OPINIÃO

Construtor de acasos

Desassossegado e irreverente, José Pinho é livreiro por acaso.

Um acaso que resultou na Ler Devagar e depois na transformação de Óbidos em Vila Literária. A 11 de dezembro, a vila poderá ser elevada a cidade. A 12.ª cidade literária do mundo reconhecida pela UNESCO.

José Duarte de Almeida Pinho, conhecido num mundo dos livros por José Pinho, imaginou-se um pastor moderno e até comprou uma cabana na serra de São Macário, projetou introduzir um chip nas cabras e vigiá-las pelo computador e produzir queijos e frutos silvestres. Mas, por enquanto, são os livros e os projetos livreiros que lhe ocupam o tempo. Todo o tempo.

Diz que a vida tem sido um conjunto de acasos. «Construí-los é que me tem dado trabalho.» Mas não se cansa. Gosta de os pensar e trabalhar, bem como de os fazer foliar. A conjugação deste «novo verbo» tem sido música para os seus ouvido e surgiu em outubro aquando do Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos, em que mais de 30 mil visitantes, durante 11 dias, puderam contactar com 459 criadores, entre escritores, poetas, ilustradores, conferencistas, artistas plásticos, músicos e atores. Para José Pinho, a primeira edição do Folio foi tudo o que desejou e, nas próximas edições, promete, «vai ser ainda melhor».

José Pinho nasceu há 62 anos em Sul, concelho de São Pedro do Sul. Aos 19 foi para França, voltou com os cravos de abril, novamente foi e enfim regressou. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas, deu aulas de Português e Francês, trabalhou num estaleiro naval, no Instituto Nacional de Estatística e foi diretor executivo e diretor-geral numa grande agência de publicidade. A dada altura pensou «deixar a vida frenética de um grupo de empresas que tinha 130 mil empregados para procurar um modo de vida mais sereno». A inquietude falou mais alto e o acaso surgiu.

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Amava os livros. A paixão estava em folheá-los, lê-los, apresentá-los e fazê-los chegar aos outros. Foi editor da revista Devagar e nessa altura frequentou um curso de especialização de técnicos editoriais na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Lá conheceu editores que se queixavam dos muitos livros que tinham em stock por já não serem novidade nas livrarias. «Pensei logo em abrir uma livraria de fundos, ou seja, um espaço onde fosse possível comprar a preços baixos livros que já não se encontravam nas livrarias. A ideia não era nova porque já tinha visto aplicada em outros países, mas pareceu-me adequada também a Lisboa.»

As vivências pelo Bairro Alto levaram-no a procurar por lá um espaço. Na antiga Litografia de Portugal, então transformada num parque de estacionamento, imaginou um centro cultural e, claro, a livraria. «Arrendei 12 lugares de estacionamento, desafiei um grupo de amigos a investir e ali surgiu, em 1999, a Ler Devagar.» Obras baratas e alternativas, exposições, música, lançamento de livros, um café ou um copo de vinho entre conversas sem fim. Tornou-se um lugar de culto, mas a prazo. Teriam de sair quando o espaço fosse vendido. Esse dia chegou seis anos depois.

Milhares de livros em caixas e o desassossego no coração. Para onde ir com todo o espólio e as ideias a fervilhar? «A ZDB acolheu-nos e criámos uma livraria no rés-do-chão. Ainda abrimos uma loja na Rua da Rosa, mas por pouco tempo. Pouco depois fomos para a Fábrica de Braço de Prata e aí construímos, com a Eterno Retorno, uma nova centralidade para a cidade de Lisboa. Em 1999, fomos convidados para recriar uma nova Ler Devagar em Alcântara, na LX Factory, onde temos agora muito espaço.» José Pinho desafiou amigos aceitaram porque, brinca, «as condições
são tentadoras: só cá podem pôr dinheiro, nunca tirar; têm dez por cento de desconto nos livros que comprarem; e têm um conjunto de obrigações, como propor atividades e dinamizar o programa cultural».

