Anatomia de uma dieta

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Como escolher entre as dezenas de livros de dietas que prometem os mais milagrosos e rápidos resultados?

Todos os dias, novas dietas prometem mudar a for­ma como nos sentimos por dentro e parecemos por fora. Mas como escolher entre as dezenas de livros que chegam às estantes das livrarias? E, mais do que isso, como distinguir os potenciais benefícios dos riscos de cada uma destas dietas? Es­colhemos cinco livros que pro­põem dietas diferentes e pedi­mos a Mariana Ramos Chaves, nutricionista clínica, que nos ajudasse a perceber a vantagens e desvantagens de cada uma.

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A DIETA DO PALEOLÍTICO, LOREN CORDAIN, Houghton Mifflin Harcourt Publishing Company, 2010, desde 12,65 euros

 O que é?
Ainda está por chegar a versão traduzida em português mas é fácil encontrar a original – ou traduzida para castelhano. O que Loren Cordain propõe é um regres­so às origens, ao tempo do Paleolítico, numa dieta que tenta replicar a forma como o homem se alimentava no tempo em que ainda vivia nas cavernas, à base, sobretudo, de carne, peixe e marisco, mas também de fruta e vegetais. De fora, fi­cam produtos lácteos, grãos, açúcares refinados e comidas processadas. Os resultados prometidos passam pela perda de peso, mas também benefícios no cam­po da tensão arterial, colesterol e diabetes – o tipo de saúde que permitia caçar um mamute.

Vantagens:

_ Grande consumo de fruta e vegetais, com uma ingestão muito elevada de antioxidantes como vitaminas C, A e vitamina B12 (mais de sete vezes a necessidade diária)

_ Grande consumo de fibra que ajuda a sentir-se saciado, controlar o apetite e reduzir o colesterol LDL

_ Rica em potássio e pobre em sódio, ao contrário das dietas que incluem alimentos processados, tendo um efeito terapêutico em várias doenças

Desvantagens:

_ Estudos indicam que grande consumo de proteína, como acontece nesta dieta, pode aumentar o risco de cancro

_ Não pode ser feita por toda a gente devido aos elevados níveis de proteína, gordura e fibra e baixo nível de cálcio

_ Pobre em vitamina D, o que pode estar associado a síndromes depressivas e, por isso, torna necessário a suplementação

 

12 PASSOS PARA O CRUDIVORISMO, VICTORIA BOUTENKO, Alaúde, 2010 desde 23,32 euros

O que é?
Um corte radical com os alimentos co­zidos salvou a vida a Victoria Boutenko. É ela quem o diz, afirmando que o crudivorismo foi «como escolher entre a vida e a morte». Neste livro, a autora apresenta 12 passos que pretendem ajudar outros a fazer a transição de uma dieta baseada em alimentos cozidos – que encara como «ví­cio» – para uma composta por alimentos crus. Para justificar as vantagens do cru­divorismo, a autora centra-se sobretudo na importância das enzimas, destruídas pelo processo de cozedura, e que identi­fica como contendo a «potência vital» dos alimentos. Segundo Victoria Boutenko, o crudivorismo ajudou-a a perder 60 qui­los, para além de a tornar mais resistente a doenças e aumentar os seus níveis de ener­gia e bem-estar.

Vantagens:

_ Implica zero de comida processada e cem por cento de comida natural

_ Grande aporte de fibra e água, promovendo a saciedade facilmente

_ Leva a uma dieta com poucas calorias, logo promotora da perda de peso

Desvantagens:

_ Ao contrário do que é anunciado, cozinhar facilita a digestão e é saudável, desde que a temperaturas controladas e por pouco tempo (especialmente na cozedura)

_ Cozinhar os alimentos ajuda à absorção de nutrientes como a proteína e alguns antioxidantes

_ Cozinhar os alimentos destrói alguns antinutrientes que são substâncias que se «agarram» especialmente a minerais e que não nos permitem absorvê-los, sobretudo em vegetais

 

A DIETA DOS 2 DIAS, MICHAEL MOSLEY, Lua de Papel, 2013, desde 13,41 euros

O que é?
Como o nome indica, esta dieta – na mo­da – aplica-se apenas duas vezes por sema­na. Tentadora, sim, mas não tão simples de cumprir como possa parecer à primeira vis­ta: nos dois dias de restrição calórica, devem respeitar-se períodos de jejum de 12 horas, fazendo apenas duas refeições por dia, de­vendo a ingestão máxima diária de calorias ser reduzida a 500 para as mulheres e 600 para os homens – cerca de um quarto das calorias diárias recomendadas. Segundo o autor, para além do peso perdido, estes pe­ríodos de jejum ajudam o organismo a lim­par-se de toxinas, baixam os níveis de açúcar no sangue, diminuem o colesterol e me­lhoram o humor.

