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Entrevista ao patriarca da Sogrape, a mais medalhada de sempre no Concurso Mundial de Vinhos de Bruxelas.

«O segredo do Mateus foi o meu pai querer ser diferente»

A Sogrape Vinhos acaba de ser homenageada no importante Concurso Mundial de Vinhos de Bruxelas, por ser a mais medalhada de sempre na prova que já conta com 20 edições. Pretexto para recuperar a grande entrevista ao patriarca da empresa proprietária do vinho português mais vendido em todo o mundo, o Mateus Rosé.

Com quase 82 anos, Fernando Guedes  ainda vai todos os dias à Sogrape e recebe os números das vendas. O filho do criador da marca Mateus fez crescer a empresa para outros níveis, o que incluiu a compra da casa Ferreira, entre outras. Mas não esqueceu as origens: o que aprendeu ao levantar-se às quatro da manhã para ir até Vila Real ver fazer os vinhos ou com o ter começado na empresa, por baixo, como tanoeiro a ganhar quinhentos escudos. Hoje, obriga os filhos e os netos a darem o exemplo: só entra quem já tiver cinco anos de experiência lá fora e tiver mostrado valor.

Pode dizer-se que nasceu no meio das vinhas?
_Nasci na Quinta da Aveleda. Na altura, aquilo era da família [Van Zeller], estávamos todos juntos. Parece que a minha mãe, muito grávida, viu um ratito e assustou-se… e eu nasci. A 29 de dezembro.

Quando começou a interessar-se pelo negócio, pela produção, pelo vinho? E o que o atraiu?
_Nós já produzíamos vinhos. Era além, daquele lado [estamos nas caves do Porto Ferreira, em Gaia, uma das últimas aquisições da marca Sogrape, e aponta para o outro lado do rio, o Porto], que estávamos e, às vezes, olhávamos para aqui, onde hoje estamos, e dizíamos que queríamos ser assim grandes… E foi naquele convento de Monchique, onde o meu pai trabalhou também e se tornou o primeiro presidente desta empresa, que me obrigou…, enfim, aceitou a minha admissão como trabalhador da empresa. O convento, depois, ardeu e ele desistiu dele. Tenho sessenta anos de casa, entrei em 1952.

Porque não quis seguir o curso de Economia?
_Não quis ser doutor. Agora querem-me fazer doutor honoris causa, mas de quê, para quê? Não me falem em doutores, cada um é doutor do que quer e daquilo que gosta de saber. Eu gostava de saber destas coisas do vinho. Não há nenhum curso que diga que tem de se levantar às quatro da manhã. Mas o meu pai levantava-se!

Mas as vinhas e os vinhos obrigam a sair da cama cedo?
_Não, não. Não havia razão alguma, gostava de chegar antes dos outros e estar lá a ver. E fez isso durante muitos anos. Ele gostava muito de pão fresco e eu também, então, antes do pequeno-almoço, a empregada fazia o café e o leite e eu ia à padaria e acordava o padeiro! Depois comia seis pães! Quentinhos! Levantava-me cedo, não me custava nada, às vezes ainda resmungava com o meu pai «anda embora» e lá íamos para Vila Real, onde era a nossa primeira adega. Foi onde começámos a fazer o Mateus.

Ainda mantém essa rotina?
_Já não me consigo levantar sempre às quatro da manhã, custa um bocadinho. Mas ainda vou para o Alentejo às quatro da manhã, chego lá às oito e meia e depois volto e venho jantar a casa. Faço-o com gosto porque não vou lá só para passear, vou ver e vejo coisas. E irrita-me muito ver coisas de que não gosto.

Quando entrou como funcionário para a empresa o que começou por fazer?
_O meu pai perguntou-me «O que é que tu sabes? Sabes como se faz uma pipa?», e eu respondi «O que é uma pipa?». «O casco», respondeu ele e disse-me: «Então vais ser tanoeiro.»