Catorze metros de pé direito, uma escadaria grandiosa, dois bares, quatro espaços para exposições, biblioteca e auditório. Mais do que um local onde se pode encontrar livros de todas as áreas e em várias línguas – porque José Pinho receia ter de dizer a um cliente que não tem o livro que procura –, este é um espaço onde o tempo não conta. Há quem vá simplesmente para escrever, folhear, conversar, ouvir música. José Pinho não se incomoda, «aprendemos a sobreviver, esta é uma empresa, mas mais parece um projeto sem fins lucrativos». Sorri.

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A Ler Devagar também edita, «mas só de amigos e sócios. Já editámos meia dúzia de títulos, por puro prazer, como tudo o que fazemos». O espaço de Alcântara está ainda aberto para lançamentos, apresentações, conferências e aos artistas plásticos.

José Pinho é ainda sócio da Nouvelle Librairie Française, em Lisboa, mas foi do espaço Lx Factory que fez a sua casa. Ali passava a vida quando a amiga Mafalda Milhões, ilustradora e livreira a residir e trabalhar em Casais Brancos, Óbidos, o desafiou a alargar o espaço de estar e ousar. «Fechou uma livraria emblemática nas Caldas da Rainha e ela convidou-me a abrir uma em Óbidos. Pensei: perder dinheiro em Óbidos deve dar mais gozo do que ganhá-lo noutro local.»

Passou a dividir-se entre Lisboa e o Oeste e nos últimos dois anos foram abertas dez livrarias temáticas em Óbidos. Pela vila vagueiam agora escritores, poetas, livreiros, editores, pensadores, criadores, leitores e amantes das palavras que abraçam a arte e a vida decifrando livros inquietos. O livreiro espera que aos que já por lá andam «venham juntar-se outros loucos precursores de utopias improváveis». Diz que outros livreiros são bem-vindos e até ao próximo Folio tenciona promover pequenos festivais literários temáticos.

Tanto a Ler Devagar, no Lx Factory, em Alcântara, como Óbidos constam já das rotas do turismo cultural alternativo referenciados um pouco por todo o mundo.

José Pinho estava longe de imaginar que em tão pouco tempo tivesse de construir mais um acaso. Mas, em parceria com a Câmara Municipal de Óbidos, já formalizou a candidatura da vila à rede de Cidades Literárias classificadas pela UNESCO. A 11 de dezembro serão conhecidos os resultados. Se for aprovada, Óbidos poderá tornar-se a 12ª cidade literária do mundo, ficando lado a lado de cidades como Edimburgo, Cracóvia, Dublin, Granada, Melbourne, Reiquiavique ou Iowa.

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E os projetos não param. Em breve, José Pinho, pai de dois filhos e avô de quatro netos, tenciona viajar para a Índia para conhecer uma universidade peculiar, a Universidade da Vida. «Tenho vontade de avançar com um projeto semelhante em Portugal.» Entretanto, no prelo está também uma clínica de medicinas tradicionais e alternativas onde tenciona desenvolver a biblioterapia, a cineterapia, a vinoterapia e expandir a poesia vadia.

10 LIVRARIAS EM ÓBIDOS
Três das dez livrarias abertas em Óbidos nestes últimos dois anos estão sob a gerência direta da Ler Devagar – a Livraria de Santiago, a Mercado Biológico e a Livraria da Adega, no Espaço Ó. Outras quatro – Museu Municipal, Museu Abílio, Centro de Design de Interiores e Galeria Nova Ogiva – são geridas em parceria com a Câmara Municipal de Óbidos, que viu em José Pinho o parceiro ideal para fazer de Óbidos uma verdadeira vila literária. As sete contam com o livreiro para selecionar e fornecer os livros. Existem mais duas que funcionam em hotéis
Literary Man Hotel e Livraria Rio Prado – e a décima, Histórias com Bicho, já aberta há 14 anos, pertence a Mafalda Milhões e também faz parte da rede.

Licínia Girão
Fotografia: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens