Dor de cabeça: onde fica a saída?

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Para muita gente é tudo menos uma dor ocasional…

Já todos tivemos uma, provavelmente várias. Mas, para muitos, as dores de cabeça são tudo menos uma dor «normal» e ocasional que se resolve com menos stress, mais horas de sono ou um comprimido de paracetamol. São crónicas e muito incapacitantes. Um fardo invisível que parece ter uma existência própria, independente da cabeça que habita, mas capaz de controlar a existência de quem as tem.

Sofia tem 32 anos e enxaquecas desde sempre. Prefere não dizer o apelido nem deixar-se fo­tografar. Sente o peso do estigma e prefere car­regá-lo discretamente. Talvez porque o termo enxaqueca se banalizou e esvaziou-se do seu real significado. «É usado por quem tem dores de cabeça ocasionais e quando explico que te­nho mesmo muita dor, acham que estou a dra­matizar ou que sou hipocondríaca.»

É verdade que uma dor de cabeça pode ser um sintoma que está a alertar-nos para alguma coisa: um proble­ma dentário, de coluna, de stress, de álcool a mais ou comida a me­nos. Mas estes casos não são a maior parte: há mais de 200 formas de cefaleias e, na esmagadora maioria das vezes, são idiopáticas ou de etiologia desconhecida – expressões complicadas que signifi­cam apenas que a dor é a própria doença e que as causas ainda não estão completamente esclarecidas –, embora se saiba que são uma conjugação entre os genes e o ambiente. E isto não é tão invulgar quanto se possa pensar: grande parte das enxaquecas encaixam nesta classificação e as cefaleias de tensão – o nome das ditas dores de cabeça «normais» que toda a gente já teve – também.

Ambas integram o top 3 das doenças mais frequentes a nível mundial – só superadas pela cárie dentária, em primeiro lugar – a cefaleia de tensão é a segunda mais prevalente, estimando-se que atinja ocasionalmente mais de 40 por cento da população e a enxa­queca surge em terceiro, com uma prevalência na ordem dos 12 a 15 por cento. Mas as semelhanças entre as duas terminam aqui. E a Organização de Mundial de Saúde (OMS) é bastante eficaz a desfa­zer o mal-entendido comum entre as cefaleias de tensão e a enxa­queca. O lugar que ocupam a nível do impacte e incapacidade ge­rada não deixa lugar para dúvidas quanto às diferenças: a cefaleia de tensão não aparece na lista, a enxaqueca está em sétimo lugar. Diz a neurologista Raquel Gil Gouveia que «de acordo com o índi­ce Symptomatic period disability weight, um dia com uma crise de en­xaqueca severa, em termos de incapacidade, é equivalente a passar um dia com uma tetraplegia». A realidade é que, durante uma crise de enxaqueca forte, é impossível fazer o quer que seja: «É estar na cama, de preferência de luz apagada e balde ao lado, até que passe.»

Foi precisamente ao consultório de Raquel Gil Gouveia, coorde­nadora da consulta de cefaleias do Hospital da Luz, que Sofia che­gou há alguns anos. Levava consigo uma história de mais de uma década de dores de cabeça violentas e uma peregrinação por vá­rios médicos. Diagnóstico: enxaqueca crónica por abuso medica­mentoso. «Enxaqueca crónica» é uma expressão que traduz uma realidade muito concreta: mais de 15 dias por mês com dor de ca­beça. «Abuso medicamentoso» traduz outra: mais de 15 dias por mês a tomar analgésicos. Não é uma situação invulgar. Os estudos sobre cefaleias estimam que 4 a 5 por cento da população sofra de cefaleias crónicas e o abuso medicamentoso está presente em cer­ca de 70 por cento destes doentes. É um círculo vicioso infernal, a dor impele a tomar um medicamento que a controle e este faz que a dor seja mais recorrente. No caso de Sofia já era diária. «Na faculda­de, tudo o que queria era poder fazer o que faziam os meus amigos.» E tomava analgésicos e anti-inflamatórios para conseguir. «Sabia não estar a fazer-me bem e que não era normal tomar medicação de seis em seis horas, mas não queria pensar nisso. Só queria po­der continuar o que tinha programado.» Para começar a resolver o problema da enxaqueca crónica o primeiro passo foi resolver o do abuso de medicação. Solução? Medicação zero durante um mês.

