OPINIÃO

Manuel Forjaz

Um homem que lutou contra a morte, numa desassombrada entrevista sobre a vida.

«Posso morrer de cancro, mas ele nunca me matará»

Foi gestor, inaugurou a moda do empreendedorismo, teve empresas, faliu, é professor e orador de excelência. Aos 50 anos, usa a forma enérgica como sempre viveu também para lutar contra a doença que o afeta há cinco – um cancro no pulmão. Expôs-se sem medo, tem uma página no Facebook onde dá conselhos, faz  palestras e vai lançar um livro este ano, na Leya. E, sobretudo, continua a viver.

Normalmente, as pessoas que têm cancro escondem. O Manuel, pelo contrário, decidiu expor-se. Tem uma página no Facebook, dá pales­tras e está a preparar um livro, O Meu Cancro. Porquê?
_A razão principal deve ter sido alguém, um dia, ter-me feito che­gar uma pergunta. Ou a Jaqueline ter pedido para falar comigo por causa de uma amiga que tinha cancro e eu começar a aperce­ber-me dos medos, dúvidas, incapacidades das pessoas de gerir e viver com a doença. Parece que desenhei uma maneira de viver com a doença que é contável, replicável e aceitável para a maio­ria das pessoas… A maior parte das pessoas tem uma visão disto, ainda no século XVI… Pensam que as quimioterapias são em sa­las fechadas e que nos injetam um líquidos pretos. A primeira qui­mioterapia, das mais de sessenta que já levo, foi má. Mas foi muito melhor do que estava à espera. Comecei a aperceber-me de que ha­via um conjunto de mitos e desconhecimentos que assustavam as pessoas e faziam do cancro uma coisa pior do que aquilo que ele é.

Então foi causa dos outros?
_Justifiquei-me a mim próprio com «se eu contar tudo, as pesso­as não fazem perguntas». Não estou para que a minha vida seja um conjunto de conversas sobre cancro. Não quero sair ao café e o senhor Régio me venha perguntar pelo meu cancro. Não quero ir dar uma aula e um aluno meu me pergunte: «Então, como está o cancro?» Se eu contar tudo, as pessoas já não têm perguntas pa­ra me fazer e eu posso seguir com a minha vida.

Se as pessoas souberem é mais provável que lhe façam perguntas…
_Não, porque eu escrevo tudo. Não ficam com dúvidas. A pri­meira coisa que começo por dizer é: vamos cá esclarecer uma coisa; primeiro, vais morrer. Tens isso bem claro? A boa notí­cia é que vamos todos morrer. Depois não vais morrer amanhã. Pode ser bom ou pode ser mau. Às vezes é preferível um ataque cardíaco, que nos acabe com o sofrimento, do que estar anos na batalha. Eu, que sou um luta­dor, que adoro a batalha tanto como vencer ou perder, prefi­ro estar na luta. Uma das coisas mais estúpidas que as pessoas fazem, a mais cretina, que não fazem por maldade mas por so­lidariedade, é falarem de pes­soas que morreram. É uma de­claração de amor, de simpatia. Porque é que isto é uma estupidez? Porque todos os dias, em al­gum momento do dia, lembramo-nos de que não vamos durar tanto tempo. Quando ouvimos uma música que ouvimos quando os nossos filhos nasceram, quando lemos um livro que lemos aos 18 anos. Se isto está presente, não preciso que me relembrem to­dos os dias. A primeira coisa que escrevi foram as dez coisas que nunca se deve dizer, em circunstância alguma, a alguém que tem cancro.

Essas regras que escreveu no Facebook, que efeito tiveram?
_No dia seguinte, recebi qualquer coisa como mil mensagens. Apercebi-me de repente da importância do que andava a fazer, de como podia mudar a vida das pessoas. Foi um espanto. O meu Fa­cebook tinha 500 pessoas e agora vai a caminho das 20 mil, cerca de mais cem por dia. Qualquer coisa que eu escreva é vista por dez mil pessoas. Depois, começou-se a organizar almoços. As pesso­as juntavam-se para ajudar alguém. Lembro-me que alguém me disse ter uma amiga que havia feito uma mastectomia, estava a fazer quimioterapia, não queria sair de casa, estava careca, de­primida. Fui almoçar com ela e, dois dias depois, tirou o lenço da cabeça. Começou a ir para a praia às sete da manhã, que é quando os quimioterapêuti­cos podem apanhar sol. Come­çou a sair à noite, a divertir-se. A vida dela mudou completa­mente.

