OPINIÃO

O sonho de um imigrante cabe numa mercearia

Vieram da Índia, do Nepal, do Bangladesh e de outros países asiáticos.

Sobretudo nos últimos cinco anos, em plena crise económica, descobriram um filão: os minimercados de conveniência, abertos das oito da manhã à meia-noite.

Um gigantesco armazém em forma de formigueiro. É essa a imagem que vem à cabeça quando se entra no Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa. Um movimento ininterrupto de pessoas, a maioria de origem asiática. Movem‑se pelos corredores estreitos, tornados ainda mais apertados pelas caixas de mercadorias junto às pequenas lojas. O espaço, inaugurado em 1988 pelo então presidente de câmara Krus Abecasis, tornou‑se um símbolo das comunidades asiáticas presentes em Lisboa e da multiculturalidade da capital. Há gente de China, Japão, Vietname, Índia, Paquistão, Sri Lanka ou Nepal… Poucos comerciantes falam português. Perguntamos em inglês onde fica a mercearia Nita e indicam‑nos um minimercado. Não é esse. Descemos mais um piso. Perdemo‑nos noutro corredor até finalmente a encontrarmos: a primeira mercearia que abriu no centro, em 1996. À porta, vários caixotes com legumes e depois a placa, pequena, mas precisa: «Nita Cash & Carry. Produtos alimentares, especiarias indianas, hortaliças indianas.»

É aqui que se abastecem muitos restaurantes de comida indiana da capital, a comunidade é fiel desde a década de noventa do século passado e bastantes portugueses – cerca de trinta por cento da clientela – conhecem de cor o caminho para a Nita. Vão à procura de leite de coco e arroz basmati, de caril e cominhos, lentilhas e maçaroca, de piripiri em pó mas também de legumes e frutos indianos, como o gengibre e a beringela pequena ou a famosa karela.

A mercearia é uma explosão de tons. Os saris coloridos das mulheres que vão chegando ajudam ainda mais. Levam dois, três, quatro pacotes grandes de lentilhas ou de feijão, amendoim descascado e potes de quilo ghee (manteiga indiana). Falam em hindi, têm cabelos negros em tranças e fazem contas de cabeça. Quando saem, Amruthal, 53 anos (na fotografia de abertura),  tira os óculos e olha‑nos sem espanto. São 28 anos em Portugal, muitas respostas já dadas.

Apesar de ser diferente de todas as outras mercearias asiáticas que surgiram nos últimos anos – esta só vende produtos indianos –, foi necessário que imigrantes como Amruthal Kotecha dessem o primeiro passo. O que acontece agora com a proliferação de pequenos negócios explorados por asiáticos é o resultado de um sonho comum: «uma vida melhor». Portugal acolhe‑os bem. O processo de legalização é fácil, a integração costuma ser pacífica. Só assim se explica que, por exemplo, só no centro de Lisboa, entre a Praça do Martim Moniz e a Praça do Comércio, existam quase duzentas lojas de bangladeshis, de diversos ramos e caraterísticas.

Antes de chegarem a Portugal, muitos deles tentaram outros países nos seus projetos de migração, normalmente o Reino Unido. Amruthal foi um deles. «Fiquei lá apenas nove meses, era muito difícil conseguir documentação para ficar legal.» O homem natural do estado de Gujarat desistiu do sonho britânico, mas não do europeu. Quando chegou a Lisboa, em 1988, com 25 anos, começou por vender carteiras no Terreiro do Paço. Anos depois, conseguira amealhar o suficiente para lançar o primeiro negócio no ainda recente Centro Comercial da Mouraria. Em 1996, a Nita Cash & Carry abriu as portas. Foi a primeira, agora existem vinte mercearias no centro.

Amruthal já não fica na loja desde as dez da manhã até às oito da noite (o horário do centro comercial assim obriga). Desde que contratou Atul Vaghela, o empregado, também indiano, a rotina é menos agressiva. Chegou sem mulher ou filhos, sob a proteção de um tio. Como chegam muitos. «É esse apoio que permite ter acesso a alojamento, oportunidades de negócios e emprego ou mesmo ajuda no quotidiano», diz José Mapril, investigador do Centro em Rede de Investigação em Antropologia, que tem realizado trabalho sobre os imigrantes do Bangladesh em Portugal. «Há muitos que pedem um visto de estudante e, uma vez na Europa, já não querem ir embora», diz Amruthal. «Nestas zonas da Ásia há muita violência e instabilidade política.» Com a crise económica e as medidas de austeridade, começam a ser muitos os que não conseguem encontrar trabalho e querem voltar para os seus países. «Mas não têm dinheiro e vão ficando.» E as centenas de mercearias exploradas por imigrantes que estão em todas as ruas de Lisboa, também no Porto? De onde vem esse dinheiro?

Amruthal sorri. «Com a crise há muitas lojas vazias em Lisboa. Compram cinco mil euros de mercadoria e isso já é suficiente para abrir um negócio.» Depois, é aguentar o barco, das nove à meia‑noite, se for preciso, vender quando os minimercados e supermercados de bairro fecham as portas, perceber o que comem os portugueses, trazer a mulher da Índia, do Nepal, do Bangladesh ou do Paquistão, uma miragem de família. E recomeçar, na Europa.