Passada essa fase começou a fazer os medicamentos preventi­vos – que na maior parte dos casos são substâncias desenhadas pa­ra outras doenças –, tomou antiepiléticos vários, estabilizadores de humor, ansiolíticos, fez fisioterapia, aplicações de toxina botulí­nica. Nada funcionava. Tinha consulta todos os meses e passava-a a chorar. Era muito difícil não exceder a quota dos 15 dias por mês de medicação. «É frustrante ter de fazer essa gestão, ter de escolher os dias em que nos podemos permitir ter algum alívio e aqueles em que temos de aguentar sem nada.»

Há dois anos Sofia ganhou coragem para tentar a gravidez. «Ti­nha muito medo. Estava dependente de medicamentos há 12 anos, imaginar o desmame para engravidar parecia-me uma imagem do inferno.» Não foi fácil: demorou muito tempo até conseguir pa­rar toda a medicação, piorou muito da dor, engravidou mas conti­nuou a ter dores de cabeça. Durante a gravidez não melhorou, mas melhorou depois do parto. Há cerca de um ano tudo mudou para melhor, tem enxaqueca «apenas» três dias por mês e está grávida de novo. Vive com o espetro de que tudo volte a piorar. Dificilmen­te passa um dia sem pensar nisso.

«As mulheres com enxaqueca severa têm pânico de ficar grávi­das», conta Raquel Gil Gouveia. «A perspetiva de enfrentar nove meses sem medicação apavora-as, mas não é verdade, como mui­tas pensam, que só possam tomar paracetamol, podemos aumen­tar a terapêutica com segurança. E a tendência das enxaquecas é melhorarem durante a gravidez. É um preventivo natural.»

FOI ASSIM COM MARIA JOÃO ANDRÉ. A enfermeira de 37 anos te­ve apenas três períodos de descanso ao longo dos nove anos que le­va de dores de cabeça: as três gravidezes. Tem sempre a esperan­ça de que não voltem, mas assim que a barriga se transforma num bebé, acabam por regressar. «A intensidade e a frequência das en­xaquecas diminuem usualmente em períodos de alguma estabili­dade hormonal, caraterizados por valores hormonais elevados, na gravidez, ou baixos, no pós-parto. É de esperar que as mulheres se sintam melhor ou mesmo bem nestas fases», explica José Marti­nez de Oliveira, catedrático de Ginecologia e Obstetrícia. No caso de Maria João, a enxaqueca está associada a questões hormonais: percebeu que as dores lhe apareceriam com data e hora marcada. «Depois de fazer um mapa das crises, percebi que as maiores coin­cidiam sempre com a semana de pausa da pílula.»

Nas estatísticas da enxaqueca a balança não pende a favor das mulheres, estima-se que, por cada homem com enxaqueca, três a quatro mulheres as tenham, e alguns tipos só afetam o sexo fe­minino. É o caso de Maria João, cujos sintomas são compatíveis com a chamada enxaqueca menstrual, que afeta cerca de 10 por cento das doentes com enxaqueca. «Resulta das oscilações dos ní­veis hormonais, mais do que da quantidade de hormonas propria­mente ditas, por isso, tipicamente, ocorre na semana de pausa da pílula contracetiva em resposta à brusca suspensão da ingestão das hormonas anticoncecionais», explica José Martinez de Olivei­ra. «Uma das formas de controlar os surtos é optar por pílulas de toma contínua, que não contenham estrogénios ou métodos que estabilizem os níveis de hormonas, suspendendo o próprio ciclo, o que se consegue com contracetivos de média e longa duração.»

Seguida durante dois anos na consulta de enxaqueca, essa foi uma das opções para Maria João: mudar de pílula. Mas isso não lhe tirou as dores de cabeça, que continuam a chegar religiosamente todos os meses, por isso anda sempre com medicação de SOS para as crises, pequenos «milagres» de bolso que, se tomadas a tempo, lhe controlam rapidamente a dor. «Tenho de fazer um jogo de cin­tura que nem sempre é fácil: tento não tomar o comprimido dema­siado cedo porque a medicação pode provocar-me efeitos secun­dários como a arritmia, mas sei que se deixo passar muito tempo a dor instala-se.» Quer isso dizer que o que podia ficar resolvido em 15 minutos pode demorar dois dias a passar e, nesse caso, a vida fica suspensa por 48 horas: «Não consigo tomar conta dos meus filhos, nem conduzir, nem trabalhar. Nada. Fico de cama o tempo que a dor demorar. Podem ser umas horas ou dois dias.»

Maria João teve alta da consulta de cefaleia e consegue gerir bem a dor em casa, sobretudo porque já sabe o que esperar. Mas lembra-se de que, da primeira vez que sentiu enxaqueca, a dor era tão forte, tinha tantas náuseas e alterações visuais, que fi­cou assustada. «Achei que devia haver alguma coisa de muito errada comigo.»

«É ASSUSTADOR, SIM», diz Raquel Gil Gouveia. E dá um exemplo que ajuda a explicar o quão assustador pode ser: «Eu tenho uma en­xaqueca “simpática” que está controlada, mas já tive crises de não me levantar da cama. Numa dela, há muitos anos, estive à beira de ir à urgência, tal era a violência da dor. Já era neurologista nessa al­tura, estava cansada de saber que tinha enxaquecas e, mesmo as­sim, achei que não era possível ser “só” uma dor de cabeça.»

Não é de estranhar que aconteça o mesmo aos pacientes. «Há pessoas que têm enxaqueca há décadas e têm crises tão violentas que chegam à consulta com uma ideia fixa: “Não é possível estar tu­do bem na minha cabeça.” E há médicos na urgência que, perante alguém com uma crise, ficam tão impressionados com os sintomas que repetem exames com medo de deixar escapar alguma coisa.»

Esta é uma questão importante. Os exames. As dores de ca­beça como a enxaqueca não aparecem em exames. São invisí­veis para além da dor sentida por quem as tem. Não há altera­ções nas análises, não há alterações nos exames de imagem co­mo a TAC ou a ressonância magnética. «O diagnóstico é clínico. Por muito que as pessoas gostassem que o diagnóstico resultasse de uma análise ao sangue ou de uma imagem de ressonância mag­nética», refere Raquel Gil Gouveia. «Em termos muito simplistas, se compararmos o cérebro a um computador, o cérebro de uma pessoa com enxaqueca tem um erro de software, um bug. Mas o har­dware está todo impecável. Podemos olhar de todas as formas pos­síveis que não vamos encontrar nada.»

Assim, os meios complementares de diagnóstico, no caso da maioria das dores de cabeça, ajudam ao diagnóstico por exclu­são, ou seja, servem apenas para despistar outros problemas. «Se a dor apareceu há pouco tempo ou se a pessoa tem dores há anos mas não reconhece aquela dor em particular como a “sua” dor, isso obriga-nos a fazer exames para tentar perceber o que se passa porque há muitas patologias graves que imitam a en­xaqueca.»

A neurologista Isabel Pavão Martins reforça que um dos aspetos mais importantes da consulta é o esclarecimento do doente. «Ex­plicar-lhe os mecanismos da dor e os resultados dos exames com­plementares de diagnóstico. A falta de compreensão gera ansieda­de e acaba por piorar o estado da pessoa. As pessoas não percebem como podem sofrer tanto e ter exames normais.»

Mas, se a enxaqueca é fácil de diagnosticar pelos sintomas, o mesmo não acontece com outros tipos de dor de cabeça. «Algu­mas cefaleias são particularmente associadas a erros de diagnós­tico. Os doentes que sofrem de cefaleias em salvas, por exemplo, são muitas vezes mal diagnosticados», alerta Isabel Pavão Mar­tins. «Dizem-lhes que têm enxaqueca, nevralgias, sinusite, proble­mas dentários, fazem extrações de dentes desnecessárias. Há difi­culdade em identificar estas doenças, talvez por serem tão raras.»

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Manuel Agrellos tenciona fundar uma associação de doentes na área das cefaleias. «Para dar mais visibilidade ao tema e sensibilizar o Estado e as pessoas.»

AS CEFALEIAS EM SALVAS são raras e afetam sobretudo homens. Estima-se que haja um caso por cada mil pessoas. Mas, como em tudo, alguém tem de estar do lado errado da percentagem. Manuel Agrellos, produtor de televisão, fala sem dramas do drama que lhe calhou em sorte. «Alucinante» é palavra que mais vezes usa para tentar descrever a dor com que convive há vinte anos, durante dois meses e meio, de ano e meio em ano e meio. Como um relógio. Para quem se sinta capaz de ver sofrimento alheio, basta pesquisar cluster headache (cefaleias em salvas) para ter acesso a vídeos de crises gra­vadas pelos doentes ou outros. A dor invisível vê-se.