Que idade tinha?
_18, 19 anos. E lá estive, lá me ensinaram. Os cascos eram feitos fora da empresa, tinham de ser apertados um a um, pintados, levavam parafina por dentro para que o vinho não ganhasse o gosto a madeira de eucalipto. Batiam-se os arcos todos para os apertar e, depois, metia-se a parafina e tentava-se que rolasse bem no casco. Mas havia um ou outro caso em que o vinho tinha gosto a madeira porque a parafina não tinha coberto bem tudo. Uma vez quis fazer as coisas tão bem que achei que tinha uma ideia inteligente para resolver aquilo pondo duas vezes parafina – que estava num tacho grande, numa fogueira de lenha, e depois se tirava com uma medida, um caneco. Só que a parafina quente por cima de outra camada de parafina que ainda estava quente… saiu toda para fora! Um desastre total, uma porcaria…

E o seu pai ralhou?
_Não, ele percebeu perfeitamente que eu não sabia mais do que aquilo! Não, não me ralhou. Mas exigia-me que cumprisse. Eram uns barris de cem litros que iam sobretudo para Angola, barcos cheios de barris. Foi o primeiro vinho que foi para Angola, anos 1960, talvez 1950. Era vinho a granel, pintávamos por fora e punha-se a marca do cliente.

Compravam o vinho nas quintas daqui?
_Exato. Havia várias maneiras.

Apesar da sua idade e de já estar retirado, continua a vir aqui todas as manhãs?
_Venho pois. Estive sozinho nisto, comecei muito cedo e viciei-me, vícios bons e maus [ri]. Mas há coisas em que a gente não se deve viciar, como beber de mais, isso nunca bebi.

Mas bebe o seu copinho?
_Um copito, mas bebo pouco.

Sempre bebeu pouco porque viveu sempre no meio do vinho?
_Nunca bebi muito. Comia mais pão com manteiga e café com leite!

Mas é um apreciador… e um conhecedor de vinhos?
_Depois de já trabalhar aqui, tinha para aí uns 22 anos, fui para França e tirei Enologia. Hoje todos são enólogos, os meus filhos são todos enólogos, as minhas netas são enólogas, todos sabem de vinhos. Mas naquela altura não havia no país escolas de enologia.

Toda a família trabalha na Sogrape?
_O meu filho Salvador é o presidente, o Manel [que assiste ao início da entrevista] e o Fernando também e uma neta. Tenho três filhos, casados os três, dez netos e uma bisneta que vem a caminho. [o filho Manuel Vaz Guedes, explica que existe um protocolo na empresa que determina que ninguém seja admitido sem ter pelo menos cinco anos de estágio, de tarimba, fora. Só depois poderá entrar e se houver lugar.] Até há pouco tempo era uma empresa que tinha três gerações, o meu pai, eu e os meus filhos, agora já há um membro da quarta geração, a minha neta Mafalda. É a única que esteve cinco anos a trabalhar fora. A filha dele [do Manuel] está a tirar o mestrado em Marketing mas teve de arranjar emprego no mercado como pessoa.

Porquê essa regra?
_É complicado. Os problemas são quase sempre os mesmos na base. Por isso, as pessoas têm de dar o exemplo a quem não é da família. E se não são tão bons como os de fora… Então onde é que íamos parar? Quem mandava? Quem está abaixo ou quem está acima? «Tu não sabes nada», «ah, mas sou patrão». Mas o que é que isso interessa?

Foi por isso que o seu pai o fez começar de baixo como tanoeiro?
_Julgo que sim.

Quanto foi ganhar, lembra-se? Era pago?
_Lembro. Na altura, ganhava quinhentos escudos. Não era mau!

E depois de ser tanoeiro qual foi a função que desempenhou?
_Casei-me! [risos] Fui tirar Enologia. Para Dijon. Fui o terceiro enólogo do país, cá não havia nada ainda, agora é que todos sabem tudo. Era eu, outro e o pai do nosso atual enólogo, o Luís Sottomayor, já cá está há uma data de anos… O Carlos Sottomayor, ainda é vivo, tem 86, 87 e ainda caça perdizes como eu quando era caçador.

Já não caça?
_Não, para mim acabou. Arrumei tudo, e adorava caçar. Ia para o Alentejo, para Espanha… Tinha muitos amigos.

O que o levou a deixar de caçar?
_Um dia… não vale a pena contar pormenores da minha vida, há coisas mais importantes. Deixei de caçar porque um dia estive num jantar de aniversário até muito tarde e esqueci-me de que no dia seguinte ia caçar. Mas não quis deixar de ir. Vim do jantar, que foi em Mangualde, para o Porto buscar as coisas, cães, espingarda, fato escuro. E por causa da minha mania de levantar cedo e chegar cedo fui quase direto para o Alentejo. Cheguei antes dos caçadores. Mas estava cheio de sono, cansado, passavam as perdizes «pau, pau, fora» e eu «o que estou aqui a fazer?». Ouvi um comentário de gente mais nova e «que chatice, sinto vergonha disto», cheguei a casa e nunca mais cacei.

Dizia-me há pouco que ainda bebe o seu copinho de vinho. Com que idade o seu pai lhe deu a provar vinho pela primeira vez, lembra-se?
_Não, não sei… O meu pai, que nasceu nos vinhos verdes, era da região do Minho, nasceu no Porto mas estava ligado à Aveleda, onde eu nasci, gostava muito de vinho verde tinto. Eu não gosto. A não ser muito bom, muito bom. Mas é raro. O meu pai bebia sempre vinho verde tinto ao jantar e ao almoço. E antes bebia sempre um whisky, dois dedos, escondido, para a minha mãe não ver. E depois bebia vinho do Porto. Eu também raramente bebo vinho do Porto. Se não tenho ninguém em casa, à noite, não bebo nada, zero. Quando lá vão todos jantar, bebemos, abrimos umas garrafas e bebemos. Tinto é do que mais gosto. Também mal parece dizer que não bebo vinho, uma casa que só produz vinhos!

Falemos do Mateus. Bebe rosé?
_Não, bebo tinto, gosto mais. É diferente.

Acha que há alguma verdade naquela máxima que rosé não é vinho, é uma espécie de licor?
_Não. Toda a gente hoje faz rosé, todas as casas, até as de vinho do Porto. Antigamente estávamos sozinhos no mercado. Éramos só nós. Fomos os primeiros e os únicos durante algum tempo. Mas é um vinho como outro qualquer. É feito com uvas tintas vinificadas em branco, quer dizer, a uva esmagada e o mosto – o sumo da uva – separado da película. É nessa película, a parte da casca, que está a cor! Depois da uva esmagada, se se separar o líquido para um lado e a casca para outro, fazem-se rosés. É vinho tão bom ou mau como outro, não há diferença. O vinho branco é feito como o rosé, exatamente, só que as uvas são todas brancas. A maior parte dos champanhes franceses são feitos com uvas tintas, só que pode tirar-se a cor com um bocado de carvão vegetal, por exemplo.

Qual é a razão deste sucesso do Mateus? Porque é o vinho de mesa mais vendido no mundo inteiro?
_Estava à espera da pergunta e tenho a resposta. É o meu pai! Porque fez o primeiro rosé. Era um homem extraordinário pela sua simplicidade, trabalhador, respeitador, que dizia sempre «o exemplo vem de cima, por isso, somos copiados pelo bom ou pelo mau que fazemos». «O saco tem de começar a esvaziar por cima, não é por baixo.» Ao lançar o Mateus, lançou os rosés.

E foi ele quem pensou também na garrafa única que não só dá nas vistas como por ser mais pequena fica à frente nas prateleiras das lojas?
_Ele queria ser diferente dos outros, falava nisso. «Quero ser diferente não sei onde, mas vou ser diferente.» Já contei. Nós estávamos ali em frente, do lado de lá do rio, pegados à alfândega, e olhávamos para aqui, para a Ferreira… não que fôssemos inferiores, mas sentíamo-nos muito mais pequenos! «Como é que um dia podemos vender uma décima parte?» O mundo dá tantas voltas… O meu pai morreu 15 dias depois de termos comprado a Ferreira. Depois comprámos a Offley, a Sandeman… Começámos a montar agências pelo mundo fora, comprámos na Argentina a Finca Flichman para fazer vinhos argentinos… Não estávamos satisfeitos, fomos para o Chile, onde foi tudo ao ar com o terramoto, que nos destruiu tudo. É feito de adobe, terra com palha, e caiu como um castelo. Voltámos a construir.

