OPINIÃO

Mário Simões

O que podemos fazer com a nossa mente?

Pela primeira vez em Portugal, um organismo dependente do estado dedica-se ao estudo de parapsicologia e dos estados alterados de consciência, entre outros temas que, até aqui, estavam um pouco afastados da academia. No Laboratório de Interação Mente-Matéria de Intenção Terapêutica, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, estudam-se os limites da imaginação.

QUEM É MÁRIO SIMÕES?
Psiquiatra, professor agregado de Psiquiatria e de Introdução às Ciências da Consciência da Faculdade de Medicina de Lisboa. Tem 66 anos e desde os 18 que se interessa por áreas de fronteira como a parapsicologia ou os estados modificados de consciência. Desenvolve há vários anos investigação na área da hipnose clínica e é fundador e diretor do Laboratório de Interação Mente-Matéria de Intenção Terapêutica (LIMMIT), inaugurado em maio deste ano.

O que pretende estudar o LIMMIT? A ponte entre as neurociências e a parapsicologia?
_Como o nome indica, pretendemos estudar as interações entre a mente e a matéria. A mente, porque temos consciência de determinados assuntos e premissas. E isso é suscetível de influenciar matéria – no sentido biológico. Ou seja, o nosso corpo, animais vivos. Queremos explorar esses limites: até onde podemos ir com o uso da nossa consciência, da nossa imaginação, para influenciar essa matéria viva.

«Usar a nossa imaginação» para controlar outras coisas. Isso é um pouco difícil de entender. Estamos a falar de uma área do conhecimento que encontra muita resistência na própria comunidade científica, certo?
_A comunidade científica preocupa-se, e é natural, com aquilo que é tangível. Com o que se toca, se mede, se pesa. Ora, a imaginação é difícil de medir. Por isso acha-se sempre que falta qualquer coisa de objetivo na imaginação. Porque remete para uma experiência pessoal, subjetiva – mas que nem por isso deixa de ter importância na nossa vida.

Tem importância, claro. Mas sendo subjetiva, de que forma se consegue aplicar o método científico? Como se conseguem utilizar validações científicas para esse tipo de avaliações e esses estudos?
_Por um lado, temos a experiência pessoal na primeira pessoa. Se essa experiência, perante um mesmo facto, for semelhante em várias pessoas, passa a ser uma realidade intersubjetiva. Por outro lado, e passando para uma realidade semiquantitativa, podemos também medir aspetos dessa imaginação. Usando uma escala analógica, posso classificar estados de espírito. Como a tristeza, por exemplo. Posso dizer que, de zero a dez, o meu nível de tristeza é oito. Além disso, a realidade subjetiva também pode ser estudada por instrumentação. Com uma ressonância magnética funcional, posso pedir a uma pessoa para imaginar um prado. E captar as áreas do cérebro onde se regista atividade porque se imagina um prado. Ou o amor maternal, por exemplo.

Falávamos da resistência da comunidade científica. Mas o LIMMIT funciona com o aval da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa – nas próprias instalações da faculdade. É o primeiro exemplo em Portugal de ligação entre neurociências e parapsicologia.
_É a primeira instituição com estes objetivos, dedicada a este tipo de estudos. E, neste caso, dentro de uma instituição maior, a Faculdade de Medicina, cujo conselho científico aprovou a ideia. No entanto, há vários colegas, médicos, engenheiros, filósofos e gente de outras áreas, que se dedicam ao estudo da interação mente-matéria, mas sem terem um laboratório específico para isso. Há uma grande adesão, por parte de muita gente de diferentes áreas, a estes estudos, e que por isso receberam bolsas da Fundação BIAL.

A Fundação BIAL apoia investigação nestas áreas e, por isso, financia também o LIMMIT. Como nasceu essa parceria?
_Nasceu de um interesse comum por áreas de fronteira, que eu e o Dr. Luís Portela [presidente do Conselho de Administração da Fundação BIAL], que conheço há mais de vinte anos, partilhamos. E eu propus-lhe que a fundação investisse numa estrutura que estudasse estes assuntos que lhe são queridos. A Fundação BIAL entendeu que, se a ideia fosse aceite na Faculdade de Medicina, apoiaria com cinquenta mil euros um laboratório específico dentro de uma estrutura universitária para estudar estes temas.

