A escola mais verde do planeta

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Uma utopia? Para a portuguesa Sofia Moradas, que trabalha nesta escola, é tudo bem real.

Na Indonésia, há uma escola de bambu no meio da floresta, com poucas paredes e quase nenhumas portas. Além do ensino, a missão é dar aos alunos a capacidade de imaginar e construir um mundo sustentável.

Chama‑se Green School, foi construída numa floresta de bambu na ilha de Bali, na Indonésia, e pretende ser um local de aprendizagem sobre sustentabilidade. Poderíamos dizer que é o sonho de qualquer pai ambientalista que tenha muito dinheiro e queira educar os filhos dentro deste espírito, mas isso seria redutor. A Green School é muito mais do que isso. Nasceu em 2006 pelas mãos de John e Cynthia Hardy, um canadiano e uma americana que decidiram ajudar a comunidade local, respeitando o ambiente, a cultura e as suas gentes. Em poucos anos, tornou‑se uma referência mundial de reflexão sobre educação para a biodiversidade.

É aqui que trabalha a lisboeta Sofia Moradas. Além dela, há apenas mais um português num staff de 227 pessoas: 171 indonésios e 56 estrangeiros, de todo o mundo, entre quase 400 crianças, estudantes do pré-escolar ao final do ensino secundário. São, na sua maioria, filhos de estrangeiros que vivem em Bali, de quarenta países, embora também haja cerca de quarenta alunos das comunidades vizinhas de Sibang Kaja e Sibang Gede, e de Jacarta, na ilha de Java.

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Sofia chegou a Bali depois de uma experiência de trabalho no Camboja no ano passado. Mestre em Design pela Faculdade de Arquitetura de Lisboa, tinha trabalhado como assistente de marketing e comunicação em diversas empresas em Portugal. Mas, em 2014, com 32 anos, decidiu deixar o emprego que tinha e, durante seis meses, fazer trabalho voluntário na organização não governamental (ONG) Let Us Create Cambodja. O projeto em que esteve envolvida destinava‑se a proporcionar apoio extracurricular e a criar enquadramento social para crianças vítimas de traumas e provenientes de ambientes familiares e sociais desestruturados – a realidade de noventa por cento das famílias cambojanas, garante.

«Era suposto voltar para Lisboa, mas convidaram‑me para ir para Bali, na Indonésia, cocoordenar uma campanha de crowdfunding [angariação de fundos pública] para outra ONG, o East Bali Poverty Project. Os fundos destinavam‑se à construção de casas de banho para 135 famílias que vivem nos socalcos dos montes Agung e Batung, os dois vulcões da ilha. E assim fui. Senti‑me um peregrino a chegar a Meca.»

Três meses depois, novo final de projeto, novos planos de regressar a Lisboa e… nova decisão adiada. Sofia gostou tanto da ilha indonésia que resolveu concorrer a uma vaga de development fundraising assistant na Green School Bali. Foi escolhida. Dois meses depois de ter começado a trabalhar na escola, o diretor que tinha saiu e foi‑lhe oferecido o lugar de development manager. «Todos os programas de angariação de fundos da escola estão sob a minha coordenação, exceto as iniciativas pontuais dos alunos. É um trabalho bastante intenso dado o número de visitas que recebemos. São cerca de dez mil pessoas por ano que querem conhecer a escola e que criam uma relação mais forte com este projeto. Muitos acabam por ficar nossos donors [financiadores] ou sponsors [patrocinadores].»

Todos os edifícios da escola foram construídos sobretudo com recursos renováveis, incluindo vegetação local, na sua maioria bambu, e paredes de barro tradicionais. As salas de aula, as mesas, os armários e até materiais de construção são feitos de bambu, abundante na ilha. A água utilizada é reciclada, os pratos são cestas com uma folha de bananeira e os jardins funcionam como hortas. Neste cenário de filme, perto dos campos de arroz, as crianças são estimuladas desde cedo para a prática de agricultura orgânica, reciclagem, meios de transporte limpos e, acima de tudo, para que um dia possam fazer a diferença pela sustentabilidade do planeta.

«Queremos que os nossos alunos sejam a próxima geração de green leaders no mundo. Existe uma partilha entre a comunidade internacional e a comunidade local. A primeira pretende criar valor aqui e no mundo; a segunda permite‑nos fazer parte de uma cultura de base hindu única no mundo, e aprender as ferramentas para a preservar.» A abordagem pedagógica é a de uma educação holística, no sentido em que procura desenvolver o aluno como um todo, não se focando apenas nas capacidades intelectuais mas também nas vertentes emocional e criativa.

«Não existe o conceito de solidário, mas sim de comunitário. São projetos que beneficiam todos e nos quais todos participamos.» É o caso das Trash Walks, nas quais vão para a rua apanhar lixo e dinamizar as comunidades locais para ajudar. «Bali não tem sistema de recolha de lixo, muito menos de reciclagem.»

Os responsáveis da escola garantem que, no final dos anos curriculares, os estudantes estão preparados para se candidatar a qualquer universidade. Só têm de fazer os exames de acordo com o curso que pretendem. Os preços de frequência da Green School oscilam entre sete mil e 12 mil euros por ano letivo, dependendo do nível de ensino a que o aluno se propõe. Existe um programa de apoio financeiro, financiado através de donativos, para alunos indonésios.

A adaptação a uma nova realidade não foi fácil, mas Sofia já está integrada. Gosta do ambiente cosmopolita tropical de Ubud, onde vive, de ouvir música ao domingo à noite e de ir para a praia de Berawa ao fim de semana. Vai matando as saudades de Portugal com o colega Francis Mollet, professor de línguas, parceiro de capoeira, e com dois casais de amigos portugueses que vivem na ilha. «Durante a semana, o meu dia geralmente começa às seis da manhã, quando ainda está fresco. Demoro vinte minutos de moto até à escola. Adoro conduzir pelo meio dos campos de arroz a caminho da escola e faço um caminho mais longo para evitar a confusão da estrada principal. Fico na escola geralmente até às 18h00 porque temos algumas atividades pós‑laborais nas quais participo, como zumba ou o grupo de capoeira.»

Por enquanto, Sofia quer ficar em Bali. «Aqui encontrei um reconhecimento que nunca tive em Portugal e uma dimensão de trabalho que jamais imaginei.» E, entretanto, ajuda a fazer do planeta um local melhor. Agora e para o futuro.

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