Lembra-se da decisão sobre a garrafa?
_Lembro, foi logo no princípio. Aquela ideia de ele ser diferente. O que é que havia? Garrafas de vinho do Porto e, de resto, todas iguais. Tínhamos em casa um cantil, por acaso…

Ainda existe?
_Sim, temo-lo lá. Antigamente os soldados da Grande Guerra usavam-no, mas coberto com feltro e couro, para proteger a água fresca e não se partir. E foi nisso que ele pegou. E o rótulo também foi dele, mas isso é uma história muito complicada…

Por causa dos direitos de imagem do Palácio de Mateus?
_Sabe?

Li a história. O acordo obrigava a comprarem toda a produção das vinhas da família…
_Depois comprámos-lhe tudo! Em Lisboa, num almoço no Tavares! Convidámos o filho do conde de Mateus, que já tinha morrido entretanto, e por onze mil contos, onze ou catorze, comprámos e acabaram-se os direitos da obrigação de lhe comprar as uvas para poder usar a imagem no rótulo. Já não temos de dar contas a ninguém. Foi tudo pago…

 E é verdade que custa mais a garrafa do que o vinho Mateus?
_Não! Não sei quanto custa, não faço ideia, mas não é nada assim.

Porque é que os estrangeiros gostam mais de Mateus do que os portugueses?
_Isso também não é verdade. É a história que contam as pessoas que não têm Mateus para vender. O meu pai lançou o Mateus no mundo inteiro e começou pelos pequenos mercados, claro. Mas hoje temos o Mateus em 120 e tal mercados. Vejo todos os dias os números, estamos com… perto de um milhão de caixas vendidas desde 1 de janeiro [estávamos em julho]. Isso representa cerca de cinquenta por cento de todos os nossos vinhos, no ano passado vendemos setenta milhões de garrafas.

 Vende-se já mais Mateus em Portugal, está na moda?
_Portugal não é o país onde se vende mais Mateus. É em Inglaterra.

 Teve vários embaixadores conhecidos da marca. Há fotos famosas, desde a Amália a Jimi Hendrix.
_Tenho-as aqui… Margaret Thatcher, Ramalho Eanes. O nosso velhinho, como é que ele se chama? O Américo Tomás. E o Sampaio e também o Mário Soares. Há uns anos, o cardeal Ratzinger, o atual papa, veio cá. Demos-lhe uma garrafa de vinho do Porto com o ano do seu nascimento. E ele deixou a mensagem: «Bebo à saúde desta casa, dos seus trabalhadores que produzem o melhor vinho do mundo.» Quando fiz cinquenta anos de casado, fui com a minha mulher e os meus filhos todos e netos a Roma. Milhares de pessoas, centenas de milhares de pessoas, ele a passar e a cumprimentar e eu «Sua Santidade, se me permite, nós somos portugueses, Sua Santidade esteve na minha casa, no vinho do Porto Ferreira», e ele responde «Sim, o melhor vinho do mundo.» Lembrou-se exatamente da frase que escrevera.

Como é que o seu pai conseguiu chegar a tanta gente?
_Ele era assim. Há uma história em Paris, um encontro com um senhor chamado Michel Dreyfus, num hotel. Ele chegou e apresentou-se: «Senhor Dreyfus, sou Fernando Guedes», e o outro respondeu: «Tenho cinco minutos para si.» «Ah, cinco minutos? Goodbye sir, it was a pleasure to meet you.» Cinco minutos? Ele tinha uma história para lhe contar, a de um produto único, o primeiro rosé, que o outro, agente de vinhos do mundo inteiro, não sabia nem nunca tinha visto! Por isso, o meu pai achou aquilo uma má criação. Mas o outro voltou atrás e a conversa acabou quatro horas depois. Ficaram amigos. Era assim o meu pai. Todos gostavam dele. Quando houve as greves, depois do 25 de Abril, as empregadas armaram-se com paus e vassouras para não deixar entrar ninguém. Eram setecentas e ficaram três dias a comer e a dormir no chão. E ainda trabalhavam, eram elas quem rotulava, à mão, o Mateus. Agora é tudo à máquina. Tem de lá ir ver, parece que estou a falar da história da carochinha.

