OPINIÃO

O turismo que muda vidas

O boom de Lisboa e Porto está a ser aproveitado por muita gente para mudar de vida e criar novos negócios.

O boom turístico de Lisboa e Porto está a ser aproveitado por muita gente para mudar de vida e criar novos negócios. Pessoas que trocaram o escritório por dias passados em carrinhas de comida, a alugar casas, a guiar passeios de bicicleta, a abrir lavandarias, a vender pinturas, a montar piqueniques ou a pegar numa moto para vender experiências autenticamente portuguesas. As duas maiores cidades do país estão a viver os anos dourados do turismo. Em Lisboa, o setor cresceu 15,4 por cento no ano passado, mais do que em qualquer outra cidade europeia. São 11,5 milhões de dormidas anuais. A capital está nas bocas do mundo e soma distinções: Melhor Destino Europeu, Melhor Destino Urbano, Melhor Destino Low Cost, Melhor Destino de Cruzeiro, além de estar em todas as listas das cidades mais bonitas do planeta. No Porto o número de dormidas atingiu os 2,6 milhões, um crescimento de 13,8 por cento face a 2013. A Invicta também tem sido galardoada e neste ano está nomeada para três World Travel Awards – Melhor Destino, Melhor Atração Turística e Melhor City Break. Esta é a história de quem percebeu que havia oportunidades de ganhar dinheiro a receber esta gente toda. E ser muito mais feliz com isso.

Susana Fernandes
BILHETES SOBRE RODAS

São quatro Piaggio que andam pela capital a vender bilhetes para excursões, aventuras e experiências. Um dia em Sintra ou em Fátima, ver Lisboa de barco ou de helicóptero, GoCar ou tuk-tuk. A Lisbon Ticket Tours for Less existe há um ano e é o negócio de Susana Fernandes, 40 anos. Os motociclos têm quatro paragens obrigatórias, na Praça da Figueira e nas Portas do Sol, nos Jerónimos e no Padrão dos Descobrimentos. «Temos de ir até onde os turistas estão. Não organizamos viagens, vendemos bilhetes de parceiros que organizam. Por causa das low-cost, há cada vez mais gente que chega sem plano traçado e nós temos as soluções para eles.»

Quando arrancou, tinha apenas uma loja no Chiado, uns meses depois abriu o primeiro ponto de venda móvel e agora já são quatro. «No mês passado vendemos 1800 bilhetes, a procura tende a aumentar.» A aventura maior foi adquirir os triciclos. «O primeiro comprei a um vendedor de marisco de Setúbal, o segundo não tinha motor e tivemos de o arranjar. Agora, sei imensas coisas sobre mecânica…» Antes, Susana dirigia uma equipa de 24 pessoas numa agência de publicidade. Estudou Gestão na Católica, trabalhou em marketing e, durante 16 anos, a sua vida foi passada de saltos altos, saia e casaco. Agora é chinelos e calções, o dia inteiro a conversar com gente, uma alegria. «Durante anos a minha prioridade foi a família. Quando a minha filha fez 2 anos, em 2013, achei que era altura de outros voos.» Apanhou em cheio o boom turístico na maior cidade portuguesa.

«Descobrir parceiros, programas novos, ajudar as pessoas a conhecer a cidade é muito compensador.» A família já sabe que aos fins de semana Susana tem de trabalhar, mas é uma boa desculpa para sairem de casa também. «Dou trabalho a oito pessoas. E estou a adorar fazer isto, porque é um desafio. Um dia, se entrar na rotina, invento outra coisa qualquer.»

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Alexandre Melo
ALUGAR A CASA DE FAMÍLIA

Para Alexandre Melo, de 34 anos, a mudança de vida cruza-se com o início do boom do turismo no Porto e o falecimento do bisavô, que deixou como herança uma propriedade com mais de 300 anos, restaurada em 2007. «Eu, a minha irmã e o meu pai juntámo-nos e decidimos comprar a parte dos nossos tios e, para rentabilizarmos o espaço, optámos por avançar com a atividade de alojamento local», recorda hoje, sentado à mesa do jardim da casa, com vista privilegiada para a Ponte D. Luís I e o Mosteiro da Serra do Pilar, em Gaia.

Há quatro anos, ainda ele trabalhava como guia turístico nas caves do vinho do porto, começaram por alugar apenas um apartamento, mas depressa o sucesso os convenceu a arrendarem os três espaços da casa. Entre a gestão das reservas e a limpeza e a manutenção do edifício, começava, para Alexandre, um verdadeiro trabalho a tempo inteiro.

