o equilíbrio entre o nosso mundo e o mundo dos microrganismos que a evolução do sistema imunitário procurou atingir. Na sua grande maioria, os microrganismos com os quais convivemos são essenciais ao nosso bem-estar», diz Duarte Barral.

Há vozes contra estas duas teorias, claro. Uma delas é a de Scott Weiss, professor da Harvard School of Public Health e diretor de Epidemiologia Respiratória, Ambiental e Genética do Laboratório Channing, nos Estados Unidos. Não acredita na teoria da higiene e anda atrás de outra culpada que justifique o aumento das doenças alérgicas, nomeadamente da asma. Há algum tempo que aponta o dedo à vitamina D. Defende que a investigação tem mostrado uma relação entre os níveis de vitamina D e a função pulmonar, e também alguns benefícios desta vitamina na melhoria do controlo da asma. Naturalmente, não se deixa impressionar com uma das maiores críticas feita à tese que defende: o facto de países com grande exposição solar (a nossa maior fonte de vitamina D) apresentarem igualmente taxas elevadas de alergias. «Com a televisão, o ar condicionado e as comodidades dentro de casa, 90 por cento das pessoas passam mais de 90 por cento do seu tempo em ambientes fechados. Há muito pouca relação entre a exposição solar do país e a prevalência de doenças alérgicas», diz Weiss.

Sendo certo que a vitamina D pode melhorar o controlo da asma, a dúvida é se a pode prevenir. E é atrás desta resposta que Scott Weiss está neste momento. Como é difícil estabelecer uma relação apenas medindo os níveis de vitamina D – regra geral sempre muito baixos –, optou por testar a administração. «Temos em curso um ensaio clínico com grávidas para determinar se a administração de vitamina D pré-natal pode prevenir o desenvolvimento de asma na criança que vai nascer, ou seja, se tem algum impacte no desenvolvimento de alergias», conta- nos. Resultados só daqui a uns anos, mas, a ser confirmada esta relação, é bem possível que, de futuro, a suplementação com vitamina D venha a ser prática comum durante a gravidez.

Esta e outras investigações na área de alergias são fundamentais nos tempos que correm. O European Community Respiratory Health Survey estima que hoje a prevalência de rinite na Europa seja de 35 por cento (a repetir: 35 por cento), enquanto a de asma ronda os dez por cento. Em Portugal, estima-se que a doença alérgica afete cerca de um terço da população: de acordo com os dados atuais, 30 por cento dos portugueses têm queixas de rinite, 18 têm concomitantemente queixas de conjuntivite e cerca de dez por cento têm asma. A prevalência de sintomas desta doença é mais elevada nas crianças (39 por cento), sendo «acordar com tosse» a queixa mais frequente que lhe é associadada. A asma e a rinite coexistem muitas vezes no mesmo doente: 80 por cento dos asmáticos têm rinite e 40 por cento dos doentes com rinite têm asma. A Organização Mundial da Saúde afirma que, no mundo inteiro, há cerca de 300 milhões de asmáticos e prevê que em 2025 haja mais cem milhões. Os números não estão de feição.

Uma coisa é certa: enquanto não se souber claramente o que está a desregular tanto o nosso sistema imunitário, podemos e devemos lavar as mãos, mas não vem mal ao mundo se nos livrarmos daquele sabonete que afirma matar 99,9 por cento dos germes. E também podemos encarar de forma mais positiva as doenças das crianças: talvez estejam a preparar-se para uma vida livre de alergias, o que, a manter-se a tendência atual, parece que vai ser a exceção e não a regra.

ALERGIAS ESTRANHAS E RARAS
O mundo das alergias não se esgota nas mais frequentes, que quase toda a gente conhece, como pólenes, ácaros, pelos de animais e alguns alimentos. No campo da alergologia não faltam raridades. As imunoalergologistas Elisa Pedro e Anabela Lopes dão conta de algumas de fazer levantar o sobrolho.

À ÁGUA
Urticária aquagénica
Banhos e dias de chuva podem ser um problema para alguns. Esta alergia é desencadeada por um alergénio libertado pela camada mais externa da pele, quando em contacto com a água. É rara (estima-se que uma pessoa em cada 23 milhões), cinco vezes mais frequente no sexo feminino e surge principalmente em adultos jovens, havendo casos familiares. Carateriza-se por lesões de urticária após o contacto com água que não dependem da sua temperatura.

AO SÉMEN
Hipersensibilidade ao plasma seminal
A prevalência da alergia ao líquido seminal é ainda desconhecida e pode ser exuberante, levando a reações alérgicas sistémicas, como anafilaxia, ou «apenas» a manifestações localizadas de edema e ardor após a relação sexual. Estas reações estão presentes independentemente do parceiro sexual e podem ocorrer logo na primeira relação sexual. O uso de preservativo permite o ato sexual sem reações, mas a dessensibilização com sémen é possível e pode estar indicada nomeadamente quando o casal deseja ter um filho. No Serviço de Imunoalergologia do Hospital de Santa Maria esta dessensibilização já foi efetuada com grande sucesso.

AO SOL
Fotodermatoses como urticária solar
Corresponde a menos de um por cento de todas as urticárias físicas e pode ocorrer em qualquer idade, mas é mais frequente em adultos jovens do sexo feminino. A urticária solar é desencadeada pela exposição a radiação ultravioleta ou luz visível e pode ser imediata, uns minutos após a exposição ou retardada 18 a 72 horas depois.