Rui Veloso

nm1223_ruiveloso01

Publicidade

«Se não houvesse crise de valores não haveria crise económica»

No centro, por mais viagens que se tentem, estará sempre a música. Mas uma entrevista com Rui Veloso, mais a mais em momento especial, quando se prepara para comemorar 35 anos de carreira em concerto, transborda sempre, e em várias direções. Além do seu mundo, o cantor olha à volta, para Portugal e para fora. Mas também para as compensações e os sobressaltos de um percurso que, como se prova pelo que vem a seguir, ainda tem muitas histórias para contar. Aqui ficam algumas.

Antes que o leitor mergulhe no essencial desta entrevista, as respostas de Rui Veloso, do núcleo das mais inflamadas a algumas mais defensivas, há esclarecimentos a prestar. O tratamento, por «tu», por exemplo: deriva de um conhecimento de 35 anos (dos 58 registados pelo seu Cartão de Cidadão) e de alguns contactos que ultrapassaram o estrito domínio profissional. Não será uma relação de amizade, mais pela escassez dos contactos do que por alguma incompatibilidade escondida. Esta circunstância permite que a conversa tenha decorrido em casa do cantor – sempre que se escreve «aqui», a localização correspondente é Vale de Lobo, nos arredores de Lisboa, num «complexo» que junta, através de um quintal, o lar ao estúdio que concretizou um dos sonhos do músico.

Inicialmente, o desafio lançado visava apurar, em discurso direto, os ganhos e as perdas de 35 anos de carreira, agora festejados, também com um concerto comemorativo (a 6 de novembro, no Meo Arena). Como se perceberá, esse roteiro foi subvertido pelo correr do diálogo, mas sem desvantagem para quem lê. Ainda antes da entrevista, duas notícias: nesse espetáculo, que vai abrir com Praia das Lágrimas e um coral de muitas vozes, Rui Veloso vai estrear uma canção. Chama-se Do Meu País e também serve para homenagear o autor da letra, o poeta moçambicano Eduardo Costly-White, que já não pôde ouvir o resultado desta parceria: morreu em agosto de 2014. A outra novidade, feliz, fica a aguardar concretização: Rui Veloso estará a caminho de se transformar em anfitrião de um programa televisivo, naturalmente virado para a música. Por lá passarão os seus convidados, para tocar ao vivo, «com condições». Quando? A resposta está nas mãos da RTP.

O que ganhaste em 35 anos? Cabelos brancos nem por isso…
_Tenho poucos… O ganho mais importante, sem dúvida, são os meus filhos [Joana, Manuel e Maria]. Já a notoriedade tira mais do que dá… No meu caso, já nem faz muito sentido falar no fim da privacidade, porque há 35 anos que basta que eu saia de casa para sentir que não a tenho. Um exemplo: vou ao teatro com uma amiga e, como de costume, estão lá fotógrafos. É certo que ela não escapa e que, sendo apenas uma amiga, as coisas se vão tornar desagradáveis para ela, para a família dela, para os filhos dela… Ora a minha reação tende a ser só uma: ficar mais em casa, aparecer menos. Ou seja, a notoriedade é – para mim – um dado efetivo e difícil. Até porque me condiciona relações, inclusivamente com pessoas próximas. Eu sou o Rui, desde miúdo, mas também sou a figura pública, ideia que muitos ligam a uma certa aura, a um certo mistério, ao acesso a um patamar mais reservado, dito superior. Ora este tipo de aproximação, esta exposição contínua, foi sempre muito difícil para mim… Talvez por isso me sinta tão bem em Moçambique, onde ando à vontade, onde ninguém para a olhar para mim e para o que eu faço. Atenção: eu não me estou queixar de, por cá, ser maltratado…