Há algum país no mundo que não saiba o que é o Mateus?
_Honestamente, não sei. Mas julgo que não há ninguém que não conheça o Mateus.

Acha que os portugueses com a crise estão a beber menos vinho?
_Estão. Sente-se nas vendas. Temos de ter preços equilibrados, é uma coisa muito complicada ajustar o preço à perceção que o consumidor tem do valor do vinho. Vamos tentar pôr um preço que nos dê lucro, permita pagar as despesas, desde a compra da uva às mil pessoas que trabalham connosco.

O Mateus ofusca os outros produtos da Sogrape?
_Não. Vou-lhe mostrar. Não estou a inventar nada. Este mapa das vendas, diárias, mostra… Há o total das caixas e é só o Mateus. Temos muitos vinhos a vender… Olhe o Gazela, veja o que saiu… Das setecentas mil caixas que saíram este ano, de doze garrafas cada – oito milhões e tal de garrafas. Temos isto controlado e sabemos exatamente o que cada mercado gasta.

A entrada de Joe Berardo no capital da Sogrape foi polémica. Como é a vossa relação?
_Não o conheço, nunca falei com ele. A única vez que me falou estava no tribunal, um caso que temos em comum, «Como está, passou bem?», e acabou aí. Mais nada. Houve aí umas coisas nos jornais, ele diz isto, diz aquilo, que nós somos assim… Nós somos o que somos, temos direito àquilo e vamos defender-nos até à exaustão das nossas forças. Se ele pensa de outra maneira, é com ele. Não tenho nada contra ele.

 E como são as relações da Sogrape com o mundo da política portuguesa, com os governos que vão mudando? Há reconhecimento do papel que a Sogrape desempenha na economia portuguesa?
_Nós não temos contacto nenhum com nada que é político, nem eles nos procuram nem a gente os procura a eles. Sabemos que reconhecem o nosso mérito, o nosso valor no mundo dos vinhos. Mas não lhes devemos nada.

Há falta de apoio da política e da economia portuguesa ao vinho português?
_Não, pelo contrário. O governo está a fazer um esforço muito grande para mostrar o vinho português. Até o ministro Portas, quando esteve na China, falou na exportação dos vinhos portugueses.

Que notícias mais o têm assustado nos últimos tempos?
_As que se referem a Portugal. Porque passamos por uma fase extremamente difícil. Não sei de quem é a culpa. O facto de a gente, a certa altura da vida, votar A, B ou C não quer dizer que continue a defender a política que A, B e C segue. Não fazem sentido estas coisas que se passam. Quem vai pagar isto somos todos nós, os que têm mais hipótese de se defender, que têm mais do que os outros, estão melhores, de facto. Mas será isso motivo de felicidade? Não, não é.

Como é que Portugal chegou a este ponto em que está?
_Nem queria estar a apontar. Mas faz sentido uma pessoa que é ministro aldrabar-nos a todos? Que respeito posso ter por um homem que me anda a enganar, que disse ter um curso e não tem curso nenhum, não tem nada? Há gente que quer ser mais do que é. Temos de estar sempre no nosso lugar e defender os princípios que são corretos, Como português não estou satisfeito com o que se passa. Mas espero que isto mude. Estou à espera que isto mude.

E acha que vai mudar? Ou tem de mudar a Europa também?
_Portugal falhou muito, gastou mais do que podia e depois não conseguiu equilibrar as coisas. A nível europeu acho que se tem feito muita asneira, porque a gente vê o que se passa em Espanha, vê o que se passa cá e depois começa a comparar, e Espanha que era um país fortíssimo!