Por razões óbvias, são também conhecidas por suicide headache (dores de cabeça suicidas), pertencem a um grupo de dores de cabe­ça chamadas as cefaleias trigémino-autonómicas e estão no limite do que o corpo consegue suportar antes de perder os sentidos. Acon­tecem por surtos, as salvas, que habitualmente duram entre três se­manas e três meses, com uma frequência diária de episódios variá­vel e com um tempo de duração da dor que varia entre os 15 minutos e as três horas. Depois, desaparecem tão rapidamente como aparece­ram, durante meses ou anos. «É bastante intrigante», admite Isabel Pavão Martins. «Pensa-se que têm um componente genético, mas, na realidade, a causa não está esclarecida. Os surtos parecem estar relacionados com as variações da luz solar, porque são mais frequen­tes nas mudanças de estação e resultam da ativação periódica e si­multânea de duas partes do cérebro: o hipotálamo, que é uma espé­cie de relógio biológico dos nossos ritmos de sono-vigília, e o tronco cerebral, onde se gera a dor nestes casos.»

Dois, três, três, quatro, quatro, cinco, dois, três, quatro, cinco. Este é o padrão de sofrimento de Manuel durante dez dias em meados de março deste ano, quando falámos com ele, em pleno período de salvas. Cada número corresponde à quantidade de crises diárias de dor alu­cinante. Assim, a pergunta não podia ser outra: como se aguenta esta dor? Manuel não desarma. «Vou para o quarto ou para casa de banho, às escuras, tomo a injeção e sento-me. Depois, há dois denominado­res comuns associados à intensidade da dor: não se consegue estar quieto e não se consegue não estar agarrado à cabeça.»

O sumatriptano injetável é, para António, uma meia salvação do calvário. Faz a diferença entre ter de suportar nove a 15 minutos de dor ou duas horas, mas depois de uma crise de duas horas, preci­sa de dormir pelo menos quatro, para o corpo recuperar. «Tenho perfeita noção do tempo durante as crises. Conto todos os segun­dos. E se a dor se arrasta, faço uma coisa que deixa a minha médica furiosa: tomo uma segunda injeção, mesmo sabendo que não de­vo fazer isso.»

A bula e os médicos dizem que a dose máxima para o sumatripta­no de 6 miligramas injetável, em 24 horas, é de duas injeções. Mas o tom de Manuel é inflexível: «Tenho perfeita noção disso, mas se te­nho cinco crises, tomo cinco injeções. São a melhor coisa que apa­receu neste mundo.» E à questão «Quais é que podem ser as conse­quências futuras?», responde de forma decidida antes mesmo de terminada a pergunta: «Sei quais são, mas não quero saber.» Repe­te: «Não quero saber.» E outra vez ainda. «Não quero saber. O que é que eu posso fazer? Andar dois meses e meio com isto? Não consi­go. Não aguento.»

Isabel Pavão Martins explica que, pela extrema violência das crises, que requerem fármacos muitos específicos que causam efeitos adversos, «é preciso estabelecer um equilíbrio entre o alívio da dor e o consumo desses fármacos». Mas admite que, «por ser uma dor muito intensa, ela acaba muitas vezes por levar ao consumo de doses altas de medicação». Durante dois meses e meio a vida muda para António. O álcool é proibido, nem cheirá-lo: nem vinagre põe na salada e um bife que tenha levado vinho branco no molho está fora de questão: se não evapora bem, tem uma crise que mesmo com a injeção não passa. E, naturalmente, evita vida social fora de casa. «Não estou para ir jantar a casa de alguém ou estar num sítio público e ter de ir correr a enfiar-me numa casa de banho para tomar a injeção e gritar durante 10 ou 15 minutos.» No escritório, as pessoas com quem trabalha estão avisadas. Informa-as do início do período de salvas e avisa quando termina. «Durante estes dois meses e meio, o sinal é a luz do escritório estar acesa ou apagada. Se o meu gabinete está às escuras toda a gente já sabe que não é altura para entrar. São minutos durante os quais está completamente fora de questão conseguir falar com alguém ou fazer alguma coisa.»

O estigma passa-lhe ao lado: «Zero! Aliás, é minha intenção dar visibilidade ao assunto e fundar uma associação de doentes na área das cefaleias. Uma das coisas péssimas é o preço dos medicamentos que o Estado comparticipa pouco. Cada injeção custa cerca de 15 euros.» Neste ano, quando fez as contas connosco e ainda a 15 dias do fim das crises, já tinha tomado 120.

