OPINIÃO

O peso da tristeza da época mais feliz do ano

O Natal também tem destas coisas...

A solidão, a perda de alguém importante ou a família desavinda podem deixar os sentimentos à flor da pele e fazer daquele que é, para muitos, o período mais alegre do ano um conjunto de dias que só queremos que passem depressa. Esta tristeza tem nome: chama‑se Christmas blues e mexe com a vida de muita gente durante o mês de dezembro.

É um ritual de família e de reencontro, de união e comunhão, de amor, de «ninho». E é isso que torna a época feliz e especial. Mas são estas mesmas razões que também podem torná‑la um dos momentos mais difíceis do ano. Basta que, em vez de amor, haja desavenças. Ou que o «ninho» não exista ou esteja vazio. «Frequentemente, a tristeza, a culpa e a ansiedade sentidas nesta época têm que ver com um desfasamento entre as expetativas que interiorizámos do que deveria ser o Natal – enquanto festa religiosa e de comunhão de afetos – e aquilo que muitas vezes acabamos por vivenciar», diz o psiquiatra João Parente. Durante o resto do ano, tudo isto é mais fácil de ignorar. No Natal, quando as páginas das revistas e os anúncios na televisão se enchem de famílias felizes debaixo do pinheiro e os amigos extravasam todo o entusiasmo com a perspetiva da reunião familiar, toda a felicidade dos outros parece servir apenas para que alguns recordem (ainda) mais o que está em falta nas suas vidas.

Variadas razões
Mas a lista de razões pelas quais se pode sentir tristeza nesta altura do ano não se resume a disfuncionalidades familiares: a perda de um ente querido, uma situação económica complicada ou simplesmente uma certa nostalgia dos natais da infância são alguns motivos para olhar esta quadra com alguma angústia. Quando a tristeza reflete mudanças recentes, a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva defende que o primeiro passo é sempre aceitar a legitimidade dessa tristeza. O problema é quando ela dura demasiado. «A tristeza adaptativa durará algum tempo, a tristeza não adaptativa tende a perpetuar‑se no tempo e pode traduzir dificuldade em processar devidamente situações de vida mais difíceis.»

Para Hugo (nome fictício), 37 anos, a tristeza no Natal arrastou‑se durante uma década. O Natal – sobretudo os da infância – era uma época feliz até há dez anos, quando a vida mudou naquele 12 de dezembro. O telefone tocou e do lado de lá chegaram más notícias. Perdera o pai e a mãe num acidente de viação. «Nos anos seguintes, o Natal passou a ser só uma data no calendário que significava dor.» Mudou dramaticamente de costumes. «Nesse ano fui trabalhar dois ou três dias como se nada fosse e depois caiu‑me a ficha. Comprei uma passagem para o sítio mais longe de que me lembrei e fui sozinho para o Vietname. Foi lá que passei esse primeiro Natal.»

A época de Natal é tipificada como a festa em que a família se reúne, se revê e confraterniza. «Mas se se tiver perdido um ente querido é natural que esta época reavive os sentimentos de luto e de saudade e que, dependendo do caso, podem ser avassaladores», diz o psiquiatra João Parente. Para Hugo, era assim e todos os anos o padrão se repetia: «À medida que o Natal se aproximava sentia‑me mais distraído no trabalho, cansado, apagado, isolava‑me, tinha menos paciência para as pessoas ». Em dezembro tirava sempre férias durante o mês quase todo e partia. Austrália, Estados Unidos, Argentina e Moçambique foram os destinos dos anos seguintes. «Só em janeiro
sentia um alívio, era uma página que se virava.»

Hugo fugiu do Natal durante cinco anos, mas os sentimentos que a quadra provocava iam sempre com ele. Depois, com o início da relação com a mulher e sobretudo com o nascimento dos filhos, há três anos, a «fuga» complicou‑se. «No ano passado sentia que era um peso em casa, não conseguia acompanhar a felicidade das crianças, estava lá mas não estava. Mas não queria que as crianças crescessem a sentir que o Natal era um tempo triste.» Nasceu‑lhe a vontade de voltar a aprender a viver o Natal. Pelos filhos, pela mulher e também por ele próprio, procurou ajuda.

Aproxima‑se o Natal. Desde o final de novembro que Hugo se sente um pouco mais nostálgico, mas está calmo. Quase um ano depois de iniciar o processo psicoterapêutico, acredita que este Natal que está à porta vai ser bastante diferente. «Fiz as pazes com a vida. Os meus pais podem continuar presentes de outra forma.» Em cenários como estes, o grande desafio está em equilibrar as recordações do passado com os sentimentos e as vivências do presente. «É necessário aceitar a diferença entre o que se viveu e o que se está a viver, sem que essa diferença anule o que passou nem hipoteque o que está para vir», diz Filipa Jardim da Silva.