A sua também…
_Sim. Esse sentido de utilida­de coletiva é uma coisa boa.

Tornou-se avassalador? Ou foi pensando no que estava a fazer?
_Nunca pensei. Nunca fui estratégico em relação ao assunto. Passo facilmente de estados racionais para emocionais. E quan­do estou triste, protejo-me, escrevendo menos. A maior parte dos meus seguidores já leem o meu silêncio, sabem que quando estou quatro ou cinco dias sem escrever é porque fiz uma quimio. Ou vou ter de fazer uma operação ou estou à espera de um resultado. E lá recebo umas mensagens em privado: «Vai correr tudo bem» ou «Vou rezar por ti.»

Abrir-se assim também é uma forma de lidar com a doença?
_Sim, é. Porque me obriga a pensar nos assuntos.

Sempre foi racional desde o início…
_Isso não foi sempre assim. Cometi os mesmos erros de todas as pessoas. Quando se tem cancro, só há uma regra: procurar o melhor médico do mundo. Não fiz isso. Quem nos apanha o can­cro é o médico que fica dono de nós. E entregamo-nos, fragiliza­dos. Temos urgência na solução. Se alguém nos diz que nos vai tratar… Há outro erro: a cirurgia, somos tarados para operar. Os cirurgiões adoram cortar. Primeiro porque adoram cortar e, depois, porque ganham dinheiro. Eu nem sabia quem era o do­no da minha doença, se o cirurgião, o oncologista ou o pneumo­logista. Dúvida que, aliás, permanece na maior parte das cabe­ças. Aconteceu-me ir a consultas em hospitais e falar cinco minu­tos com um e cinco minutos com outro e, muitas vezes, eles não tinham falado entre eles. A minha estratégia foi um processo de aprendizagem. Demorei um ano e cinco meses a ir ao melhor mé­dico do mundo do cancro do pulmão. Devia ter ido logo em mar­ço de 2010. Fui ao dr. Rafael Rosal, o melhor, em Barcelona. A con­sulta custa 600 euros, em vez dos 90 de cá. Mas vale a pena pedir dinheiro emprestado. O meu livro vai servir muito para que as pessoas possam evitar as minhas asneiras.

É um otimista ou um pragmático?
_ Toda a minha vida fui assim. Não me preocupo com coisas que não controlo, mas sim em atuar sobre as coisas que eu controlo. Na doença foi exatamente a mesma coisa. Em vez de me andar a preocupar com a deterioração do estado de saúde, a perda do fôlego, com o «não vais viver tanto tempo», a minha preocupa­ção sempre foi saber onde está o tratamento, qual é a próxima li­nha, quem é o melhor médico, como minimizar os efeitos secun­dários, vou trabalhar ou não. Completamente pragmático, como continuo a ser. A maneira como geri e como encarei a doença tem tudo que ver com a maneira como sou e vivo.

Está sempre à procura do mais novo tratamento?
_Porque é que se procuram os tratamentos alternativos? Para se ter, sobretudo, esperança. Quando se chega ao fim das linhas te­rapêuticas que nos dão nos hospitais, temos de ter algo a que nos agarrar. Estas novas linhas terapêuticas experimentais acres­centam-nos esperança. E a esperança é o que nos faz não morrer. No dia em que a perdermos, fechamo-nos na cama e esperamos tranquilamente com morfina pela morte.

A família não se incomoda por estar tão exposto?
_Detestam. Os dois filhos e a minha mulher, que não está no Fa­cebook. Os meus filhos estão pouquíssimo… Provavelmente pre­feriam que eu não falasse tanto. Ao mesmo tempo, sabem que me faz bem. Acho que percebem perfeitamente o valor que eu trago às pessoas que me leem. Têm algum orgulho nisso.

O que é que o cancro mudou na sua vida?
_Três coisas principais. A primeira é a demonstração dos afetos, que se torna muito fácil. O «amo-te» o «gosto muito de ti», o «fa­zes-me falta». Todos temos isto dentro de nós e gostaríamos de dizer mais vezes, mas esta nossa maneira introspetiva, lusitana, de guardarmos tudo para dentro, de viver com úlceras… Somos ensinados a esconder a emoções e a não demonstrar os sentimen­tos. O cancro é libertador em relação a isso. Essa foi talvez a mu­dança qualitativa mais importante. A segunda mudança é todas as decisões serem tomadas mais rapidamente. Sérias ou jocosas, importantes ou não, envolvendo outros ou não. Não que seja me­nos ponderado, mas porque acho que a irreversibilidade ou as consequências das mesmas têm, hoje, menos impacto. Na certeza da morte, todas as decisões têm consequências pouco relevantes.