O INFERNO (TAMBÉM) SÃO OS OUTROS. «A doença é invisível. Não se consegue provar que se tem, que é real. A solidariedade e a empatia das pessoas é muito pouca, talvez seja também por isso que não gosto de falar sobre o assunto, tenho logo de ouvir imensas objeções, sugestões, caras desconfiadas. É cansativo e não vale a pena», resume Sofia. Por isso, não é tema que aborde muito. Se estiver muito mal e precisar de faltar ao trabalho, prefere dizer que está com gripe. «E é surpreendente como as pessoas sentem mais empatia.» Diz o ditado que a ignorância é atrevida e há sempre quem esteja pronto a conselhos expeditos: «Tens de descontrair, isso é stress», «Eu também tenho dores de cabeça, mas não tomo nada, não gosto de medicamentos», «Tu devias era fazer desporto». Sofia revira os olhos: «Não há pachorra, é como ter de evangelizar uma pessoa de cada vez. Desiste-se.»

Não é stress. Não é exagero. É uma doença crónica, que pode calhar na sorte a qualquer um. Sofia não faz desporto, mas gostava muito de poder fazer. Fez até aos 20 anos, depois percebeu que o impacte e o movimento eram fatores desencadeantes das crises mais severas. Comove-se. «Crio personagens para lidar com isto. Se me acusam de ser sedentária e preguiçosa, alinho no discurso. Minto. Antes isso do que dar explicações.»

Raquel Gil Gouveia socorre-se da sua própria experiência para atestar esta incompreensão generalizada. «Sou neurologista e sou casada com o médico que sabe o que é uma enxaqueca e, durante anos, quando eu estava com uma crise ele dizia: “Reage”, “Luta contra isso”, “Toma qualquer coisa!” Ele próprio não compreendia, até me ver de cama.»

Frequentemente as coisas mais importantes da nossa vida não somos nós que decidimos. «Não sei que pessoa seria se não tivesse esta doença», diz Sofia. «Isto molda-nos a personalidade e o caráter. A doença e a dor confundem-se connosco.»

«Algumas dores de cabeça não conseguimos parar», admite Raquel Gil Gouveia. «Podemos diminuir a dor ou espaçar as crises, mas não curar. O objetivo do tratamento é controlar os sintomas, de forma a viver com o máximo de qualidade e o mínimo de crises possível e sem que as que se continuam a ter impeçam completamente a pessoa de funcionar.»

O que se faz a um doente que já esgotou todas as opções terapêuticas e continua com dor? As respostas de todos os médicos apelam ao otimismo e à esperança, mas são evasivas.

CONFRONTARMO-NOS COM OS LIMITES da medicina raramente é fácil, mas é necessário. Na enxaqueca, como na cefaleia em salvas, a luz ao fundo do túnel é o tempo, que pode trazer novos medicamentos, e que pode ajudar a diminuir a dor com o avanço da idade.

Maria João tem 37 anos e deposita alguma esperança em novos medicamentos. Manuel tem 41 e oscila entre o otimismo das eventuais melhoras e um certo terror: as injeções que o têm aguentado são contraindicadas a partir dos 60 anos. Sofia tem 32 e talvez não seja surpreendente ouvi-la dizer que a perspetiva da velhice não lhe desagrada. «As pessoas falam da velhice com o horror de perder a saúde, mas eu penso para mim: perder a saúde é o quê? Se deixar de ter enxaquecas, acho que a minha velhice pode vir a ser muito interessante…»

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NOVAS SOLUÇÕES A CAMINHO?
O tratamento para a enxaqueca ainda está por inventar, mas novas opções recen­temente chegadas ao mercado ou ainda em fase de testes prometem melhorar a qualidade de vida de alguns doentes.

APARELHOS NEUROESTIMULADORES
Esta tecnologia, que pode ser invasiva (implicando cirur­gia) ou não, modifica a atividade neuronal e pode ativar ou inibir a atividade de nervos ou de determinadas regiões do cérebro. Uma das opções consiste na estimulação mag­nética transcraniana que induz um campo magnético que inibe a atividade cerebral. Há um aparelho que estimula o nervo vago, no pescoço, que interrompe as crises de enxaqueca e está a ser estudado para as cefaleias em sal­vas, e um estimulador esfenopalatino (implantável) que já está aprovado para as cefaleias em salvas crónicas.