Parece-me evidente que és alguém de quem as pessoas genuinamente gostam…
_Sim, sim… Sou um gajo «popular», como se diz no Porto, no sentido de alguém que não se esqueceu dos amigos nem de onde vem… E, com muito poucas exceções, sou mesmo bem tratado, sou acarinhado. Talvez tudo isto acabe por ser um pouco perverso, porque também sei que me ia custar muito perder esse reconhecimento, esse afeto de gente que não conheço de lado nenhum. Mas, por outro lado, talvez não estivesse preparado para me tornar figura pública. Nem sei se alguém está: uma amiga minha mandou-me uma entrevista do George Clooney com um recado: «Vê lá se isto não é o mesmo que se passa contigo…» E era: o tipo também se isola, também tem dificuldade em adormecer, com a cabeça sempre a trabalhar, enfim, aquelas coisas todas… Todas não: ele tem sempre muitas mulheres atrás dele e comigo não se passa propriamente a mesma coisa, que eu não sou o George Clooney [risos]… Também já li descrições de coisas que se passaram com o Nicolau Breyner, neste particular da notoriedade, com que me identifico. Parecem histórias minhas… No fundo, nós somos todos muito parecidos – por isso é que as senhoras que deitam as cartas nos enganam a todos [risos]!

Chegaste a alterar comportamentos em função desse «cerco», vamos chamar-lhe assim?
_Sim. Sim. Claramente.

Isso não estava no programa quando começaste há 35 anos, pois não?
_Pois não, mas ninguém tira um curso para ser famoso, para aprender previamente a lidar com isto. Além disso, não te esqueças de que eu vim para Lisboa aos 22 anos. Há uns tempos, isso bateu-me como nunca: 22 anos é a idade atual da minha filha Maria, eu era miúdo… Fazer aquela viagem do Porto para Lisboa, com aquela idade, era como ir da Terra para Marte, uma realidade totalmente diferente, uma dimensão muito maior. Às vezes penso como é que eu me aguentei sozinho. E dou por mim a sentir que, pelo menos durante algum tempo, fui um bicho conduzido por alguém que me ia tocando, orientando, com uma vara – agora vais por aqui, agora vais para ali… Ia sendo guiado e reagindo em função do que me ia acontecendo…

Mas foste sempre mantendo as tuas ideias em relação ao que querias fazer, ao teu percurso? Ou não?
_Sim… Se bem que, ali pelo meio, houve uma outra componente que pesou, e de que pouca gente sabe: a minha falta de segurança. Tu lembras-te: do primeiro até ao quarto disco, pensei várias vezes em desistir, em ir-me embora. Acho que, nessa altura, não percebia nada, nem porque havia tanta gente a dizer que gostava de mim nem porque havia alguns que manifestamente não gostavam. Enfim, problemas com a autoestima. Provavelmente, já vinham do Porto mas, como é óbvio, cresceram imenso aqui em Lisboa, com o tal miúdo a ter de enfrentar críticas e dificuldades, um monte de situações para a quais não estava preparado. Agora até admito que algumas coisas me fossem ditas com sentido construtivo – como eu costumo fazer em relação a outras pessoas – mas, nessa época, deixavam-me frustrado. Levava a mal até o que me era dito com boa intenção. Olha, a coisa assumiu tais proporções que eu até fugi aqui para o campo, em parte para poder escapar aos círculos lisboetas, aos percursos da noite…

Chegaste a andar integrado no chamado circuito da noite?
_Quando vivi em Lisboa, andei muito pela noite, pelas discotecas, no Monte Cara, no Bana, no Hot Clube, nas Noites Longas… Andava por aí – andava solto. Andei bastante. A partir de 1992, quando vim para aqui, isso de alguma forma acabou. Embora eu vá a Lisboa, a um concerto, a um jantar, estar com amigos…

Quando vieste viver para aqui, já tinhas resolvida as tuas inseguranças?
_Não, de maneira nenhuma. Ainda havia muitas… Por exemplo, aquela que diz respeito ao [Carlos] Tê e aos afastamentos dele, por razões que lhe assistem e em que, provavelmente, eu terei algumas responsabilidades… Ele afastava-se e não me mandava letras. E eu, que estava muito habituado à escrita dele, achava que não ia conseguir fazer mais músicas, que não ia poder trabalhar mais… Houve até um momento em que o Nelson Motta [letrista, produtor, escritor e comunicador brasileiro] me disse que, pelo cenário que lhe descrevi, o Tê estava a escravizar-me. Mas eu acho que só muito mais tarde percebi aquilo que ele queria dizer… Bom, mas além disso havia as questões que envolviam a fama e aquilo de que já falámos, num momento em que, com a edição e os espectáculos do Mingos e os Samurais eu era mesmo a superstar