Não se pôs a gastar dinheiro sem parar…
_Não, não. E porque a minha vida foi um bucket list, nem sequer cheguei a fazê-la.

O que é que isso quer dizer?
_Nunca precisei de fazer uma lista das coisas que gostava de fazer antes de morrer, porque já as tinha feito todas. Quis dar uma volta ao mundo, dei. Quis dar uma volta à Europa, dei. Quis um Fer­rari, saltar das pontes, de aviões, ir ao fundo do oceano Pacífico. Tudo o que era para fazer, fiz. No fim, quando era para fazer a lis­ta, não restava nada. Vivi sempre a vida sabendo que ela me poderia trazer surpresas e acabar de repente. Sempre vivi como se não fosse viver para sempre, ao contrário da maioria das pessoas que vivem despreocupadas. Foi uma regra para mim. Por exemplo, não queria morrer sem dançar hip hop. Toda a vida tive vergonha de dançar nas discotecas e sempre achei que os portugueses dançam mal, uns bá­sicos. Na minha festa dos 50 anos fiz uma coreografia para a minha mulher com o Blurred Lines, depois de 12 aulas de hora e meia aqui em casa, com dois professores.

A sua vida determinou a forma como olha para o cancro? Ou seja, paci­fica-se por essa sensação de que não deixou nada por fazer?
_Julgo que não. Numa certa altura na minha vida fazia-me fal­ta o outro. Sentia que tinha uma vida privilegiada, que eventual­mente não me tinha esforçado assim tanto para conseguir aqui­lo que tinha, que não tinha o mérito pelo conforto que tinha con­seguido. Portanto, preocupei-me com projetos sociais. Lancei os Pais Protetores em África, fiz de padrinho na Ameixoeira, lancei o projeto Pé de Fé, lancei o projeto de bolsas africanas – há três ou quatros miúdos que se estão a doutorar, ao fim de dez anos com o dinheiro que arranjei. São as contas todas, acho que estou conten­te com o meu trabalho.

Até que ponto o seu quotidiano é determinado pela luta contra o cancro?
_Faz cinco anos e meio que tenho cancro. Não alterei nada na minha vida. Quer dizer, alterei por questões prá­ticas. Se tenho uma vacina ou um PET, não posso ir a Espanha ver uma exposição. Mas vou no dia seguinte. Não deixo que a doença chateie a minha vida. O meu mote é exatamente o contrário: posso morrer de cancro, mas o cancro nunca me matará. No dia a dia, não deixo que o cancro me toque. Se tenho dores, tomo compri­dos. Continuo a trabalhar, a dar aulas, a viajar, com vida social. Há dias difíceis, pós-químio, em que não consigo levantar-me, dias em que a dor me desfoca a concentração. A questão da dor é sempre algo muito importante. A maior parte das pessoas não sabe que estou doente.

Tem visto exemplos do contrário?
_A maior parte. O cancro passa a ser uma atividade diária, nos seus pensamentos, nas escolhas, na maneira como se vestem, no que fazem. O cancro não é um assunto dos meus dias. Ainda ontem tinha uma conferência para fazer nos Salesianos. Estavam 400 miúdos. Foi organizada pela filha de uma amiga. Às 08h00 estava a entrar no bloco operatório e às 15h00 estava nos Sale-sianos. Deu, consegui falar. Não ia adiar, de maneira nenhuma. Não sou nenhum campeão, muitas vezes não consigo fazer que o corpo reaja, estou cansado. Sair da cama é difícil. Tenho de lutar contra todas aquelas coisas com que o cancro quer fechar–me dentro de casa. Amanhã estou doido para ir à praia, quero tomar um banho no mar e apanhar sol.

Está frio.
_Está ótimo. O cancro tende a fechar as pessoas no seu casulo de proteção, para não terem de falar, para poderem chorar, descan­sar. E eu tento manter todas as minhas rotinas.

Isso dá-lhe mais energia?
_Menos energia não dá, mas às vezes sinto que exagero. Já me recomendaram o descanso. No outro dia, estava cansado e dei­tei-me às 17h30 da tarde de sábado e estive a dormir até segun­da-feira de manhã.

Qual é hoje o seu nível de esperança?
_Em fevereiro, ótimo. Em maio, a doença estava praticamente residual. Em agosto, voltou tudo outra vez. Em agosto de 2012, calcularia uma fortíssima probabilidade de não chegar ao fim de 2013. Agora vieram os resultados e é muito provável que chegue ao fim deste ano. O que os exames nos dão é isso, tempo.