Vantagens:

_ Encaixa na perfeição na era do facilitismo, das soluções sem esforço

_ Baseia-se em regras simples de cumprir como: não coma!

Desvantagens:

_ Promove uma diminuição da imunidade após várias semanas de grande restrição calórica porque não cumpre as necessidades diárias de nutrientes

_ Vai modificar o metabolismo, tornando-o mais lento, uma vez que o corpo ao passar fome terá tendência a gastar menos energia e também armazenar mais sob a forma de gordura

_ Induz os consumidores em erro quando indica que tem benefícios na prevenção de doenças como diabetes e cancro quando na realidade ainda não há evidência científica credível que apoie esta afirmação.

 

 SEM TRIGO, SEM BARRIGA, WILLIAM DAVIS, Lua de Papel, 2013, desde 13,41 euros

 O que é?
É uma das dietas mais populares do mo­mento. Nos EUA, tornou-se o livro de lifestyle mais vendido e número 1 na lista de bestsellers do The New York Times. A tese de William Davis é simples: o trigo – o cereal mais comum – não é o mesmo que os nos­sos avós comiam. Hoje, o que comemos é uma versão geneticamente modifica­da deste cereal, sendo a obesidade apenas a fatura visível do que pagamos por isso. O que o autor propõe, portanto, é que se retire completamente o trigo da alimenta­ção, de modo a obter múltiplos benefícios: «A eliminação deste alimento vai tornar as pessoas mais magras, mais inteligen­tes, mais rápidas e mais felizes.»

Vantagens:

_ Elimina comida processada, feita de trigo refinado que é prejudicial à saúde, e substitui-a por alimentos naturais

_ Permite o consumo de outros cereais e leguminosas como substitutos do trigo e por isso torna a alimentação mais variada/completa

_ Se for seguida de forma equilibrada e planeada, é uma alimentação mais sau­dável do que a dieta típica dos portugue­ses porque aumenta o consumo de vege­tais, fruta e frutos secos/sementes

Desvantagens:

_ Não funciona se fizer a eliminação parcial do trigo, tem de ser feita de forma radical

_ Na vida social pode ser difícil de cumprir

_ Para os amantes do pão (típicos portu­gueses), significa que deixam de poder comer o seu alimento preferido

 

A DIETA DOS SUMOS, CHRISTINE BAILEY, Arte Plural Edições, 2011, desde 10 euros

 O que é?
A probabilidade de ainda não ter ouvi­do falar na dieta dos sumos é, no míni­mo, muito reduzida. Depois de imagens de famosos de copo verde na mão, o mun­do parece estar rendido aos benefícios anunciados dos sumos desintoxicantes, combinando fruta e vegetais para limpar o organismo e perder peso. À semelhan­ça do livro onde se propõe uma dieta cru­dívora, aqui Bailey apresenta três planos de emagrecimento de diferente duração e intensidade: um fim de semana inten­sivo, uma semana de sumos ou um ano de sumos. A ideia é combiná-los com re­feições saudáveis e leves e entre os bene­fícios enunciados estão a perda de peso e, claro, uma pele mais saudável e jovem, mais energia e o fortalecimento do siste­ma imunitário.

Vantagens:

_ Aumenta a ingestão de líquidos

_ É uma boa hipótese para as refeições de pequeno-almoço e snacks, mas uma alimentação de sumos em exclusivo não é aconselhável

_ Aumenta o consumo de fruta e vegetais

Desvantagens (no caso de uma dieta exclusiva de sumos):

_ Perde volume em água, depois o peso retoma

_ Reduz o metabolismo, aumentando a hipótese de aumentar de peso no futuro com a ingestão de menos calorias

_ Tem défice de alguns nutrientes e por isso implica a necessidade de suplementação

 

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MARIANA RAMOS CHAVES é nutricio­nista clínica e trabalhou vários anos em investigação na área da nutrição oncológica. Acompanha pacientes com diferentes necessidades mas sempre com o objetivo de utilizar a alimentação para melhorar a saúde e a autoestima dos seus pacientes. «Comer bem não é difícil quando se junta o conhecimento do que faz bem à saúde ao prazer de comer bem», diz.