OPINIÃO

Juntos contra o PREC ao contrário

A 25 de Novembro de 1975, Vasco Lourenço e Mário Tomé protagonizaram o confronto que deixou Portugal à beira da guerra civil. Hoje continuam a discordar sobre o passado, mas estão unidos contra a situação atual o país.

No 25 de novembro de 1975 foram protagonistas do confronto que deixou Portugal à beira da guerra civil. Passados 40 anos, Vasco Lourenço e Mário Tomé continuam a discordar com galhardia sobre os meses de brasa da revolução e o dia em que um mandou prender o outro – mas garantem que, hoje, estão unidos contra o clima de «levantamento criminoso» criado pela direita e o «PREC ao contrário» que tem Passos Coelho como «ponta-de-lança» e Cavaco Silva como «padrinho». A concórdia atual é de tal forma inabalável que até se recusaram a ser fotografados de costas voltadas um para o outro.

Estivemos em lados opostos», começa por dizer Vasco Lourenço. «Tive o azar de ver-me obrigado a mandar prender o meu amigo Mário Tomé.» «Ninguém te obrigou!», corta Tomé.

«Vi-me obrigado. Não estou arrependido, não renego as posições que assumi na altura. Nas mesmas circunstâncias voltaria a fazer o mesmo. Evitámos que acontecesse o pior», continua Vasco Lourenço.

«O que era o pior?» Resposta pronta: «A guerra civil.»

Em novembro de 1975, Portugal vivia as últimas cenas do «processo revolucionário em curso» (PREC). Em poucos dias, uma força militar às ordens do governo destruiu à bomba as antenas da Rádio Renascença «ao serviço da classe operária », cujo silenciamento era pedido pelo dono da estação, o Patriarcado de Lisboa; uma manifestação de trabalhadores da construção civil cercou o Palácio de São Bento e sequestrou os deputados da Assembleia Constituinte durante dois dias; em resposta, o primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo fez greve…

No dia 20, o capitão Vasco Lourenço, um dos mais influentes oficiais moderados e subscritor do Documento dos Nove contra a deriva esquerdista, foi graduado em brigadeiro e nomeado comandante da Região Militar de Lisboa, em substituição de Otelo Saraiva de Carvalho, comandante adjunto do COPCON, a mais poderosa força operacional do país. Otelo – figura de proa dos militares revolucionários – foi pressionado a não aceitar. Foi esse um dos motivos do golpe dos radicais a 25 de novembro, materializado pela ocupação de várias bases aéreas por paraquedistas, em protesto contra a ordem do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, Morais da Silva, que mandara sair dos quartéis os oficiais daquela força especial.

Perante o golpe esquerdista, Vasco Lourenço e os seus camaradas dos Nove (Melo Antunes, Vítor Alves, Franco Charais, Pezarat Correia, Sousa e Castro, Vítor Crespo, Costa Neves e Canto e Castro), apoiados pelo grupo militar coordenado por Ramalho Eanes, desencadearam o contragolpe que permitiu a «normalização» do regime.

Mas não sem derramamento de sangue: na madrugada de dia 26 houve três mortes a lamentar, durante o ataque dos Comandos, chefiados pelo coronel Jaime Neves, ao Regimento da Polícia Militar (PM). A PM era uma das principais unidades militares revolucionárias, em que se destacava, pelo prestígio e a influência, o segundo-comandante, major Tomé.

Quarenta anos depois, Mário Tomé também mantém a convicção: «Hoje voltava a apoiar a movimentação popular e a saída dos paraquedistas, que tinham sido esbulhados dos seus oficiais. Como é que podia haver uma guerra civil? Vocês tinham a força toda. Eu não fiz golpe nenhum. Mataram três militares e quando vim à parada apontaram-me G-3. Entretanto, o Jaime Neves rebentou com o portão do quartel.»

«Passei a noite ao telefone a tentar convencer o Campos Andrada [comandante da PM] a apresentar-se em Belém, como fizeram o Otelo e o Dinis de Almeida», lembra Vasco Lourenço. «Ele dizia que se fosse a Belém ficava preso e eu dei-lhe a minha palavra de que, se estivesse lá às oito horas, não era preso. Ele respondia sempre “deixa-me ouvir o meu pessoal”. Por fim disse que vinha entregar-se. E eu respondi-lhe: “Oxalá não seja demasiado tarde…” Os comandos já tinham avançado para a PM.» «Alguém queria o confronto», conclui Tomé. «Impedimos o pior», diz Vasco Lourenço. «E conseguimos dois objetivos com o 25 de Novembro. Um foi parar com a bagunça e a indisciplina nos quartéis…»

«É a tua terminologia», interrompe Tomé. «Esse foi de facto o objetivo principal do 25 de Novembro, porque a movimentação popular tinha apoio em algumas unidades…»

«… continuamos com visões diferentes », diz Vasco Lourenço. «E também conseguimos parar a ofensiva que houve na altura para recuperar o 24 de Abril. É que entre os vencedores do 25 de Novembro houve dois grupos. Um, de que faziam parte, entre outros, Melo Antunes, Eanes e eu próprio, queria dar condições à Assembleia Constituinte para fazer a Constituição; outro, a que eu chamo de vencidos com a capa de vencedores, cuja figura mais conhecida era Jaime Neves, pretendia o retorno ao 24 de Abril. Foi uma luta para impedir que os falcões lançassem a caça às bruxas.»

«Os inimigos que eram os meus e também os teus e que hoje estão de novo aí», diz Tomé. «O que aconteceu entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro foi que as principais forças políticas da esquerda estavam condicionadas pelo confronto dos blocos. O PS estava com os EUA e a NATO; o PCP com a URSS e o Pacto de Varsóvia. Quanto à extrema-esquerda, estava embrenhada numa dogmática anterior à Segunda Guerra Mundial, nem sequer teve em conta a importância do Maio de 68 em França. Resultado: as forças que estavam interessadas na transformação social não foram capazes de elaborar um conceito estratégico. Quando as pessoas gritavam “O povo está com o MFA”, eu dizia sempre: Não é o povo que deve estar com o MFA, o MFA é que deve estar com o povo.»

Apesar das divergências, Vasco Lourenço e Mário Tomé estão hoje do mesmo lado da barricada. «Quando aparece uma tentativa desesperada de impor uma revisão oportunista da Constituição, se a fizerem – espero que não façam – ponham lá uma medida indispensável para trazer alguma sanidade à política portuguesa: a possibilidade de destituição do Presidente da República», diz Vasco Lourenço. «Que está neste momento a ouvir uma espécie de câmara corporativa para criar um clima de levantamento, como tentou Sá Carneiro no “golpe Palma Carlos” [que levou à demissão do I Governo Provisório, em julho de 1974]», acrescenta Mário Tomé.

«Os tais vencidos com capa de vencedores do 25 de Novembro agora querem recuperar tudo. É um PREC ao contrário», diz Vasco Lourenço. «Um Presidente da República que enche a boca com estabilidade e depois provoca instabilidade devia ser destituído imediatamente.»

«Ele é o padrinho, o ponta-de-lança é Pedro Passos Coelho», diz Mário Tomé. «Concordo», remata Vasco Lourenço.


VASCO LOURENÇO

Coronel na reforma, combateu na Guiné e foi membro da Comissão Coordenadora do MFA, do Conselho de Estado e do Conselho da Revolução (quando o órgão foi extinto pela revisão constitucional de 1982 recusou a promoção a general). É presidente da direção da Associação 25 de Abril.

MÁRIO TOMÉ
Coronel na reforma, combateu na Guiné e em Moçambique. Recebeu uma Cruz de Guerra por bravura em campanha. Esteve preso cinco meses na sequência do 25 de Novembro. Foi deputado e secretário-geral da UDP. É fundador do Bloco de Esquerda.

João Ferreira
Fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens