OPINIÃO

Leve o cérebro ao ginásio

Não é só o corpo que pode ser treinado, o cérebro também.

Com a neuróbica é possível tornar a mente mais flexível, mais robusta e mais eficaz.

Pergunta – para quem não é futebolista: já experimentou equilibrar uma bola na cabeça? Experimente e ser-lhe-á revelada a sua dificuldade em fazer uma coisa que tantos conseguem tão naturalmente. O que é que isto tem que ver com treino mental? Tudo. Porque aqueles que o fazem na perfeição só o conseguem porque, ao treinar o corpo, mudaram o cérebro.

De resto, esta é uma imagem usada pelo neurocientista Michael Merzenich numa TED talk sobre neuroplasticidade. Depois de mostrar a fotografia de uma criança pequena a fazer essa habilidade, explicou à audiência que, em São Paulo, onde a foto foi tirada, provavelmente metade das crianças conseguiam fazer o mesmo, ao passo que ali, onde estavam, em Monterrey, no Canadá, seria difícil encontrar alguma que o fizesse. Ou seja: é sobretudo o ambiente exterior que molda as nossas capacidades e as nossas habilidades são construídas por nós mesmos, ao longo das nossas vidas, e dependendo daquilo em que investimos. O cérebro apenas se adapta.

O conceito de neuroplasticidade não é novo, mas o treino com base nesta capacidade é relativamente recente. Durante muitos séculos entendeu‑se que com a maturidade cerebral que trazia a idade adulta, a margem de manobra para o desenvolvimento e para a aprendizagem era pouca ou nenhuma. Mas, nos anos 1990, começou a perceber‑se que havia essa possibilidade até ao nosso último dia, e que o cérebro altera sempre a sua estrutura, as suas funções e as suas sinapses em resposta aos estímulos que recebe. Adapta‑se e essa adaptação abre novos caminhos e novas possibilidades.

Este conhecimento, que começou por ser especialmente relevante para os mais idosos – de forma a tentar travar o declínio cognitivo – ou pessoas que sofreram lesões cerebrais – para ajudar na recuperação de funções perdidas –, é agora extensível a todos. Eis o filão explorado pela neuróbica: qualquer pessoa pode melhorar as suas capacidades cognitivas, e essa melhoria pode ser mais significativa se adotarmos uma atitude proativa, treinando o que queremos melhorar.

Desengane‑se quem acha que a vida do dia‑a‑dia é rica e diversa o suficiente para nos expor a muita aprendizagem e exercício mental. Como defende Lawrence Katz, professor de Neurobiologia na Universidade de Duke e autor de vários estudos e livros sobre neuróbica, cerca de oitenta por cento do dia da maior parte das pessoas está tomado por rotinas que, apesar de terem a vantagem óbvia de não nos sobrelotarem com decisões desnecessárias, também acabam por ter um efeito perverso: limitam o cérebro, remetendo‑o cada vez mais aos padrões existentes. Há uma expressão simples associada às descobertas na área da plasticidade cerebral que revela muito do que acontece com o cérebro e é esta: «use‑o ou perca‑o».

AERÓBICA DOS NEURÓNIOS

COMECE HOJE
O princípio da neuróbica é sempre o mesmo: expor-se a experiências e aprendizagens diferentes, de forma a tentar quebrar os padrões cerebrais e criar outros novos. As ações podem ser bastante simples, quebrando os hábitos, ou mais complexas, envolvendo aprendizagens mais elaboradas. Eis algumas receitas para começar a levar o cérebro ao ginásio

QUEBRE ROTINAS
Conduza para o trabalho por um caminho diferente, ponha o relógio no braço contrário,
lave os dentes com a mão que geralmente não usa, tente escrever ou pintar com a mão não dominante ou comer invertendo os talheres.

INVISTA EM ATIVIDADES MENTAIS
Vale tudo: palavras cruzadas, sudoku, xadrez, sopas de letras, puzzles, jogos de memória.

PUXE PELA MEMÓRIA
Tente recordar-se da primeira vez que fez alguma coisa (por exemplo, a sua primeira visita a um museu), de todos os animais de estimação que teve, do nome e do rosto dos seus colegas da escola primária, decore a lista de compras em vez de a levar escrita e substitua a lista de tarefas em papel por uma lista mental.

NÃO DESISTA DE APRENDER
Aprenda a falar um novo idioma, a tocar um instrumento musical, a jogar um jogo que não conhece, a trabalhar com um programa de computador que nunca usou.

EXPLORE A CRIATIVIDADE
Pegue aleatoriamente em dois conceitos ou ideias que aparentemente nada têm que ver um com o outro e tente relacioná-los de alguma forma, imagine-se a ser uma pessoa diferente e a sua respetiva vida, trace cenários futuristas em várias áreas.

EXPLORE OS SENTIDOS
Experimente vestir-se às escuras, procure adivinhar os ingredientes de um prato que não confecionou, feche os olhos e esforce-se por identificar todos os sons que ouve, tente ler com o livro ou o jornal de pernas para o ar.

LIVROS PARA QUEM QUER TREINAR A SÉRIO
Cérebro – Manual do Utilizador
Sam Wang e Sandra Aamodt
Pergaminho

Treine o Cérebro – Use-o ou Perca-o
Gareth Moore
Publicações Europa-América

Um Cérebro Sempre Jovem
Tony Buzan
Oficina do Livro

Sofia Teixeira
Fotografia: Corbis