OPINIÃO

Perigo: pessoas tóxicas. Mantenha distância.

Margarida Vieitez ensina-nos a perceber quem nos faz mal.

Especialista em mediação familiar e de conflitos, Margarida Vieitez dedica-se há mais de vinte anos ao estudo e ao acompanhamento de conflitos diversos, nomeadamente familiares, conjugais e de divórcio. Licenciada em Direito, dedicou-se ao Direito da Família, tendo feito seis pós-graduações, entre as quais Mediação Familiar, Mediação de Conflitos e Saúde Mental. É fundadora do Espaço Família e, mais recentemente, do projeto LoveDoctors.

Há pessoas que nos deixam maldispostos, que nos consomem todas as energias, que nos fazem sentir culpados, que nos fazem questionar a nossa capacidade de julgamento. São pessoas tóxicas e transformam-nos numa má versão de nós mesmos. Publicado nesta semana, o livro SOS Manipuladores é um verdadeiro manual para saber identificar e afastar da nossa vida quem nos faz mal.

Quem são estes vampiros emocionais, as pessoas tóxicas das quais fala no seu livro?
_Defino um tóxico como uma pessoa que não nos quer bem e nos pode fazer mal, se permitirmos. Existem muitas caraterísticas diferentes, não as conseguimos inventariar todas, mas as que aparecem com mais frequência são as pessimistas. São aquelas pessoas que veem o copo sempre meio vazio, que nos estão sempre a dizer «tem cuidado» e «vê lá no que te vais meter». Têm uma visão da vida muito cinzenta. Mas há outras, como as que
não nos deixam evoluir e nos puxam para trás ou as que estão connosco quando estamos mais em baixo, mas que não conseguem partilhar a nossa alegria. Será que são mesmo nossas amigas? Podemos escolher quem faz parte da nossa vida, para além da família. Os nossos amigos e os nossos companheiros somos nós que escolhemos. Porquê estar com pessoas que não nos fazem bem?

Porquê?
_Porque temos muita dificuldade de afirmação, de dizer não e, além disso, geralmente, quando descobrimos que tipo de pessoa temos à frente já é tarde. As pessoas vão-se revelando com o tempo, de início tendem todas a ser simpáticas, atenciosas e generosas.

E muitas vezes quando percebemos que a pessoa é tóxica já existe um relacionamento mais íntimo e outros sentimentos envolvidos?
_Sim, e nessa altura tomar uma atitude é mais difícil. Porque já estão muitas coisas em causa: uma relação duradoura, filhos, família, todo um projeto de vida. Aí temos de perceber o que sentimos. Por exemplo, escrevendo num papel, todos os dias, ao longo de um mês, o que sentimos ao pé da pessoa. Isso permite que tenhamos distanciamento e percebamos qual é o sentimento mais frequente. Conseguimos definir qual é o comportamento do outro de que não gostamos e perceber como é que reagimos perante isso.

Às vezes não reagimos de todo, para evitar o conflito.
_Sim, ninguém gosta de estar em guerra com ninguém, por isso, muitas vezes, anulamo-nos a nós próprios.

E isso não tem consequências a médio prazo?
_Tem, sem dúvida. Mesmo a nível de saúde. Muitas vezes as pessoas sentem-se fragilizadas não só do ponto de vista emocional como apresentam sintomas físicos porque começam a somatizar. Aparecem no consultório a queixar-se de insónias, de dor no peito, de falta de apetite, de falta de interesse, começam a deprimir. Temos de perceber o que se passa connosco. Porque é que nos mantemos naquela situação.

Tendemos a achar que o problema está em nós e não no outro?
_Muitas vezes sim. Ao longo dos anos, mesmo em consulta, apareceram-me muitos casos de pessoas que chegavam a casa e ficavam maldispostas ou faziam horas extraordinárias no emprego porque não lhes apetecia ir para casa ou, pelo contrário, acordavam de manhã sem vontade de ir para o trabalho. O problema nem sempre é a falta de vontade da pessoa, é quem lá está à nossa espera. As pessoas com quem estamos têm uma influência muito grande sobre o nosso estado emocional e o nosso equilíbrio. Assim como há alimentos que podem intoxicar-nos, também há pessoas que podem intoxicar-nos.