O que é que o tempo representa para si? A possibilidade de uma cura?
_Não. Representa que estou de férias. Até ao próximo PET não estou preocupado, não vivo todos os dias com a quase certeza de que vou morrer no ano que vem. Agora o que está a funcionar são as dendítricas, o bruxo onde fui no Brasil? Não sei. Mas de qualquer maneira é melhor do que não estar a funcionar.

Como é que os médicos reagem consigo?
_Os médicos adoram-me. Porque sou muito científico, descrevo as situações todas. Mando-lhes as últimas investigações. Faço testes e análises além do que me pedem e dou-lhes informação que não têm. Não sou aquele paciente a quem eles têm de dar um “tapinha” nas costas. Sou um paciente que os anima. Tenho a clara sensação de que eles passaram um dia lixado, ter de dizer às pes­soas que vão morrer. De repente chego e sou uma lufada de ar.

Nunca se zangou com nenhum?
_Zangar não, mas tive mo­mentos de insatisfação com alguns médicos. Todas as pes­soas pensam que se tornam um caso especial. Ora, na realida­de, a medicina são 74 protoco­los e 37 regras. Eu esperaria, quando vou a uma consulta de médico, que ele tivesse olhado para os meus exames, tivesse con­ferenciado com o colega, estudado casos semelhantes, ver o que existe de novas terapias, tivesse falado com o ex-colega da uni-versidade de Columbia, que é um oncologista famoso. E nada. «Aumentou três centímetros. Protocolo 26, 27. Adeus, obrigada. Até daqui a dois meses.» O que se passa, de facto, é que nós não somos especiais. E eu não estava à espera. Estava à espera de ser tratado como um cliente. Somos sempre o paciente 1140922 – é o meu número do IPO.

O que é que aprendeu sobre o Sistema Nacional de Saúde (SNS)?
_Pergunta difícil. Tive vários contactos com vários hospitais. A situação atual está a provocar uma séria limitação no acesso aos meios que os médicos precisam para combater as doenças e prolongar a vida. Muitos médicos estão perante a opção de terem de dar medicamentos a um paciente não dando a outro, porque os orçamentos são limitados. No geral, o nosso SNS é muito bom, embora não conheça outros. É particularmente bom para doen­ças muito graves e mau para doenças do dia a dia. O staff é de uma qualidade muito impressionante. São de um carinho, de uma humanidade. Os médicos são escassos e têm meios escassos. São extraordinários, na imagem do hospital de campanha do Vietname, com poucos meios a fazer autênticos milagres.

Nesse caos quem se safa melhor é quem tem mais educação, mais meios?
_Somos todos tratados de forma igual. No IPO não há favores, as salas de químio são as mais democráticas que existem, não há camas de luxo, não há mordomias.

Mas depois, quando vai a Barcelona ou a Colónia em busca do último tratamento… aí já interessa os meios que se tem.
_Aí, sim. Mando todo o meu histórico médico com o relatório traduzido para inglês e à minha volta estão seis médicos. Todos leram o processo, falaram com os melhores do mundo. Eu só pa­guei uma consulta, continuo a ter consultas quase todos os meses. Cada vez que tenho resultados, mando. Em Portugal, teria sido mais lenta a descoberta da terapia ajustada a mim, fazem-se pou­cos testes genéticos. Dois, porque representam a maioria dos can­cros. Eu fiz três mil. E lá, entre o 2000 e o 2500, estava o meu RH2 mutado. O RH2 cá só tem cura para o cancro da mama. Nun­ca consegui ter acesso ao medi­camento para me tratarem com ele, porque não está protocolado. Tive de fazer na Fundação Cham­palimaud e pagar. Uma fortuna. Tive de pedir dinheiro aos meus amigos, vendi tudo o que tinha. Um tratamento que na Índia cus­ta 600 euros, cá custa seis mil.

Porquê?
_Porque as farmacêuticas fazem uma coisa chamada discrimina­ção monopolista de preços. Tabe­lam pelo que o consumidor está disposto a pagar vezes o número de utilizadores que lhes maximi­za a receita. Não é preço fixo. E eu não posso importar o medica­mento, estou proibido. Peço ao In­farmed autorização e não me dão. E o próprio Governo, que podia poupar aqui, não importa. Porque eu acho que está nas mãos dos la­boratórios, a quem o Estado deve milhões.

