OPINIÃO

Pai Natal

E não é que ele existe mesmo?

Não são só as barbas, o fato ou barriga. nem o riso, o espírito natalício, a bondade. Há muito mais qualidades que fazem um Pai Natal e Joaquim Rocha tem‑nas todas. Além de seis filiações em associações internacionais que fazem dele o único Pai Natal certificado no país. Na dúvida, o melhor é portar‑se bem e deixar‑lhe leite e bolachinhas…

Mal ouve alguém dizer à boca-cheia que o Pai Natal não existe, os pelos de Joaquim Carlos Rocha, Jackas para toda a gente, eriçam-se na nuca. As sobrancelhas contraem-se-lhe de desgosto, tortuosas. A pulsação dispara. Está bem que é tolice acreditar no aparato do trenó e das renas, mas como renegar a imensa generosidade de São Nicolau – o original, aclamado na Turquia –, diante dos pobres e das crianças desprotegidas? Ou reduzir o velhote de barbas ao marketing da Coca-Cola quando, na verdade, foi o cartoonista Thomas Nast o primeiro a retratá-lo de fato vermelho, em 1866, num desenho para o semanário Harper’s Weekly? Já para não falar no facto de ele próprio ser o Pai Natal, certificado por seis entidades internacionais especializadas que o atestam como o único verdadeiro em Portugal. Gostava muito de não se entristecer com esta falta de magia dos adultos, mas não é capaz.

«Existe uma linha de continuidade com aquilo que foram os princípios do Pai Natal – o tal São Nicolau que viveu na Turquia e não no polo norte, usou a riqueza para ajudar os outros e acabou santificado pela Igreja», explica o professor de expressões artísticas na educação, 53 anos e doutorando em tecnologia educativa e gerontologia social, respetivamente nas universidades de Salamanca e Santiago de Compostela. Desde que lhe cresceu uma barba rija (algures após os 18), sentia que a sua vida era muito pouco normal, graças a Deus. Adorava fazer de Pai Natal em instituições e jardins-de-infância que ia descobrindo como professor, ator e criador de projetos de animação gerontológica, usando as artes na integração social do idoso. Todos os dezembros lhe pediam e lá ia ele, provar que o Pai Natal existe mesmo, podiam tocar-lhe sem medo. «É engraçado as crianças verem-me assim. Houve pais que me confundiram com o terrorista Bin Laden, mas para elas sempre fui o Pai Natal.»

Quanto mais o tempo passava, mais Jackas alargava a sua rede de contactos ao formar animadores socioculturais, grupos de teatro e educadores de infância na Universidade de Aveiro (foi ainda docente de Expressão Dramática na Escola Superior de Educação de Fafe e dá hoje aulas de expressões na Escola Secundária Homem Cristo). A metamorfose aconteceu aos poucos, à conta do seu metro e noventa, da barba que embranqueceu – antes punha-lhe cremes – e dos 130 quilos bem nutridos, mais cinquenta do que tinha quando começou a vestir a personagem. «Os pedidos choviam de toda a parte graças à parecença com o Pai Natal. Fui fazendo mais, sendo cada vez mais ele.» Ao final do dia, no silêncio da sua casa em Aveiro, concluía que tinha nascido para exaltar os melhores valores da humanidade. Experimentou o peso da responsabilidade, mas não se permitiu nenhuma dúvida relativamente à missão.

«Acabei por ter que investir no meu próprio fato, feito à medida por um alfaiate de Aveiro que me levou mais de 500 euros, uma fortuna», adianta. Não encontrava veludo da cor que queria, de modo que teve que improvisar com cortinados. O colete foi talhado de uma colcha do século XIX que pertencia à bisavó da esposa, Ana Barros. A gola do casaco e o debrum do gorro são em pelo de ovelha maltesa tirado de uma almofada da Zara Home. As botas fez-lhas Tito Quitério, um sapateiro amigo que teve em conta a largura generosa das pernas. E as gargalhadas são suas, naturalmente. «Já me perguntaram se podia ensinar outros a serem Pais Natais, mas confesso que não sei como se faz.» Um fato bonito não basta. Tem que vir de dentro para chegar às crianças e isso não se explica a ninguém. «Acho que é uma questão de vocação, como ser médico ou educador de infância.»