E quando percebemos isso, se calhar, mais do que questionar porque é que a pessoa tem aquele comportamento, importa perceber porque é que nós o toleramos?
_Exatamente. Porque há sempre uma explicação. E antes de tentarmos mudar o outro, devemos tentar perceber o que é que se passa connosco e mudarmos nós. Até porque, quando nós mudamos, o outro também muda.

Muda mesmo? Um tóxico pode reabilitar-se?
_Tenho muita esperança e muita fé nas pessoas. Acho que, se realmente quiserem, podem alterar o comportamento. Mas é difícil, em muitos casos. Por exemplo, nos casos dos ciumentos ou dos obsessivos é muito difícil mudar, mas é possível se a pessoa perceber o que se está a passar e pedir ajuda especializada.

E uma pessoa tóxica é assim com toda a gente ou só com algumas pessoas?
_Normalmente, é para toda a gente. Não gosto de generalizar, mas costuma ser um padrão. Por exemplo, uma pessoa que costuma ter inveja dos outros tem-na em relação a todas as pessoas, sem discriminar alvos.

Estabelece uma diferença entre as pessoas tóxicas e as altamente tóxicas – sendo as altamente tóxicas as manipuladoras. O que distingue estes dois tipos de pessoa é a intencionalidade?
_As pessoas tóxicas, como as pessimistas, por exemplo, são pessoas com quem podemos conseguir lidar e que, às vezes, até têm esse comportamento por uma questão de preocupação, não existe uma má intencionalidade. Os manipuladores conseguem controlar completamente a vida do outro e é esse o objetivo deles. Os manipuladores, embora possam não ter noção das consequências dos seus atos, têm a intencionalidade de controlar, de criar dependências para atingir resultados. Têm uma estratégia.

E que estratégia é essa? Como é que podemos perceber que temos um manipulador à nossa frente?
_O manipulador começa por ser muito sedutor. São pessoas simpáticas, cordiais, interessadas, que satisfazem os nossos desejos, que estão sempre disponíveis para nós e para os nossos problemas. Passam-nos a ideia de que ao lado delas não vamos ter problema nenhum. A nível das relações amorosas, surpreendem imenso, dão muita atenção, são meigas, fazem tudo para seduzir e conquistar. Só depois de a pessoa estar conquistada e confiar é que começam a manipular.

Mas, nesse caso, já é tarde quando conseguimos detetar.
_Podemos desconfiar se a atenção for em exagero: se está sempre a ligar, a mandar mensagens, a querer estar sempre presente. Os manipuladores dão estes sinais, nós devemos estar atentos, colocar limites e perceber como é que o outro reage aos limites que colocamos.

Devemos testar, é isso?
_Sim, e logo no início das relações. Por exemplo, não atender um telefonema, rejeitar um convite quando se está com trabalho ou cansado e ver como é que a pessoa reage.

Como é que o manipulador reage?
_Muito mal. Uma pessoa que goste de nós diz «Ok, então descansa e saímos depois», ou, se não atendemos, pode comentar «Liguei há pouco, mas devias estar ocupada» ou nem sequer faz menção a isso. O manipulador lida muito mal com contrariedades e frustração. Assim que percebe que não consegue dominar o outro, a reação é má e esse é um dos indícios de que temos um manipulador a querer entrar na nossa vida.

Não há propriamente estatísticas sobre isto, mas em vinte anos de mediação familiar já viu o suficiente para ter noção se há um perfil típico…
_A manipulação é muito transversal, temos mulheres e homens, de muitas faixas etárias, com formação e níveis socioeconómicos muito diferentes. E não se pense que uma vítima de manipulação tem de ter um nível socioeconómico baixo ou pouca formação. Há mulheres inteligentíssimas, de sucesso, muito atraentes, que são vítimas de manipulação e continuam nas relações.

Há casos que a tenham impressionado especialmente?
_As histórias têm todas muitos traços comuns. Mas, talvez por ser mulher, faz-me muita impressão ver estas mulheres que se deixam manipular assim. O amor não deve ser um sofrimento, isso é desamor.

Mas assim como existem pessoas tóxicas também existem pessoas nutritivas.
_Sem dúvida, é uma ótima palavra! Muito nutritivas. Porque uma relação saudável é uma relação que nos faz crescer, que nos faz evoluir e que nos faz mostrar a nossa melhor versão, o melhor que há em nós. Para quê estar com uma pessoa que nos torna ansiosos, tristes, agressivos? Não estamos cá para sofrer. Temos direito a ser felizes.

Sofia Teixeira
Fotografia: Orlando Almeida/Global Imagens