Tem fé?
_A minha fé é absoluta, plástica, material. Deixa-me dormir tran­quilo todos os dias – rezo todos os dias. Vou à missa e confesso-me. Li São Tomás de Aquino, Descartes e o Pierre de Chardin, que ra­cionalizaram a existência de Deus. Mas não é por aí. Eu sento-me com Jesus Cristo à noite, na minha cama, e conversamos um com o outro. A fé dá-me duas coisas…Uma absoluta ausência do medo da morte e a certeza absoluta da vida eterna. Isso dá muita paz. Resolve uma parte muito importante do meu problema.

Como foi passar a morte do seu irmão, estando já doente com o mes­mo cancro ?
_Foi muito difícil. Ele tinha menos meios do que eu. E era um fu­mador intenso: três ou quatro maços de cigarro por dia, desde os 12 anos. Mas o fim dele foi muito difícil, muito trágico. Foi acompa­nhado pela minha mãe, pelas minhas irmãs e por mim. Teve em mim um impacto tremendo de que tento não lembrar. E quero ter a certeza de que o que aconteceu ao meu irmão não me vai acontecer. Já tomei um conjunto de garantias. Assim não vou morrer.

 

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Qual era o seu sonho de infância?
_Queria ser o homem mais rico do mundo. Aos 4 ou 5 anos trans­formei-me num homem de negócios quando comecei a pedir livros de quadradinhos usados aos meus amigos para vendê-los na rua. Em Moçambique, na António Mendes, em frente à coope­rativa dos criadores de gado. O meu pai ficava absolutamente ma­ravilhado com a minha capacidade em ganhar dinheiro.

O que é que o seu pai fazia?
_Era advogado, era diretor contencioso do PNUD. Portanto, sempre construiu a ideia em mim de que eu podia ser um gran­de empresário. E, de facto, ser o homem mais rico do mundo. Mas nunca consegui ter amor sufi­ciente ao dinheiro para fazer de­le a prioridade principal da mi­nha vida. E se não se gostar muito de dinheiro, nunca se vai ser o ho­mem mais rico do mundo.

Como é que Moçambique o marcou?
_Marcou sobretudo a maneira como depois eduquei os meus fi­lhos. Os meus pais delegavam, concediam-nos uma autonomia impensável para os dias de hoje. O primeiro foi o único dia da vi­da em que a minha mãe me levou à escola. Moçambique deu-me um modo de viver a liberdade e um modo de sentirmos a responsabi­lidade. Vivíamos felizes, na rua, sem pai autoritário, independen­tes dos nossos pais. Eu tinha seis anos, saía de casa na Rua António Mendes, ia até ao estádio ver a luta livre sozinho. Tinha 5 ou 6 anos. Atravessava as barreiras do Liceu Salazar, diziam que era uma zona perigosa, com criminosos e ter­roristas. Íamos à boleia, eu com o Chico Zé, até à Costa do Sol – 15 quilómetros para apanhar amêi-joas no mar. Deu-me essa auto-nomia de dizer: sobrevivo em qualquer circunstância e sobre qualquer adversidade, em qualquer meio.

Com que idade veio para Portugal?
_Com 11 anos.

Isso manteve-se?
_A família desmaterializa-se um pouco. O pai num lado, a mãe noutro. Um irmão para cada casa. Tinha 16 anos quando chum­bei o primeiro ano da Católica e cheguei ao meu pai e disse-lhe: «Vou emigrar.» Saí daqui à boleia e fiz 3600 quilómetros até Itá­lia sem um tostão no bolso, a comer fruta podre, a dormir debaixo dos camiões, a roubar uvas nas vindimas e trabalhei… em todos os países europeus. Portanto, nunca tenho fome, nunca tenho sede, nunca tenho sono. O meu corpo, até recentemente, funcionava de acordo com as minhas conveniências (se calhar foi este o custo).