Christmas blues
Os dados que existem sobre o Christmas blues, essa tristeza sazonal por altura do Natal, são vagos e pouco certos, sobretudo porque o sentimento não está propriamente catalogado como uma patologia mental. Os dados do National Institute of Health, nos Estados Unidos da América, apontam o Natal como o período do ano no qual há uma incidência maior de depressão. Mas esta tristeza de Natal, apesar de ter sintomas idênticos, não significa necessariamente um quadro depressivo. «O Christmas blues é habitualmente passageiro e não tende a evoluir para um quadro clínico de depressão. Passada a época festiva, e com o retomar das rotinas habituais, os sentimentos de tristeza tendem a desvanecer‑se e a remitir naturalmente», esclarece João Parente.

No entanto, pode acontecer que nem tudo seja «culpa» do Natal. O tempo mais frio e os dias mais curtos podem aumentar a incidência da doença afetiva sazonal (SAD), uma condição cíclica que ocorre sobretudo com a chegada do outono, e que provoca em algumas pessoas uma degradação do humor, cansaço e sentimentos depressivos. Mas há diferenças: no Christmas blues os sintomas de tristeza e ansiedade não se agravam nem se prolongam no tempo. «Se isso acontecer, deve ser consultado o médico de família: pode tratar‑se de um episódio de SAD ou a época natalícia pode ter contribuído como fator desencadeante de um quadro depressivo.»

Muitas vezes o Christmas blues pode manifestar‑se pela falta de vontade em estar com os entes queridos e no desconforto em festejar, como acontecia com Hugo. Outras, o problema reside precisamente no oposto. Não faltam aqueles que tudo o que queriam era poder estar e festejar, mas são esquecidos. Num país cada vez mais envelhecido – de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2013, o índice de envelhecimento da população foi de 136, ou seja, por cada cem jovens existiam 136 idosos – o problema da solidão é cada vez mais premente. «Num mundo que se globalizou, não é raro que haja familiares emigrados em países longínquos e que não podem estar presentes, e essa ausência pode ser antecipada e sentida com tristeza e saudade», diz o psiquiatra João Parente. «E uma parte significativa da população idosa vive sozinha, sem grande apoio familiar e os sentimentos de solidão física e afetiva tornam‑se mais evidentes nesta época festiva.»

A família que já não está
Rosa Melo tem rugas e cabelos brancos suficientes para já ter visto muito e ouvido mais ainda. Do Christmas blues nunca ouviu falar e psicoterapia também nunca fez. Tem 82 anos e o que sabe é isto: sente‑se sozinha. No Natal, como no resto do ano. Vive em Fenais da Ajuda, na ilha de São Miguel e sente‑se satisfeita por alguém lhe perguntar o que sente. Partilha as suas dores, que não são poucas: é viúva há oito anos e perdeu o único filho que tinha há dois. «Ele estava na América. Era da tropa e fizeram‑lhe um daqueles funerais muito bonitos em que se põe a bandeira americana por cima do caixão. Eu não o via no Natal, mas sabia que ele estava bem e ouvia‑lhe a voz porque ele ligava‑me sempre.» Os netos, todos nascidos por lá, têm nomes como John e Steve. Sabe‑os bem, mas não os vê. Sem marido, sem filho e com uma irmã que vive perto mas de quem está afastada por desavenças familiares antigas, o Natal de Rosa é na solidão. «Há um sobrinho do meu marido e a mulher que passam aqui um bocadinho na véspera de Natal a deixar‑me uns bolinhos. Ficam muito pouco tempo, mas é o tempo que podem. Depois têm de ir à vida deles fazer o Natal com a família.»

Rosa gostava do Natal quando toda a sua família existia e se reunia. A pergunta é inevitável: e agora, ainda gosta? A resposta não podia ser mais clara. «Gosto, mas só por ser o nascimento do menino Jesus, só por isso. O resto é tristeza.»

EVITE A TRISTEZA DE NATAL

Se é uma perda, um divórcio ou outra mudança recente que estão na origem da tristeza, permita‑se sentir tristeza e encare‑a como normal. Não perca de vista que melhores dias virão. Se necessário, reinvente as tradições de forma a que se adaptem à situação e/ou ao seu estado de espírito.

Se o problema é a solidão, tente rodear‑se de outras pessoas da comunidade: vizinhos, instituições de apoio ou mesmo alguém que também esteja isolado, de forma a que possam acompanhar‑se mutuamente. Também pode optar por fazer voluntariado na noite e no Dia de Natal.

Os franceses têm como tradição, no Dia de Natal, visitar alguém com quem estão incompatibilizados. Se na sua família há divergências, pergunte‑se se não poderia fazer o mesmo e aproveitar o espírito da quadra para reatar laços desfeitos.

Sofia Teixeira
Ilustração de Filipa Viana/Who