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«Todos querem uma vida melhor», diz Dev Chaudhary. O nepalês de 37 anos está em Portugal há cinco. Com ele trouxe Anala, a mulher, de 34, que está grávida do primeiro filho do casal. A mercearia de Dev fica na Avenida Mouzinho de Albuquerque, em Lisboa. Na mesma artéria nas imediações do Cemitério do Alto de São João há sete minimercados: dois são de proprietários portugueses, os restantes são explorados por imigrantes. O minimercado de Dev fica logo ao início da avenida. Cá fora há bananas penduradas em ganchos, alfaces frescas, maçãs vindas do Mercado Abastecedor da Região de Lisboa. Lá dentro, tabaco e bebidas frescas, ração para animais, leite e bolachas, chocolates e detergentes. É uma mercearia de bairro, vigiada pelo vizinho português, concorrente do outro lado da rua, que lhe cobiça a clientela, mas fecha as portas às oito horas da noite. Dev só encerra à meia‑noite – e abre às oito da manhã. «Vendo mais depois das 21h00 ou de manhã cedo.» Sara Gouveia, 25 anos, residente no bairro, chega à mercearia quando passam vinte minutos das dez da noite para comprar um refrigerante. «A esta hora é o sítio mais próximo de casa onde posso comprar estas coisas.» Às vezes leva arroz e fruta. É mais caro do que o comércio tradicional mas esse não está aberto a esta hora.

E porquê Portugal, Dev? «Quero uma vida melhor e na Europa é bom», responde em inglês. No Nepal, era professor de Informática e gostava de dar aulas aqui, não fosse a língua, difícil de falar. «Mas a escrever sou melhor», diz enquanto vende mais um maço de tabaco. São os clientes – sempre primeiro – que lhe possibilitam a «vida melhor».

Mohammad Aktarujjaman contrasta com Dev na alegria. Chegou do Bangladesh em janeiro e ficou com a mercearia de um amigo. Chegou há poucos meses, tem um ar mais descontraído. Viveu 14 anos em Chipre e foi lá que conheceu a filipina Hermisa Deganso. Casaram-se neste ano, na Mesquita de Lisboa. Têm 38 anos e esperam o primeiro filho. O minimercado de Mohammad tem pouca mercadoria e um pequeno frigorífico, que já lá estava. «Quero um maior, vendo muitas águas a turistas.»

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Este bengali está fascinado por Portugal. «Estou fora do meu país há 14 anos e aqui sinto‑me em casa.» A zona da mercearia de Mohammad é fundamentalmente de classe média-alta. A mercearia, a única do género na zona do Campo Pequeno, entre uma imobiliária e um sapateiro, tem apenas como concorrente o supermercado no interior do centro comercial da praça de touros. Mohammad não tem carro, mas garante que as vizinhas já se ofereceram para levar a mulher ao hospital, em caso de necessidade.

«Quando saio à rua todos me cumprimentam.» Está rendido. Morava nas Olaias e mudou‑se para um prédio ao lado do minimercado. Não está arrependido, apesar da renda: «Quinhentos euros é muito dinheiro, mas aqui estou bem. E a renda da mercearia também é alta, mais 450.» E quanto lucra? Compensa? «Isso não posso dizer.» Nem ele nem nenhum proprietário destas mercearias fala sobre valores. Mas chegará para pagar casa e renda da loja. A custo de muitas horas de trabalho, claro. Todos os dias, menos aos domingos de manhã. «Não há movimento.» Mohammad só quer comprar um frigorífico grande, esperar que o filho nasça bem e viver em Portugal para sempre.

Os imigrantes que chegam ao nosso país vêm à procura «de oportunidades de emprego e direitos de cidadania que lhes eram negados noutros países europeus», diz o investigador José Mapril. «Os processos de ilegalização e criminalização das migrações na Europa são revestidos de violência e dirigidos a determinados segmentos da população.» Mas Portugal tem tradição de bom acolhimento, sem grandes episódios de violência ou discriminação. O sonho de quem procura o nosso país para viver parece simples, mas, para quem vem do Bangladesh, à possibilidade de ter um negócio junta‑se a liberdade. Existe uma grande diferença entre viver numa casa com os pais e os cinco irmãos e sobrinhos, ou sozinho, numa casa do Bairro Alto. É o caso de Ratan Chowdhury, 32 anos, para quem o sonho também veste a carroçaria do BMW que um dia gostaria de comprar. Mas primeiro tem de conseguir ser dono de um grande supermercado. Agora é ainda o modesto proprietário de um não tão modesto minimercado na Rua da Rosa, na colina boémia cheia de bares e restaurantes.

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Ratan também veio do Bangladesh e tentou primeiro a vida em Inglaterra, onde esteve dois anos ao balcão de um restaurante de fast food. A experiência não melhorou substancialmente o seu inglês, mas é nessa língua que fala e é assim que se entende com os turistas que frequentam o bairro durante o dia, com os notívagos que ali vão à noite comprar bebidas. A Mercearia de Lisboa – escolheu o nome para atrair estrangeiros e locais – tem uma parede de quatro metros forrada a bebidas. A mais cara é um vinho do Porto que custa perto de 50 euros – e já tem vendido algumas, sobretudo a turistas, claro. Junto à caixa registadora, em lugar de destaque, uma bandeira de Portugal. À porta, coloca todos os dias um painel com ímanes de azulejos portugueses, galos de Barcelos, paisagens típicas do país que o acolheu e que ele não conhece. Abre a loja às nove, fecha à meia‑noite. Tem um empregado, que agora está de férias. Ratan possui, à semelhança de Mohammad, um sorriso permanente. Gosta de Portugal, de comida portuguesa, tem a sorte de a nossa sardinha ser «noventa por cento parecida com o peixe típico do Bangladesh, o hilsha» e assim mata saudades, embora não perceba bem a palavra. Vende a alma portuguesa em ímanes de colar ao frigorífico, mas para ele Portugal é apenas a palavra sorte.