Sempre tinha sido bom aluno. Porque chumbou na faculdade?
_Sempre fui o melhor na primária, no secundário, fiz o 9.º ano com nove cincos. Eu era um miúdo de casa; quando vim de Mo­çambique para Portugal, fiquei com os meus avós, em Coimbra. Era tímido e inibido. Em Lourenço Marques tinha apenas dois amigos, o Chico Zé, que era branco, e o Benjamim, preto. Lia os li­vros do meu pai, Tolstói, a coleção Argonauta, a coleção Vampi­ro, que chegavam todas as quintas-feiras. Em Portugal, a minha vida era ler e jogar xadrez. Não tinha amigos, não tinha namo­radas. A casa do meu avô, que era uma autoridade do regime, era enorme, gelada. Viemos em 1974, logo a seguir ao 25 de Abril, an­tes da independência. Fechei-me ainda mais em casa. A ouvir mú­sica. Cheguei à letra cê da enciclopédia brasileira. Era um chato, não lia o Júlio Verme sem um mapa ao lado. Fiz o liceu em Coim­bra sem nenhum amigo. Ninguém. Os meus avós eram um boca­dinho queques e quando eu tinha um ou outro amigo eles olha­vam com um ar de curiosidade – «Quem é o pai deste teu amigo?» «É de uma mercearia.» «Ahh…» E isso não ajudava. Aos 16 anos entrei na Católica, para o ano zero. E o Borges Macedo expulsou-me da primeira aula, porque o meu colega do lado, um espanhol, estava com uma caneta na boca. De repente, vimo-nos os dois no hall, apresentámo-nos. Era sexta-feira. Ele perguntou-me o que eu ia fazer. Eu não percebi. Ele disse que havia uma discoteca no­va em Cascais, a Jet7. Entrei na discoteca e bebi dois gins tóni­cos, canhões, cheio de álcool. E dei por mim às três da manhã a dançar Lou Reed. E a falar com pessoas. Umas miúdas vieram falar comigo. Aconteceu tudo. E, depois, comecei a bronzear-me, a usar umas t-shirts.

A quantas aulas foi a seguir?
_A nenhuma. Fiz um curso sem ir às aulas. Quantidades incomensuráveis de gajas, de álcool, todas as drogas. E oito anos para fazer um curso. Duran­te esses dez anos andei a viajar pela Europa toda. Depois, um dia, morreu a minha colega que na faculdade me pagava as propinas – continuava inscrito. Cheguei à Católica e as coisas que ia fazer, que era beber cerveja e jogar cartas… não havia ninguém para as fazer. Fui ter com o padre João Seabra, meu amigo, e pedi-lhe que me deixasse fazer 12 cadeiras nos últimos dois anos. Se eu falhas­se alguma vez, ele tirar-me-ia a exceção. Pronto, fiz 20 cadeiras em seis anos e 24 em dois.

Foi o primeiro ponto de viragem da sua vida.
_O primeiro foi a viagem. O segundo foi acabar o curso. O tercei­ro foi casar-me e ter filhos. O quarto foi ser despedido, deixar de ser um gestor de topo brilhante. E o quinto foi o cancro.

Quando foi despedido?
_Quando estava em A Capital. Era do dr. Balsemão. Eu tinha 33 anos, tinha chegado ao topo… Tinha vindo da Bertrand e fui o pri­meiro gestor de topo do grupo. Eu fui o primeiro a ganhar dez mil euros por mês, em 1997. Mas não percebi a luta política que era um jornal. Eu dizia que não à diretora, a Helena Sanches Osório, e ela ligava para o Balsemão. E o Balsemão dizia: “Dr. Forjaz, te­mos de ver isto, é uma coisa muito importante.” E eu, maçarico, assinava. Depois quando chegava ao Conselho de Administração levava porrada. E eu tinha dobrado as tiragens. A Capital chegou a ser maior do que o Público e o DN. Tinha dobrado a publicida­de, passado para um milhão de euros. Uma revolução, uma gran­de equipa comercial. Tínhamos feito coisas malucas: os primei­ros fascículos sobre sexo, o primeiro jornal a dar um telemóvel com cupões. Mas acabei por ser trucidado na corrida. Depois, co­mo tinha bom nome, ainda me surgiram hipóteses de trabalho. Mas essa é uma altura em que tenho duas hipóteses: regresso ou mudo de vida.

Porque é que resolveu mudar de vida?
_Um dia entro na sala e chega-se um filho meu, banhinho toma­do, pijama de flanela, e pede-me ajuda para os deveres. «O pai está tão cansado, não podemos fazer isso noutro dia?» Ele vai-se embora triste e eu comecei a pensar que isto não fazia sentido. Ganhava fortunas, mas a coisa mais importante para mim, o que me faz mais feliz, é o tempo que passo com os meus filhos. E não quero um dia olhar para trás, e pensar que a vida dos meus filhos passou-me ao lado. Talvez tenho sido uma epifania.