O presidente da Fundação BIAL, Luís Portela, defende que a parapsicologia devia ganhar relevo no campo das ciências. Aliás, é missão da fundação «incentivar o estudo científico do ser humano, do ponto de vista físico e do ponto de vista espiritual». Mas o que podemos colocar, ao certo, no caldeirão da parapsicologia?
_Pessoas com predisposição para evocar determinado tipo de fenómenos que não são vulgares. Sobretudo em três áreas. Primeiro, nas fenomenologias ligadas à transferência de pensamento e informação sem ser pelos meios normais, como telefone, por exemplo. E respetiva captação dessa informação, seja antecipatória ou no momento. A segunda categoria entra na psicocinética, a capacidade de, através da mente, alterar algo no seu espaço – nomeadamente a deslocação de um objeto. Na terceira cabem as experiências à volta da morte – experiências de quase-morte, por exemplo, ou contacto com pessoas já desencarnadas, que já faleceram.

Estamos a falar de áreas que, além de suscitarem dúvidas à própria comunidade científica, são difíceis de entender por grande parte da população. Qual o objetivo deste tipo de estudos? O que se pretende alcançar?
_As duas últimas letras da sigla do LIMMIT são muito importantes. Somos um laboratório de interação mente-matéria de intenção terapêutica. Apenas isso nos interessa. Temos como objetivo estudar essas áreas, mas apenas onde haja intenção terapêutica.

Isso significa o quê, ao certo? Que a partir do estudo dessa fenomenologia se pode interferir na vida dos indivíduos?
_Por exemplo. No percurso de uma doença, no bem-estar, no autoconhecimento, etc. Só nos interessam situações de estudo que levem a uma melhoria da qualidade de vida, redução do tempo de uma doença, melhoria de parâmetros biológicos…

Dê-me exemplos de projetos com essas características em investigação no LIMMIT.
_Temos dois em curso, ambos para doutoramento. Num deles, chamado «À Procura da Molécula da Felicidade», do médico Jorge Martins, selecionamos uma série de indivíduos saudáveis e colocamo-los num estado de relaxamento profundo (com técnicas semelhantes à hipnose) enquanto realizamos um eletroencefalograma (EEG) que regista as ondas cerebrais que são depois transformadas em som e cor à medida que lhes pedimos para se lembrarem de momentos de extrema felicidade, da infância até ao presente. Ao mesmo tempo, com uns óculos de realidade virtual, a pessoa tem acesso às suas cores e ouve o som do seu cérebro traduzido em música. Ou seja, tem feedback em tempo real – e tem assim a oportunidade de pensar mais nisto ou naquilo que lhe dá prazer, para ouvir novamente aquele som específico. No final, fica com uma gravação dos seus momentos de felicidade. Nos casos já analisados, retirámos também uma amostra de saliva antes e depois da experiência, para saber se esta alteração dos estados de alma também tinha efeitos biológicos. Concluímos que sim: nos casos estudados, encontrámos moléculas proteicas no final que não estavam lá antes.

E a outra investigação em curso?
_Chama-se Intention and Brain to Brain Communication with Non Invasive Techniques e está a ser realizada pela Anabela Ventura, mestre em desenvolvimento humano com investigação em neurociências, com uma bolsa da Fundação BIAL. Debruça-se sobre a intenção à distância. Numa colaboração entre o LIMMIT e o Instituto de Biofísica e Engenharia Biomédica da Faculdade de Ciências de Lisboa, vamos verificar, com a ajuda de EEG, se uma dada intenção dirigida para outra pessoa que esteja distante pode ter algum impacto, quer na atividade cerebral dessa pessoa quer na sua performance cognitiva. Esta investigação vem no seguimento de outra já realizada no Canadá pela investigadora, em que numa situação onde um sujeito enviou uma intenção para outro à distância se verificou que as respetivas atividades cerebrais ficaram sincronizadas.

Como é que essa intenção se manifesta? Como se aplica, na prática? Como se transmite?
_Através de reiki, uma técnica de relaxamento que é também uma técnica de intenção à distância, utilizando palavras e símbolos.

Então, temos o LIMMIT a investigar a ligação entre dois cérebros…
_Sim. Na prática, é isso mesmo.

CANDIDATURAS
Os investigadores que queiram desenvolver projetos de intenção terapêutica (com vista ao bem-estar e qualidade de vida da população) dentro da ideia de interação mente-matéria, podem candidatar-se ao LIMMIT, que não financia mas acolhe este tipo de estudos. As candidaturas são aprovadas pelo conselho científico e, depois da validação («se trouxer inovação, e não apenas ruído científico», diz o diretor do laboratório, Mário Simões), são consultados especialistas da área de estudo específica.
Informações em www.limmit.org.