É nessa medida que lhe faz sentido haver instituições internacionais focadas em preservar o espírito do Natal, com gente que sentiu necessidade de se organizar para que a figura não fosse vandalizada. «No fundo são pessoas como eu, que já não se veem a despir esta pele.» Jackas filiou-se primeiro no Santa Claus Peace Council, sediado na Turquia, que descobriu antes das outras (em 2011). A seguir fez o juramento de Pai Natal na The Santa Claus Oath, autenticado por mais de 50 testemunhas que assistiram ao voto em 2012 e assinaram, entre alunos seus e colegas professores. «Excecionalmente, como é nos EUA, libertaram-me das aulas ao analisarem toda a minha experiência e formação académica. Acharam que cumpria os requisitos», conta.

Não descansou enquanto não se tornou também membro, em 2013, da International Brotherhood of Real Bearded Santas (só para homens com barbas verdadeiras e credíveis), da The Clan Claus Society (de raízes escocesas, daí o Pai e a Mãe Natal usarem kilt), da ClausNet – The Santa Claus Network (a maior rede social da comunidade) e da International Order of Santas, todas americanas. Ainda hoje não sabe quantas existem ao certo, até porque algumas parecem cumprir os princípios, mas depois funcionam muito na perspetiva comercial de empresas de distribuição, que não lhe interessa. «Comprometi-me com os fundamentos de levar as crianças a acreditarem no Natal, na importância da partilha. Faço questão de olhar sempre as pessoas nos olhos para perceberem como são importantes para mim.»

Pudesse ele escrever uma carta ao Pai Natal e pediria vários braços como os polvos – dois são poucos para abraçar –, além de ajuda para concretizar os sonhos de crianças desfavorecidas, numa espécie de Querido Mudei a Casa a que chamaria Meninos, Chegou o Pai Natal: «A ideia era elas escreverem-me ao longo do ano, a dizer do que precisam, e nós deitávamos mãos à obra. Já tive meninos a pedirem-me um emprego para os pais, em vez de brinquedos.» O maior aperto na alma, porém, sentiu-o quando fazia de Pai Natal para a Vodafone (chamam-no sempre) e uma menina de 12 ou 13 anos, vinda com outros garotos dos bairros mais carenciados de Lisboa, lhe perguntou porque é que ele nunca tinha ido a casa dela levar prendas. «Caiu-me tudo, só me apeteceu chorar. Nem lhe conseguia responder. Acabou por ser ela a desbloquear ao dizer que adorou aquela festa, foi o seu melhor Natal de sempre.»

Jackas parece-se com o Pai Natal no tamanho e na cor, mas não dispõe de uma fábrica na Lapónia e por isso compensa com ideias o que lhe falta em recursos. Em outubro de 1978 cofundou com Ana a companhia de teatro para a infância Arlequim, com produções teatrais, ateliês, expressão dramática, fantoches, máscaras e as teatrotecas, um conceito inovador de formação global da criança através do teatro (ele próprio estudou commedia dell’arte com o ator italiano Antonio Fava e máscaras gigantes na Alemanha). Há três anos criaram em Vagos o Museu do Brincar, projeto associativo do grupo Arlequim onde as crianças podem mexer  no que veem. E há também a Fundação Pai Natal desde 78, destinada a levar os brinquedos que não se enquadrem no museu a instituições de apoio à infância que conhecem, como o Centro de Acolhimento de Emergência Infantil, em Aveiro, ou as Irmãs Passionistas de Santa Maria da Feira.