À luz do que lhe está a acontecer agora, isso muda muita coisa?
_Foi a decisão mais correta da minha vida. Os meus filhos saíram de casa aos 17 e 18 anos e eu vivi uma vida que ninguém viveu, que ninguém teve o luxo de viver, estavam todos a traba­lhar. A trabalhar para chegar ao topo. Estava toda a gente a cor­rer para os corredores, a tirar fotocópias e a fazer powerpoints. Eu estava com os meus filhos a dar uma volta à Europa, nos par­ques de diversão, no jardim zoológico, no futebol. Fui dar uma volta ao mundo. Brincámos, di­vertimo-nos, jogámos bowling, xadrez. Fomos a praias, a pis­cinas, fizemos tudo o que ha­via por fazer. Eu fui o pai de­les. Hoje não tenho nada. Te­nho uma moto e está avariada, mas digo-lhe uma coisa, tenho 15 anos vividos com os meus fi­lhos. Fui com eles aos médicos, aos hospitais, fui com eles ins­creverem-se no Sporting. Tivemos uma vida abençoada.

Como entra no empreendedorismo?
_Depois do meu despedimento d’A Capital, o dr. Balsemão per­segue-me. Eu estava só. Ele garantia que ninguém falava comi­go. Como estava sozinho e sou empresário, um dia vejo uma coi­sa chamada Associação Nacional de Jovens Empresários. E ins­crevo-me. Vou lá e pedem-me para falar. E eu não era um grande falador – sou um orador tardio, forçado. E há 25 anos que dou au­las. A conversa correu bem, porque toquei no tema da liberdade. A metáfora do pequeno-almoço do Belmiro. Fazer as pessoas pensar que o pequeno-almoço do Belmiro era igual ao meu. En­tão para que é que ele quer 1,6 biliões de dólares? Para comprar a sua liberdade, para poder dizer o que quisesse. Noventa e cin­to por cento das coisas de empreendedorismo que aconteceram em Portugal são da responsabilidade da Susana Olípio e do José Fontes, da ANJE. Eles pediram-me para ser formador. Começo a conhecer os alunos. Um deles era o João Carreira, da Critical Software. No segundo ano, era o Raul Sérgio, da Crioestaminal, e o Nuno Gomes, da EasyBus. No terceiro, Pedro Sinovas, que vende drones. O Rui Sanches, da Vitaminas & Companhia. E fui conhecendo estes novos empreendedores.

Não está farto desta conversa do empreendedorismo?
_Tenho muita pena. Acho que os poderes públicos têm toda a culpa. Basicamente tentou-se desenvolver à força um país e empreendedores, sobretudo nas novas tecnologias. E acho que exa­gerámos na priorização das tecnologias. Temos de estimular as empresas que aproveitam as nossas vantagens comparativas. Os produtos que podem fazer a diferença, que não são patenteáveis. Uma enzima qualquer pessoa patenteia, agora para o queijo da serra teria de se patentear a relva, a ovelha, o estrume, a inclina­ção do solo… Ando há 15 anos a falar de queijo da serra. A primeira vez que falei de Portugal-mercearia gourmet foi há dez anos, nu­ma conferência no Porto. O empreendedorismo não aparece por­que alguém tem uma ideia gira e vai ficar rico. É preciso perceber as tendências. E os empreendedores portugueses não se juntam. Em São Paulo, existem 700 empresas portuguesas, 700 empresá­rios. 700 escritórios, 700 advogados, 700 rendas, 700 mulheres da limpeza, 700 seguros… O que significa um desperdício de re­cursos que se torna completamente não competitivo. A Espanha, por exemplo, tem um modelo baseado na sede de um banco e um conjunto de empresas utilizam os serviços partilhados.

Porque fez o mestrado em Estudos Africanos?
_Porque quero morrer em África. É uma paixão. De andar des­calço, comer a fruta com as mãos, gostar de corpos, daquela transparência, do niilismo, de que Deus está em todas as coisas. A minha tese era comparada entre o perfil do empreendedor de moçambicano e o português. Conhecia o português, estudei o moçambicano. Não gostaria de morrer sem discutir a minha te­se de mestrado. Mas já fiz tan­tas coisas. Andava sempre na internet à procura de forma­ções que fossem baratas. Uma semana em qualquer univer­sidade de topo europeia custa entre sete a dez mil euros. Uma semana de empreendedoris­mo social no INSEAD custa 500 euros. Uma semana de li­derança com os professores de topo da Harvard, 700 euros. Passei a vida à procura de borlas. Fiz 40 cursos diferentes, conferências. Entretanto, comecei a dar au­las. No ISCTE. Uma pós-graduação no Porto. Lancei uma pós–graduação com os meus conteúdos em personal branding no ISLA. E há três anos que dou aulas nos mestrados da Nova. Depois, fui fazendo loucuras. Montei um Congresso Mundial de Social En­trepreneurship em Cascais. Um Instituto de Empreendedorismo Social que hoje emprega 21 pessoas, que está presente em quatro países. E já começamos com boot camps em Moçambique e fare­mos também em Angola. Fiz o Tedex O’Porto. Parti do zero. Não tinha um tostão. Uma semana depois tinha seis mil inscrições. Há dois anos foi o maior TEDx do mundo, maior do que o de Rio de Janeiro. A minha vida tem sido sempre assim, correr riscos.