Vamos precisar: decidiste vir viver para aqui, a seguir aos dois anos mais trabalhosos da tua vida, com o Mingos e, logo a seguir, com O Auto da Pimenta, certo?
_Exatamente. Eu compus e gravei O Auto da Pimenta sem parar os espetáculos do Mingos e Os Samurais, continuei sempre em digressão… Se fosse uma máquina de flippers, eu estaria a dar tilt, nesses momentos… Às vezes, parece que é difícil entenderem que eu sou, eu era só uma pessoa, nunca consegui desdobrar-me em várias. Foi um autêntico turbilhão, constante, com muitas solicitações e muitas responsabilidades em simultâneo, com gente – mesmo dentro do meu círculo – a não perceber que, de alguma forma, estava tudo concentrado e tudo dependente da minha resposta. Depois, também convirá não esquecer que era uma época em que se bebia muito… Nada de especial nas drogas, mas copos havia muitos… Éramos novos e íamos a todas…

A resistência era diferente. Mas, se calhar, as marcas foram ficando…
_Com certeza… Isto vem nos livros: eu já li muitíssimas biografias, mas basta ler a do Keith Richards [guitarrista dos Rolling Stones], que é a «bíblia»… Nós sabemos que o álcool, muitas vezes, é uma maneira de deixarmos de pensar, de pararmos um bocado. Há quem use comprimidos, quem utilize outras formas, mas a coisa vai dar ao mesmo: escapar ao tal turbilhão que não nos dá descanso. Mais uma vez, percebo que a vinda para aqui é uma fuga a esse caos. Eu lembro-me de pensar: agora, casei, tenho uma família ou vou ter uma família, algo de mais normal, algo contrário ao que tinha antes, os concertos, a fama, o rock and roll… Vim para aqui, se quiseres e em resumo, à procura de um equilíbrio. Mas, depois, é muito difícil, porque isto, parecendo que não, é longe. É longe… Não estou arrependido mas, se calhar, acabei por dar um tiro no pé porque, entretanto, a família foi embora…

Até por essa reação de fuga, pode dizer-se que te sentiste empurrado para demasiados desafios, para fazeres coisas de mais?
_Sabes que há um momento em que nós achamos que resistimos a tudo, que ultrapassamos tudo, que sobrevivemos a tudo, que nem sequer há muito tempo para parar e pensar. Fica-me a ideia, sobretudo, de ter sido pouco resguardado… Não tinha um amparo, digamos assim, não tinha um escudo que me dissesse para fazer isto e deixar de fazer aquilo. Não havia muito o hábito de recorrer a alguém com esse perfil… E, sendo honesto, também é possível que eu, com a minha teimosia, acabasse por fazer exatamente o contrário do que me aconselhassem [risos]…

Um gestor de carreira, contigo, dificilmente teria funcionado…
_É, seria dificil… Provavelmente, só se fosse o meu filho a ajudar- me [risos]… Volto à biografia do Keith Richards, não para me defender, mas para que se perceba o contexto em que as coisas se passam – os Rolling Stones também passaram por aquela fase em que fizeram 370 gigs [espectáculos] por ano. Com uma vantagem: como os concertos tinham vinte minutos e não hora e meia, chegavam a tocar três vezes por dia, mas andavam sempre de um lado para o outro. Não estou a comparar, cada qual à sua maneira – mas eles, para chegarem ao manager [empresário] também passaram muitos anos, até a serem roubados… Eu nunca me senti particularmente roubado, mas far-me-ia falta, nessa altura, uma pessoa para me dizer que parasse num certo ponto, que me resguardasse. Mas não: mais uma vez, tive de ir aprendendo por mim, até chegar à minha situação atual.

Uma das tuas guerras mais antigas, desde o princípio, tem sido a melhoria das condições para os músicos: palcos, estruturas, meios técnicos. Trinta e cinco anos depois, estás a ganhar ou a perder?
_Não há comparação possível! Algumas coisas melhoraram muito, muitíssimo, mas há outras que se mantiveram. Do lado técnico, tanto material como humano, a melhoria é enorme. Já na mentalidade, não se pode dizer o mesmo… Por exemplo, continua a ser impossível manter uma digressão organizada, lógica (até do ponto de vista geográfico), pelas salas boas que, entretanto, foram surgindo um pouco por todo o país. Olhemos para os patrocínios; hoje, em vez de aparecerem ao lado da cultura, funcionam como suporte dos chamados grandes festivais. Portanto, deslocaram-se para o que é mais imediatamente visível, para o que dá dinheiro. A mentalidade em relação à música não melhorou, até piorou: a programação musical a que temos direito ao longo de um ano é muito fraca, para todos nós, ao contrário do que acontece em Espanha, em França, na Alemanha, na Holanda…

