Cancro da pele: prevenir é o melhor remédio

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Sabia que bastam cinco queimaduras solares na infância ou adolescência para duplicar o risco de cancro de pele?

Pele envelhecida, seca, áspera e com rugas, queimaduras, danos no ADN, cancro. Eis os resultados da exposição solar crónica ou intensa e abusiva. Pessoas com pele branca, olhos e cabelos claros, crianças, idosos e doentes têm maior risco. Conhecer os sinais de alarme e fazer prevenção é o melhor tratamento, diz a médica Cecília Moura. 

Todos conhecemos a relação entre os raios ultravioleta A e B e o cancro de pele, mas à hora de maior calor as praias estão repletas de pessoas a apanhar sol. Esta inconsciência pode ser perigosa?
Muito perigosa, mas creio que a maioria das pessoas conhece os riscos da exposição solar intensiva e abusiva. Todos os anos se fazem campanhas de prevenção e rastreio do cancro cutâneo, com ênfase nos cuidados de proteção solar; nalgumas praias há informação importante, desde mupis a relógios solares, e a comunicação social também divulga muita informação. Além disso, há na internet sites com informação específica sobre os cuidados a ter com o sol e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera também disponibiliza online o índice de radiação ultravioleta.

Como é que a radiação age na pele?
Os responsáveis pelos efeitos maléficos do sol são os raios ultravioleta que chegam à Terra. Em Portugal continental a radiação é mais elevada entre as 11h30 e as 16h30. Noutras regiões geográficas, devemos olhar para a sombra – se estiver longa é seguro estar na praia, se for curta devemos sair ou proteger-nos com vestuário. Os raios ultravioleta são essencialmente de dois tipos: os UVB, que penetram na epiderme e são responsáveis pelas queimaduras solares e danos no ADN, e os UVA, que penetram mais profundamente na pele, até à derme, e são responsáveis pelas alterações das membranas celulares, colagénio, elastina e matriz da pele, contribuindo para o fotoenvelhecimento, pele seca, áspera, rugas e carcinogénese cutânea. Em resposta à exposição solar, a pele produz melanina, que se destina a proteger o núcleo celular e o ADN e a reduzir a penetração da radiação, mas também se espessa, formando áreas rugosas, acentuando rugas, perdendo brilho e elasticidade.

Quem corre maior risco?
Pessoas de pele branca, olhos claros, cabelos ruivos ou louros e com sardas reagem com queimadura e são as mais suscetíveis aos danos da radiação solar. As crianças também são um grupo de risco e sabe-se que bastam cinco queimaduras solares na infância e/ou adolescência para duplicar o risco de cancro de pele. Os idosos, sobretudo os doentes, também podem ser mais suscetíveis porque a sua pele fica mais frágil. As pessoas que tomam certos medicamentos anti-hipertensores, antidiabéticos, anti-inflamatórios e antibióticos podem sofrer mais facilmente queimaduras solares. Outro grupo de maior risco são os doentes imunossuprimidos, como os que fazem quimioterapia, os transplantados ou os que foram submetidos a radioterapia.

Quais os sinais de alerta?
Na maior parte das vezes, os cancros de pele, como o nome indica, localizam-se na pele. Para observar a pele, não há necessidade de exames de imagem, como a mamografia para o cancro de mama ou a colonoscopia para o cancro do cólon. O tumor da pele está na pele, logo observa-se e para isso devemos ter o cuidado de a examinar com regularidade.

Quais os cancros de pele mais frequentes?
O tumor maligno mais frequente na pele é o carcinoma basocelular. Em regra, surge após a quinta década de vida e traduz-se por mancha ou pápula rosada, às vezes pigmentada, que surge na face e mais raramente no tronco ou membros, e que vai aumentando gradualmente de dimensões. Nunca se manifesta nas palmas das mãos nem nas plantas dos pés. Pode ulcerar e a ferida não cicatriza com os tratamentos habituais. Este tumor não metastiza, mas quando surge em determinadas localizações, por exemplo no canto do olho, pode ser extremamente perigoso porque corrói os tecidos à volta e pode destruir estruturas nobres dos órgãos. O segundo tumor maligno mais frequente é o carcinoma espinocelular. Manifesta-se em pessoas mais idosas, que tiveram exposição solar crónica ao longo da vida. Surge mais frequentemente nas áreas expostas (face, couro cabeludo calvo, orelhas, dorso das mãos) e manifesta-se com um nódulo espesso, que pode crescer muito rapidamente e sangrar. Também pode aparecer em zonas da pele fotoenvelhecida com lesões pré-cancerosas ou em cicatrizes. Este tipo de tumor pode metastizar e o mais comum é que o faça para os gânglios linfáticos.

