O matemático no seu labirinto

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Aos 4 anos, Luís Nunes Vicente já escrevia numeração romana.

Aos 48 recebeu um dos mais prestigiados prémios internacionais da matemática – o Lagrange – pela investigação em torno da otimização sem derivadas. Luís é matemático, cientista e professor catedrático da universidade de Coimbra.

É o mais novo de nove irmãos. Cinco seguiram o caminho trilhado pelo pai, o neurologista António Nunes. Os restantes fizeram outros percursos, longe das escolhas de Luís Nunes Vicente, que, desde cedo, demonstrou gosto pelo rigor e a criatividade da matemática. O irmão Pedro incentivou-o a escrever em numeração romana aos 4 anos e Luís não mais se desligou dos números. Sempre bom aluno, às portas da universidade, entrou em Engenharia Informática, mas um falhanço a Física levou-o a render-se à sua paixão mais antiga. À licenciatura em Matemática, na Universidade de Coimbra, seguiu-se o mestrado na Universidade de Rice, em Houston, nos EUA, e o doutoramento, na mesma instituição, na área da otimização, enquanto bolseiro da Fulbright, um programa de bolsas de estudo fundado pelo senador J. William Fulbright e que tem tido como bolseiros mais agraciados com prémios Nobel do que qualquer outro programa académico. Ainda fez um estágio de pós-doutoramento nos EUA, mas em 1996 regressou à sua cidade para dar aulas no Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

Luís Nunes Vicente sentiu-se como peixe na água enquanto académico e investigador. «Gosto de fazer coisas diferentes, e a matemática, a investigação e a carreira académica proporcionam-me isso.» A otimização e investigação operacional é, das onze áreas da matemática, a eleita pelo cientista. Ao longo dos anos tem desenvolvido projetos junto de empresas e instituições. Dois desses projetos foram financiados pela Agência Espacial Europeia e Luís Nunes Vicente tornou-se um dos poucos académicos portugueses ligados à organização intergovernamental dedicada à exploração do espaço.

Na prática desenvolve projetos que procuram princípios de equilíbrio. «Na otimização pretende-se maximizar ou minimizar uma função em que as variáveis estão restringidas a determinados valores quando se pretende minimizar o risco de investimento, mas sujeito a um determinado retorno.» Criam em computador receitas que não são possíveis de resolver em papel. «O que os otimizadores fazem é desenvolver um conjunto de algoritmos [receitas] para que o computador consiga resolver problemas.» Os últimos dez anos de estudo nesta área da otimização sem derivadas com aplicação à engenharia industrial através da simulação computacional, em parceria com Andrew R. Conn, da IBM Research e Katya Scheinberg, da Universidade de Lehigh, culminaram na publicação do livro Introduction to Derivative-Free Optimization. E o livro foi o mote para o Prémio Lagrange – atribuído conjuntamente pelas sociedades científicas internacionais, SIAM (Sociedade de Matemática Aplicada e Industrial) e MOS (Sociedade de Otimização Matemática) –, que Luís Nunes Vicente recebeu recentemente nos EUA, durante o XXII Simpósio Internacional de Programação Matemática. O Prémio Lagrange é atribuído, de três em três anos, desde 2003, «a trabalhos fora de série na área da otimização contínua que se distingam pela sua qualidade matemática e originalidade».

O professor, que diz que «os bons livros de matemática também contam uma história», não se imaginava a ganhar este prémio nem o vê como uma recompensa, mas aceita-o como uma distinção pelo esforço e pela forma apaixonada como trabalha a matemática há 20 anos.

Tem desenvolvido o seu trabalho a partir de Coimbra, mas a sua estratégia de internacionalização permitiu-lhe «criar padrões de exigência mais elevados e estar mais perto de problemas com maior impacto». Considera que Portugal é um país «periférico e pequeno, logo circulam menos pessoas e ideias», handicap que contorna com um esforço pessoal e familiar que lhe tem permitido trabalhar no estrangeiro como bolseiro de diversas organizações, quer recorrendo a licenças sabáticas quer aproveitando as interrupções letivas.

Foi investigador convidado da IBM Research, da Universidade do Minnesota e da Universidade de Nova Iorque. Colabora regularmente com o centro de investigação CERFACS e a escola de engenharia INP de Toulouse na qualidade de cientista sénior convidado e é ainda autor de mais de uma centena de trabalhos e editor de diversas revistas científicas internacionais de matemática.

Interessa-se por Otimização, Matemática Computacional e Computação Científica, em particular por Otimização Não Linear e as suas ligações à Ciência, Engenharia e Finanças. Mas não só. Luís Nunes Vicente reconhece que um cientista está sempre a pensar ciência, mas um pai também está sempre a pensar nos filhos. E ele, que é pai de três, garante ser mais popular entre os alunos do que em casa. «Sou rigoroso com os meus filhos, gosto de arrumação, esforço, rigor e fidelidade de princípios, mas nunca os condenei pelos falhanços.»

A motivação é o mote, dentro e fora de casa. Aos alunos, agora só de mestrado, doutoramento e pós-doutoramento, diz que para se ser um bom matemático a receita é a mesma que para tudo na vida: curiosidade, criatividade, esforço e dedicação.

HÁ VIDA PARA ALÉM DOS NÚMEROS
Além da matemática, Luís Nunes Vicente é fã de cinema. «Vejo três a quatro filmes por semana. Até há bem pouco tempo ainda ia ao clube de vídeo, gostava desse ritual, mas agora acabei por aderir ao Netflix.»
Anda a ler Memórias da II Guerra Mundial – Winston Churchill e começou a aprender italiano. «Se não tiver a mente ocupada, o pensamento foge-me para a matemática ou para o Benfica.» Ainda assim, o que mais o incita é pensar num problema, resolvê-lo e escrever um artigo. «É uma das coisas mais belas da minha vida, ver a publicação de um artigo meu.»