Isso prende-se só com a dimensão do nosso mercado ou intervêm outros fatores?
_Queres um exemplo, que resume aquilo que penso? Eu não acredito que se trouxerem o John Scofield [guitarrista de jazz], quando ele vai tocar a Espanha, para um concerto no CCB, que a sala não encha. É lamentável que não haja um bom festival de jazz por cá, pelo menos ao nível das grandes cidades. Nós não temos direito ao que os outros têm… E, por outro lado, nós gostamos muito da massificação. Basta olhar para aquela época em que os festivais parecem correr uns atrás dos outros. Ora dantes, um festival fazia-se com oito artistas, hoje faz-se com mais de cem! Ou seja, é virtualmente impossível a um espetador tentar ver, durante um fim de semana, já não digo tudo, mas a maior parte de um programa… Um dia destes, à conversa com alguém que frequenta um determinado festival no Porto, ouvi esta coisa espantosa: «Eu nem ligo cheio de chavões sociais, é aquela coisa da zona VIP, onde está o pessoal da telenovela ou do Big Brother… Ora isto funciona um bocado como o eucalipto: seca tudo à volta. Uma pessoa anda a poupar para pagar o livre-trânsito para o fim de semana e acaba por ir passear, para se embebedar… E depois qual é a identidade dos festivais hoje. Olha o caso do Sudoeste, que se transformou numa discoteca gigante. Aquilo já não é música, é um sucedâneo. Ou melhor, aquilo está para a música como as delícias do mar para o marisco [risos]… Eu até tenho medo de ir a uma coisa dessas, de me converter e de passar a viver num limbo…

Talvez o problema não esteja aí mas na ausência de tudo o resto…
_Essas coisas, o mau gosto da nossa programação musical, acentuam muito o nosso lado periférico. Em vez de entrarmos no jogo cultural europeu, ficamos a jogar sozinhos… Parece-me que, por cá, ainda não se percebeu que a cultura, e a cultura que poderíamos mostrar a quem vem de fora, nas suas mais diversas manifestações, é uma indústria que fatura muito. O turismo cultural rende muito dinheiro a quem o apresenta. Mas cá por Portugal, também com responsabilidade dos governos, salvo uma ou outra exceção, aquilo que temos para mostrar é a Casa da Música ou o Museu dos Coches, edifícios de regime mas cuja efetiva utilidade cultural é, no mínimo, discutível. Digo eu. Parece-me tudo resultado de um evidente novo-riquismo…

Talvez com um problema de base, que é o facto de, querendo ser novos, não sermos ricos…
_Eu não diria bem assim… Os novos-ricos existem e são aqueles que decidem, muitas vezes de forma questionável, aquilo que se faz com o nosso dinheiro. Nosso, dos contribuintes, eu e tu. Os mesmos que nunca são chamados a discutir as decisões. E depois assistimos a derrapagens financeiras violentíssimas, que vão acontecendo sem que ninguém pareça muito incomodado com elas… O novo-riquismo existe porque parece que alimentamos especialistas em gastar o dinheiro dos outros, que é a coisa mais fácil.

Tu és um músico que ouve sempre muita música. Também já trocaste os LP e os CD pelos downloads?
_Respondo-te com uma pergunta, depois de te dizer que, apesar de tudo, ainda há – e não exatamente na nossa geração – quem ouça álbuns inteiros, como noutros tempos. Acontece com o meu filho, Manuel, talvez porque ele sempre tenha mostrado uma grande inclinação musical desde miúdo, toca instrumentos e tal… Mas a minha pergunta é esta: poderia ser alguma coisa diferente num país com a nossa Educação Musical?