«Estamos a tentar angariar brinquedos novos, mas sozinho é difícil chegar aos dois milhões de crianças que alguns colegas americanos ajudam anualmente», lastima o empreendedor sem, contudo, se render. «Cheguei a lançar uma linha de donativos através do PayPal, para a Fundação comprar brinquedos, e os únicos que caíram foram o meu, a testar o sistema, e o de uma grande amiga nossa que doou 20 euros. Abala-me muito.» A alma só se lhe desanuvia quando tem mãozinhas a afagarem-lhe a barba, a puxarem-na para ver se é mesmo dele ou um embuste. «Uma vez estava a almoçar numa pizaria, levantei-me para ir à casa de banho e uma garota dos seus 4 anos pergunta à minha mulher: “Olha, o senhor que está contigo é o Pai Natal?” Ao que a Ana respondeu que sim. E diz a menina: “Eu sabia!” Noutra vez acabei de estacionar e veio uma pequenita disparada agarrar-se às minhas pernas.» A mãe chegou atrás, a pedir desculpa porque a filha viu o Pai Natal e quis dar-lhe um beijinho – os pais receiam sempre que elas incomodem. «Como podem saber que isto é tudo o que me preenche?»

 

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LEVAR A VIDA A BRINCAR
Duendes e brinquedos são uma extensão do imaginário natalício. À falta dos primeiros, Jackas orgulha-se do que tem vindo a construir com os segundos no Museu do Brincar (www.museudobrincar.com), um espaço interativo com cerca de 18 mil peças, instalado no antigo palacete do visconde de Valdemoro, em Vagos. «Estamos atualmente com uma exposição de brinquedos por época, a mostrar como atravessaram os tempos e explicando o porquê das coisas», aponta. O mais antigo é um dado em osso do Império Romano, datado do século I d.C., mas também existe um teatrinho de robertos, uma casa de bonecas vitoriana que ele próprio montou ao detalhe, jogos de mesa e tabuleiro, uma sala de exploração sonora, pistas de carros e cavalinhos de baloiço, incluindo um para crescidos. Têm tudo sobre os vários brinquedos portugueses, incluindo um berço do século XVIII que entra no filme Os Maias de João Botelho. E uma sala pirata onde se vestem a rigor e aprendem sobre o funcionamento dos navios. E um castelo medieval, a que nem sequer faltam masmorras, onde brincam aos cavaleiros e princesas.

«Houve uma ocasião em que me assustei a sério, ao ouvir um miúdo aos gritos. Julguei que tinha caído das escadas, pode acontecer. Mas afinal era o pai que andava a persegui-lo com uma espada de madeira, a gritar ainda mais do que ele.» Não admira que o Museu do Brincar tenha ficado no top 5 de Melhor Museu Para Crianças (segundo os Pumpkin Awards 2015) e seja recomendado no site de viagens TripAdvisor: é um ótimo programa para se fazer em família, até os estrangeiros já o descobriram e passam a palavra. O facto de o ambiente ser muito familiar – Inês, a sua única filha de 30 anos, também trabalha lá – ajuda ao gosto que têm a cuidar dos brinquedos e a construir fantoches, guarda-roupa e máscaras. «O mal dos adultos é deixarem de brincar. Mata-lhes a criatividade.»

O DIA EM QUE O PAI NATAL PERDEU AS BARBAS
Todos os anos é a mesma coisa: deixa crescer livremente a barba até dezembro, um mar de prata sobre o peito, depois aproveita e dá-lhe umas tesouradas para alegrar a esposa, que não se lembra da última vez que viu o rosto do marido sem pelos. «Não consigo conceber um Pai Natal com a barba colada, muitas vezes fora do sítio, que qualquer miúdo percebe ser falsa», confessa, talvez por sempre ter tido facilidade em conservar a sua desde os 18 anos. A barba também faz o Pai Natal, garante, por toda a mística que lhe está associada. Os miúdos desconfiam de apêndices postiços fixados com cola. Mas houve uma vez que a lâmina lhe levou a melhor. «Foi no casamento de uma prima, calculo que tenha acontecido em 2003. Nessa altura estava a usar uma barba mais fininha, estilo antigo presidente dos EUA Abraham Lincoln, e descuidei-me. Varei-a de um lado ao outro, um desastre.» Sem poder ir para a cerimónia naquela figura, não teve outro remédio senão tirá-la. «Foi a primeira e única vez. E sofri, mas no dia seguinte começou logo a crescer de novo.»