E finalmente temos o melanoma…
Precisamente. O melanoma é o tumor maligno menos frequente mas é o mais agressivo e deriva das células que produzem pigmento na pele, os melanócitos. Verificamos que a incidência do melanoma tem duplicado a cada 15 anos e que atinge frequentemente pessoas em idades jovens – um terço dos doentes têm menos de 50 anos –, o que tem enorme impacte na vida familiar e económica das famílias.

Como é que se manifesta?
No homem, o melanoma costuma aparecer no dorso e, na mulher, na perna. Em regra, é um tumor de cor negra ou escura que surge em pele aparentemente sã e que se manifesta por mancha ou placa que obedece à regra do «ABCDE» – Assimetria, Bordos irregulares, Cor heterogénea com várias tonalidades de castanho/negro/rosado/branco, Dimensões superiores a cinco milímetros e com Evolução das caraterísticas morfológicas (alteração do tamanho, da cor ou da forma). O melanoma pode ter sintomas, como prurido, ardor, sensibilidade alterada, hemorragia ou ser assintomático. Em pessoas com muitas lesões pigmentadas, pode surgir como uma lesão diferente das restantes no mesmo território, é «o sinal do patinho feio». É um tumor agressivo e tem a capacidade de metastizar à distância, tanto para os gânglios linfáticos como para os órgãos viscerais, como o pulmão, o fígado ou mesmo o cérebro.

Os protetores solares protegem-nos da radiação ou só impedem a manifestação de sinais de alarme da pele?
Os protetores solares são um complemento da proteção solar e esta deve ser feita com vestuário adequado (T-shirt e calças de malha densa não transparente, chapéu de abas largas e óculos de sol). Nos locais da pele a descoberto, deve ser aplicado protetor de índice igual ou superior a trinta. A maioria dos protetores bloqueia os UVB e parte dos UVA, mas não existe nenhum que cubra cem por cento da radiação ultravioleta. Dado que a maioria bloqueia os UVB, os responsáveis pela queimadura solar, as pessoas podem pensar que estão totalmente protegidas, ficando mais tempo ao sol. Mas não, este comportamento deve ser evitado.

As pessoas que trabalham expostas ao sol devem ter cuidados diários?
Os profissionais que trabalham ao ar livre – marítimos, rurais, agentes das forças de segurança na rua, pedreiros, calceteiros, empregados da construção civil no exterior de edifícios – necessitam de fazer proteção solar todos os dias (evitar trabalhar em tronco nu, utilizar chapéus de abas largas e aplicar regularmente protetor nas áreas descobertas). Camionistas de longo curso, motoristas, pilotos de avião e todos os que são expostos através do vidro à radiação UVA (o vidro filtra os UVB) também devem aplicar protetor solar nas áreas expostas.

Em Portugal aparecem cerca de oitocentos novos casos de melanoma por ano. É muito ou pouco?
A incidência de melanoma tem vindo a aumentar gradualmente, principalmente devido à exposição solar intensa, e é idêntica à dos outros países do Sul da Europa (entre seis e oito novos casos por cem mil habitantes). Para o desenvolvimento do melanoma, além do tipo de pele e do tipo de exposição, conta muito a localização geográfica. Um paradigma da interação entre as caraterísticas pessoais e o ambiente é a Austrália, o continente com maior incidência de melanoma do mundo: 37 novos casos/cem mil habitantes. Trata-se de população branca que foi deslocada para uma localização geográfica com grande intensidade de radiação ultravioleta e com um comportamento que preza muito a vida ao ar livre.

Quando suspeita de um melanoma, o que é que a pessoa deve fazer?
Deve procurar o seu médico. A maioria dos sinais que surgem na pele são benignos, mas perante a suspeita clínica de melanoma, o doente será referenciado para o dermatologista. Após observação, se a suspeita se mantiver, o doente faz uma dermatoscopia, um exame simples, que permite visualizar a estrutura da lesão pigmentada e procurar indícios de melanoma. O passo seguinte é remover a lesão cirurgicamente e enviá-la para exame anatomopatológico. Só após a confirmação do diagnóstico pelo patologista clínico é que se propõe tratamento ao doente.

É fundamental diagnosticar o melanoma precocemente?
É vital. Quando existem metástases à distância, a doença torna-se mais difícil de tratar.

Importa dizer que  o sol também tem benefícios. Quais são?
A exposição solar regrada é benéfica. O sol ajuda a combater a depressão, pode até ter efeitos terapêuticos em doenças como o eczema atópico ou a psoríase e induz a formação de vitamina D, que é essencial para o crescimento saudável. A atividade física ao ar livre ajuda a prevenir e a combater o excesso de peso e a obesidade. Mas como quase tudo na vida, a dose é que conta.
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QUEM É CECÍLIA MOURA?
Cecília Moura é médica dermatologista no Instituto Português de Oncologia de Lisboa.