Aí não evoluímos, na tua opinião?
_Nada, piorámos. A nossa esperança era grande e gorou-se… Na escola, estamos conversados. E depois chegou esse flagelo chamado padronização em que o nivelamento é sempre feito por baixo. Veja- se o que sucede com as televisões. Na rádio, com as playlists, com objetivos semelhantes. As rádios, em vez de se diferenciarem, procuram ficar cada vez mais iguais umas às outras, com a mesma programação, o mesmo tipo de target [público-alvo], não respeitando a diversidade de gostos de quem ouve. Antigamente, a rádio tinha uma importância enorme na formação – eu aprendi imenso com a rádio. Hoje, aplica-se a receita da grande superfície, de encher chouriços… Pior: quem tem responsabilidades nessas matérias parece partir do princípio de que só é bom aquilo que vem de fora. Acontece que a música portuguesa está aí, com muito bons músicos, com ótimos projetos, mas que praticamente não são divulgados, nem nas televisões (que se recusam, que parecem até apostadas em só dar lugar aos piores, até com apoio de instituições) nem nas rádios…

Nunca puseste a hipótese de te excluírem disto ou daquilo porque passa a ideia de seres um artista caro?
_[risos] Claro que sou caro! Tenho de ser porque há aspetos, há componentes de que não abdico. O Zeinal Bava [antigo administrador da PT] é muito mais caro do que eu… Estou a dar este exemplo como poderia dar muitos outros: o Pedro Cabrita Reis ou a Joana Vasconcelos são artistas caros, cada um sabe aquilo de que precisa… Mas se pensarmos que vem cá a Ivete Sangalo e lhe pagam muito mais do que a mim, tudo isto se torna relativo… Eu optei por ter cuidado, por ser exigente com o som, com as luzes, com aquilo que passo a quem paga o seu bilhete. E, contrariamente ao que já foi dito, faço questão de pagar bem aos músicos que trabalham comigo, muito mais do que o normal. Eu gosto muito dos músicos, os meus e os outros, os que fazem imensos sacrifícios mas não desistem. E esta é uma classe mal defendida, em múltiplos aspetos, e que me merece muita consideração. Daí também eu andar a lutar pela concretização de um programa de TV que dê condições aos músicos…

Desculpa, mas conta lá essa história…
_É um projeto em que estou envolvido e que parece que vai adiante. Aquilo que quero é poder levar músicos a tocar ao vivo, em bases condignas, que os compensem de várias maneiras. Há de estar aberto à música pop, com certeza, mas também ao bom jazz que nós temos, à boa música tradicional…

No fundo, para acabar com os muros que não fazem sentido…
_Não fazem o menor sentido. Como não faz sentido nenhum nós estarmos a vender Portugal como se a única música que existisse cá fosse o fado. Passámos de um extremo ao outro: há meia dúzia de anos, já a Mariza era famosa, fazia concertos por todo o mundo, mas queixava-se de que os seus discos não eram tocados na rádio portuguesa. Agora, toda a gente canta fado e todas as rádios tocam fado, como se não houvesse mais nada… Vale a pena confrontar, por exemplo, com o cante alentejano, preterido porque é do Alentejo e não de Lisboa. Voltamos à questão do novo-riquismo, à ideia do que está a dar. Olha, mal comparado, tudo isto, todas estas anomalias, às vezes fazem-me lembrar o futebol…

Como assim? Não te importas de elaborar um bocadinho?
_Para mim, o futebol não é um desporto. Tenho até tendência de comparar alguns aspetos ao wrestling, quando vejo jogadores a simular lesões e a crescerem uns para os outros, a fazerem uns músculos e tal… Mas o que realmente me espanta e me incomoda são os meandros de negócios por baixo do tapete. É inacreditável o que se passou nos últimos anos, com tantos biliões à volta do futebol, com bancos e banqueiros à mistura, com empresas, nomeadamente de construção civil, advogados, autarcas, aquele monumental bolo de interesses que vai muito além do onze contra onze, tanto interesse escondido, tanta corrupção… Eu acho que até tenho sorte porque nunca consegui ser um inflamado de nenhum clube, se calhar porque enquanto muitos outros iam aos jogos, discutiam, passavam assim o tempo, eu estava agarrado às guitarras… A música desviou-me e eu passei a ser uma pessoa não tão normal como as outras…

Provavelmente ainda bem…
_Sim. Provavelmente é por isso que eu tenho esta casa. Esta casa não foi o meu pai que me deu. Fui eu que a comprei e ainda estou a pagá-la, é fruto do meu trabalhinho e mais nada.