E agora?
_Agora tenho de ganhar dinheiro. Preciso muito. Não para com­prar nada, mas por causa da minha saúde. A minha saúde custa muito dinheiro, não tenho fontes de rendimento.

Precisa de quanto por mês?
_Preciso de cerca de seis mil euros. É o preço de uma dose e pre­ciso de uma a cada mês. Até agora, pedi dinheiro emprestado, jun­to dos meus amigos. E estou a organizar uma espécie de uma es­cola Manuel Forjaz e vou organizar cursos de formação muito vocacionados para as urgências atuais, como arranjar trabalho. Escrever um currículo, procurar trabalho, enviar o currículo, marcação de entrevista, postura na entrevista, criação das ideias, seleção das ideias, financiamento, marketing. Módulos todos meus construídos com base na minha reputação. Cada módulo é muito barato, vai custar entre 10 e 15 euros. Se as pessoas com­prarem os dez módulos do curso têm 10 por cento de desconto. Na primeira experiência que fiz tive quase 800 alunos. Tenho um parceiro que está, gratuitamente, a desenvolver a plataforma. E é com isto que eu espero ganhar algum dinheiro.

Quem são os seus gurus?
_O primeiro de todos foi o Belmiro de Azevedo. Porque em Por­tugal há empresários que pegaram em fábricas de margarina e tornaram aquilo em gigantes, mas já tinham fábricas de marga­rina. O Belmiro era filho da dona Odete e do senhor Silva. É tu­do dele. E ele preza os valores da família, que manteve unida. Ele nunca subiu aos lobbies dos partidos. Manteve sempre a sua liber­dade e independência. Não como genial, mas como empresário português, uma boa prova de que trabalho honrado tudo vence. Com audácia, pegar numa empresa que faz contraplacados e de­cidir lançar supermercados. Acho-o o líder português a apreciar.

Este é o país onde quer que os seus filhos passem a vida deles?
_Não. Este é o melhor país do mundo para se viver a partir dos 45-50 anos, quando acabamos a curva de aprendizagem e pre­cisamos de um bom espaço para viver. A segurança, o clima, o património, a praia, a qualidade gastronómica, o verbo, a poe­sia, os jornais, as cidades ma­ravilhosas. Conheço 110 paí­ses. Não conheço uma cidade tão boa para viver como Lis­boa, a partir dos 45-50 anos. Durante a curva de experiên­cia e aprendizagem acho que o mundo tem um conjunto de outras aprendizagens e expe­riências que Portugal não pode proporcionar. Por ser pequeno em vários níveis: na população, na mentalidade, na ambição, no orgulho.

Falta-lhe fazer alguma coisa?
_Gostava muito de ter contactado com o Mandela. Há 20 anos mexi mundos e fundos, todos os contactos possíveis. Fui à Áfri­ca do Sul, bater-lhe à porta, mas não consegui. Isso fica por fa­zer. Adorava saber tocar viola, já três ou quatro vezes comecei. Provavelmente, não acabarei a tese de mestrado e vou avançar para uma de doutoramento. Esse é um ponto importante. Vou lançar agora um livro sobre um cancro e, depois, outro sobre histórias de pessoas que fizeram coisas extraordinárias e que não são conhecidas. Gostava de ter um programa de televisão. Gostava de ser orador global, acho que já não vou lá. Já sou orador há tempo suficiente para eles me terem descoberto e convidado. Gostava de ter feito uma grande obra de arte. O pro­cesso da escrita foi interessante – comecei por escrever mal e estou a tentar construir melhor o meu português. No essencial, acho que sim, que tive a sorte… O meu filho licenciou-se ago­ra. O mais novo vai licenciar-se em junho. Considero a minha obra feita. Infelizmente, não acertei em tudo. Não acertei, por exemplo, na Ideiateca. Durante 15 anos que paguei salários, gerei riqueza, outras empresas, outros empregos fora da mi­nha empresa. Não acabou bem. Aliás, ainda não acabou. Está entregue a uma advogada.

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Catarina Carvalho
Fotografia: Jorge Simão