OPINIÃO

O músico sem barreiras

Johnny Silva tem um nome inglês porque os pais gostaram. Já o estilo não cabe num só país.

Johnny Silva é cantor de hip hop e o maior impulsionador desse estilo musical na zona centro do país. Dá concertos em prisões e escolas, internatos e orfanatos. E acredita que a música deve ser totalmente inclusiva, chegar a toda a gente. Por isso traduziu as canções para língua gestual.

Ao ouvido de Johnny Silva, o hip hop sempre soou muito diferente dos outros géneros musicais, mais eclético. Parecia-lhe ter uma alma especialmente humana, com as suas origens nos subúrbios negros e latinos de Nova Iorque, um mundo dentro de outro mundo. Também lhe parecia mais autêntico nas suas convicções: por trás de uma aparência vagamente ameaçadora ajudava, de facto, a pacificar a violência dos jovens, entrando com a música onde antes havia facas e tiros de pistola entre gangues rivais. «Sou de natureza interventiva. O hip hop é uma das formas que encontro na vida para me relacionar e falar sobre o mundo em que estou inserido», explica o compositor literário e intérprete, 28 anos, conhecido no meio artístico como XL. Adotou o nome de  Xpressão Lírica, o segundo álbum que traduziu para língua gestual, depois de ter aberto esse caminho inédito de inclusão dos surdos com o single Transparente, um dos 11 temas de (In)Temporal. «Rap significa rythm and poetry, ritmo e poesia, tudo aquilo de que gosto numa música. Se não pudesse ouvi-la, pelo menos gostaria de saber a letra.»

Foi num dia de escola como os outros, no sétimo ano se a memória não lhe falha, que Johnny descobriu que as palavras eram o seu tesouro mais valioso. A professora de português pediu à turma uma composição de tema livre. O rapaz passou revista às ideias e decidiu que um poema era o melhor para pôr tudo cá fora, curto e definitivo. A professora elogiou-lhe a veia poética forte, a turma que pusesse os olhos naquilo. «Motivado por esse louvor, gravei outros textos meus em cima de instrumentais de hip hop. Fiz muitos rascunhos de fraco conteúdo e gravei muitas maquetes para me poder “ouvir ao espelho”. Para melhorar.» Entrou oficialmente no ativo no ano 2000, quando um vizinho comprou um gira-discos para se dedicar ao scratch (“arranhar” vinis) e o desafiou a tornar-se MC – diz-se eme ci, o mestre de cerimónias que anima o público. «O hip hop é uma cultura universal, aberto a todos os géneros, idades, cores, classes, políticas e orientações sexuais. O meu, pelo menos, é assim», diz, resolvido a eliminar barreiras.

Em 2004 criou o que considera ser o seu primeiro registo discográfico, Génesis, como na Bíblia, e foi o suficiente para no ano seguinte ser convidado a atuar na tour Portugal Hip Hop Stars, ao lado dos maiores nomes do hip hop português e francês da altura: Nigga Poison, Regula, Explicit Samurai, Black Masta, Família 4, DJ Sas, Sam The Kid, DJ Cruz Fader, Baggi Lugano e muitos outros. Seguiu-se o álbum Zona Centro, em 2006, para mostrar ao país que ali os MCs são tão bons ou melhores do que em Lisboa e no Porto, era ridículo aquele deserto. «A nível de produção e promoção musical, havia uma lacuna muito grande em Leiria – a minha terra –, Coimbra, Santarém, Castelo Branco, Aveiro, Viseu, Portalegre e Guarda.» Dificilmente se conseguia alugar um estúdio, recorda. Ter acesso a programas de rádio, a canais de televisão e ao agenciamento era missão de loucos. «E então pensei: “Epá, qual é a alternativa a isto? Deve ser eu fazer as coisas pelo meu próprio pé, construir as minhas oportunidades de raiz.” Quem tem boca vai a Roma!»