CALCITONIN GENE RELATED PEPTIDE CGRP (PEPTÍDEO RELACIONADO COM O GENE DA CALCITONINA)
Existe atualmente apenas um grupo terapêutico especifi­camente desenhado para o tratamento agudo das crises, os triptanos. Mas estão a ser ensaiadas novas terapêuti­cas que atuam no metabolismo do CGRP, algumas dese­nhadas para interromper as crises e outras para prevenir. O CGRP é um péptido vasodilatador que é libertado nas terminações nervosas dos ramos do trigémeo, o nervo responsável pela dor craniana e pela perceção de estímu­los agressivos a nível cefálico.

TOXINA BOTULÍNICA
É o único fármaco com aprovação específica para a enxa­queca crónica. É usado como preventivo, aumentando a resistência do cérebro às crises, ao ser injetado em pon­tos específicos da cabeça e do pescoço. Atua na ligação do nervo para o músculo e, ao bloquear os impulsos ner­vosos para os nervos sensitivos, modula o aparecimento da dor. Como a sua ação é neuromodulatória, por vezes, o primeiro tratamento não surte efeito imediato, mas com a repetição há tendência para algum alívio da dor.

LIDOCAÍNA INTRANASAL
Foi testado com bons resultados. Consiste no bloqueio intranasal do gânglio esfenopalatino – situado por trás do nariz e associado ao desenvolvimento de enxaquecas. É um procedimento minimamente invasivo e guiado por imagem através do qual se acede ao  gânglio esfenopalati­no pelo nariz, onde é aplicada diretamente a lidocaína.

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AS ALTERNATIVAS
Alternativas, complementares, não convencionais. O nome nem sempre gera acordo, certo é que cada vez mais portugueses as procuram, seja como alternativa ou como complemento aos cuidados convencionais de saúde. Embora haja dezenas de terapêuticas alternativas, estas são as que têm o exercício profissional regulado desde 2013, à luz da lei  portuguesa: acupuntura, homeopatia, osteopatia, naturopatia, fitoterapia e quiropraxia. Saiba mais sobre cada uma destas terapias na galeria de imagens.

 

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ENTREVISTA A DUARTE CORREIA, médico anestesiologista, presidente da Associação Portuguesa para o Estudo da Dor (APED).

«TRATAR A DOR É UM DEVER DOS PROFISSIONAIS E UM DIREITO DOS DOENTES»

A APED associou-se à estreia do filme Cake – Um Sopro de Vida, uma história cuja protagonista, Jennifer Aniston, sofre de dor crónica. É uma forma de alertar para o proble­ma da dor crónica? Continuamos a desvalorizá-la?
_O filme vai permitir ajudar a esclarecer que a dor crónica é uma doença grave e debilitante. A falta de in­formação e a desvalorização do fenómeno contribuem para a elevada prevalência da dor crónica e para o seu não tratamento. Em Portugal, estima-se que esta atin­ja mais de 30 por cento dos adultos. Muitos doentes não procuram ajuda médica atempada ou não encon­tram ainda no seu médico assistente o esclarecimento, a orientação e a resposta de que necessitam.

Quais as consequências de uma dor não tratada?
_Sem um acompanhamento médico adequado e tra­tamento multidisciplinar, os pacientes podem ficar sem capacidade para realizar as tarefas de vida diá­ria e profissional. Isto conduz a um sofrimento atroz, a um isolamento social e familiar, à depressão do pa­ciente e à incompreensão dos demais. Pode induzir a um consumo absurdo de fármacos, a uma degradação pessoal e uma absoluta falta de vontade de viver.

Há pacientes cujas dores não têm solução?
_Acreditamos, por conceito e convicção, que tratar a dor é um dever dos profissionais e um direito dos doentes. Neste sentido, tentamos atenuar a dor e o so­frimento humano ao máximo, concentrando todos os nossos recursos, humanos e materiais, numa perspe­tiva biopsicossocial, em que a multidisciplinaridade e a interdisciplinaridade são imprescindíveis. Sem pro­messas vãs ou receitas miraculosas, acreditamos que o controlo da dor é possível, embora por vezes difícil.

Qual é a abordagem de que são alvo os pacientes encami­nhados para Unidades de Dor?
_A abordagem holística é o paradigma da medicina da dor. Esta deverá ser realizada nestes serviços num contexto multidisciplinar e interdisciplinar, englo­bando médicos de diferentes especialidades – neuro­logistas, neurocirurgiões, fisiatras, internistas, psi­quiatras, estomatologistas ou médicos dentistas, anestesiologistas, além de fisioterapeutas, enfermei­ros, psicólogos, serviço social. O paciente deve ser considerado e avaliado como um «todo» e não apenas a dor como sintoma, que ocorre «num momento».

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