Desde então, os três apartamentos da Rua de D. Hugo, perto da Sé Catedral, já mereceram mais de 700 reservas, sempre pela internet, sendo o site Airbnb o que lhes garante a maior parte dos hóspedes (70 por cento). Entre estes, «99 por cento são estrangeiros», mas, apesar de os turistas europeus liderarem a lista dos mais interessados, não estão sozinhos na corrida: «De há um ano para cá, o número de clientes franceses aumentou muito. Mas também temos muitos dos EUA, Canadá e Austrália.»

«Temos um casal de professores universitários norte-americanos que veio em 2013 e voltou em 2014 e um casal dinamarquês que reservou com um ano de antecedência e disse “Nós nunca fazemos isto, de voltar ao mesmo sítio, mas vamos reservar outra vez”», conta, para atestar a satisfação de quem experimenta, acrescentando que os preços por apartamento variam entre os 60 euros, na época baixa, e os 150, na época alta. E se diferem na proveniência, os visitantes quase sempre coincidem no perfil. «São pessoas que procuram estar no centro da cidade e que desejam conhecer o funcionamento do país. Estão interessadas em saber como é a política, a economia, e querem aprender a língua e a cultura», elucida.

Por isso. Justifica, é fácil ficar amigo de quem passa, até porque esta é uma partilha de experiências que tem valido a Alexandre uma dose de dividendos bem superior ao encaixe financeiro: «o facto de recebermos pessoas estrangeiras obriga-nos a sair daqui do nosso ambiente, é uma maneira de nos abrir ideias. É quase como viajar.»

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Ricardo Castedo
LAVAR É PRECISO

No bairro lisboeta do Príncipe Real abriu há meses um café em que as donas e únicas empregadas são duas dinamarquesas que não falam patavina de português. «Esta zona tem mudado muito por causa do turismo», explica Ricardo Castedo, 50 anos. Uns metros abaixo ele montou um negócio para acudir a uma necessidade em que não pensamos logo: como é que esta gente toda vai lavar a roupa?

O LA Wash nem sequer é uma ideia original, é o franchise de uma lavandaria self-service inventada por uma empresa catalã. Abriu há um mês. Três máquinas de lavar e duas de secar que funcionam a troco de moedas. Ali, o que marca toda a diferença é a localização. «Do que já percebi, quarenta por cento da clientela é estrangeira. A isso somam-se os inúmeros hostels que aqui abriram, mais as pessoas que alugam apartamentos e quartos a estrangeiros. É aqui que se lavam os lençóis, os cobertores, as toalhas.» E depois há todo um novo escalão de clientes, «portugueses que vivem como turistas». Segundo Ricardo, é gente que não tem emprego fixo, muda facilmente de bairro, de cidade ou de país, e seguramente não precisa de uma máquina de lavar. «Instalei o wifi por causa deles. Assim podem trabalhar enquanto esperam que a roupa lave.»

Era diretor de marketing das páginas Amarelas, mas a crise atirou-o, como a muitos outros, para o desemprego. Antes tinha construído uma carreira à volta do setor alimentar – tirou Gestão na Universidade Católica, foi gestor de produto e depois diretor de marketing em grupos de produção alimentar. «Quando fui despedido, em vez de comprar um BMW, decidi investir num negócio meu.» Algo que não lhe ocupasse demasiado tempo nem precisasse de demasiados recursos humanos. Hoje, tem tempo para almoçar com a mãe e ver os jogos de futebol dos filhos. Está a pensar abrir novas lavandarias, sempre em zonas tradicionais da cidade. E nem lhe passa pela cabeça voltar a ter carro.

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Joana Vieira
A VIDA É UM BELO PIQUENIQUE

Há muito que a imagem dos piqueniques feitos pelos avós lhe tinha ficado gravada na memória, mas, durante os 11 anos em que trabalhou na área do marketing, Joana Vieira, 38 anos, estava longe de imaginar que essa lembrança lhe mudaria a vida para sempre. «Quando tive a minha filha, há seis anos, comecei a achar que tinha de ter mais tempo para ela. Como eu gostava de comida e de pessoas, lembrei-me de um projeto que me permitisse libertar do emprego e de gente maldisposta e então, num salto de muita confiança, mas também muito assustador, decidi começar um projeto meu», diz.

A princípio, até queria dar a conhecer a quem viesse de fora «um Porto pessoal, aqueles cantos que só nós que vivemos cá é que conhecemos», mas foi na preparação de iguarias que encontrou aquilo que a faz feliz. «Tanto faço piqueniques para duas pessoas como para despedidas de solteiro e para festas de aniversário de 30 ou 40 pessoas. Mas também faço pequenos-almoços, entregas no emprego, surpresas e festas em casa. Vou lá, termino a refeição, deixo a cozinha arrumada, a mesa posta e quando os convidados estão a chegar eu estou a sair», conta, com o entusiasmo mal disfarçado de quem descobriu uma nova vida.

A página que gere no Facebook (DaJoana) e o passa-a-palavra são dois dos principais aliados, mas Joana Vieira também soube capitalizar o crescimento exponencial do turismo a que o Porto tem assistido. «Tenho várias parcerias com guest houses e hostels. E os turistas também são um mundo a explorar, porque são pessoas muito ávidas por produtos nossos. Trocamos sempre e-mails, eles dizem-me o que querem experimentar – o bacalhau, as iscas, o arroz de feijão – e eu tento fazer isso de forma a que eles comam sempre comidinha nossa», assinala.
Os preços, esses, começam nos 50 euros, o valor mínimo de um piquenique para duas pessoas. Se tem valido a pena? A resposta sai-lhe com a ligeireza com que se movimenta na cozinha: «Não me conheceu antes, mas eu agora sou muito mais feliz. A vida mudou muito, tive de cortar em muitas coisas porque ainda não ganho o que ganhava, mas costumo dizer que o meu salário emocional é dez vezes maior.»

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Filipe Palma
A VIDA COM PEDAL

São nove da manhã quando chega o primeiro grupo, rapazes alemães que querem conhecer Lisboa de bicicleta. Filipe Palma, 46 anos, vem recebê-los. Sorriso rasgado, calções e polo, ténis. É a farda de trabalho. Há cinco anos que os seus dias são estes, ao pedal. «Percebi que estava prestes a acontecer um fenómeno turístico em Lisboa e não me enganei.» A Lisbon Bike Tours foi uma ideia pescada em Buenos Aires e Amsterdão, «até porque cá não havia nada do género. » De ano para ano, tem cada vez mais clientela. Em 2014 vendeu quatro mil expedições.
Nem mais nem menos, é a vida que sempre quis. Filipe estudou e ensinou Educação Física, mas em 1999 tirou um ano de licença sem vencimento para dar uma volta ao mundo. «E isso mudou tudo.» A Expo’98 revelar-se-ia uma ajuda preciosa no planeamento, no ano seguinte fez a mochila, aprontou a bicicleta e partiu. Esteve na Turquia e no Irão, trabalhou nas vindimas na Nova Zelândia e fartou-se de dar voltas na Austrália, fez de bicicleta os mil quilómetros do Tibete ao Nepal. Depois embarcou para Hong Kong, EUA, e por fim o Sul da América. Argentina e Chile, com umas quantas incursões à Antártida e a Patagónia percorrida a pedalar. «Quando voltei, dei aulas mais um ano, mas percebi que não era isso que queria.»

Primeiro, organizou expedições de aventura em regime freelance – Nepal, Patagónia e Açores. Vida incerta e orçamento apertado. Em 2005, encontrou emprego numa agência de mergulho, onde passou um par de anos. O seu trabalho era de escritório, voltou a sair quando o convidaram para uma expedição à Antártida, onde passou quinze dias solitário em caiaque. No regresso a Lisboa, em 2006, percebeu que o turismo de aventura estava em alta e abriu uma agência com esse perfil, que fazia desde grandes expedições a fins de semana radicais para empresas. «Depois veio a crise e começou a desenvolver-se este novo turismo, que viaja em low-cost e quer experimentar
a cidade.»

Na Lisbon Bike Tours há passeios de quatro horas por Lisboa, outros de dia inteiro por Sintra. A empresa tem hoje dois sócios, quatro funcionários fixos, mais cinco em freelance. «E eu tenho oportunidade de viajar constantemente, mesmo sem sair da cidade, porque passo o dia a falar com gente de todo o mundo.» Há, até, noites em que sonha em inglês.

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Isabel Tavares
UM SONHO À BOLEIA DE UMA MOTO

Quem a vê hoje, sorriso aberto e boa disposição para dar e vender, mal adivinha a «travessia do deserto» que viveu quando, em 2011, grávida e com três filhos, o desemprego lhe interrompeu a vida de delegada de informação médica. Felizmente, percebe agora, o pesadelo de ontem mais não foi do que o prólogo do sonho de hoje e eis que a encontramos, despachada e plena de realização, como orgulhosa criadora da Comida de Rua. Eis Isabel Tavares, de 42 anos.

«Eu e o meu marido achávamos que na rua não havia mais nada que não fossem as bifanas, os cachorros e os hambúrgueres. Pensámos em procurar fora um veículo que conseguisse conciliar tudo aquilo de que sentíamos falta: qualidade, higiene e imagem», recorda.
A fórmula para conciliar as três vertentes encontrou-a no imaginário de um arquiteto italiano, que concebeu uma espécie de moto multifunções – a parte de trás serve tanto de cozinha como de balcão. Daí à estreia, em outubro de 2012, no Parque da Cidade, foi um passo, dado sempre com a convicção de a qualidade das sanduíches era condição sine qua non.

«Desde o início que temos o apoio do chefe Elísio Bernardes e da Mi, que é uma cozinheira de mão cheia», diz. A ideia, explica, é chutar para canto o preconceito de que na rua não é possível comer bem. Por isso, a quem quer que insista nessa ideia, Isabel acena com a sanduíche da Mi (inventada pela cozinheira), com carne assada, compota de cebola e queijo de cabra, ou com a sanduíche vegetariana, que leva salteado de cogumelos e pasta de tomate seco.

A presença em mais de uma centena de eventos diz bem de quanto a aposta tem sido ganha, ainda mais desde que, em novembro do ano passado, se aventurou no programa Shark Tank, tendo garantido um investimento que lhe permitiu expandir-se para Lisboa e passar de uma moto… para sete!

Quase três anos depois do início da aventura, lamenta apenas o facto de o licenciamento para vender na rua (para já, apenas está autorizada a vender em eventos) continuar a esbarrar no não redondo da Câmara Municipal do Porto, mas, quando chega a hora do balanço, não hesita: «Estou muito feliz. Tem sido a concretização de um sonho. Sonho após sonho.»

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Célia Colimão
EM BUSCA DOS ÍCONES DA CIDADE

As flores portuguesas custam 15 euros, as sardinhas cinco. Célia Colimão, 38 anos, consegue pintar até 15 por dia, mas também está preparada para criar novos desenhos: a calçada portuguesa e os elétricos. «Com este aumento do turismo também é preciso criar uma nova iconografia da cidade. E do país.» O Galo de Barcelos está gasto, o peixe que enche as grelhas em junho é cada vez mais a imagem de marca de Lisboa. Então ela desenha- as em tela com acrílico e tinta de relevo. «São versões figurativas, muito simples. Logo eu que venho de uma escola de pintura abstrata.»

Licenciou-se em Pintura pelas Belas-Artes de Lisboa e percebeu cedo que não queria entrar no percurso das galerias. «Preciso de conviver com pessoas, pintar é algo que me dá um prazer incrível, mas também é solitário.» No início do milénio pôs-se à aventura. Participou na organização da Bienal de Arte de São Tomé e Príncipe, começou a fazer ateliês com a população e adorou a experiência. Depois mudou-se para a ilha de Formentera, no arquipélago espanhol das Baleares. «Uma amiga psicóloga abriu um centro de desenvolvimento para crianças estrangeiras que viviam na ilha e precisavam de apoio. Eu fui para lá fazer ateliês de pintura.» Era um trabalho urgente. Numa ilha em que o principal setor de atividade económica é o turismo, e em que a maioria da população que trabalha veio de fora do arquipélago, era preciso combater o isolamento dos mais novos. «Miúdos que falavam línguas diferentes, e que passavam pouco tempo com os pais, era quase inevitável que se fossem isolando», explica agora. A pintura resolvia muitos problemas, fazia-os comunicar por uma linguagem universal. Esse trabalho haveria de influenciar toda a sua vida – e ficou em Formentera até 2007.

No regresso, percebeu que queria trabalhar em terapia pela arte. Durante dois anos, organizou workshops e ateliês em casas de saúde mental e instituições para pessoas com deficiência. Sempre em colaboração com psicólogos e equipas técnicas. Depois começou a trabalhar num infantário da Câmara Municipal de Torres Vedras, dias inteiros a pintar com crianças. «Em todos os casos, estava interessada em que eles desenvolvessem tudo menos a técnica. Tanto nos casos de doença e deficiência mental como nos processos de infância, o que interessava era usar a pintura como ferramenta de libertação psicológica.»

Há dois anos viu-se sem emprego. Tentou organizar novos ateliês, novos workshops, tinha experiência na manga e ninguém duvidava dos benefícios da sua proposta. «Mas as respostas eram sempre as mesmas: gostávamos muito mas não temos dinheiro. Então voltei às raízes e recomecei a pintar.» Já quase se tinha esquecido dessa magia que é estar frente à tela, tantos os anos a tratar dos rabiscos dos outros. «Pensei de uma forma prática no que poderia fazer e agradou-me a ideia de produzir para esta nova vaga de turistas, que não querem coisas industriais mas produtos personalizados e autênticos.» Como adora Lisboa, tratou de a pôr na tela. Ou os seus novos ícones. «E o que começou por ser uma fuga para a frente revelou-se um gozo tremendo. Porque estou a oferecer a minha visão de um sítio que amo e a espalhá-la pelo mundo.»

Ana Tulha, no Porto, e Ricardo J. Rodrigues, em Lisboa
Fotografia Pedro Granadeiro/Global Imagens, no Porto e Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens, em Lisboa