Assim nasceu a Alternativa Music, label que fundou em Leiria em 2000 para assegurar a edição discográfica, produção audiovisual e promoção de música ao vivo – a sua e a de novos talentos com quem se identifica. Teimoso diante dos objetivos, fez-se o maior impulsionador de hip hop na zona centro: organizou o evento semanal Zona Centro Sessions, para divulgar artistas em palco, e o festival 4 Vertentes, em que desmistificou preconceitos ao explicar as quatro vertentes do hip hop: graffiti, breakdance, Mcs e DJs. Estendeu já o leque de artistas a França (Paris e Marselha), Luxemburgo, Holanda (Amesterdão), Itália (Roma) e Brasil (Maricá). Ele próprio atua lá fora com Mcs da Bélgica, Holanda, Alemanha, França e Luxemburgo, enquanto por cá gosta particularmente de fazer a festa em prisões e escolas, internatos e orfanatos. O dom da palavra que Deus lhe deu, XL retribui concedendo aos outros aquilo que a música lhe pede que seja dito.

«O hip hop surgiu para dar voz aos que não a tinham e foi por aqui que decidi traduzir para língua gestual o (In)temporal, primeiro, e em seguida o Xpressão Lírica», conta o autor, cujas músicas inclusivas estão disponíveis no seu site  (http://www.xlzonacentro.com/linguagestual.php) e no canal oficial da Alternativa Music no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=JO2sEzYC7to). O nome de Joana Sousa chegou-lhe por via de uma conhecida com um filho surdo, que lhe indicou a tradutora quando soube o que ele andava a tramar. «Foi a Joana que me ajudou naqueles dois álbuns para começar, a seguir aos quais virão outros.» Isso, e mais refrões em inglês. E legendas nos videoclipes sempre que julgar necessário cruzar referências. E uma tour lusófona por Goa, Damão e Diu, na Índia, e pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: Angola, Brasil, Moçambique, Guiné-Bissau e Equatorial, São Tome e Príncipe, Cabo Verde e Timor-Leste. E mais temas dedicados aos invisuais e ao flagelo das drogas, além do Invisual e do The Two Faces of Drugs. «Se a minha mensagem é universal, como podem as palavras ser um entrave ao entendimento?»

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DISCOGRAFIA
Da mesma forma que não sabe ao certo a quantos ouvintes chega – nunca se preocupou com visualizações, apenas em colocar a sua obra ao alcance de todos –, XL não é capaz de dizer imediatamente quantos discos tem gravados. Há o Génesis (2004), o Capa-cidade (2005), Zona Centro (2006), 4 Vertentes (2007), Sem Preconceitos (2008), Zona (Cêntrico) (2010), Letras, Freestyle e Iniciativa e Lusofonia (ambos em 2011), Live Acts e Radio Blaze (em 2012), (In)temporal (2013), Xpressão Lírica (2014). Tem ainda outros dois em curso, Zodiac e The Gathering, com alguns singles disponíveis na Net e lançamento previsto para 2016 ou 2017. «Entre álbuns, mixtapes e compilações, acho que já vão para as duas dezenas», atira o cantautor, pronto para continuar a construir-se, na música como na vida. «A caminho dos 29 anos, acho que realizei todos os meus sonhos de criança. Estou exatamente onde queria estar, a todos os níveis», garante. Faz aquilo de que gosta, que é mais do que a maioria de nós pode dizer. Tem uma filha a quem ensina a batalhar pelo que quer, como ele próprio fez um dia. Está inclusive a tirar uma licenciatura em Animação Turística no Instituto Politécnico de Leiria, não porque precise disso para ganhar dinheiro ou sentir-se realizado, mas porque parar é morrer. «Estou no segundo ano de três, a ver se termino dentro do tempo. Por mim e por ela.» O pai gostava de encorajá-la a ir à luta, exatamente como encoraja outros nas suas canções.

Ana Pago
Fotografia: Henriques da Cunha/Global Imagens