Fez como o seu pai, formou os seus filhos para virem para a empresa? Como fez para virem para aqui, gostar disto?
_Eles começaram a ver que aqui poderiam realizar-se se correspondessem ao que era esperado que cada um fizesse. São todos diferentes e ainda bem. Há o Manuel, o do meio, que é especialista em relações públicas, há o Salvador, o mais velho, que foi o primeiro a entrar e é o presidente, e há o Fernando, o mais novo, que está mais ligado à parte financeira. Têm todos formação superior.

E foram obrigados a cumprir aquela regra de estar cinco anos fora?
_Exatamente, faz parte dos estatutos.

O facto de serem uma família oriunda de fidalgos, que tem uma história, não era suposto facilitar a vida de todos?
_Não. Os meus filhos já falei deles, os meus netos não sei como vai ser, é responsabilidade dos pais. Mas com certeza não vêm todos para cá, isso seria uma orfandade, não poderia ser. Têm de perceber que não pode vir tudo para aqui, entrarem todos cá para dentro seria o fim do mundo.

Não fez força nenhuma para que Salvador tomasse conta da Sogrape?
_Não. Nós começámos muito pequenos, sem nada de material que justificasse a nossa presença neste mundo, e fomos construindo a nossa casa, tínhamos fundos para isso, investimos sempre aquilo que pudemos. Nunca tivemos o complexo de ter dinheiro. Nem o complexo nem as vantagens. Se me perguntar quanto é que cada um deles ganha não sei, não lhe posso responder. Mas sei que estão ao nível dos outros todos, não têm diferenças nenhumas! Não têm estatuto nem horário especial pelo facto de serem meus filhos. Pelo contrário, eles são mais responsáveis, até para darem o exemplo aos outros.

Uma das lições do seu pai?
_Com certeza que sim. Não podemos ser como ele porque ele fazia tudo na altura: fazia os vinhos, comprava os vinhos, viajava… Mas fazer o que cada um sabe. Eu refugiei-me sempre na parte técnica, que é disso que gosto. Ainda hoje tenho um bichinho que me chama para essa área, falo mais com os enólogos. Não sabia de nada mas fui aprendendo e acompanhava o meu pai, que me tirou da cama às quatro da manhã muitas vezes. A vinha é a minha paixão.

Tem outras paixões. Já me falou da caça. Sei que é também colecionador de obras de arte.
_Tenho comprado algumas coisas. Ainda hoje esteve cá um senhor, concordei que ele fizesse uma avaliação. Mas para mim não é importante quanto custou, é quanto vale para mim. Entretenho- me a ir às antiguidades e ver os valores, comparar. Mas não tenho coleção nenhuma!

E bridge, ainda joga com os amigos?
_Para dizer a verdade, não. Morreram quase todos. Jogava muitas vezes aos fins de semana. A vida é isto, a vida muda muito e a gente vai-se modificando.

E ainda vai ver os jogos do seu clube, do FC Porto?
_Vejo na televisão. Já é raro ir ao estádio.

 

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PERGUNTAS DE ALGIBEIRA

 O sítio perfeito para passar o resto da reforma?
_É aqui, é em casa. Não saio daqui.

Há algum país que quisesse visitar, onde ainda não foi?
_Havia um que gostava muito de visitar. Viajei muito depois que o pai faltou. Mas nunca fui a Angola. Nem nunca fui aos Açores. Tenho pena. Não calhou.

Vê televisão? O quê?
_Vejo, vejo! Sobretudo, notícias. E futebol, sobretudo se for o meu FC Porto. Depois leio, vou lendo.

Jornais?
_Leio o jornal do dia, leio o Expresso, normalmente.

 A cena do filme que mais marcou a sua vida?
_Sei lá! Se fizesse essa pergunta à minha mulher ela dizia-lhe quantos filmes eu vi nos últimos trinta anos: zero!

E uma música para namorar?
_Já ninguém me quer para namorar [risos]. Olhe que ela vai ler isto! Não me arranje problemas!

Um desejo?
_Gostava que isto continuasse assim entre a nossa família, a darem-se bem, a conhecerem os conceitos que nós temos da vida e de respeito pelos outros.

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