Vamos voltar à música: continuas a ser um «consumidor» viciado?
_Ouço muita música e muito diferente. O que não ouço praticamente é a pop de hoje em dia. Não ouço porque sei como é que aquilo se faz, sei perceber que aquilo é tudo editado em computador… Claro que há coisas ótimas, mas a maioria é palha. Com a quantidade de música que já ouvimos, temos tendência a concluir que está quase tudo feito e que, se calhar, o mais difícil é escrever uma boa canção ou aplicar um bom arranjo. Agora, até deixei de ler oscríticos ingleses, em que ainda confiava, os da Uncut, ou da Mojo ou da Q, precisamente porque sabiam do que estavam a falar, porque enquadravam, porque associavam… Algo que nunca vi na generalidade da crítica portuguesa, que nunca passou de uma espécie de clube…

A crítica portuguesa tratou-te mal?
_Em geral, sim. As exceções são aquelas que acabam por ajudar e que é preciso respeitar, porque têm uma cultura musical vasta e, portanto, podem dar uns toques menos agradáveis aqui ou ali. Mas, generalizando, a nossa crítica é muito fechada – eu já conheço os gostos de cada um… e raramente coincidem com os meus. Depois, há aquilo que não encaixa, que não entendo. Dou-te um exemplo: soa-me estranho, quase forçado, que gente que gosta de muito subproduto caia numa espécie de unanimidade em relação ao Neil Young. Porquê? Mas depois já não gostam do David Crosby, que sempre foi o mais arrevezado, o que sempre inovou mais nas harmonias vocais… Mas eu ouço Fauré ou os corais medievais, o Bill Evans ou o Tom Waits, o David Gilmour – ouço de um lado ao outro… Como ouvinte, vivi um período em que tinha mais dificuldade no acesso aos discos mas em que não era empurrado nesta ou naquela direção. Como músico, entendo que a compartimentação é pura e simplesmente uma idiotice. E acho que aquilo que compus espelha essa vontade de diversificar, de não separar…

Agora, é ao contrário: se excluirmos a música, o que é que ocupa o tempo e te motiva? A família…
_Sabes que os filhos já estão todos crescidinhos, já têm as suas vidas… Portanto, chegou o momento de serem eles a dedicar-se a mim, mais do que eu a eles… O que é que eu faço? Vejo muita, muita televisão, sendo um inimigo do zapping. Gosto de ver programas com princípio, meio e fim. Compro muitas séries e muitos documentários, que não têm nada que ver com a música. Na TV, ando mais por canais como o Odisseia ou o História

Não vês os canais generalistas, as telenovelas, os reality shows?
_Tenho visto um bocado de A Quinta, sim. Interessa-me perceber… E aquilo também é uma imagem do país, não só pelas pessoas que lá estão, mas pelas pessoas – do fundo da cadeia até ao patrão – que viabilizam e põem aquilo no ar. Há ali uma componente que é vergonhosa e devia haver forma de impedir as crianças de ver aquilo. Logo, quem dá o sinal verde a programas destes ou não tem filhos ou – quero acreditar – proibiu-os de ver… Culpo muito mais esses do que aqueles que lá estão que, se calhar, estão à rasca de dinheiro e vão lá ganhar algum. Mas aquelas coisas são chanceladas por pessoas que tiveram acesso a uma educação privilegiada, a colégios privados e por aí fora… É mais um exemplo da estratificação social, agora imposta por novas formas, e que, mais tarde ou mais cedo, vai dar para o torto. Esta dicotomia, esta diferença abissal entre os que têm muito e os que têm pouco, com estes a tomarem os outros como modelos, vai acabar mal.

Para voltarmos ao princípio: apesar de toda a evolução, a circunstância de há 35 anos ser muito menor esse abismo entre ricos e pobres não é um sinal de regressão?
_Aí nem é estratificação: é meia dúzia para um lado, todo o resto para o outro. Isso acontece muito em função deste neoliberalismo violentíssimo em que as pessoas não contam, só contam os negócios e o dinheiro. Isto virou selva e, infelizmente, não se fica pelos Estados Unidos, a Europa também está um bocado assim… Se juntarmos a isso o galopar da mediocridade que parece ser força motriz de um mundo ocidental claramente em decadência, o quadro não é risonho.

A crise, então não é só económica, também é de valores?
_Se não houvesse crise de valores, não haveria crise económica. É mais o amor ao dinheiro do que o amor ao próximo.